Feedback das previsões do Grammy 2019

(observação: antes de ver este vídeo, leia o post original sobre as Previsões do Grammy 2019)

Continuando uma tradição que começou no ano passado, o canal do Duas Tintas de Música no YouTube prossegue com os vídeos dos feedbacks das respostas que vocês me deram no post das Previsões do Grammy 2019! Na pauta de hoje, um mea culpa sobre o Maroon 5, algumas observações sobre Taylor Swift e Justin Timberlake, e uma consideração sobre a categoria de Artista Revelação.

Segue o vídeo novo abaixo:

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Vencedores e perdedores de 2018 [primeiro semestre]

O ano de 2018 chegou à metade e sempre é bom ver, em retrospecto, as coisas que deram certo ou não dentro do pop. Quer dizer, as raridades que deram certo na terra arrasada do pop né; porque com as plataformas de stream dominando a forma de consumo dos americanos, o pop simplesmente não tem vez dentro do zeitgeist musical ocidental, pensando em EUA (porque na Europa a coisa é diferente, sem falar dos movimentos musicais em outros continentes que vamos comentando aos poucos). Quem realmente bomba no Spotify/Apple Music são os rappers (especialmente a turma trap-inspired e o rap de Atlanta), com ênfase em “os” – o grande destaque feminino continua sendo a rapper do momento Cardi B, enquanto Nicki Minaj busca se fortalecer numa nova estrutura de cultura pop/rap.

Enquanto isso, os acts pop mais novos parecem ter esquecido a importância do YouTube e de bons vídeos para manter o interesse geral, já que não rola aderência no Spotify, as vendas digitais estão na UTI e as rádios pop estão imersas em “quem paga mais” (apenas a gravadora da Camila Cabello entendeu bem isso); os mais experientes lançaram materiais ou muito ruins ou muito bons mas sem apoio; e parece que as coisas mais inventivas do pop não vem exatamente dos EUA. Movimentos fora do esquemão americano WASP ganham espaço.

Pensando nestes encontros e desencontros é que eu trago uma lista de vencedores e perdedores no pop de 2018, cobrindo o primeiro semestre. Lá no final do ano, eu retomo essa mesma lista com os destaques do ano em geral, e perspectivas para 2018. Por isso, coloque os headphones, aperte play na “Today’s Top Hits” do Spotify e continue lendo!

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Vencedores e perdedores de 2017

Falta bem pouco para acabar o ano de 2017, e entre sucessos estrondosos, flops absurdos e momentos surpreendentes dentro da popsfera, hora de relembrar o que houve de mais importante nos charts e na repercussão dos principais artistas. Já tinha feito uma lista de destaques positivos e negativos do primeiro semestre,  mas vale a pena conferir os destaques do ano todo – afinal de contas, os mesmos tensionamentos que agitaram o primeiro semestre continuaram e se expandiram na segunda parte do ano: streams dominando a indústria, urban e rap pautando o que é sucesso ou não; a onda latina se tornando the next big thing; e se o seu nome não for Taylor Swift, acts femininas pop sofreram bastante para se manter em evidência em 2017.

Aqui pode não ser a Globo, mas essa é uma retrospectiva com os destaques positivos e negativos do ano que passou. Por isso, vá no “Today’s Top Hits”, dê play e balance os ombros enquanto lê este post! Continuar lendo

Eu gostava mais da Old Taylor

… porque pelo menos a velha Taylor escrevia músicas melhores.

Um dos grandes trunfos da carreira da Taylor Swift sempre foi sua habilidade como compositora, de escrever exatamente o que uma jovem sentia ou passava, mesmo que você não fosse uma cantora de country-pop de 17/18 anos. E mesmo em suas incursões mais pop (a exemplo de algumas faixas no “Red” e no primeiro trabalho todo pop da moça, “1989”), você sabia que encontraria ótimas músicas com letras relatáveis, joviais, com aquele senso de humor meio awkward e especialmente no último álbum, uma despretensão da artista que sabia bem quem era e sabia brincar com a maneira como os outros a viam. O maior exemplo disso é “Blank Space”, uma maneira divertida, irônica e genial de reverter a reputação que a Taylor tinha de “man-eater” a favor dela, com uma visão bem curiosa de si mesma.

