Oi sumida! [1] The “Old Town Road” summer

Oi, pessoal! Como todos vocês devem ter percebido, eu realmente sumi do blog porque a vida adulta me pegou de verdade – e estava tentando encontrar um espaço de tempo tranquilo para escrever calmamente aqui no “Duas Tintas” sobre música pop e o estado dela em 2019, um ano meio confuso pra mim, onde não dá pra falar de “gêneros” mais. OPS isso é papo pra outro artigo porque hoje é dia de falar sobre o verão de “Old Town Road”, o híbrido de country-rap que está dominando os charts da Billboard há DOZE semanas consecutivas, sem chance de diminuir (teve até single do Drake lançado e… nada). E com o lançamento do EP “7”, uma apresentação bacaníssima no BET Awards (e o verão americano realmente começando agora), duvido que a faixa perca tração – ainda lidera com folga os charts de streaming (que é onde interessa hoje) e ainda nem chegou ao topo das rádios… Então…

Mas o que interessa aqui é: será que a música vai superar “One Sweet Day”? E sobre os rivais, onde eles erraram na sua busca por tirar Lil Nas X e Billy Ray Cyrus do topo? E como o Grammy vai lidar com “Old Town Road”?

Apesar de um single com dois nomes poderosos do pop como Ed Sheeran e Justin Bieber ter hitado na Europa e estar hitando nos EUA, particularmente não consigo enxergar que é através deles ou desse single, “I Don’t Care”, o pop pode estar procurando um caminho próprio dentro dessa landscape diferente da segunda quinzena dos anos 2010 – pelo contrário, a música só é sucesso porque tem os nomes supracitados envolvidos – se um CHARLIE PUTH lançasse isso ficaria enterrado na irrelevância. Além disso, a música é bem fraquinha para o padrão dos dois artistas, e grita 2015 com essa vibe tropical, island, já realizada pelo próprio Bieber (e de alguma forma mais sutil pelo Sheeran) com melhores resultados. Sem contar o clipe pedindo pra viralizar mas falhando miseravelmente (a ideia era a gente usar imagens do clipe como gifs? Não colou não). A capacidade ubíqua de OTR, especialmente num vídeo que casa potencial viral, uso de tendências quentes como o Yeehaw Culture e uma discussão racial bem colocada, supera facilmente uma música com cara de reciclada. É esperar faixas melhores no quarto álbum do cidadão.

Quanto a Taylor, eu sinceramente acreditava que “ME!” seria o single a destronar OTR, até por ser bastante catchy e agradável ao ouvido, além do sentimento gostoso de nostalgia Noughties (com direito a featuring do Brandon Urie). Além disso, essa estética pastel fofinha meio instagram é bem vinda num ano super tenso e dark como 2019. Mas… “You Need to Calm Down” NÃO é a música para ser #1 contra uma faixa fortíssima como OTR. Primeiro, é anticlimática até em seu refrão, a letra (super bacana e bem-vinda também no apoio da Taylor à causa LGBT) também tenta dialogar com a cultura pop geral através de versos com potencial de virar quote, mas a impressão é de que não funciona bem, e até mesmo o clipe estrelado (com a reconciliação das rivais Taylor e Katy) que ajudou a ganhar streamings (Taylor espertíssima) não garante a ubiquidade da faixa como música em si + clipe + repercussão. Houve repercussão? Claro, mas nem se compara ao break the internet que Taylor causou quando do lançamento do primeiro single do “Reputation”, ou na era “1989” – a impressão que fica é de que as táticas que funcionavam há dois anos atrás hoje não funcionam, especialmente quando a música não é tão forte como segundo single que continua a conversação em torno do novo material. Se você perceber, o discurso em 2019 se tornou rap como principal gênero x músicas que não pertencem a gêneros específicos (papo para outro artigo but ok, vou destrinchar neste momento uma parte da conversa), e os singles lançados até agora pela Taylor são pop… Mas não conversam com a discussão geral.

