O estado do pop em junho

O verão americano – ou a sua proximidade – é sempre uma época muito interessante porque boa parte dos grandes lançamentos dos artistas pop (essencialmente, os artistas que interessam) ocorre justamente nesse período (exemplo: Katy Perry, em seu auge de popularidade, lançando seus álbuns entre Junho e Agosto, sempre considerando que seus singles eram lançados dois, três meses antes, como um preparatório para o verão). Isso ocorre até mesmo em um período de pandemia, em especial na situação dos Estados Unidos, que se encontra num status mais transitório do que o nosso – eles estão com várias opções de vacina, 45% da população totalmente vacinada, casos e mortes atualmente em queda (vocês podem fazer comparativos aqui), e a gente… Enfim, se vocês passaram um dia acompanhando a CPI podem entender por que a gente não teve pelo menos São João esse ano: vacina atrasada porque não compramos imunizantes em tempo hábil e com antecedência, boa parte da população cujo trabalho pode ser remoto ainda está em casa; e situação social, política e econômica em completa instabilidade.

Por isso, os lançamentos geralmente têm um objetivo: serem músicas para o verão, renderem mais streams e bombarem nas boates que estão reabrindo. Essas músicas definitivamente vão ser as trilhas sonoras para o resto do ano.

O mais interessante desse mês de junho é que alguns lançamentos ocorreram justamente num mesmo dia, 11 de junho, sendo que outros dois bastante relevantes ocorreram por agora na sexta-feira, 25/06. Esse novo material tem vários estilos, mas colocam seus artistas em posições bem distintas na indústria.

Lorde, “Solar Power”

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Em primeiro lugar, não tem como não destacar o retorno de Lorde com a música “Solar Power”, do álbum de mesmo nome que será lançado em agosto. É uma música pop com um certo groove (dentro das limitações do groove que você está pensando), que me lembra muito “Freedom” do George Michael, mas numa versão sem sal. Apesar da linha de renascimento, recomeço e positividade da música, uma coisa meio “paz e amor”, que eu particularmente detestei.

Talvez porque eu esteja num país em que eu não tô no clima pra positividade, ou porque um dos aspectos que mais me atraiu na música de Lorde quando ela surgiu em 2013 era o fator de identificação. Apesar de, quando ela estourou, eu tinha alguns anos a mais que ela, as músicas tinham um posicionamento que me intrigava de maneira positiva. Ela era uma figura meio que outsider de Hollywood, também geograficamente falando, que tinha uma vida bastante comum como a de qualquer outra pessoa, fosse adolescente ou um jovem adulto, que eu, com 23 anos, terminando a faculdade, começando um emprego novo, pegando busão pro outro lado da cidade por conta do trabalho, dizia a mim mesma – gente, isso faz muito sentido.

Tanto que eu dei o “Pure Heroine” de aniversário para uma amiga minha, que eu sabia que se identificaria de maneira quase espiritual com aquele livro – e ela regulava em idade comigo.

Quando ela lançou “Melodrama”, em 2017, eu até comentei com vocês o quanto o álbum realmente era muito bom, muito bem feito, mas eu não ouviria depois porque ouvir Lorde parte do sentido de identificação. Eu não me senti identificada com as histórias, mas considerei inegável que ela melhorou muito como tanto como compositora quanto como intérprete.

Em “Solar Power”, ela continua sendo uma boa intérprete, fazendo com maestria elementos que hoje as artistas mais novas tentam imprimir, mas quando se ouve Lorde, você sabe quem realmente é a melhor no seu grupo – o motivo não é apenas por sua habilidade como compositora, mas também porque ela cresceu e entende suas forças e fraquezas como cantora. No entanto, a minha crítica maior em relação a essa música é porque, para um grande retorno, para um artista que já trouxe coisas muito boas, eu achei um pouco… Eu particularmente não achei a letra tão intrigante quanto Lorde pode trazer. Ainda há elementos de seu humor sarcástico, mas… Eu esperava mais, acho realmente que Lorde escreveu coisas melhores.

