O estado do pop em junho

O verão americano – ou a sua proximidade – é sempre uma época muito interessante porque boa parte dos grandes lançamentos dos artistas pop (essencialmente, os artistas que interessam) ocorre justamente nesse período (exemplo: Katy Perry, em seu auge de popularidade, lançando seus álbuns entre Junho e Agosto, sempre considerando que seus singles eram lançados dois, três meses antes, como um preparatório para o verão). Isso ocorre até mesmo em um período de pandemia, em especial na situação dos Estados Unidos, que se encontra num status mais transitório do que o nosso – eles estão com várias opções de vacina, 45% da população totalmente vacinada, casos e mortes atualmente em queda (vocês podem fazer comparativos aqui), e a gente… Enfim, se vocês passaram um dia acompanhando a CPI podem entender por que a gente não teve pelo menos São João esse ano: vacina atrasada porque não compramos imunizantes em tempo hábil e com antecedência, boa parte da população cujo trabalho pode ser remoto ainda está em casa; e situação social, política e econômica em completa instabilidade.

Por isso, os lançamentos geralmente têm um objetivo: serem músicas para o verão, renderem mais streams e bombarem nas boates que estão reabrindo. Essas músicas definitivamente vão ser as trilhas sonoras para o resto do ano.

O mais interessante desse mês de junho é que alguns lançamentos ocorreram justamente num mesmo dia, 11 de junho, sendo que outros dois bastante relevantes ocorreram por agora na sexta-feira, 25/06. Esse novo material tem vários estilos, mas colocam seus artistas em posições bem distintas na indústria.

Lorde, “Solar Power”

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Em primeiro lugar, não tem como não destacar o retorno de Lorde com a música “Solar Power”, do álbum de mesmo nome que será lançado em agosto. É uma música pop com um certo groove (dentro das limitações do groove que você está pensando), que me lembra muito “Freedom” do George Michael, mas numa versão sem sal. Apesar da linha de renascimento, recomeço e positividade da música, uma coisa meio “paz e amor”, que eu particularmente detestei.

Talvez porque eu esteja num país em que eu não tô no clima pra positividade, ou porque um dos aspectos que mais me atraiu na música de Lorde quando ela surgiu em 2013 era o fator de identificação. Apesar de, quando ela estourou, eu tinha alguns anos a mais que ela, as músicas tinham um posicionamento que me intrigava de maneira positiva. Ela era uma figura meio que outsider de Hollywood, também geograficamente falando, que tinha uma vida bastante comum como a de qualquer outra pessoa, fosse adolescente ou um jovem adulto, que eu, com 23 anos, terminando a faculdade, começando um emprego novo, pegando busão pro outro lado da cidade por conta do trabalho, dizia a mim mesma – gente, isso faz muito sentido.

Tanto que eu dei o “Pure Heroine” de aniversário para uma amiga minha, que eu sabia que se identificaria de maneira quase espiritual com aquele livro – e ela regulava em idade comigo.

Quando ela lançou “Melodrama”, em 2017, eu até comentei com vocês o quanto o álbum realmente era muito bom, muito bem feito, mas eu não ouviria depois porque ouvir Lorde parte do sentido de identificação. Eu não me senti identificada com as histórias, mas considerei inegável que ela melhorou muito como tanto como compositora quanto como intérprete.

Em “Solar Power”, ela continua sendo uma boa intérprete, fazendo com maestria elementos que hoje as artistas mais novas tentam imprimir, mas quando se ouve Lorde, você sabe quem realmente é a melhor no seu grupo – o motivo não é apenas por sua habilidade como compositora, mas também porque ela cresceu e entende suas forças e fraquezas como cantora. No entanto, a minha crítica maior em relação a essa música é porque, para um grande retorno, para um artista que já trouxe coisas muito boas, eu achei um pouco… Eu particularmente não achei a letra tão intrigante quanto Lorde pode trazer. Ainda há elementos de seu humor sarcástico, mas… Eu esperava mais, acho realmente que Lorde escreveu coisas melhores.

