Ah, que saudades de uma angústia adolescente no pop

Adolescente é uma figura angustiada, é uma figura estressada, super dramática, que acha que o mundo vai acabar amanhã e é necessário fazer tudo ao seu alcance para ver se consegue alcançar os objetivos: conquistar o amor da sua vida, tirar 10 naquela prova chata, ou confrontar sua amiga sobre o batom que você emprestou e ela ainda não devolveu.

As minhas angústias adolescentes nos anos 2000 giravam em torno de duas coisas: eu precisava tirar notas boas para passar de ano no terceiro bimestre (e geralmente eu conseguia fazer isso), além de lidar com o fato de que eu tinha um crush na época da escola e ele nem imaginava quais eram os meus sentimentos…

Ao contrário de outras pessoas da minha idade, que chegaram à adolescência no período entre 2002-2007, eu não conseguia converter esses medos e anseios em músicas as quais eu me identificava. Nessa época, eu já era mais nerd musical – gostava de ouvir música pelo prazer de ouvir música e já pesquisava sobre os sons que eu curtia. Por identificação – estética, sonoridade, habilidade lírica e estilo – eu era fã de Amy Winehouse e o “Back to Black”, até por ela fazer música que eu curtia horrores (inspirada na Motown dos anos 60). Já devo ter comentado que curtia bastante JoJo, porque ela também fazia o gênero de música que eu gostava (um pop/R&B leve, bem ligado ao que bombava na época) e tinha uma voz poderosa para alguém tão jovem. Não tinha um visual super marcante, mas era “gente como a gente”, e eu me identificava.

Mas o tipo de música específica para lidar com angústia adolescente que eu tenho minha primeira memória foi ali na primeira metade da década de 2000, quando surgiu aquela que apresentou um grande shift nos nossos gostos por um artista e também na questão estética, fashion: Avril Lavigne, que a partir de 2002 com o lançamento do seu primeiro álbum, “Let Go”,  proporcionou a várias meninas que eu conheci na escola alguém com grande apelo popular a representando. Meninas que não gostavam de Britney ou Christina, que não se identificavam com a sonoridade pop ou com tudo que vinha junto (padrão estético, roupas, maquiagem) que não curtiam pegar as coreografias dos clipes na MTV. Meninas que viam em Avril e suas músicas referências líricas e de estilo: várias colegas minhas começaram a usar Converse preto (ou a versão falsificada, porque o tênis sempre foi caro), spikes, colar de correntes, gravatinha no pescoço, olhos beeeem fortes com delineador preto.

Aos poucos, você tinha bandas como Evanescence, que atraiu meninas mais góticas, além de outras artistas que já eram conhecidas antes de Avril, mas ganharam ainda mais impulso com o crescimento do pop-rock, como P!nk, quem seguiu nesse percurso como Kelly Clarkson; e também artistas masculinos, bandas de pop-punk que representavam essas angústias adolescentes: Fall Out Boy, My Chemical Romance, Simple Plan, e daí surge toda a estética do emo, que na época todo mundo descia o sarrafo no Orkut – e hoje já estão falando de revival fashion.

Outra banda que estourou no final da década com essa estética pop-punk bem cool, descolada, “i’m not like the others” foi o Paramore, e como pop-rock tinha um retorno nas rádios top 40, artistas da Disney que ainda estavam em séries e lançamentos do canal produziam álbuns com essa sonoridade, também com letras tratando desses dilemas adolescentes (e muuuuuito romance juvenil), mas de uma forma mais polida, sem xingamentos, tudo bastante modesto e sem controvérsias.