Mas, eu não duvido nada de que “Solar Power” tem espaço guardado entre os indicados ao Grammy. Pop Solo tá aí; afinal de contas, o Grammy não vai deixar escapar um dos prodígios que a própria Academia – merecidamente – hypou.

Megan Thee Stallion, “Thot Shit”

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Outro lançamento que eu posso destacar é a música nova da Megan Thee Stallion, “Thot Shit”, com um clipe bem divertido – uma crítica à hipocrisia de muitos homens que criticam uma pretensa “hipersexualidade” das artistas, principalmente artistas negras, mas na verdade é racismo puro e simples, quando eles se comportam com a mesma hipocrisia que eles dizem criticar. Eu particularmente acho a música bem interessante, ela funciona diferente de outras canções que ela lançou recentemente – pelo que eu entendi ela está com sua personalidade Tina Snow, que é diferente da Megan que nós conhecemos.

Mas há algo que me incomodou na canção. Eu acho que o grande problema de “Thot Shit”, e nem é o problema dessa música apenas, mas meio que está se tornando uma tendência, é que as músicas são lançadas não porque o artista quer lançar uma música bacana ou porque deseja lançar algo que tenha a ver com sua carreira, sua trajetória.

Os singles são construídos para serem virais no Tik Tok. Drake fez isso no passado, falaram que “Up” da Cardi B era uma música feita para o Tik Tok (não discordo muito); e se analisarmos friamente, “Thot Shit” é feito para essa plataforma. Temos:

1. Uma batida rápida e ágil, feita para dançar, mas que não tem muita variação rítmica, meio que feita para ser ouvida e consumida esquecida depois;

2. O refrão é repetitivo e construído até mesmo para ser usado em um formato mais curto, seja para dançar com alguma coreografia na plataforma, ou para gerar alguma trend, tão comum ao Tik Tok, e fazer mais pessoas ouvirem e gerarem streams.

Eu não sei até que ponto esse tipo de decisão é naturalmente estratégica, porque hoje em dia para os artistas mais novos, dependentes do público mais novo, se você não viraliza no Tik Tok, você não acontece. Algumas faixas parecem uma construção natural – é só ver canções como “Levitating”, “Good 4 U”, qualquer coisa que Doja Cat lance (até mesmo faixas que eu NUNCA pensei virarem trend no Tik Tok, como “Leave the Door Open”), que você percebe não terem sido construídas essencialmente para a plataforma, mas acabam virando trend. Outras vezes, parece que o artista está construindo uma música só para que faça sucesso na plataforma, gere engajamento e vire hit. E isso desvia o objetivo final da música. A música não pode ser só um complemento, ou um background para uma dança. A música pode até ter essa função, mas não pode ser a única função dela.

“Thot Shit” vai fazer sucesso? Creio que sim, em especial porque justamente essa música é o centro de uma grande discussão relacionada à apropriação de danças e movimentos de criadores negros da plataforma Tik Tok, por parte de criadores brancos que não dão créditos às danças e coreografias feitas pelos primeiros criadores. Por isso, muitos criadores negros estão se recusando a fazer coreografias para “Thot Shit”, gerando um engajamento diferente, mais crítico.

É hora de ver o que vai acontecer nos próximos capítulos.

Ed Sheeran – “Bad Habits”

Já no dia 25, Ed Sheeran saiu da sua aposentadoria para lançar a faixa “Bad Habits”, lead single do álbum cujo nome nós não sabemos ainda. Ao contrário de outras músicas que ele lançou, em especial as álbum de parcerias que ele fez (que variavam entre o puro pop, R&B e rock, mas com algum tipo de identidade “Ed Sheeran”), essa música é… Definitivamente algo que eu não esperava. Houve algumas discussões a respeito da estética do lançamento dele, e do clipe, que lembravam demais “After Hours”, do The Weeknd; mas, musicalmente falando, eu discordo. A música, um dance pop feito para as pistas, só me fez dizer uma coisa: 2012 tá chamando a farofa de volta.