Mas, eu não duvido nada de que “Solar Power” tem espaço guardado entre os indicados ao Grammy. Pop Solo tá aí; afinal de contas, o Grammy não vai deixar escapar um dos prodígios que a própria Academia – merecidamente – hypou.

Megan Thee Stallion, “Thot Shit”

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Outro lançamento que eu posso destacar é a música nova da Megan Thee Stallion, “Thot Shit”, com um clipe bem divertido – uma crítica à hipocrisia de muitos homens que criticam uma pretensa “hipersexualidade” das artistas, principalmente artistas negras, mas na verdade é racismo puro e simples, quando eles se comportam com a mesma hipocrisia que eles dizem criticar. Eu particularmente acho a música bem interessante, ela funciona diferente de outras canções que ela lançou recentemente – pelo que eu entendi ela está com sua personalidade Tina Snow, que é diferente da Megan que nós conhecemos.

Mas há algo que me incomodou na canção. Eu acho que o grande problema de “Thot Shit”, e nem é o problema dessa música apenas, mas meio que está se tornando uma tendência, é que as músicas são lançadas não porque o artista quer lançar uma música bacana ou porque deseja lançar algo que tenha a ver com sua carreira, sua trajetória.

Os singles são construídos para serem virais no Tik Tok. Drake fez isso no passado, falaram que “Up” da Cardi B era uma música feita para o Tik Tok (não discordo muito); e se analisarmos friamente, “Thot Shit” é feito para essa plataforma. Temos:

1. Uma batida rápida e ágil, feita para dançar, mas que não tem muita variação rítmica, meio que feita para ser ouvida e consumida esquecida depois;

2. O refrão é repetitivo e construído até mesmo para ser usado em um formato mais curto, seja para dançar com alguma coreografia na plataforma, ou para gerar alguma trend, tão comum ao Tik Tok, e fazer mais pessoas ouvirem e gerarem streams.

Eu não sei até que ponto esse tipo de decisão é naturalmente estratégica, porque hoje em dia para os artistas mais novos, dependentes do público mais novo, se você não viraliza no Tik Tok, você não acontece. Algumas faixas parecem uma construção natural – é só ver canções como “Levitating”, “Good 4 U”, qualquer coisa que Doja Cat lance (até mesmo faixas que eu NUNCA pensei virarem trend no Tik Tok, como “Leave the Door Open”), que você percebe não terem sido construídas essencialmente para a plataforma, mas acabam virando trend. Outras vezes, parece que o artista está construindo uma música só para que faça sucesso na plataforma, gere engajamento e vire hit. E isso desvia o objetivo final da música. A música não pode ser só um complemento, ou um background para uma dança. A música pode até ter essa função, mas não pode ser a única função dela.

“Thot Shit” vai fazer sucesso? Creio que sim, em especial porque justamente essa música é o centro de uma grande discussão relacionada à apropriação de danças e movimentos de criadores negros da plataforma Tik Tok, por parte de criadores brancos que não dão créditos às danças e coreografias feitas pelos primeiros criadores. Por isso, muitos criadores negros estão se recusando a fazer coreografias para “Thot Shit”, gerando um engajamento diferente, mais crítico.

É hora de ver o que vai acontecer nos próximos capítulos.

Ed Sheeran – “Bad Habits”

Já no dia 25, Ed Sheeran saiu da sua aposentadoria para lançar a faixa “Bad Habits”, lead single do álbum cujo nome nós não sabemos ainda. Ao contrário de outras músicas que ele lançou, em especial as álbum de parcerias que ele fez (que variavam entre o puro pop, R&B e rock, mas com algum tipo de identidade “Ed Sheeran”), essa música é… Definitivamente algo que eu não esperava. Houve algumas discussões a respeito da estética do lançamento dele, e do clipe, que lembravam demais “After Hours”, do The Weeknd; mas, musicalmente falando, eu discordo. A música, um dance pop feito para as pistas, só me fez dizer uma coisa: 2012 tá chamando a farofa de volta.