Mas esse shift precisa ser colocado na conta de Avril, e quem testemunhou essas mudanças ao vivo consegue perceber o quanto “Let Go” e “Under My Skin” foram importantes para adolescentes que em algum momento, não se viam representadas em seu estilo e modo de vida, nas cantoras famosas que passavam diariamente no Disk MTV. E o mais interessante era que Avril era próxima da gente em idade – tinha 17 anos quando lançou seu primeiro álbum, então, dúvidas, inquietações, namoros ruins, caras com jeito de problema, sonhos; enfim, questionamentos de toda adolescente e que Avril, por mais que tenha feito esse movimento, não foi a primeira e nem se tornou a última a expor essas vulnerabilidades na música pop. Nos anos 90, Alanis Morissette lançou “Jagged Little Pill”, e pode perguntar a alguma mulher que foi adolescente naquela época qual a sua relação com este álbum. Nos anos 80, Debbie Gibson vinha de um lugar de sinceridade, mesmo não tratando de coisas polêmicas em suas músicas. Era uma adolescente que compunha, e agia como tal. (estamos falando de uma pessoa que até hoje é a pessoa mais nova a escrever, produzir e interpretar um single que chegou ao topo da Billboard SOZINHA (17 anos).

Mais recentemente (2013), a gente teve outro exemplo de alguém que, se não teve um shift estético, proporcionou mudanças na parte musical, tornando o pop mais indie ainda mais consumível para o grande público: a neozelandesa Lorde, que tinha 16 anos quando lançou “Royals” e o álbum “Pure Heroine”, que traduzia anseios de adolescente longe do mundinho pantanoso de Hollywood. Sua vida comum, sem glamour ou luxo, em um país pouco comentado à época, Nova Zelândia, não atraiu apenas adolescentes identificados com aquele ar meio entediado da Lorde, como também muitos jovens adultos. Na época, eu presenteei uma amiga minha com o “Pure Heroine” de aniversário, e nós já tínhamos 22, 23 anos. Não éramos mais o público-alvo da Lorde, mas eu via nas letras coisas que eu achava que ela poderia se identificar.

É o que eu sinto um pouco nas reações de jovens adultos, millenials no geral, ouvindo o álbum novo de Olivia Rodrigo, que comentam sua identificação com os sentimentos passados pela balada “drivers license” ou têm uma sessão nostalgia com “good 4 U”.

Curiosamente, depois de alguns anos com MUITOS misses, finalmente a Disney conseguiu uma artista de seu catálogo de séries com sucesso, reconhecimento geral e – algo que eles não tinham há 12 anos – apelo positivo com a crítica.

Mas… Como isso foi acontecer?

Disney parou de limitar seus artistas

(ou eles entenderam que poderiam ter uma Ariana para chamar de sua?)

A Disney sempre limitou seus acts, que deveriam seguir regrinhas e limites dentro da máquina que os havia nutrido. Não podiam sair do quadrado, as músicas tinham que ter mais ou menos o mesmo apelo das faixas que eles lançavam nas séries e filmes do canal, e nada de polêmicas para os pais das crianças não deixarem de comprar os álbuns.

Tanto que é possível ver esse conflito entre o tipo de artista que a Disney quer que “eu” seja versus o tipo de artista que “eu” sou no caso de Miley Cyrus, que provavelmente passou anos vivendo uma versão realista de sua própria série, Hannah Montana.

No entanto, com o passar dos anos e a mudança no surgimento de novos artistas no pop, esse formato de act ex-Disney comprimido pela máquina acabou ficando de fora da movimentação da indústria: no final da década de 2000, os novos popstars de grande apelo foram compositores no passado, e já surgiram com a identidade toda definida. Compunham, produziam, visualmente marcantes. Outros artistas, na virada da década, estouraram após construir fã-base em plataformas como Soundcloud, YouTube, ou no falecido Vine.

(mas não podemos esquecer da decadência do pop, e o estouro do rap que atrapalhou o surgimento de grandes artistas vindos dessa máquina da Disney)

Além disso, eu posso suspeitar que a Disney olhou pro lado e viu: olha, a concorrência também sabe fazer isso, de uma forma mais convincente, com Ariana Grande. Quando Ariana estourou, em 2013, ela ainda fazia séries na Nickelodeon (Victorious e Sam & Cat), conhecida entre os adolescentes, mas  conseguiu distinguir a sua personalidade na série em relação a dela como cantora. Não era necessário sequer que eu tivesse visto um episódio da série dela para ter AMADO “Yours Truly”, eu nem sabia que a menina fazia séries juvenis! As músicas dela possuíam produção elegante, longe de ser vendável para uma audiência puramente infanto-juvenil, ou juvenil: ela já tinha parcerias com Mac Miller, Big Sean, e composições de nomes lendários da música, como Babyface (eu sempre repito isso porque na época, quando soube que Babyface estava envolvido no “Yours Truly”, eu parei e pensei: “essa menina vai MUITO longe”). Por fim, esse álbum mostrou que Ariana não apenas era um artista muito boa surgida de uma série de TV. Não estava limitada pelos interesses ou por regras da emissora.