E para “piorar” a situação das suas faves, Lil Nas X lançou seu EP “7“, que apesar de algumas críticas mistas, é a cereja no bolo de um case de marketing e de música que só me faz virar stan desse menino. O EP tem oito músicas (duas sendo OTR), 18 MINUTOS de duração e a música mais longa tem 2’43”. Ou seja, feito para consumo repetitivo eterno nos streamings. Quanto mais eu ouço “Rodeo”, a música com mais potencial de ser #1 desse grupo, mais eu dou streams, e com 2’39” de duração, eu posso floodar eternamente meu Spotify sem cansar porque a música é curtíssima! Além disso, Lil Nas X entendeu perfeitamente o briefing de 2019. Gêneros musicais? OUTDATED. O EP não tem uma definição específica de gênero, tem duas faixas visivelmente rap (“Panini” e “Kick It”), duas músicas híbridas country-rap (OTR e “Rodeo”) duas músicas com vibe rock/pop punk anos 2000 (“F9mily” e “Bring U Down”) e uma faixa meio R&B moderninha (“C7osure”). A produção é curadíssima e até elegante, e apesar dos versos serem corny em vários momentos, tudo tem uma vibe “adolescente fazendo música” e “adolescente de 13 anos rebelde sem causa” que sinceramente vai ser consumido até a exaustão pelos teens e tweens – são letras simples e fáceis de captar, além de versos perfeitos para legenda de instagram.

Mas o que interessa aqui é: eu não sei em que categoria enquadrar esse EP. Lil Nas X é rapper? Boa pergunta, ele canta em boa parte do EP! Tem ROCK no álbum pra você ficar batendo cabeça! Eu não sei, duvido que a Billboard saiba e o Grammy hahahahahahahahahahha

Como vocês já sabem, o Grammy coloca tudo em caixinhas (os afamados fields) e tanto OTR quanto “7” não fazem sentido em caixinhas (é o problema que Drake enfrentou com “Hotline Bling”, por exemplo). “Old Town Road” fica em rap? Country? O próprio Lil Nas X já disse que a faixa é country-trap, então eu suspeito que a Columbia coloque em “rap/sung” é a única categoria em que dá pra encaixar fazendo sentido e não perdendo a chance de indicação… Acredito que entra em Gravação e eu colocaria em Canção porque a letra é super perspicaz, sinceramente. Já o EP… sinceramente… Como uma das mudanças do Grammy é a inclusão de comitê para pop e rock fields para ter um comitê geral que resolva tretas com artistas que trabalham com mistura de categorias, acho que eles terão MUITO trabalho aqui – evidentemente, tudo depende de como a Columbia vai submeter.


No próximo post do “OI SUMIDA” eu vou falar sobre algumas das novas faces da música em 2019 e me estender mais sobre essa O FIM DOS GÊNEROS (bold statement, hein?) e se isso procede mesmo. Até logo!

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Será que existe mesmo a “maldição do quarto álbum”?

Fazer sucesso é um desafio que não começa só quando você lança o CD ou sai em tour. Às vezes, você não passa nem do primeiro single, ou é one-album wonder; mas geralmente pra chegar lá, é um percurso em que você precisa saber quem é musicalmente, ser inteligente, ouvir os mais experientes; e talvez engolir muito sapo (quer dizer, engolir as exigências da gravadora) até ter liberdade para ser “você” como artista.

Geralmente, quando o artista passa do primeiro CD, o segundo álbum é o desafio de mostrar que tem fôlego para resistir aos tubarões da indústria. Já o terceiro CD é, no geral, uma continuidade do sucesso e sedimentação do artista, que às vezes assume alguns riscos, mas nunca sem sair de sua zona de conforto. O quarto álbum, por sua vez, acontece num momento em que o artista, confortável com sua posição, decide que é hora de fazer algo “diferente”.

E é aí que ocorre a merda…

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Feedback das previsões do Grammy 2019

(observação: antes de ver este vídeo, leia o post original sobre as Previsões do Grammy 2019)

Continuando uma tradição que começou no ano passado, o canal do Duas Tintas de Música no YouTube prossegue com os vídeos dos feedbacks das respostas que vocês me deram no post das Previsões do Grammy 2019! Na pauta de hoje, um mea culpa sobre o Maroon 5, algumas observações sobre Taylor Swift e Justin Timberlake, e uma consideração sobre a categoria de Artista Revelação.

Segue o vídeo novo abaixo:

Vencedores e perdedores de 2018 [primeiro semestre]

O ano de 2018 chegou à metade e sempre é bom ver, em retrospecto, as coisas que deram certo ou não dentro do pop. Quer dizer, as raridades que deram certo na terra arrasada do pop né; porque com as plataformas de stream dominando a forma de consumo dos americanos, o pop simplesmente não tem vez dentro do zeitgeist musical ocidental, pensando em EUA (porque na Europa a coisa é diferente, sem falar dos movimentos musicais em outros continentes que vamos comentando aos poucos). Quem realmente bomba no Spotify/Apple Music são os rappers (especialmente a turma trap-inspired e o rap de Atlanta), com ênfase em “os” – o grande destaque feminino continua sendo a rapper do momento Cardi B, enquanto Nicki Minaj busca se fortalecer numa nova estrutura de cultura pop/rap.