Mas 2016 chegou e passou como se fosse um furacão tirando tudo aquilo que a tornava imune e criadora da própria narrativa – através de situações como o namoro altamente publicizado com Tom Hiddleston, a treta com Calvin Harris, o interminável beef com Kanye West. E Taylor sumiu. Até mesmo o atual relacionamento é low-profile, com o desconhecido ator britânico Joe Alwyn.

Black-and-white image of Taylor Swift with the album's name written across itPara aparecer rebranded como alguém mais esperto, mais irônico, assumindo a própria má-reputação e tentando retomar o controle da narrativa que os outros tinham dela. A estratégia para esse renascimento da Taylor, em que ela desejava retomar a narrativa em suas mãos, foi evitar divulgação tradicional, conversas com a mídia – e até mesmo a forma de lançamento do CD, que manteve a característica da velha Taylor, avessa às modernidades do stream, fazia mais sentido ainda dentro do rebranding da Taylor.

Só que isso teria de se refletir no produto principal… o CD. E é aí que “reputation”, o álbum em que Taylor Swift teria de assumir sua nova persona badass, “sou a vilã da história e gosto disso”, parece um trabalho incompleto. E pior: trend chaser, quando a Taylor fez um pop puro e sem influências no “1989”.

Todo o álbum, que conta com a produção dos suspeitos de sempre (Max Martin, Shellback, Jack Antonoff), tem uma produção com pegada eletro pesada e um certo flavor urban que nos leva à conclusão de que a Taylor já vinha testando essa sonoridade pra ver se “acreditavam” nela seguindo a vibe lá atrás, em “I Don’t Wanna Live Forever”, mas é tudo pouco confortável ou gostoso de ouvir. As produções são pesadas, não servem para dançar na balada nem pra dançar agarradinho nem servem como fuck music (não, “Dress” não serve pra isso, é mais broxante que qualquer outra coisa), ou como música ambiente, ou como diversão pra ouvir na ida ou volta ao trabalho no buzú. É tudo muito anticlimático.

As letras, que são sempre o trunfo da Taylor, estão em momentos bem irregulares. Tem as deep cuts com produção mais elegante, discreta e esmerada – a exemplo de “Delicate” (mesmo que lembre vagamente a onipresente “Sorry” de todas as músicas possíveis, e tropical house Taylor? você está uns dois anos atrasada!), “Getaway Car”, que deve ser a melhor música do CD – uma gracinha, e não é uma produção tão irritantemente pesada (a metáfora de fim de romance através de uma relação sem futuro entre um casal é bem trabalhada e bem escrita e amarrada; enfim, essa é a Taylor que a gente gosta); além de “New Year’s Day”, a última faixa do CD, com uma vibe acústica e narrativa mais reflexiva sobre crescimento, maturidade, após a agonia e êxtase da juventude.

De resto, tem muita coisa ruim e forçando todo o conceito da era, o de assumir a reputação que outros imprimiram à Taylor, e apenas se revelar quem é às pessoas que realmente gostam e se importam com ela. Nesse meio do caminho, tem coisas pavorosas como “I Did Something Bad”, “Don’t Blame Me”, e a diss pro Kanye “This Is Why We Can’t Have Nice Things” que eu não entendo como não poderia ser mais divertida e despretensiosa. E eu nem falei das tentativas falhas da Taylor investindo no rap (em “…Ready For It” e “End Game”, uma colaboração errônea entre ela, Future e Ed Sheeran que não faz nenhuma das partes brilharem); as produções do Antonoff que deixam a Taylor parecendo uma sub-Lorde; além das faixas mais românticas, dedicadas ao atual namorado, fillers em comparação ao que ela escreveu pro Harry Styles no “1989”, por exemplo.