Dessa forma, quando você ouve o “Sour” da Olívia Rodrigo, você entende que a Disney meio que deixou o rio correr pro mar: ela é da Interscope/Geffen (sdds das tretas no falecido Orkut do pessoal xingando a Hollywood Records pela forma como conduzia a carreira de Miley, Demi e Selena…), boa parte das músicas está lá com EXPLICIT pontuado – ou seja, ela pode estar até no elenco de uma série juvenil do Disney+, mas ninguém vai controlar de fato o que e como ela trabalhar com a própria música. Você pode ouvir a música dela sem nunca ter consumido a série e você pode consumir a série numa boa para depois, se quiser, ouvir o álbum fora do contexto do programa. A personalidade dela como cantora não vai se misturar com a personalidade dela como atriz, e essa fama não fica limitada.

Deve ter sido um grande aprendizado para a Disney, entender que ela não precisa controlar todos os passos de seus artistas.

Billie has kid sisters

Eu acho que o outro ponto que a gente tem que levar em consideração é que Olivia Rodrigo não é uma novidade, digamos assim, como cantora. Mesmo que ela não seja influenciada pela artista em questão que estamos falando, precisamos entender que falamos de MERCADO, então nenhuma artista no pop funciona sozinha: eu acredito que o sucesso dela está relacionado ao sucesso recente de Billie Eilish, em especial quando você ouve as faixas mais lowtempo do álbum, com produções mais minimalistas. Billie trouxe pro centro vocais menos grandiloquentes, uma presença mais jovem, moderninha e urbana, sinceridade e uma resposta a uma maneira mais tradicional dos artistas pop se posicionarem, aparecerem na mídia. Billie também não é a primeira de seu tempo; afinal de contas sem Lorde ou Lana Del Rey não teria espaço pra ela. Também podemos dizer que Olivia não existiria sem Taylor Swift; até na forma como ela compõe suas músicas (a tal ponto de “1 step forward, 3 steps back” ter uma interpolação com “New Year’s Day” e Taylor estar creditada como compositora da faixa), e você consegue enxergar uma postura “gente como a gente”, mais próximo de uma jovem comum – com a única diferença sendo Olivia Rodrigo sendo uma cantora famosa.

Tá, mas o SOUR é bom mesmo?

Depois de tanto textão, é a pergunta que não quer calar: o álbum de Olivia Rodrigo realmente é bom? A aclamação faz sentido? Os recordes de lançamento em vários países fazem sentido? “SOUR” vale mesmo esse hype todo?

Então, de fato é um bom álbum. É um álbum de uma adolescente, e que trata de uma maneira bastante direta e sincera sobre os problemas dentro de um relacionamento. Confesso que me incomodou muito ver que pessoas falam mal dela por apenas escrever sobre esse assunto, mas esse é o tema dela, e Olivia faz bastante bem. Não apenas no single debut “drivers license” mas em outras faixas, por exemplo, a ótima “happier” – em que ela quer ver o cara feliz, mas não tão feliz do que quando estava com ela. Olivia mostra habilidade na escrita, além de vulnerabilidade – ela fica pistola por ter sido traída, se sente culpada, se sente enganada, se sente amarga, irônica, deseja o “bem” entre aspas, depois começa a superar, e a vida é assim. Apesar do meio de campo ser um pouco mais lento, e focado muito mais em músicas mais acústicas com uma produção menor, consegue ser coeso e rápido. Acredito que esse acerto vem do fato de “SOUR” ter pouquíssimos produtores – o principal é Dan Nigro, que também é co-compositor das músicas junto com Olivia.