Vocês aqui do blog sempre souberam que eu nunca curti Ed Sheeran; mas é fato que ele sempre trouxe músicas chicletes, em especial após o “X” e “÷”. Os dois álbuns, especialmente o último, transformaram Ed Sheeran em Ed Sheeran. “Sing”, “Don’t”, “Photograph”, “Thinking Out Loud”, “Shape of You”, “Perfect”… Faixas que o tornaram um astro. Mas, para isso, a qualidade das músicas teve que diminuir (quer dizer, eu detesto igualmente o segundo e terceiro álbuns dele, e o álbum de parcerias é… Complexo). “Bad Habits”, assim, é mais um exemplo de como a música dele vem piorando com o passar dos anos. Batida genérica, voz genérica, produção gritando 2010-2012, quando eu chamava qualquer coisa lançada com essa sonoridade “farofa” no Twitter e no Orkut.

Esse cara ganhou um Grammy por composição e lançou uma música que parece trilha sonora de academia!

Enfim… Quanto ao clipe, eu sei que The Weeknd não inventou o terno e a pegada dark urbana e nem essa fonte que eu usei na minha capa de “Hashtag Máfia” no Wattpad (leiam gente, tá completo por lá), mas a construção de imagem dele com todos esses elementos foi tão forte, e tão bem feita (ele contou uma história com início meio e fim não apenas nos vídeos, mas também em todas as suas presenças em awards e performances no período – Abel usou ele mesmo como quadro para construir sua obra) que é impossível não comparar. Aí, quando você compara, Ed Sheeran parece um daqueles imitadores do Elvis ainda no começo de carreira. A imagem não cola, parece forçado, e a música parece forçada. O vídeo vai um pouco mais além, lembra algo de “Coringa” e “Garotos Perdidos”, mas para que você possa estabelecer uma identidade a partir de algo que muito recentemente esteve presente na mídia de forma massiva, é importante que você assuma isso como seu.

E eu não vejo isso em “Bad Habits”. Não sei qual o nível de sucesso que vai atingir, mas provavelmente eu não vou ouvir – até porque eu não piso na academia desde o começo da pandemia.

Maroon 5, “JORDI”

The cover depicts a drawing of a leopard and a zebra in a flower garden.

Além de novos singles, também foram lançados álbuns nesses últimos dias. O primeiro que eu vou destacar é “JORDI”, do Maroon 5, mais um material que prossegue expondo a decadência artística e de criatividade de Adam Levine e sua turma. Eu queria me impressionar com a capacidade deles de fazerem um álbum ruim, mas quando eu acho que o poço tem fundo, eles encontram o pré-sal. “JORDI” (cujo nome é em homenagem ao empresário da banda, falecido em 2017), segue a linha muito parecida com o “Red Pill Blues”, cheio de participações especiais, e músicas de produção extremamente genérica. As faixas gritam final da década de 2010, pré-pandemia, e não ficaria surpresa se eles de verdade foram buscar faixas rejeitadas pelo The Chainsmokers há quatro anos para lançar com a voz de Adam Levine agora.

As letras são outro poço sem fundo de criatividade. “Lost” tem o objetivo de ser catchy com refrão repetitivo, mas o resultado parece um grupo de compositores que não costuma acessar o dicionário de sinônimos. Outra atrocidade é “Lovesick”, também padecendo de uma visita ao dicionário de sinônimos, o arranjo até interessante sendo desperdiçado por uma letra repetitiva. “Nobody’s Love”, sem comentários. Google is your friend, buddy. Encontre um sinônimo.