Mas talvez a minha crítica em relação ao “reputation” se dá porque eu tive uma impressão errada do álbum quando ouvi o primeiro single (que realmente não aprecio, mas se torna uma highlight do álbum, graças à irregularidade do material completo) e toda a organização da era. Pensei que o CD teria poucas faixas românticas (e não 90% do álbum) e sim uma obra mais reflexiva sobre o preço da fama e da exposição, o posicionamento dela como cantora e compositora numa indústria machista que se importa mais com seus relacionamentos do que com sua musicalidade, um upgrade na percepção pública sobre a Taylor (como ela tinha feito em “Blank Space”, só que de forma mais madura) e faixas super fun e despretensiosas sobre os beefs. No entanto, toda a parte do “assumir o lado malvado” fica em versos e referências em músicas esparsas, apenas para reforçar o tom do CD, mas nada que me faça querer dar play ou analisar quando o álbum chegar ao Spotify.

Que pena. Eu esperava mais da nova Taylor.

 

P.S.: Max Martin precisa urgentemente de um ano sabático. E Jack Antonoff não é nem metade do que ele pensa que é.

 

Previsões para o Grammy 2018 [2] O ônibus lotou

Como diria um grande pensador contemporâneo, “it’s tradition now”. Após aquela primeira leva de previsões para o Grammy 2018, avaliando o espectro musical entre o final do ano anterior e o primeiro semestre de 2017, hora de ver de que forma as submissões das gravadoras podem ajudar nas novas configurações da nossa futurologia, seja para o bem ou para o mal.

O “problema feliz” de 2018 é que de junho a setembro muitos singles e artistas tiveram destaque, correndo o risco de 1. muita gente boa ficar de fora do corte final; 2. determinadas categorias não terem acts favoritos. Nosso foco – as usual – é no Pop Field e no General Field.

Segue o pulo!

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Um organograma de referências – Taylor Swift, “Look What You Made Me Do”

Durante o Video Music Awards 2017, Taylor Swift apresentou para todo o mundo o vídeo de seu já bem sucedido lead single, “Look What You Made Me Do”, cuja letra está meio definida que é para o casal Kimye, mas o vídeo metralha praticamente todo mundo com shades e referências, óbvias ou não. Tantas que você precisa até de um organograma de referências.

Na primeira vez que vi o vídeo, consegui enxergar algumas; depois, ainda deu pra captar outras que não tinha reparado de primeira; mas de uma coisa é certa, o vídeo de “Look What You Made Me Do” ganha altíssimo nível de replay value só pra gente confrerir todas essas referências. Smart move, Taylor.

  1. O “TS” que parece um 13, número da sorte da Taylor

2. O pseudônimo (Nils Sjoberg) que Taylor usou para assinar a composição de “This is What You Came For”, do Calvin Harris com a Rihanna

3. O Grammy, evidentemente, é sobre a Katy, e até a aparência dela no take parece com a versão loira da “arquiinimiga”

4. Spotify, com a referência “Stream.co” e a Taylor saindo do cofre com dinheiro, quando foi taxada por público e parte da mídia de mercenária

5. O infame squad – outra famosa acusação de que as amigas da Taylor tinham todas o mesmo padrão: mulheres brancas com pinta de modelo

6. A infame camisa “I ❤ TS”

7. As “old taylors” tentando ser salvas pela “nova” (com referências a apresentações antigas e looks de vídeos e awards)

8. E evidentemente, o diálogo final entre elas, em que as associações consagradas em torno da Taylor (fake, forçada, “bancando a vítima” e a famosa linha “excluded from this narrative” mostram bem o quanto ela é informada sobre o que dizem da cantora nas mídias sociais)

(quem tiver outras referências fiquem à vontade para apresentar nos comentários!)

No geral, o vídeo é caro, bem trabalhado, muito bem produzido, e inteligentemente dirigido pelo atual parceiro de Taylor nas videografias, Joseph Kahn, não é muito curto nem muito longo: possui o tempo certo pra você captar as referências principais e ainda tem um replay value fortíssimo – ou seja, as referências colaboram para que você assista outras vezes ao clipe só pra captar referências mais discretas. Fãs e quem acompanha música pop vão se esbaldar. Em critérios técnicos, já é forte candidato a tudo possível no VMA 2018.

A parte mais ou menos é que, ao contrário da ironia fina e divertida de “Blank Space”, onde a Taylor brinca com os estereótipos de “serial dater” com um humor até agradável, aqui em “Look What You Made Me Do” não chega a ser tão fun e fresh. Não é um vídeo que depois de um tempo, você queira revisitar – por ter tantas referências até temporais, corre o risco de ficar datado após um tempo. Mas a depender de seu engajamento com o trabalho da Taylor, isso não interfere.