Além de temas mais de romance, que aparentemente estão relacionadas a um ex-namorado com quem ela contracena na série da Disney, algumas músicas (“brutal”, “jealousy, jealousy”) tratam do medo de crescer, um pouco sobre a cultura tóxica da internet, e elementos que têm tudo a ver com a geração dela, o público que vai se sentir mais identificado com o álbum. Não, eu não me identifiquei – hahaha meus 30 anos bateram na hora, mas dá pra perceber os elementos onde os adolescentes vão encontrar conforto.

O outro problema de “SOUR” é que as melhores faixas são justamente os singles lançados – adiciono aqui “happier”, uma das melhores faixas do álbum. Eu particularmente não curto as faixas mais bacanas serem justamente os singles porque fica a impressão de que só focaram no que seria lançado e o resto ficou ali pra encher linguiça. As faixas da tracklist são boas também, mas não chegam ao brilhantismo da trinca já lançada. Destaco “good 4 u”, que no começo eu não achava muito interessante, achava a produção maior do que a voz dela, mas mudei de ideia real oficial e pra mim, é o grande momento do álbum. Além disso, pode fazer a gente repensar de novo a discussão sobre qual o gênero que pode funcionar como resposta à dominância do rap – e como o pop-rock, pop punk, se converte em uma interessante solução.

Mas no geral… Eu não comprei o hype. “SOUR” é um álbum que muita gente está colocando em um pedestal – a crítica especializada, incluso – mas pra mim é o debut de uma adolescente que sabe compor bem, mas você percebe que ainda é necessário um certo polimento, para o bom se tornar brilhante, até por causa de algumas músicas que fazem parte da tracklist não serem tão interessantes quanto os singles lançados. Eu acho que tem que ter um pouco de calma, não chega a ser o maior début de uma artista adolescente (ainda acho que nos últimos dez anos, Lorde é definitivamente uns vários níveis acima, por conseguir me entreter mesmo não tendo 16 anos em 2013 – e sim vinte e três). Ainda acredito que é importante ter um segundo álbum até pra perceber uma evolução na composição, mas está aí o potencial pro brilhantismo.

Ainda sobre o futuro, acredito que veremos “SOUR” lá na frente indicado ao Grammy, e se eu fosse a Geffen, pensaria em submissões dessa forma: “drivers license” indicava para gravação e canção do ano, naturalmente. É uma música grandiosa, grandiloquente, comercialmente bem-sucedida, e o Grammy já tem precedentes em indicar (e até premiar, dependendo da situação) artistas mais novos por aqui. “good 4 u” eu colocaria como performance pop: a música funciona justamente por conta da interpretação dela bastante irônica e sarcástica para a faixa. Eu acho que eles deveriam fazer isso; para além, claro, da indicação do álbum para o pop field.

E vocês? Quais são as suas maiores lembranças a respeito de angústia adolescente? O que vocês acharam do álbum da Olívia Rodrigo?

Qual o futuro da música pop americana?

Nos últimos dois anos, a música pop americana passou por fases interessantes, que vínhamos chamando de um “período de transição”. Em primeiro lugar, quando discutíamos sobre a desconstrução de alguns estilos, a disputa entre “integrados” e “puristas” – quem queria produzir algo fora das caixinhas versus quem fazia um pop mais alinhado a ressignificar as tendências para a rádio top 40; e mesmo assim, o rap continuou (e continua) sendo o gênero mais importante dos últimos anos, o gatekeeper sonoro do público americano.

Além disso, outro elemento está tornando as músicas que são lançadas nos Estados Unidos passíveis de serem hits ou não: se elas se tornam virais no TikTok, a rede social comandada pela Geração Z, meninos nascidos a partir de 1995 até meados de 2010, e que acabam determinando as tendências musicais através das músicas que eles usam para os desafios, dublagens e trends.

Mas, para avaliarmos se as tendências atuais vão continuar por algum tempo – que na verdade não vão continuar por algum tempo, porque tudo é cíclico – ou se finalmente o pop encontrou um percurso, é hora de entendermos um pouco sobre quais são os caminhos que o zeitgeist da música pop americana vai seguir.

Em primeiro lugar, é hora de colocar as coisas em seus devidos lugares. Afinal de contas, quais são os três caminhos que a música pop americana está seguindo neste momento?