Enquanto isso, os acts pop mais novos parecem ter esquecido a importância do YouTube e de bons vídeos para manter o interesse geral, já que não rola aderência no Spotify, as vendas digitais estão na UTI e as rádios pop estão imersas em “quem paga mais” (apenas a gravadora da Camila Cabello entendeu bem isso); os mais experientes lançaram materiais ou muito ruins ou muito bons mas sem apoio; e parece que as coisas mais inventivas do pop não vem exatamente dos EUA. Movimentos fora do esquemão americano WASP ganham espaço.

Pensando nestes encontros e desencontros é que eu trago uma lista de vencedores e perdedores no pop de 2018, cobrindo o primeiro semestre. Lá no final do ano, eu retomo essa mesma lista com os destaques do ano em geral, e perspectivas para 2018. Por isso, coloque os headphones, aperte play na “Today’s Top Hits” do Spotify e continue lendo!

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Vencedores e perdedores de 2017

Falta bem pouco para acabar o ano de 2017, e entre sucessos estrondosos, flops absurdos e momentos surpreendentes dentro da popsfera, hora de relembrar o que houve de mais importante nos charts e na repercussão dos principais artistas. Já tinha feito uma lista de destaques positivos e negativos do primeiro semestre,  mas vale a pena conferir os destaques do ano todo – afinal de contas, os mesmos tensionamentos que agitaram o primeiro semestre continuaram e se expandiram na segunda parte do ano: streams dominando a indústria, urban e rap pautando o que é sucesso ou não; a onda latina se tornando the next big thing; e se o seu nome não for Taylor Swift, acts femininas pop sofreram bastante para se manter em evidência em 2017.

Aqui pode não ser a Globo, mas essa é uma retrospectiva com os destaques positivos e negativos do ano que passou. Por isso, vá no “Today’s Top Hits”, dê play e balance os ombros enquanto lê este post! Continuar lendo

Eu gostava mais da Old Taylor

… porque pelo menos a velha Taylor escrevia músicas melhores.

Um dos grandes trunfos da carreira da Taylor Swift sempre foi sua habilidade como compositora, de escrever exatamente o que uma jovem sentia ou passava, mesmo que você não fosse uma cantora de country-pop de 17/18 anos. E mesmo em suas incursões mais pop (a exemplo de algumas faixas no “Red” e no primeiro trabalho todo pop da moça, “1989”), você sabia que encontraria ótimas músicas com letras relatáveis, joviais, com aquele senso de humor meio awkward e especialmente no último álbum, uma despretensão da artista que sabia bem quem era e sabia brincar com a maneira como os outros a viam. O maior exemplo disso é “Blank Space”, uma maneira divertida, irônica e genial de reverter a reputação que a Taylor tinha de “man-eater” a favor dela, com uma visão bem curiosa de si mesma.

Mas 2016 chegou e passou como se fosse um furacão tirando tudo aquilo que a tornava imune e criadora da própria narrativa – através de situações como o namoro altamente publicizado com Tom Hiddleston, a treta com Calvin Harris, o interminável beef com Kanye West. E Taylor sumiu. Até mesmo o atual relacionamento é low-profile, com o desconhecido ator britânico Joe Alwyn.

Black-and-white image of Taylor Swift with the album's name written across itPara aparecer rebranded como alguém mais esperto, mais irônico, assumindo a própria má-reputação e tentando retomar o controle da narrativa que os outros tinham dela. A estratégia para esse renascimento da Taylor, em que ela desejava retomar a narrativa em suas mãos, foi evitar divulgação tradicional, conversas com a mídia – e até mesmo a forma de lançamento do CD, que manteve a característica da velha Taylor, avessa às modernidades do stream, fazia mais sentido ainda dentro do rebranding da Taylor.

Só que isso teria de se refletir no produto principal… o CD. E é aí que “reputation”, o álbum em que Taylor Swift teria de assumir sua nova persona badass, “sou a vilã da história e gosto disso”, parece um trabalho incompleto. E pior: trend chaser, quando a Taylor fez um pop puro e sem influências no “1989”.