Já os aspectos negativos são mais semânticos do que outra coisa. Apesar do esforço em parecer “vilã”, “malvadona” e “badass”, a Taylor não vende essa imagem de “cobra” com tanta facilidade quando toda a narrativa de sua história (história no sentido da música que acompanha o vídeo) é ela ter “mudado” por ações de “outras pessoas”, ou seja, ela ainda é vítima, não full time vilã. São duas mensagens díspares, e o pior é que não dá pra acreditar muito nessa imagem “malvadona” da New Taylor. Parece uma adolescente revoltada porque a mãe tirou o cartão de crédito.

Pra completar, aquela coreô final. Não gente, Taylor não segura na dança. Não adianta, os dançarinos atrás ENSINARAM com presença, carão e rebolado. Eu fiquei com vergonha.

E vocês? Tiveram tempo de conferir todas as referências do vídeo novo da Taylor? Encontraram outras? 😉

 

Taylor Swift arranjou uma ghost writer de 13 anos

Eu demorei de escrever uma resenha sobre o lead single da Taylor Swift, “Look What You Made Me Do” (do novo álbum da estrela pop, “Reputation”, que chega dia 10 de novembro), porque estava morrendo de preguiça. A velha preguiça que me acomete sempre; e preguiça da música mesmo. Eu não acredito que uma das letristas mais competentes da música pop dos últimos 10 anos teria regredido para uma adolescente revoltada de 13 anos em 2004.

Nem me importo com o beef dela com o Kanye West – que continua a ser alimentada há quase uma década, assim como o cansado feud Katy x Taylor – porque ela poderia ter escrito algo do gênero com mais habilidade e inteligência. “I don’t like your little games / Don’t like your tilted stage / The role you made me play / Of the fool, no, I don’t like you” (e repete I don’t like you na mesma estrofe), ou “I don’t trust nobody and nobody trusts me” parecem vindos de um diário revoltado juvenil (o que é aquela frase da bridge “I’m sorry, the old Taylor can’t come to the phone right now /Why? Oh, ‘cause she’s dead!”? Minhas discussões com os meus pais aos 12 anos eram mais evoluídas que isso aí). Uma letra preguiçosa, sem graça, um eletropop com uma ambientação “obscura” anos 2000 com o sample de “I’m Too Sexy” no refrão igualmente sem graça de uma música onde muita coisa acontece, mas pouca coisa realmente marca você.

“Look What You Made Me Do” padece de um problema que eu tinha indicado na resenha de “Green Light”, da Lorde (que curiosamente, compartilha o mesmo compositor e produtor, Jack Antonoff): as quebras da música – ela começa com um arranjo 1, segue para o pré-refrão em coro (a melhor coisa da música, que curiosamente lembra algo da Lorde) 2, o refrão falado 3 (que tem uma bateria meio seca acompanhando); volta para o arranjo 1, e pula para um arranjo 4 sem sentido algum. É muita informação acontecendo ao mesmo tempo e algumas vezes me senti ouvindo uma colagem de músicas escrita pelo Victor Frankenstein.

(Taylor, quando eu tinha 12 anos escrevia uma lista de pessoas que eu gostava e não gostava no meu diário. Era um ranking semanal. Eu tinha 12 anos, com 27 eu não ligo a mínima. Conselho de amiga.)

No entanto, mesmo que eu diga que a música não é boa, é esquisita, é ame-ou-odeie, a construção é confusa e a letra pedestre, “Look What You Made Me Do” já é um monstro no digital, streams e rádios, pode tirar “Despacito” da décima-sétima semana em #1 e certeza que arranja indicação este ano mesmo a Pop Solo no Grammy (por estar dentro do período de elegibilidade). O hype da Taylor é forte, todo o marketing em torno da música e da volta da cantora é evidente, e os deals com as plataformas de execução da música darão esse empurrãozinho para a música iniciar uma trajetória de sucesso. Mas nada disso tira a decepção de saber que Taylor Swift, uma das singers-songwriters mais interessantes do pop, contratou uma menina de 13 anos para escrever seu novo hit.

O que vocês acharam da música?