Oi sumida! [2] New faces

Sumi mas voltei, e agora falando especificamente sobre essa dicotomia entre música pop x “fim dos gêneros” x dominância do rap no ano mais interessante em anos – 2019… Ou poderíamos chamar de 2014/2015?

Por que estou falando isso? Porque se prestarmos atenção a este período na música, foi justamente após a decadência do eletropop e o fim da disco-funk wave de 2013, foi impossível para muitos definir “o som” do momento. Era um período de transição, em que muitas coisas faziam sucesso ao mesmo tempo, enquanto os sinais da dominância do rap como gênero e principal produto cultural começavam a aparecer. Por exemplo, Fetty Wap bombou em 2015, trap começou a ficar mais popular, os virais rap chegaram ao top 10 (“Nasty Freestyle”, alguém?), o rap feminino buscou expandir suas estrelas (Iggy explodiu em 2014), Drake finalmente se tornou uma força a ser reconhecida.

Ao mesmo tempo, as grandes estrelas pop da época que sabiam construir o discurso de seu tempo chegavam ao auge (como Katy Perry, por exemplo), ou finalmente se assumiram como pop (Taylor Swift e o “1989”) – sem contar o processo de rebranding de Lady Gaga que ainda não havia começado, bem como pop stars que navegam de outra maneira no zeitgeist se tornaram ubíquos (o Lionel Richie Millennial, Bruno Mars). Já os atuais A-lists estouraram para a consciência pública justamente nestes anos, como Ariana Grande e The Weeknd. E a última grande popstar a surgir com uma formatação típica do período foi Meghan Trainor.

(eu desconsidero o fator Lorde nessa equação porque ela se intersecciona muito com a turma alternativa. Por mais que “Royals” tenha mudado o landscape para um som com vozes de menos volume e um pop mais down, eu acho que esse shift na popsfera não se deu com ela e sim com “Somebody That I Used To Know”, que exigia até mesmo que eu AUMENTASSE O VOLUME do meu celular para ouvir a faixa)

Ao mesmo tempo em que hoje não é possível indicar com evidência o que é pop de fato (tem dance? é urban-inspired? tem influência alternativa? é nostálgica?) ou mesmo o que é pop hoje, temos que levar em consideração outro fenômeno que podemos creditar sua atual forma a Drake: músicas que conversam com outros gêneros, cujo estilo é difícil de definir, e que nos leva a fenômenos como Post Malone e agora, um Lil Nas X que conseguiu fazer rock melhor do que Lil Wayne em 2009.

Naquela época as pessoas já achavam o uso excessivo do autotune uma coisa perigosa

Por isso, vamos dividir esse post da seguinte forma: o primeiro ponto é sobre o rap como produto cultural dominante, que finalmente parece estar deixando de ser um “clube do bolinha”… o que é essencial para o fortalecimento do gênero para os anos seguintes.

Nicki Minaj abriu as portas para o rap feminino brilhar no mainstream, mas a impressão que sempre tive era de que no período da sua dominância, havia uma estratégia a la Highlander quando se tratava da cena feminina:

A cada instante nascia um rapper masculino diferente, enquanto poucas femcees surgiam na mesma força – e quando estouravam, ou decaíam por material aquém e péssimas decisões de carreira dentro ou fora das redes sociais (Iggy) ou por péssimas decisões de carreira dentro das redes sociais (Azealia). No entanto, com a ascensão de Cardi B, parece que alguém (the powers to be, a indústria, quem quer que seja) percebeu que havia sim espaço para outras rappers femininas. Aos poucos, o espaço para femcees ascendentes ou artistas que não tinham espaço no mainstream até então começaram a surgir.

Dessa forma, você tem rappers sexualmente confiantes e cheias de personalidade como Megan Thee Stallion (que está na capa da prestigiada XXL na Freshman 2019 – ou seja, quem a revista classifica que serão os grandes nomes do rap neste ano), um som mais raw das City Girls, ou artistas que são tudo e mais um pouco: como você pode definir Lizzo (que encontrou exposição mainstream em seu terceiro álbum) por exemplo?