1. O rap ainda continua sendo o gênero mais importante da música norte-americana – mas os #1s deste ano contam uma história distinta;

2. Kpop e Reggaeton fazem parte de um movimento que envolve adolescentes e novas formas de consumo musical, bem como grupos demográficos cada vez mais relevantes culturalmente nos EUA – apesar do top 10 não refletir de todo essa perspectiva;

3. O pop norte-americano ainda não sabe para onde ir, mas tem caminhos.

E que caminhos são esses? Eles estão relacionados aos novos artistas do momento, e podemos resumi-los com o

O bedroom pop na verdade é a música lo-fi, canções produzidas com aspectos minimalistas, algumas distorções, e de preferência são realizados dentro de casa, dentro do quarto (daí o termo “bedroom pop”). Com algumas batidas mais destacadas, às vezes marcadas pelo hip hop, se você fizer uma leitura por alto vai entender que eu tô falando de Billie Eilish.

Eu tinha comentado em outra oportunidade que, para mim, era uma representante óbvia de uma tentativa de desconstruir a ideia do que era pop americano, mas aos poucos com os últimos lançamentos (incluindo a acústica “Your Power”, do seu novo álbum), a gente vai enxergando que a área dela é algo mais minimalista e lo-fi, mesmo que ela não seja a primeira a mostrar isso. Mas o fato é que essa sonoridade sendo mais expandida (e premiada com Grammys) abre espaço para que artistas mais novos (ainda mais que a própria Billie) tenham espaço para fazer algo mais “fora da caixinha”, como por exemplo a queridinha dos adolescentes, Olivia Rodrigo.

“drivers license”, seu #1 e o maior hit do ano, parte desse princípio, de produção mais minimalista, com algumas distorções. No seu segundo single, “deja vu”, mais animado até, a produção tem mais informações, mas não há um overproducing, são soluções bem bacanas e bem trabalhadas. Apenas em “good 4 u”, terceiro single e com pegada pop rock anos 2000, você percebe algo maior (e, apesar das boas intenções, eu achei que o arranjo ficou maior do que a voz da própria artista). Onde em som você percebe alguns passos para trás no aspecto de produção, com algo menor (não chegando a ser totalmente mínimo como Billie, por exemplo), nas letras você percebe a influência de singers-songwriters que trabalham justamente com relacionamentos, fim de relacionamentos e a capacidade de colocar indiretas em música – Alanis, Taylor. Já na voz, colocação, impostação, o primeiro nome que veio à mente foi a de outro prodígio, Lorde, que de certa forma foi uma das réguas-e-compasso no começo da década para que jovens cantoras e compositoras fossem respeitadas fazendo um som pop que fugisse um pouco do padrão estilo anos 2000 (as minhas referências pessoais de música pop são justamente daí). Com Lorde, há espaço para você ser mais alternativa, mais indie. E até mais mínima (quem não se lembra das batidas secas e marcadas de “Royals”?).

Quem não se lembra de Alessia Cara?

Ou seja, se você já tem um caminho, herdeiros de uma estética, existe um caminho a seguir.

(eu já li algumas pessoas discutindo o pop/rock ser o novo gênero do momento para o pop americano, mas eu sempre penso em: se tiver que acontecer, é necessário que um nome novo faça essa ponte, e não os artistas consagrados. A ver os próximos capítulos)

Eu não sei até que ponto o bedroom pop vai ser o grande momento da música pop americana que vai responder a até então dominância do rap/urban; mas é importante registrar que ainda existem artistas pop trabalhando com essa linha de encontros, como Justin Bieber e Ariana Grande – já considerados A-List, com uma carreira consolidada e pouco prováveis a mudar esse caminho por conta de novas trends.

Sim, teremos encontros especialmente porque esses artistas em sua gênese tem influências e bom trânsito entre artistas de rap e urban, e até que o que era centro vire nicho (O que eu duvido que isso ocorra, acho que o gênero só terá menos dominância), eles ainda serão muito relevantes e consistentes, se atualizando sempre. Aliás, o #1 de Justin Bieber em 2021, “Peaches”, mostra um bom exemplo dele fazendo pop com pegada R&B, mas com um olhar para as rádios top40 (aliás, a música tem uma batida excelente, apesar da letra mais ou menos), com uma sonoridade fresh, sem parecer datada ou cansada.