Vocês aqui do blog sempre souberam que eu nunca curti Ed Sheeran; mas é fato que ele sempre trouxe músicas chicletes, em especial após o “X” e “÷”. Os dois álbuns, especialmente o último, transformaram Ed Sheeran em Ed Sheeran. “Sing”, “Don’t”, “Photograph”, “Thinking Out Loud”, “Shape of You”, “Perfect”… Faixas que o tornaram um astro. Mas, para isso, a qualidade das músicas teve que diminuir (quer dizer, eu detesto igualmente o segundo e terceiro álbuns dele, e o álbum de parcerias é… Complexo). “Bad Habits”, assim, é mais um exemplo de como a música dele vem piorando com o passar dos anos. Batida genérica, voz genérica, produção gritando 2010-2012, quando eu chamava qualquer coisa lançada com essa sonoridade “farofa” no Twitter e no Orkut.

Esse cara ganhou um Grammy por composição e lançou uma música que parece trilha sonora de academia!

Enfim… Quanto ao clipe, eu sei que The Weeknd não inventou o terno e a pegada dark urbana e nem essa fonte que eu usei na minha capa de “Hashtag Máfia” no Wattpad (leiam gente, tá completo por lá), mas a construção de imagem dele com todos esses elementos foi tão forte, e tão bem feita (ele contou uma história com início meio e fim não apenas nos vídeos, mas também em todas as suas presenças em awards e performances no período – Abel usou ele mesmo como quadro para construir sua obra) que é impossível não comparar. Aí, quando você compara, Ed Sheeran parece um daqueles imitadores do Elvis ainda no começo de carreira. A imagem não cola, parece forçado, e a música parece forçada. O vídeo vai um pouco mais além, lembra algo de “Coringa” e “Garotos Perdidos”, mas para que você possa estabelecer uma identidade a partir de algo que muito recentemente esteve presente na mídia de forma massiva, é importante que você assuma isso como seu.

E eu não vejo isso em “Bad Habits”. Não sei qual o nível de sucesso que vai atingir, mas provavelmente eu não vou ouvir – até porque eu não piso na academia desde o começo da pandemia.

Maroon 5, “JORDI”

The cover depicts a drawing of a leopard and a zebra in a flower garden.

Além de novos singles, também foram lançados álbuns nesses últimos dias. O primeiro que eu vou destacar é “JORDI”, do Maroon 5, mais um material que prossegue expondo a decadência artística e de criatividade de Adam Levine e sua turma. Eu queria me impressionar com a capacidade deles de fazerem um álbum ruim, mas quando eu acho que o poço tem fundo, eles encontram o pré-sal. “JORDI” (cujo nome é em homenagem ao empresário da banda, falecido em 2017), segue a linha muito parecida com o “Red Pill Blues”, cheio de participações especiais, e músicas de produção extremamente genérica. As faixas gritam final da década de 2010, pré-pandemia, e não ficaria surpresa se eles de verdade foram buscar faixas rejeitadas pelo The Chainsmokers há quatro anos para lançar com a voz de Adam Levine agora.

As letras são outro poço sem fundo de criatividade. “Lost” tem o objetivo de ser catchy com refrão repetitivo, mas o resultado parece um grupo de compositores que não costuma acessar o dicionário de sinônimos. Outra atrocidade é “Lovesick”, também padecendo de uma visita ao dicionário de sinônimos, o arranjo até interessante sendo desperdiçado por uma letra repetitiva. “Nobody’s Love”, sem comentários. Google is your friend, buddy. Encontre um sinônimo.

Algumas faixas, por exemplo “Seasons”, são medíocres. Parece uma rejeitada do “Changes”, do Justin Bieber, e talvez se tivesse na voz do Justin Bieber fosse mais credível. Uma das melhores do álbum é “Convince me Otherwise”, muito mais por conta da participação especial de H.E.R, que conseguiu escapar do raio genérico deles – os caras conseguiram fazer MEGAN THEE STALLION soar genérica – porque tecnicamente falando… A música é difícil, bem difícil.