O crescimento de nomes femininos na cena (seja rap ou R&B) que não sejam Beyoncé ou Rihanna ou Nicki Minaj é importante para a solidificação de um estilo que domina a conversa cultural a cada dia. O BET Awards que ocorreu na semana passada, por exemplo, trouxe todos os astros que bombaram no último ano em apresentações bem produzidas com a plateia vibrando a cada performance. Nada de audiência entediada, shows preguiçosos e artistas que estão lá sem razão. O BET Awards é hoje o que VMA foi há anos atrás, e isso é um testemunho de que o pop perdeu o bonde da história.

E corre ainda mais riscos quando se pensa que você não tem um som específico que indique um denominador comum – e mais chocante ainda: os nomes novos colocaram esse “denominador comum” lá pra longe.

Eu me lembro de ter ouvido “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” da Billie Eilish e achado tudo bem… Esquisito, especialmente pra mim, que tenho preferência em som orgânico e ouvir instrumentos, e aparentemente a ausência de um gênero específico e definido no som também me trouxe um certo incômodo. Mas ouvindo as faixas isoladas, eu percebi como o som é um reflexo de uma geração que não se prende a rótulos, até mesmo na música.

“bad guy”, o single mais perto do #1 neste momento, é pop, mas é radio-friendly da maneira mais esquisita possível, já que tem o mínimo de produção possível, bateria seca e um outro trap que quebra todas as expectativas que você tinha com a música. Já “when the party’s over” me lembra muito aquele pop onírico da Lana del Rey (que a própria cantora já citou como influência). “you should see me in a crown” tem mais influência trap com pegada eletrônica; e certeza que ela ouviu “Black Skinhead” do Kanye na produção de “bury a friend”. Até mesmo material anterior ao debut, como “Ocean Eyes” é diferente. É um pop mais straight to the point, de boa qualidade também.

(a propósito, quem comparou Billie com Lorde estava delirando. Ela é como se fosse uma Lana del Rey adolescente e sem o lado retrô. Se existe alguma semelhança, está no uso de elementos urban para construir uma sonoridade pop, mas enquanto na neozelandeza a estrutura é familiar, aqui você demora a se acostumar com os twists and turns das músicas)

A sonoridade parece all over the place, mas tem uma lógica. Apesar das letras meio diário adolescente existencial (todos nós já passamos por isso), há comando do próprio som e da imagem mostrada nos clipes que parecem trailers de filmes de terror, e dificilmente podem ser reproduzidos ou imitados sem parecer que é alguém sendo tryhard. No geral, mesmo que exista um componente eletrônico no som, é visível que há influências mais pop piano-driven, trap e hip hop, que refletem a dominância dos últimos gêneros no inconsciente coletivo pop nos anos formativos da artista.

Mas ao mesmo tempo, não parece com a sua música pop típica, o que nos leva a uma conclusão: o interesse de Billie Eilish aqui não é em se definir com gêneros, mas ir além da divisão óbvia de gêneros.

Claro que, numa indicação ao Grammy, ” When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” entraria numa categoria pop (mas não me surpreenderia se a gravadora submetesse a “alternative” porque é muito bold para a categoria, talvez?), mas se você pensar em álbuns que desafiam o que você entende por gêneros definidos, o outro “gen-z” que se adequa de forma ainda mais complexa nessa discussão de “gênero é não ter gênero” é…

Se você não é gen-z e já tem uma carreira sedimentada dentro da caixa tradicional, não fique chocado. Afinal de contas, mesmo que exista um público que não nutra mais interesse em você graças à distância entre os artistas atuais e a idade dos novos consumidores de música, ainda há um fandom e um grupo mais maduro e propenso a consumir música de outras formas – sem contar que os Millennials ainda são um público forte que consome, gasta e é fortemente identificado com os artistas. Então, se você não é um artista de rap ou não faz música dentro da caixinha, de que forma você pode se adequar aos novos tempos?

Isso, eu conto no próximo artigo do “Oi Sumida!” Até já!