Todo o álbum, que conta com a produção dos suspeitos de sempre (Max Martin, Shellback, Jack Antonoff), tem uma produção com pegada eletro pesada e um certo flavor urban que nos leva à conclusão de que a Taylor já vinha testando essa sonoridade pra ver se “acreditavam” nela seguindo a vibe lá atrás, em “I Don’t Wanna Live Forever”, mas é tudo pouco confortável ou gostoso de ouvir. As produções são pesadas, não servem para dançar na balada nem pra dançar agarradinho nem servem como fuck music (não, “Dress” não serve pra isso, é mais broxante que qualquer outra coisa), ou como música ambiente, ou como diversão pra ouvir na ida ou volta ao trabalho no buzú. É tudo muito anticlimático.

As letras, que são sempre o trunfo da Taylor, estão em momentos bem irregulares. Tem as deep cuts com produção mais elegante, discreta e esmerada – a exemplo de “Delicate” (mesmo que lembre vagamente a onipresente “Sorry” de todas as músicas possíveis, e tropical house Taylor? você está uns dois anos atrasada!), “Getaway Car”, que deve ser a melhor música do CD – uma gracinha, e não é uma produção tão irritantemente pesada (a metáfora de fim de romance através de uma relação sem futuro entre um casal é bem trabalhada e bem escrita e amarrada; enfim, essa é a Taylor que a gente gosta); além de “New Year’s Day”, a última faixa do CD, com uma vibe acústica e narrativa mais reflexiva sobre crescimento, maturidade, após a agonia e êxtase da juventude.

De resto, tem muita coisa ruim e forçando todo o conceito da era, o de assumir a reputação que outros imprimiram à Taylor, e apenas se revelar quem é às pessoas que realmente gostam e se importam com ela. Nesse meio do caminho, tem coisas pavorosas como “I Did Something Bad”, “Don’t Blame Me”, e a diss pro Kanye “This Is Why We Can’t Have Nice Things” que eu não entendo como não poderia ser mais divertida e despretensiosa. E eu nem falei das tentativas falhas da Taylor investindo no rap (em “…Ready For It” e “End Game”, uma colaboração errônea entre ela, Future e Ed Sheeran que não faz nenhuma das partes brilharem); as produções do Antonoff que deixam a Taylor parecendo uma sub-Lorde; além das faixas mais românticas, dedicadas ao atual namorado, fillers em comparação ao que ela escreveu pro Harry Styles no “1989”, por exemplo.

Mas talvez a minha crítica em relação ao “reputation” se dá porque eu tive uma impressão errada do álbum quando ouvi o primeiro single (que realmente não aprecio, mas se torna uma highlight do álbum, graças à irregularidade do material completo) e toda a organização da era. Pensei que o CD teria poucas faixas românticas (e não 90% do álbum) e sim uma obra mais reflexiva sobre o preço da fama e da exposição, o posicionamento dela como cantora e compositora numa indústria machista que se importa mais com seus relacionamentos do que com sua musicalidade, um upgrade na percepção pública sobre a Taylor (como ela tinha feito em “Blank Space”, só que de forma mais madura) e faixas super fun e despretensiosas sobre os beefs. No entanto, toda a parte do “assumir o lado malvado” fica em versos e referências em músicas esparsas, apenas para reforçar o tom do CD, mas nada que me faça querer dar play ou analisar quando o álbum chegar ao Spotify.

Que pena. Eu esperava mais da nova Taylor.

 

P.S.: Max Martin precisa urgentemente de um ano sabático. E Jack Antonoff não é nem metade do que ele pensa que é.

 

Previsões para o Grammy 2018 [2] O ônibus lotou

Como diria um grande pensador contemporâneo, “it’s tradition now”. Após aquela primeira leva de previsões para o Grammy 2018, avaliando o espectro musical entre o final do ano anterior e o primeiro semestre de 2017, hora de ver de que forma as submissões das gravadoras podem ajudar nas novas configurações da nossa futurologia, seja para o bem ou para o mal.

O “problema feliz” de 2018 é que de junho a setembro muitos singles e artistas tiveram destaque, correndo o risco de 1. muita gente boa ficar de fora do corte final; 2. determinadas categorias não terem acts favoritos. Nosso foco – as usual – é no Pop Field e no General Field.

Segue o pulo!

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