Algumas faixas, por exemplo “Seasons”, são medíocres. Parece uma rejeitada do “Changes”, do Justin Bieber, e talvez se tivesse na voz do Justin Bieber fosse mais credível. Uma das melhores do álbum é “Convince me Otherwise”, muito mais por conta da participação especial de H.E.R, que conseguiu escapar do raio genérico deles – os caras conseguiram fazer MEGAN THEE STALLION soar genérica – porque tecnicamente falando… A música é difícil, bem difícil.

Outras faixas inspiradas do álbum são “One Light” (que realmente tem simplicidade em sua composição, mas não é preguiçosa. O refrão é repetitivo, mas tem uma quebra muito bacana) e “Memories”, que eu particularmente achava bem legal, e pensava que finalmente o Maroon 5 tomaria um rumo mais interessante do que eles vinham fazendo anteriormente (e essa música é exatamente um reflexo da gente, das nossas perdas, das merdas pelas quais passamos ano passado e esse ano, mesmo tendo sido lançado antes da pandemia). Mas eu fui enganada.

O fato é: eu estou impressionada como Maroon 5 lança álbum ruim após álbum ruim há literalmente UMA DÉCADA. O último álbum audível, que parece “Maroon 5” é “Hands All Over”, de 2010, que sofreu nos charts e aí eles decidiram focar exclusivamente nos charts com “Moves Like Jagger”… E nunca voltaram. Eu digo isso de cátedra, fui a um show deles na época do OVEREXPOSED, e eu odeio esse CD (a única coisa boa do álbum é a capa) – era visível como as faixas antigas brilhavam ao vivo em relação ao arranjo sem graça das faixas do “Overexposed”. Acho que apenas o “V”, de 2014, era mais aceitável, mas não é inesquecível.

Eu acho que desde o momento que Maroon 5 abriu espaço para outros compositores, deixando de apenas os membros serem os principais letristas, a banda perdeu completamente o diferencial – ainda sinto falta da levada funk e jazz dos dois primeiros álbuns e de toda a vibe sensual, algumas das canções pareciam uma carícia safada. É tudo tão estéril.

(como infelizmente o DNCE, do Joe Jonas, não vai lançar mais nada, nós não teremos por algum tempo uma versão do Maroon 5 que lançou faixas melhores do que o “original”.)

Doja Cat – “Planet Her”

Já o último lançamento esperado por muitos – incluindo a escriba aqui – é o “Planet Her” de Doja Cat. O terceiro álbum da cantora, rapper, e talvez uma das artistas mais interessantes do cenário atual, chega após o sucesso massivo de “Hot Pink”, que estava hitando música até agora em 2021. “Kiss Me More”, o primeiro single com SZA, já é um hit; mas a minha dúvida era: será que esse CD geraria o mesmo momento, a mesma quantidade de hits que “Hot Pink”, de fato o álbum que apresentou Doja à consciência coletiva?

O que eu posso dizer é: she did it again. Apesar da audição não ser tão instantânea (seu álbum anterior parecia um compilado de hits, músicas com potencial para fazer sucesso), “Planet Her” é mais coeso. Você, evidentemente, encontra ritmos variados como afrobeat, reggaeton, pop e R&B juntos em várias faixas, mas o material é proeminente pop e R&B, mas com a mistura de canto e rap que Doja faz com habilidade, incluindo seu flow, que pode não ser impressionante, mas você consegue enxergar a personalidade dela em cada música.

Aqui, as letras têm o senso de humor debochadíssimo dela, completamente imersa no mundo das redes sociais (ela é um troll, real e oficial), em “Ain’t Shit” ; conversas sobre relacionamentos (“I Don’t Do Drugs” e seu verso impecável “I just want you, but I don’t do drugs”, com o pós-refrão “Still I want you”; “Been Like This”, “Alone”); momento para crítica direto ao ponto e valorização da mulher em “Woman”; e sim, o quanto ela está em controle de sua sexualidade. Há tempo até para uma menção direta bem fofa e respeitosa à Nicki Minaj.