Ainda não é possível ver artistas mais novos olhando para Bieber ou Ariana como referências e você dizer “nossa, ele é o novo Justin”, e aí é que reside meu questionamento – quem participa dessas interseções vai prosseguir, ainda sem “herdeiros”, mas quem está “nos extremos” já tem seguidores. Ainda temos rappers surgindo e se consolidando: entre as mulheres, por exemplo, Doja Cat é o nome do momento, Megan Thee Stallion, Saweetie. No pop americano, não temos esse surgimento aos montes, de artistas novas, como na virada da década de 2000 para 2010 onde a cada respirada você descobria a “nova Lady Gaga”.

Antes de Olivia Rodrigo emplacar três top 10 na Billboard, quem foi realmente a grande coqueluche feminina pop de artista estreante? Okay, você pode falar “Billie”, mas a distância é grande demais para significar um retorno.

Antes de Billie, quem foi a grande coqueluche feminina pop? Muito provavelmente Meghan Trainor em 2014, se não me engano.

(antes, vamos tirar quem pode ser A-List atualmente, mas precisa apresentar mais consistência, como Dua Lipa e Harry Styles)

Então… Se Justin Bieber e Ariana Grande podem ser considerados os A-Lists da música pop americana atual, quem estourou na virada da década passada ou nas décadas anteriores seria o quê exatamente?

Vamos pensar nos nomes mais óbvios:

Lady Gaga conseguiu retornar a um estado de relevância com “Chromatica”, mas de fato não foi o álbum que todo mundo esperava que fosse o grande retorno de Gaga ao mundo pop. Considerando que ela está dividida na carreira de atriz e de cantora, 0a minha sensação é que hoje em dia ela é uma artista de legado, bastante confortável em sua posição, e que não vai ter os mesmos #1’s do passado, mas jamais vão considerá-la um grande flop caso lance algo novo, porque vamos dizer que ela conseguiu recuperar seu momento e melhorar a imagem após um meio de década confuso.

Katy Perry vai permanecer sempre lançando um bom single, bons trabalhos dentro do pop, mas infelizmente, graças a escolhas ruins de carreira (maldito “Witness” e seleção de singles do “Prism”) o bonde da história acabou sendo perdido.

Kesha entra nesse mesmo grupo, mas não por conta de suas próprias escolhas.

Entre os homens, podemos dizer que The Weeknd finalmente chegou lá no topo. Abel provou sua versatilidade tanto no pop quanto no R&B, deixando sua marca neste último como um som condutor para muita coisa que se ouve hoje na cena. Não dá para saber quais são os próximos passos dele como artista após “After Hours” mas o que podemos dizer é que ele mostrou apelo visual e musical para todos os públicos, fazendo a gente olhar ou ouvir algo dele e dizer “ah, isso aqui é The Weeknd”. Podemos colocá-lo como um A-List atual também, mas numa lógica de construção de carreira muito diferente de Ariana Grande e Justin Bieber.

Pensando em outro #1 lançado este ano, Bruno Mars com o Silk Sonic e “Leave The Door Open” (alto nível de produção, estrutura e sofisticação no arranjo) é um caso um pouco mais complexo, já que ao contrário de outros artistas, a sonoridade dele nunca foi atrás do gênero do momento – você entendia que existia uma consistência no trabalho dele ao buscar como base o passado, até mesmo em seu primeiro álbum, onde o toque retrô é mais sutil.  Considerando que ele já tem dois AOTY  e o respeito dos peers, em tese ele pode lançar e trabalhar no que quiser – e faz sentido expandir seu trabalho com um super grupo, Silk Sonic, em parceria com o rapper Anderson Paak (ainda bem que os ouvintes casuais têm a oportunidade de conhecê-lo!), fazendo um trabalho paralelo. Só que, boom, “Leave the Door Open” foi hit, a música é trend no Tik Tok (para minha surpresa), e esse caminho mais consistente dele vai mantê-lo numa posição de A-List por um bom tempo – e com Bruno, temos a mesma situação de The Weeknd de você bater o olho ou ouvir uma música e dizer “ah, isso aqui é Bruno Mars”.