Outras faixas inspiradas do álbum são “One Light” (que realmente tem simplicidade em sua composição, mas não é preguiçosa. O refrão é repetitivo, mas tem uma quebra muito bacana) e “Memories”, que eu particularmente achava bem legal, e pensava que finalmente o Maroon 5 tomaria um rumo mais interessante do que eles vinham fazendo anteriormente (e essa música é exatamente um reflexo da gente, das nossas perdas, das merdas pelas quais passamos ano passado e esse ano, mesmo tendo sido lançado antes da pandemia). Mas eu fui enganada.

O fato é: eu estou impressionada como Maroon 5 lança álbum ruim após álbum ruim há literalmente UMA DÉCADA. O último álbum audível, que parece “Maroon 5” é “Hands All Over”, de 2010, que sofreu nos charts e aí eles decidiram focar exclusivamente nos charts com “Moves Like Jagger”… E nunca voltaram. Eu digo isso de cátedra, fui a um show deles na época do OVEREXPOSED, e eu odeio esse CD (a única coisa boa do álbum é a capa) – era visível como as faixas antigas brilhavam ao vivo em relação ao arranjo sem graça das faixas do “Overexposed”. Acho que apenas o “V”, de 2014, era mais aceitável, mas não é inesquecível.

Eu acho que desde o momento que Maroon 5 abriu espaço para outros compositores, deixando de apenas os membros serem os principais letristas, a banda perdeu completamente o diferencial – ainda sinto falta da levada funk e jazz dos dois primeiros álbuns e de toda a vibe sensual, algumas das canções pareciam uma carícia safada. É tudo tão estéril.

(como infelizmente o DNCE, do Joe Jonas, não vai lançar mais nada, nós não teremos por algum tempo uma versão do Maroon 5 que lançou faixas melhores do que o “original”.)

Doja Cat – “Planet Her”

Já o último lançamento esperado por muitos – incluindo a escriba aqui – é o “Planet Her” de Doja Cat. O terceiro álbum da cantora, rapper, e talvez uma das artistas mais interessantes do cenário atual, chega após o sucesso massivo de “Hot Pink”, que estava hitando música até agora em 2021. “Kiss Me More”, o primeiro single com SZA, já é um hit; mas a minha dúvida era: será que esse CD geraria o mesmo momento, a mesma quantidade de hits que “Hot Pink”, de fato o álbum que apresentou Doja à consciência coletiva?

O que eu posso dizer é: she did it again. Apesar da audição não ser tão instantânea (seu álbum anterior parecia um compilado de hits, músicas com potencial para fazer sucesso), “Planet Her” é mais coeso. Você, evidentemente, encontra ritmos variados como afrobeat, reggaeton, pop e R&B juntos em várias faixas, mas o material é proeminente pop e R&B, mas com a mistura de canto e rap que Doja faz com habilidade, incluindo seu flow, que pode não ser impressionante, mas você consegue enxergar a personalidade dela em cada música.

Aqui, as letras têm o senso de humor debochadíssimo dela, completamente imersa no mundo das redes sociais (ela é um troll, real e oficial), em “Ain’t Shit” ; conversas sobre relacionamentos (“I Don’t Do Drugs” e seu verso impecável “I just want you, but I don’t do drugs”, com o pós-refrão “Still I want you”; “Been Like This”, “Alone”); momento para crítica direto ao ponto e valorização da mulher em “Woman”; e sim, o quanto ela está em controle de sua sexualidade. Há tempo até para uma menção direta bem fofa e respeitosa à Nicki Minaj.

O álbum é repleto de participações especiais, como The Weeknd (a match para a personalidade excêntrica de Doja na ótima “You Right”, segundo single do álbum, aliás, que música sensacional – no aguardo das indicações em SOTY e ROTY, porque o tricky aqui não é apenas uma sugestão de traição, mas o fato de que ela ama uma pessoa, mas talvez ela ame mesmo outra, sinta aquele je ne sais quoi por outra), Young Thug e Ariana Grande, mas o álbum é totalmente de Doja Cat (ser fiel ao conceito é essencial). Você consegue enxergar seus variados flows, sua inquietação musical em fazer vários ritmos, seu humor; a consistência nos temas. É um álbum que começa uma velocidade mais baixa, mas que vai melhorando bastante e mantendo o alto nível até nas faixas mais lentas. Eu gostei muito do álbum e acho que o Grammy tem mais uma oportunidade de premiar Doja com pelo menos o prêmio de colaboração – e sim, colocar este material no pop field, porque definitivamente é um álbum pop.