O álbum é repleto de participações especiais, como The Weeknd (a match para a personalidade excêntrica de Doja na ótima “You Right”, segundo single do álbum, aliás, que música sensacional – no aguardo das indicações em SOTY e ROTY, porque o tricky aqui não é apenas uma sugestão de traição, mas o fato de que ela ama uma pessoa, mas talvez ela ame mesmo outra, sinta aquele je ne sais quoi por outra), Young Thug e Ariana Grande, mas o álbum é totalmente de Doja Cat (ser fiel ao conceito é essencial). Você consegue enxergar seus variados flows, sua inquietação musical em fazer vários ritmos, seu humor; a consistência nos temas. É um álbum que começa uma velocidade mais baixa, mas que vai melhorando bastante e mantendo o alto nível até nas faixas mais lentas. Eu gostei muito do álbum e acho que o Grammy tem mais uma oportunidade de premiar Doja com pelo menos o prêmio de colaboração – e sim, colocar este material no pop field, porque definitivamente é um álbum pop.

Mas como este é um álbum pop, várias canções têm potencial para manter o “Planet Her” como parte da conversa coletiva por algum tempo: “Payday”, com Young Thug; a própria promocional “Need to Know”; “Alone”, “Ain’t Shit”, “I Don’t Do Drugs”…

Curiosamente, o lead “Kiss Me More” fica meio isolado lá no final da tracklist, o que de certa forma faz algum sentido, porque o álbum no geral tem uma linha muito específica de produção que não conversa tanto com essa música; mas, ao mesmo tempo, não é avulsa dentro da proposta do CD.

Resumindo: altamente recomendável – você ouve rápido, são músicas curtas, perfeitas para consumo repetitivo no streaming, e muito provavelmente várias faixas vão bombar no Tik Tok, mas porque elas não parecem terem sido construídas para a plataforma. É porque elas são viciantes. Não tem canções tão instantâneas, mas é visível que as músicas tiveram um cuidado e um carinho ainda maior – cumprindo seu objetivo: colocar Doja Cat no panteão da música pop, como a incrível artista pop que ela é.

(mesmo que infelizmente esse álbum tenha produção dele mesmo, Dr. Luke, que aparece em “Need To Know” e “You Right”. Quando você verifica, ela é da Kemosabe, mesma gravadora de Kesha; contratada aos 17 anos, provavelmente tem a ver com contrato, mas não posso atestar nada aqui)

E aí? O que você achou dos últimos lançamentos? Conta pra gente!

Que saudade da Cardi!

Cardi B é sempre um evento – não apenas por suas músicas serem viciantes, personalidade magnética, visuais incríveis nos vídeos e todos os momentos virais que ela acaba proporcionando nas redes sociais. Ela sabe como agregar amor e ódio na mesma medida, mas possui uma leveza absurda que a torna identificável. Seus dilemas, rants, os papos, até os live-tweets dela acompanhando novelas turcas são os nossos dilemas, e por isso ela atrai a atenção de tanta gente, não importando a idade.

Após dois anos mágicos, com #1, top 10, parcerias de impacto, polêmicas, casamento, uma filha (a fofíssima Kulture) e um Grammy (o primeiro de Álbum Rap para uma rapper feminina em um álbum solo), Belcalis finalmente está de volta com o lead single “WAP” (sigla para Wet Ass Pussy) com a participação de uma das rappers mais hypadas dos últimos anos, Megan Thee Stallion. A música foi lançada na sexta-feira (07) e logo chegou às primeiras posições nos charts e já gerou memes, discussões sobre “por que Kylie Jenner e Rosalía estão no vídeo”, parlamentares republicanos xingando muito no Twitter e muita gente, mas muita gente mesmo, celebrando duas mulheres falando abertamente sobre sexo – com poder, diversão e metáforas deliciosas.

