A verdadeira revolução vem com a Apple Music?

Apple MusicNa última segunda-feira, dia oito de junho, a Apple realizou sua tradicional conferência e entre vários anúncios, a empresa tratou do lançamento da Apple Music, que acontece no dia 30 de Junho. O serviço de streaming da Apple chega no mercado para concorrer com outros serviços como o Spotify, Deezer, Rdio e o Pandora (eu não incluí o TIDAL nisso por motivos óbvios né). Além de todo o capital simbólico e financeiro que a Apple carrega, toda a ansiedade em torno da Apple Music está relacionado ao fato da empresa, sempre que entra em algum mercado importante, chegar agressivamente, com o claro objetivo de monopolizar esse mercado. E eles vão tentar de todas as formas pegar o público dos concorrentes. Continuar lendo

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TIDAL – a onda que ninguém quer pegar e o consumo livre de música

Eu gosto de música, desde criança, quando não tinha muito critério sobre o que ouvia e sempre estava escutando tudo. Fui crescendo e mudando o meu gosto – comecei a ouvir músicas antigas, dos anos 70, 80. Tive sorte, porque minha adolescência ocorreu durante a explosão da internet, numa época em que cada vez menos as pessoas compravam álbuns e meus hábitos de consumo de música eram baixar alguma faixa por algum site de downloads, já que um CD antigo do Marvin Gaye ou o material do Chicago não eram coisas que eu conseguiria achar facilmente aqui em Salvador.

Com 15 anos, passei a ouvir de novo músicas mais recentes, e logo descobri realmente do que eu gostava, o que me tocava de verdade e atiçava minha curiosidade: era a música pop internacional, assim como outros gêneros como R&B, soul e hip hop. Mais adulta passei a ouvir um pouco de rock, mas a minha formação foi basicamente pop. Só que, morando numa cidade longe das metrópoles centrais do Brasil e tendo perdido o costume da infância de ouvir álbuns físicos, baixei de forma contínua músicas, álbuns, discografias inteiras pela internet. Colocava um CD que gostava no celular, ou no mp3, e circulava pela cidade ouvindo as músicas que eu queria.

Quando recebi finalmente meu convite para usar o Spotify, no ano passado, foi como se um mundo novo se escancarasse diante dos meus olhos. A minha extensa biblioteca do notebook era pálida em relação ao catálogo de milhões de músicas e artistas, que eu poderia arrumar e catalogar eu mesma em minhas playlists ao meu bel-prazer. E assim, deixei de baixar músicas pela internet, porque as novidades estavam à mão, os álbuns logo sairiam em excelente qualidade pelo Spotify e o aplicativo já estava instalado no meu celular. Eu pago seis dólares pelo serviço, e normalmente aparecem uns 15 reais na minha conta todo mês.

Para alguém que não pagava pela música que consumia, isso é uma evolução.

O Spotify – e os serviços de streaming, de forma geral – revolucionaram a forma de consumo de música de uma forma irremediável. Ter à sua mão, por um preço quase simbólico, um catálogo de músicas que demoraríamos três vidas (and counting) para possuir, em excelente qualidade e podendo escolher o que ouvir, como ouvir, onde ouvir? É brilhante. E alguns desses serviços são grátis, o que significa que você pode ouvir gratuitamente (mesmo com anúncios e algumas limitações de serviço) o que você quiser, servindo-se do mesmo catálogo musical dos planos pagos.

O retorno desse consumo massivo de música já é visto – eu sempre comento aqui que os streamings já contam pontos para decidir se uma música sobe ou desce nas paradas (tanto os streamings de Spotify, Pandora, Rdio e similares quanto as views de vídeos e virais no Youtube) – tanto para os consumidores quanto para os artistas e as gravadoras. Com a decadência das vendas digitais, o streaming é o futuro. E artistas recebem os retornos financeiros de cada play dado por sua música.

TidalNo entanto, alguns grandes artistas reclamaram do preço dado como retorno por essas audições – e contra-atacaram. Primeiro foi Taylor Swift, que retirou todo o catálogo do Spotify por não concordar com o serviço free oferecido pela empresa e queria que apenas usuários premium tivessem acesso ao novo álbum. Depois, o relançamento na última segunda-feira do TIDAL, novo serviço de streaming capitaneado por Jay-Z, com uma proposta de oferecer música e vídeos em alta qualidade, além de uma aproximação maior dos artistas com o público (já que o serviço é comandado pelos artistas como Beyoncé, Rihanna, Jack White, Madonna e Daft Punk) com dois tipos de plano: um premium, por dez dólares; e um HiFi, por 20 dólares, em que o diferencial é a qualidade loseless, som de altíssima qualidade, a mesma de um CD (1411 kbps).