Mas como este é um álbum pop, várias canções têm potencial para manter o “Planet Her” como parte da conversa coletiva por algum tempo: “Payday”, com Young Thug; a própria promocional “Need to Know”; “Alone”, “Ain’t Shit”, “I Don’t Do Drugs”…

Curiosamente, o lead “Kiss Me More” fica meio isolado lá no final da tracklist, o que de certa forma faz algum sentido, porque o álbum no geral tem uma linha muito específica de produção que não conversa tanto com essa música; mas, ao mesmo tempo, não é avulsa dentro da proposta do CD.

Resumindo: altamente recomendável – você ouve rápido, são músicas curtas, perfeitas para consumo repetitivo no streaming, e muito provavelmente várias faixas vão bombar no Tik Tok, mas porque elas não parecem terem sido construídas para a plataforma. É porque elas são viciantes. Não tem canções tão instantâneas, mas é visível que as músicas tiveram um cuidado e um carinho ainda maior – cumprindo seu objetivo: colocar Doja Cat no panteão da música pop, como a incrível artista pop que ela é.

(mesmo que infelizmente esse álbum tenha produção dele mesmo, Dr. Luke, que aparece em “Need To Know” e “You Right”. Quando você verifica, ela é da Kemosabe, mesma gravadora de Kesha; contratada aos 17 anos, provavelmente tem a ver com contrato, mas não posso atestar nada aqui)

E aí? O que você achou dos últimos lançamentos? Conta pra gente!

Drops Grammy 2018 [2] “Melodrama”, Lorde

Dando continuidade ao Drops Grammy 2018, o papo de hoje será a respeito do segundo álbum indicado ao principal prêmio da noite, Álbum do Ano – o “Melodrama”, da Lorde. Único CD feminino pop (em termos) dentro da lista final, foi aclamado criticamente e considerado um dos melhores do ano. No entanto, apesar de aparentemente ser um óbvio concorrente ao “DAMN.” do Kendrick Lamar, a menina Lorde está numa frágil posição dentro da corrida pelo gramofone graças às maquinações da Academia, que indicaram a jovem neozelandesa a apenas UMA categoria – justamente a mais importante da noite, com um histórico de polêmicas recentes.

Quais as chances de vitória da Lorde?

E por que a posição dela é tão frágil entre os concorrentes?

Confira as respostas a essas e outras perguntas no novo vídeo! Aperte play!

 

Previsões para o Grammy 2018 [2] O ônibus lotou

Como diria um grande pensador contemporâneo, “it’s tradition now”. Após aquela primeira leva de previsões para o Grammy 2018, avaliando o espectro musical entre o final do ano anterior e o primeiro semestre de 2017, hora de ver de que forma as submissões das gravadoras podem ajudar nas novas configurações da nossa futurologia, seja para o bem ou para o mal.

O “problema feliz” de 2018 é que de junho a setembro muitos singles e artistas tiveram destaque, correndo o risco de 1. muita gente boa ficar de fora do corte final; 2. determinadas categorias não terem acts favoritos. Nosso foco – as usual – é no Pop Field e no General Field.

Segue o pulo!

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É bom mas só vou ouvir três vezes – “Melodrama”, Lorde

Você já sentiu que achou um CD sensacional, mas nunca mais ouviria na vida; enquanto outro álbum que não é exatamente uma Brastemp te deixou viciada nas músicas?
Essa é a minha sensação neste momento, que vou dividir em dois posts, e você entenderá o porquê. O primeiro é sobre um dos melhores álbuns do ano que não vou ouvir muito, “Melodrama”, da Lorde.