Sim, eu AMEI “WAP”, é a música pro verão americano se não houvesse uma pandemia. Além do uso de sample genial (ouça “Whores in this House” de Frank Ski e entenda), a música tem um tema direto: basicamente “se você quer me fazer gozar, tem que trabalhar”, e fica bem explícito em momentos como “Bring a bucket and a mop for this wet-ass pussy”, “I want you to park that big Mack truck right in this little garage” (SOCORRO!), “He bought a phone just for pictures of this wet-ass pussy”, “I want you to touch that lil’ dangly thing that swing in the back of my throat” e “When I ride the dick, I’ma spell my name”.

Direto, reto, sem muita enrolação e colocando como prioridade a vontade e o prazer delas, Cardi e Megan mostram não apenas habilidade lírica como também um delicioso senso de humor. Megan quase rouba a cena como featuring (o delivery rápido dela é uma metralhadora), mas os versos de Belcalis tem a impressão digital dela, o que mostra que neste período, ela não mudou seu jeito para agradar o grande público.

Com divisão boa de versos e batidão gostoso, uma coisa que me deixou muito orgulhosa na produção (dividida entre Ayo The Producer e Keyz, que produziram “Bickhenhead” da própria Cardi) é que tem sim uma certa sensibilidade radiofônica, mas sem perder a essência rap da faixa, nem fazer concessões. É uma sutileza que torna a faixa grandiosa, mesmo que “WAP” não seja essencialmente uma superprodução. É até equilibrada e discreta em sua batida. Uma delícia.

Agora, vamos ao vídeo!

Apesar da versão usada no clipe dirigido por Collin Tilley ser a clean (que é decididamente muito ruim em relação ao brilhantismo da original), o vídeo é sensacional. Colorido, com looks, excesso, coreografias, levou a ideia de “There are some whores in this house” para um novo nível; e se você não entendeu porque sai água por baixo da porta da casa… Então…

Com direito a cameos famosos e visuais de estilistas , o vídeo de “WAP” traz algo que há muito tempo os ouvintes de pop americano estão buscando nos artistas errados. É uma opinião que pode gerar polêmica, mas vi no Twitter e concordei plenamente – quem está trazendo coreografia (bem realizada), referências pop, visuais e looks com potencial de serem icônicos são as rappers. Cardi, Megan, Nicki antes delas, Doja; ver os clipes delas é nunca esperar por menos. Você percebe que tem PRODUÇÃO, cuidado, escolha de figurino, os melhores diretores, referências legais que podem ser discutidas no dia seguinte à exaustão, acompanhadas de músicas que são viciantes de verdade.

E isso não é de hoje. Não surgiu em 2020. Hora de assumir que quem está empurrando e desafiando, quem está rompendo as barreiras no espectro pop não faz música pop. É o caso de Cardi, que desde “Bodak Yellow” só vem subindo o nível de suas produções, nunca considerando o último vídeo o suficiente. Os fãs e a indústria agradecem.

Ah, e sobre a minha preocupação a respeito dos protocolos de segurança contra a COVID para gravação do vídeo: pelo que andei lendo, foram realizados testes diários com a equipe responsável, além de, em algumas fotos divulgadas nas redes sociais, aparecer a equipe com máscaras e até plástico nos sapatos. Bem, não é exatamente distanciamento social, mas o tipo de testes e o cuidado durante a gravação deve ter sido bem maior do que o normal – é o que eu espero.

(mesmo assim, não façam isso em casa, pelo amor de Deus! Lavem as mãos e higienizem com álcool em gel!)

E vocês, o que acharam da música e vídeo para “WAP”? Fiquem à vontade para comentar!

Oi sumida! [2] New faces

Sumi mas voltei, e agora falando especificamente sobre essa dicotomia entre música pop x “fim dos gêneros” x dominância do rap no ano mais interessante em anos – 2019… Ou poderíamos chamar de 2014/2015?