Não há versão free.

E será sobre o TIDAL que vou falar agora.

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O fator Taylor Swift

Com “1989”, seu primeiro álbum essencialmente pop, Taylor Swift está perto de bater o recorde de Britney Spears de maior debut, com mais de um milhão e 300 mil CDs vendidos apenas na estreia. A country (agora pop) star já tinha lançado álbuns com debuts monstruosos (“Red”, mais de um milhão e 200 mil; e “Speak Now”, na esteira do Grammy da moça pelo “Fearless” e o escândalo com Kanye West – imma let you finish, alguém? – quase um milhão e 50 mil cópias), e todos esperavam números massivos, já que Taylor é saudada como uma das salvadoras da indústria.

E agora, com a decisão da gravadora Big Machine em tirar do Spotify todos os álbuns da moça – em busca do recorde, por conta de contratos para lançamento do “1989” no serviçou ou mesmo para provar um ponto contra os streamings – Taylor já é vista como uma “desbravadora”, assim como Beyoncé e seu álbum visual do ano passado, ao desafiar esse modo de ouvir música quase naturalizado entre os ouvintes atuais.

Mas até que ponto T-Swift tem razão em suas demandas (lembrando que essa decisão, creio eu, não seja apenas da gravadora, e sim dela, que já declarou em várias entrevistas ser uma defensora dos álbuns físicos)?

E o “1989”? Também entra nessa balança como um divisor de águas musicalmente ou Taylor é uma ilha essencialmente pop num momento híbrido do mainstream atual?

Por isso, decidi falar sobre esse momento da Taylor com dois posts: um com a resenha do 1989; e outro discutindo um pouco sobre essa decisão da loirinha.

Link Resenha TS1989             Link TaylorvsSpotify

Taylor Swift vs. Spotify: quem ganha?

Taylor SwiftApós o mundo ficar surpreso com a decisão da Big Machine + Taylor Swift de retirar todo o catálogo de álbuns da artista do Spotify, algumas desconfianças pularam nas cabeças de jornalistas musicais, fãs, ouvintes de música; diretores da Billboard escreveram cartas abertas e foi discutido até mesmo se o exemplo da Taylor poderia instigar outros grandes artistas a tirarem seus materiais do Spotify se não fossem bem remunerados.

Porque a conversa aqui é essa: dinheiro. A Big Machine queria mais dinheiro para negociar a presença do “1989” no catálogo de álbuns do serviço de streaming; ao mesmo tempo em que o Spotify, sabendo que Taylor teria um dos álbuns mais esperados do ano, queria logo ter o lançamento para disponibilizar aos seus usuários assim que o CD fosse lançado de forma física. Já que a negociação não foi pra frente, a gravadora decidiu retirar logo tudo do catálogo.

Evidentemente, força tanto ouvintes ocasionais quanto fãs a comprarem o novo álbum, mas (como em todo lançamento) leva muita gente a comprar os trabalhos antigos (é só perceber, quando um artista famoso lança novo álbum, seus CDs anteriores recebem um belo boost em vendas). Mas, ao mesmo tempo, reforça um ponto antigo da própria Taylor Swift sobre os streamings:

Na minha opinião, o valor de um álbum é, e continuará a ser, com base na quantidade de coração e alma de um artista tem sangrado em um corpo de trabalho, e o valor financeiro que os artistas (e suas gravadoras) colocam em sua música quando ele vai para o mercado. A pirataria, compartilhamento de arquivos e streaming têm encolhido os números de vendas de álbuns pagos drasticamente, e cada artista tem tratado esse golpe de uma forma diferente.

Taylor Swift no Walt Street Journal, 7/07/2014

Swift nunca foi uma fã dos streamings, tanto que já era notório que sua equipe demorava em disponibilizar seus álbuns e singles no Spotify. E, para ela e muita gente, os streamings não dão aos artistas o retorno que eles desejam ter. De acordo com o próprio Spotify, os artistas ganham, por vez em que a música é tocada, entre  US$0.006  e US$0.0084. Fazendo uma multiplicação grosseira, se o artista X, independente, tiver seu single ouvido pelos usuários do serviço 500 mil vezes em um mês, por exemplo, ele vai ganhar US$ 3 dólares. Imagine um artista A-List como Taylor. Um não -single de seu álbum (vamos supor, um “Wildest Dreams”), se for ouvido no Spotify e alcançar uns 20 milhões de streams, fazendo as continhas, vai dar US$ 120 mil dólares – lembrando que serão distribuídos em várias partes e entregues a várias pessoas até chegar o valor final nas mãos da Taylor.