Green Light (Official Single Cover) by Lorde.pngRepetindo: “Melodrama” É um dos melhores álbuns do ano. FATO. brilhantemente bem escrito, bem trabalhado produção esmeradíssima e uma evolução (não apenas sonora como lírica e de vida) em relação ao Pure Heroine. Lorde (nascida Ella O’Connor) não é mais a garota esquisita de 16 anos da Nova Zelândia; agora é uma A-list, parte do squad da Taylor Swift, uma das sensações da música pop. E está crescendo. E terminou um relacionamento. E terminou um relacionamento longo em meio à saída da adolescência pra idade adulta, quando a gente não sabe bem pra onde está indo como pessoa.

(quando eu falo de mim no blog é mais ou menos o óbvio; no entanto, o máximo de drama dos meus 18 anos foi que eu não passei de primeira no vestibular. Tem quase nada – ou nada – vivido pela Lorde que eu tenha lidado porque eu era – e sou – uma figura complicada. Basta dizer que “Liability” seria minha música se eu me importasse)

A partir do fim de um longo namoro com o fotógrafo James Lowe (apenas para contexto: quando a Lorde estourou, ela já namorava com o cidadão, que tinha 24 anos enquanto ela tinha 16), a neozelandesa entrega pra gente um álbum sobre solidão, fim de relacionamento, crescimento, autodescoberta e muito drama, hiperbolizado ou não – e realmente algo que todo mundo na adolescência (ou fim de adolescência) deve lidar. Mas, para quem passa (ou passou) por algum relacionamento, o coração desse CD – um relacionamento intenso que termina mal, e Lorde tem que lidar com isso enquanto amadurece sob a luz dos holofotes – é forte o suficiente para tornar tudo identificável.

Seja na estranha “Green Light” (que eu já resenhei, e apesar de não curtir até hoje a estrutura quebrada, admito que é uma faixa extremamente forte e fora da caixa de um 2017 bem repetitivo e chato musicalmente), “Sober” (e a obsessão da Lorde com dentes), “Homemade Dynamite” (uma das faixas mais brilhantes do CD, com vários dedos da Tove Lo, uma das compositoras, na faixa) ou na incrivelmente bem interpretada “Writer in the Dark” (se você acha que a Lorde é cantora de um truque só, basta dizer que ela é uma das melhores intérpretes do pop com essa música. Que cantora da porra), você percebe todos os passos de um relacionamento, e compreende bem por que acabou esse relacionamento, compreendendo por trás de todo o “melodrama” do álbum.

Extremamente coeso por causa da pouca quantidade de compositores e produtores (especialmente o Jack Antonoff), “Melodrama” tem como principal qualidade a habilidade absurda da Lorde com as palavras – e ela consegue se conectar com você porque, mesmo sendo famosa e rica, ela mostra que o seu relacionamento é “comum” a muitas pessoas – e ela é mais relatable que metade do showbiz quando fala de qualquer coisa.

Além disso, Lorde é visivelmente “wise beyond her years” – a sua percepção é mais madura que a de muita gente na sua idade, tanto em autoconhecimento sobre seus erros e acertos (na outra faixa brilhante “Liability”), em focar nas coisas boas de um relacionamento que acabou; ou mesmo em “Perfect Places”, a mais “jovial” do CD (e a que mais me lembrou os tempos do “Pure Heroine”, onde mesmo que a temática seja mais “wild”, no fim das contas, crescer é uma bosta e seguir em frente, procurando “lugares perfeitos” pra se esconder da realidade complicada no fim não vai a lugar nenhum.

Um grande, brilhante, intenso e dramático CD, mas que não me vejo ouvindo daqui até o dia em que for indicado a todos os Grammys possíveis. É melhor que o “Pure Heroine”, mais acabado, maduro; e pra quem estranhou o primeiro single (como eu), o álbum traz uma sensação de conforto, de que ela continua afiada e tão interessante quanto no primeiro dia. Só que é engraçado, eu não me sinto engajada a ouvir outra vez. Não sei se é a quantidade de “drama”, “tragédia” e “perfídia” envolvidas; ou se eu não tenho conexão alguma com o coração do CD (o que já indica o suficiente sobre minha vida pessoal 😉 ), mas não me pegou como eu gostaria. No entanto, isso não significa que o álbum seja ruim – pelo contrário, é uma das melhores coisas de 2017. Pode ouvir colocando a mãozinha no coração.