Por que estou falando isso? Porque se prestarmos atenção a este período na música, foi justamente após a decadência do eletropop e o fim da disco-funk wave de 2013, foi impossível para muitos definir “o som” do momento. Era um período de transição, em que muitas coisas faziam sucesso ao mesmo tempo, enquanto os sinais da dominância do rap como gênero e principal produto cultural começavam a aparecer. Por exemplo, Fetty Wap bombou em 2015, trap começou a ficar mais popular, os virais rap chegaram ao top 10 (“Nasty Freestyle”, alguém?), o rap feminino buscou expandir suas estrelas (Iggy explodiu em 2014), Drake finalmente se tornou uma força a ser reconhecida.

Ao mesmo tempo, as grandes estrelas pop da época que sabiam construir o discurso de seu tempo chegavam ao auge (como Katy Perry, por exemplo), ou finalmente se assumiram como pop (Taylor Swift e o “1989”) – sem contar o processo de rebranding de Lady Gaga que ainda não havia começado, bem como pop stars que navegam de outra maneira no zeitgeist se tornaram ubíquos (o Lionel Richie Millennial, Bruno Mars). Já os atuais A-lists estouraram para a consciência pública justamente nestes anos, como Ariana Grande e The Weeknd. E a última grande popstar a surgir com uma formatação típica do período foi Meghan Trainor.

(eu desconsidero o fator Lorde nessa equação porque ela se intersecciona muito com a turma alternativa. Por mais que “Royals” tenha mudado o landscape para um som com vozes de menos volume e um pop mais down, eu acho que esse shift na popsfera não se deu com ela e sim com “Somebody That I Used To Know”, que exigia até mesmo que eu AUMENTASSE O VOLUME do meu celular para ouvir a faixa)

Ao mesmo tempo em que hoje não é possível indicar com evidência o que é pop de fato (tem dance? é urban-inspired? tem influência alternativa? é nostálgica?) ou mesmo o que é pop hoje, temos que levar em consideração outro fenômeno que podemos creditar sua atual forma a Drake: músicas que conversam com outros gêneros, cujo estilo é difícil de definir, e que nos leva a fenômenos como Post Malone e agora, um Lil Nas X que conseguiu fazer rock melhor do que Lil Wayne em 2009.

Naquela época as pessoas já achavam o uso excessivo do autotune uma coisa perigosa

Por isso, vamos dividir esse post da seguinte forma: o primeiro ponto é sobre o rap como produto cultural dominante, que finalmente parece estar deixando de ser um “clube do bolinha”… o que é essencial para o fortalecimento do gênero para os anos seguintes.

Nicki Minaj abriu as portas para o rap feminino brilhar no mainstream, mas a impressão que sempre tive era de que no período da sua dominância, havia uma estratégia a la Highlander quando se tratava da cena feminina:

A cada instante nascia um rapper masculino diferente, enquanto poucas femcees surgiam na mesma força – e quando estouravam, ou decaíam por material aquém e péssimas decisões de carreira dentro ou fora das redes sociais (Iggy) ou por péssimas decisões de carreira dentro das redes sociais (Azealia). No entanto, com a ascensão de Cardi B, parece que alguém (the powers to be, a indústria, quem quer que seja) percebeu que havia sim espaço para outras rappers femininas. Aos poucos, o espaço para femcees ascendentes ou artistas que não tinham espaço no mainstream até então começaram a surgir.

Dessa forma, você tem rappers sexualmente confiantes e cheias de personalidade como Megan Thee Stallion (que está na capa da prestigiada XXL na Freshman 2019 – ou seja, quem a revista classifica que serão os grandes nomes do rap neste ano), um som mais raw das City Girls, ou artistas que são tudo e mais um pouco: como você pode definir Lizzo (que encontrou exposição mainstream em seu terceiro álbum) por exemplo?