Claro que, para uma grande vendedora de discos, uma recordista como Taylor Swift, é melhor vender álbuns completos e conseguir lucrar milhões, já que na primeira semana, vai vender um milhão e 300 mil discos. Mas Taylor Swift é Taylor Swift. Adele é Adele. Beyoncé é Beyoncé. E até as bandas de rock são as bandas de rock. O mercado comporta ainda fenômenos de vendas de discos, mas desde o advento das vendas digitais com o iTunes, sem contar com a expansão sem fim da pirataria, a indústria vê um caminho sem volta. Não dá pra Taylor Swift, do alto de seus recordes atrás de recordes, achar que as pessoas vão comprar um álbum por 12, 13 dólares, só por conta de uma música, como se estivéssemos em 1989. Pior, não dá pra negar o que estamos vendo à nossa frente: a indústria, a mesma indústria da qual ela faz parte e defende, tenta sobreviver aos desafios que se apresentam à sua frente: não dá pra combater a pirataria, porque a cada PirateBay e MegaUpload que é tirado do ar aparecem 15? Vamos oferecer um serviço de música que pode ser livre ou pago, mas você ouvirá todo o nosso catálogo com segurança e qualidade, sem recorrer à pirataria. Daí aparecem Spotify, Deezer, Rdio, Pandora e outros que virão. E não vamos ouvir apenas Taylor Swift. Ouviremos os A-lists e os desconhecidos; vamos poder ouvir aqueles artistas antigos cuja discografia é difícil de achar e vamos moldando nosso gosto; este será o espaço para conhecermos gente nova (quantos artistas latinos legais tive a chance de conhecer através das playlists do Spotify?).

Ao mesmo tempo que sabemos que esse valor oferecido pelo Spotify aos artistas é pouco diante do que eles poderiam ganhar com venda de álbuns físicos – principalmente porque os artistas independentes precisam de dinheiro pra se bancar e contratar gente pra trabalhar com eles na mixagem e produção dos álbuns, ao contrário dos grandes nomes que têm a entourage da gravadora por trás; mas esse tipo de serviço é a grande chance para eles serem ouvidos por um público que em condições normais de temperatura e pressão nem olharia pro lado e compraria este álbum. Ainda assim, a indústria consegue sobreviver e mesmo oferecendo os catálogos de suas músicas para o público, dá a esse mesmo público pequenos mimos para que eles consumam o CD físico, que ainda tem o seu charme – ou você lança o álbum de supetão (oi Beyoncé) ou cria um evento pra lançar o seu álbum, com publicidade massiva e virais (oi Taylor); ou simplesmente lança bons álbuns com apelo crossover (dois nomes que todo mundo esquece são a P!nk e o Bruno, que apesar dos debuts não serem monstruosos, tem estabilidade tamanha nos Estados Unidos quanto em todo mundo, que ainda vendem seus álbuns, praticamente dois anos após lançados). Não dá pra também esquecer a força dos físicos, mas é impossível esquecer que a internet é um organismo vivo e cada vez mais o público só vai comprar um físico se realmente aquilo o interessar (falando de ouvintes ocasionais, e não fãs). Fora isso, as pessoas vão consumir música via stream, ou fazer download ilegal, ou no mínimo arriscar comprar uma faixa no iTunes.

Lembrando ainda que os streamings são um elemento novo nesse jogo físico+digital+rádios. A gente tá falando de Spotify, Deezer, Rdio, mas esquecemos que o Youtube já é contado pela Billboard como stream, e vale para o hot 100 da Billboard. Ou seja, não dá pra ignorar esse mundo e fingir que ele não existe, ou combatê-lo com todas as forças.

Se você não pode com o inimigo, junte-se a ele. Ou dando royalties maiores aos artistas, tanto os grandes quanto os independentes que lutam pra crescer nesse mercado duro que é a indústria fonográfica; ou oferecendo atrativos pra que o público compre seus álbuns físicos; realizando promoções para que comprem faixas/álbuns digitais; ou aceitando que o streaming é o futuro – as pessoas ganharam a chance, com a internet, de conhecer novos artistas, reconhecer nomes consagrados e se relacionarem de uma forma mais próxima com o trabalho dos artistas favoritos.

Quem ganha e quem perde? Só o tempo dirá.

Fontes: Buzzfeed¹, Buzzfeed² e Time