(ah, e essa estratégia de “lançar um álbum a cada copa do mundo”, impensado em tempos atuais com superexposição em redes sociais, só funciona com ele porque é parte da construção de carreira dele. Um Harry Styles não vai poder fazer isso… Ainda)

Uma dúvida que me consome é como Justin Timberlake vai entrar nessa jogada, já que seu último álbum foi um grande fracasso (então, o álbum é ruim né…). Eu estava pensando nisso porque como ele vai voltar? Com qual público ele vai conversar? Em especial porque esse público novo poderia consumi-lo por nostalgia anos 2000 (seja pela época do NSync ou pela primeira parte de sua carreira solo) ou seria um consumo crítico, graças a todas as questões com a comunidade negra desde a situação com Janet Jackson.

Agora… Eu não sei o que esperar de Rihanna. Seu último foi lançado em 2016, e de lá para cá a música mudou tanto a forma de consumo, as mídias sociais mudaram tanto a linguagem e a forma de produzir conteúdo (bem diferente de como RiRi se movimentava no começo da década, onde o que ela postava no Instagram era sempre viral) que é muito difícil entender se Rihanna consegue funcionar dentro dessa nova estrutura ainda mais superexposta que lá atrás.

O fato é que o “estilo Rihanna” de cantar e as suas interseções com urban já foram incorporados ao léxico do pop; então o seu retorno, como o comeback de uma artista que estava há alguns anos fora da cena, pode soar algo datado ou, a depender de como ocorra, seja o grande momento do século. Mesmo que Rihanna também tenha músicas dela participando de trends do TikTok, não dá para pensar na reação das pessoas em como ela vai voltar – e qual sonoridade ela trabalhará. Confio nela porque Rihanna sempre enxergou além em relação ao som pop, mas ainda assim é uma interrogação.

Tá, e Taylor Swift e Beyoncé? Se formos pensar em Beyoncé, a gente não conta. Ela é uma lenda viva mesmo que ela não lance um single avulso, um longo álbum; mas qualquer coisa que ela lançar vai trazer buzz, independente do formato – vai que a mulher lance o próximo álbum em quatro episódios de um documentário no Disney+ né…

Taylor também fica de fora dessa discussão pra mim. Eu acho que tanto ela quanto Beyonce estão na categoria de lendas, que passaram por poucos momentos complicados no seu percurso de carreira, e se mantém em alta e fazendo sucesso, não importando o que lancem. Atualmente, ambas são ícones que servem de exemplo a serem seguidos, e não precisam provar nenhum ponto, tampouco sua relevância. Então, você não tem como exigir delas que os seus trabalhos sejam sempre #1 e recordes de vendas. Mas trabalhos FODAS, você terá.

O pop americano tem caminhos a seguir. Ele não está mais em meio ao fogo cruzado entre ser o gênero esquecido por conta do gatekeeping do rap, ou tentar se unir a outros gêneros bem-sucedidos para manter a relevância. Existe um percurso, e artistas tentando seguir esse percurso; além disso, os grandes astros que estouraram na década passada, bem como aqueles que se mantém na mídia desde meados dos anos de 2010 ainda possuem uma carreira consistente, não deixando a peteca cair.

O que deve ser mais curioso a avaliar é a partir de 2021 para os anos seguintes: teremos esse caminho aberto pelo lo-fi music (ou bedroom pop), casado com artistas influenciados pelos A-Lists e ícones atuais? Os artistas com mais rodagem vão se manter, mesmo que com menos relevância, ou aos poucos ficarão mais nichados, sendo ouvidos pelos fãs e grupos de ouvintes do pop, longe dos ouvintes casuais? Nessa última situação, quem conseguiu se manter no auge com poucos erros na trajetória, hoje colhe os frutos desse legado, seja sendo um mentor,  um ícone em quem se espelhar, ou seguindo um percurso onde riscos podem ser tomados, e poucos podem fazer – tendo bala na agulha, aclamação e uma boa gravadora pra segurar seu B.O.

Já os jovens A-Lists do momento já tem trajetória e escolhas sonoras consolidadas. Agora o desafio é descobrir qual é o novo (ou velho) som que pode finalmente tornar a disputa de espaço não mais um domínio, e sim uma batalha.