O crescimento de nomes femininos na cena (seja rap ou R&B) que não sejam Beyoncé ou Rihanna ou Nicki Minaj é importante para a solidificação de um estilo que domina a conversa cultural a cada dia. O BET Awards que ocorreu na semana passada, por exemplo, trouxe todos os astros que bombaram no último ano em apresentações bem produzidas com a plateia vibrando a cada performance. Nada de audiência entediada, shows preguiçosos e artistas que estão lá sem razão. O BET Awards é hoje o que VMA foi há anos atrás, e isso é um testemunho de que o pop perdeu o bonde da história.

E corre ainda mais riscos quando se pensa que você não tem um som específico que indique um denominador comum – e mais chocante ainda: os nomes novos colocaram esse “denominador comum” lá pra longe.

Eu me lembro de ter ouvido “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” da Billie Eilish e achado tudo bem… Esquisito, especialmente pra mim, que tenho preferência em som orgânico e ouvir instrumentos, e aparentemente a ausência de um gênero específico e definido no som também me trouxe um certo incômodo. Mas ouvindo as faixas isoladas, eu percebi como o som é um reflexo de uma geração que não se prende a rótulos, até mesmo na música.

“bad guy”, o single mais perto do #1 neste momento, é pop, mas é radio-friendly da maneira mais esquisita possível, já que tem o mínimo de produção possível, bateria seca e um outro trap que quebra todas as expectativas que você tinha com a música. Já “when the party’s over” me lembra muito aquele pop onírico da Lana del Rey (que a própria cantora já citou como influência). “you should see me in a crown” tem mais influência trap com pegada eletrônica; e certeza que ela ouviu “Black Skinhead” do Kanye na produção de “bury a friend”. Até mesmo material anterior ao debut, como “Ocean Eyes” é diferente. É um pop mais straight to the point, de boa qualidade também.

(a propósito, quem comparou Billie com Lorde estava delirando. Ela é como se fosse uma Lana del Rey adolescente e sem o lado retrô. Se existe alguma semelhança, está no uso de elementos urban para construir uma sonoridade pop, mas enquanto na neozelandeza a estrutura é familiar, aqui você demora a se acostumar com os twists and turns das músicas)

A sonoridade parece all over the place, mas tem uma lógica. Apesar das letras meio diário adolescente existencial (todos nós já passamos por isso), há comando do próprio som e da imagem mostrada nos clipes que parecem trailers de filmes de terror, e dificilmente podem ser reproduzidos ou imitados sem parecer que é alguém sendo tryhard. No geral, mesmo que exista um componente eletrônico no som, é visível que há influências mais pop piano-driven, trap e hip hop, que refletem a dominância dos últimos gêneros no inconsciente coletivo pop nos anos formativos da artista.

Mas ao mesmo tempo, não parece com a sua música pop típica, o que nos leva a uma conclusão: o interesse de Billie Eilish aqui não é em se definir com gêneros, mas ir além da divisão óbvia de gêneros.

Claro que, numa indicação ao Grammy, ” When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” entraria numa categoria pop (mas não me surpreenderia se a gravadora submetesse a “alternative” porque é muito bold para a categoria, talvez?), mas se você pensar em álbuns que desafiam o que você entende por gêneros definidos, o outro “gen-z” que se adequa de forma ainda mais complexa nessa discussão de “gênero é não ter gênero” é…

Se você não é gen-z e já tem uma carreira sedimentada dentro da caixa tradicional, não fique chocado. Afinal de contas, mesmo que exista um público que não nutra mais interesse em você graças à distância entre os artistas atuais e a idade dos novos consumidores de música, ainda há um fandom e um grupo mais maduro e propenso a consumir música de outras formas – sem contar que os Millennials ainda são um público forte que consome, gasta e é fortemente identificado com os artistas. Então, se você não é um artista de rap ou não faz música dentro da caixinha, de que forma você pode se adequar aos novos tempos?

Isso, eu conto no próximo artigo do “Oi Sumida!” Até já!