E você, o que achou do álbum?

E qual deve ser o outro CD de que estou falando?

Previsões para o Grammy 2018 [edição 24 quilates]


O update das previsões pós-período de elegibilidade está aqui. É só clicar!

A melhor época do ano chegou! Junho-julho é o período em que os jornalistas gringos começam a especular sobre as indicações ao Grammy 2018, e apesar do meu oráculo favorito Paul Grein ainda não ter informado quais são os palpites dele, vou me adiantar e brincar de futurologia logo. (especialmente porque ano passado protelei até não poder mais essa postagem)

Pra quem já acompanha este humilde blog, eu geralmente faço duas postagens – uma agora em Junho/Julho e a outra lá pra Setembro/Outubro, após o período de elegibilidade, porque geralmente vazam as submissões das gravadoras e a gente vai confirmando quem fez escolhas boas e quem cagou nos artistas.

As previsões começam após o pulo – com foco em Pop Field e no General Field – mas como vocês viram pelo título, tem algo um tanto diferente nesta previsão…

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Ainda tentando entender – Lorde, “Green Light”

lorde-green-light-2017-2480x2480Vocês se lembram da Lorde, adolescente prodígio que tomou o mundo pop de assalto em 2013 quando lançou “Royals”, hino dos adolescentes comuns; juntamente com o celebrado “Pure Heroine”? Aquela garota talentosa, com habilidades de composição avançadas para a idade e com entrevistas até certo ponto polêmicas (toda semana os fóruns de música surtavam com a Lorde criticando alguma A-List do momento) levou para a Nova Zelândia dois Grammys (incluindo o prestigiado Canção do Ano) e muitas expectativas sobre o próximo trabalho. Afinal de contas, a garota de 16 anos que via o mundo por uma perspectiva de outsider era parte do círculo de celebridades de Hollywood, parte do squad de Taylor Swift, participando de featuring com o Disclosure e ainda produzindo a trilha sonora de Jogos Vorazes – A Esperança parte 1. Ou seja, qual seria o conteúdo que Lorde traria para o seu novo álbum?

Pois é, a neozelandeza chegou mais madura, e dançando com o “jeitinho Lorde” de ser através do single e vídeo para “Green Light“, primeira música de trabalho do segundo álbum, “Melodrama” (é, no fim do dia todo mundo é adolescente ainda).

O vídeo mostra que aquela menina cresceu, vai à balada, dança ao som da música do iPhone e em cima do carro que ela pediu no Uber (o que é bem diferente da jovem outsider de “Royals” ou “Team”). Meu problema é com a música mesmo. A faixa tem uma construção esquisita, com o verso-verso-ponte-refrão parecendo três músicas diferentes num single só. Pra completar, o refrão não é tão catchy e a música parece ame ou deixe: ou você acha foda ou você detesta. Até o momento eu só tô ouvindo pra escrever essa resenha, porque tô bem indiferente à canção.

Além disso, ainda tô tentando processar a letra – já que estamos tratando de uma compositora laureada. Aparentemente, trata-se de uma desilusão amorosa, mas apesar de alguns bons insights, como em
“All those rumors, they have big teeth
Oh they bite you
Thought you said that you would always be in love
But you’re not in love no more”

 

mas no fim não ficou tão bom. Eu não sei, eu queria ter gostado, mas tudo parece tão meh.

Sobre o sucesso, depende: ela ficou fora da cena por quatro anos, apenas com aparições esporádicas em featurings e a participação na trilha sonora do Jogos Vorazes; mas evidentemente esse tempo deve se refletir tanto no crescimento pessoal dela quanto na maturidade musical da menina. Além desse “abraço” do público a esse novo trabalho e à “nova Lorde”, ainda tem a parte da divulgação – ela foi esperta em lançar single e clipe, colocar direto no Spotify (ou seja, STREAMS!!!)  e parece já ter um mega acordo com as rádios (sem contar promo no SNL).

Por isso eu disse “depende”. A música é muito ame-ou-deixe, pode ser que estoure e tire o Ed Sheeran do #1 ou fique lá lutando com os a-lists no top 10.

E você, o que achou?