Se te faz feliz… – “Rain on Me”, Lady Gaga feat. Ariana Grande

Em alguma thread ou post que eu fiz em algum lugar por aqui comentei sobre “being a leader or being a follower”. Se nunca comentei, hora de falar.

Algum artista famoso falou certa feita (digo algum porque realmente não lembro haha) que existem líderes e seguidores. E realmente, existem artistas que são líderes: eles definem tendências, são pioneiros, escancaram as portas para o resto passar e são reconhecidos por isso. Já outros são os seguidores – quem segue a moda, quem está sempre na zona de conforto e não vai sair dela. Está sempre esperando a porta abrir para ele passar.

E também temos os lobos solitários que fazem o seu, fazem sucesso e seguem sua carreira sem maiores tribulações.

Hoje eu vim falar de uma LÍDER, que surgiu escancarando portas e repensando a cultura pop de seu tempo: Lady Gaga, que hoje lançou o segundo single do novo álbum “Chromatica”, a dançante bem house anos 90 “Rain on Me“, com o featuring de Ariana Grande.

Lady Gaga - Rain on Me.png

Uma faixa própria para as festas em boates, caso estivessem abertas e não estivéssemos em meio a uma pandemia mortal, “Rain on Me” segue a linha apresentada por “Stupid Love”, mas aqui com a influência do dance early 90s bem mais forte, as clássicas faixas que merecem vozes poderosas. O que eu achava que seria bastante estranho – o encontro entre as vozes de Gaga e Ariana, já que a abordagem da primeira é mais raspy, rock até; enquanto a segunda tem um trabalho mais pop, suave, com influência R&B, ficou muito bom. As duas funcionam bem juntas, especialmente quando na segunda estrofe da Ariana, a resposta da Gaga ficou bastante melódica e gostosa de ouvir.

Outro ponto que funcionou bem na música foi a letra, que é simples e efetiva, sobre recomeços, renascimentos e o sentimento de carpe diem. Aqui também temos duas abordagens líricas diferentes, mas que também funcionam bem – e mostram que as duas estavam juntas no processo de composição da faixa.

Agora… Vamos aos problemas: ouvi uma, duas, três vezes a música, porque apesar da letra ser bacana e da interação entre as duas artistas ser bem resolvida, havia alguma coisa que não me amarrava, não me conectava – e considerando que o segundo single é a música que não apenas reforça a ideia principal do CD, como também carrega as vendas do álbum, precisa representar muito bem e ser explosiva o suficiente para tornar o seu CD uma experiência fascinante. E em todas as vezes, sabe qual foi a impressão que “Rain on Me” me deu?

On the nose: sabe aquela faixa que diz “olha, eu sou retrô viu? SABE, EU SOU RETRÔ, olha minhas influências!” e ao invés de ser uma experiência divertida ouvir uma faixa visivelmente inspirada em sonoridades de décadas passadas, parece até que é um atestado de “olha como sou musicalmente inteligente” e a música passa por apática, asséptica – porque é apenas uma experiência, uma tentativa de soar “antiga”, mas sem abraçar de fato as nuances e levá-las na alma, conseguindo brincar e trabalhar com naturalidade com esse som.

Gaga fez isso muito bem no “Born This Way”, quando puxa referências anos 80, dance, disco, envolvendo tudo em instrumentais carregados e quase rock ‘n roll.

Comparando com um artista que fez agorinha mesmo um álbum com referências antigas, The Weeknd consegue usar as referências anos 80 em “After Hours” de uma forma extremamente fluida.

Material aquém da Gaga: se você passou pelas várias fases da carreira de Lady Gaga logo após explodir com um material que até hoje é melhor do que 90% dos lançamentos atuais, eu espero excelência. “Rain on Me” não entra nem na edição Target do ARTPOP, sinceramente. Eu espero LADY GAGA, não um material que há sete anos atrás ela sequer usaria e viraria descarte.

Pra mim, essa não é uma atitude de uma artista líder. E sim de uma follower. Ou no mínimo, uma estrela que deseja mostrar que ainda há lugar para ela dentro do zeitgeist atual, mas não da forma que uma líder deve fazer.

E isso me preocupa: a volta ao pop dela parece mais uma volta ao pop para os fãs e a galera que acompanha música, e não para o público no geral – é claro que as pessoas neste momento estão se importando em não morrer, mas antes disso, havia uma busca, uma agonia por novos álbuns e artistas que mostrassem que o pop tinha um caminho, mas… Nossa, “Rain on Me” é o típico top 10 que chega ao top 10 pela força das fã-bases e não exatamente por um crescimento orgânico, por ter sido abraçada por todos os grupos.

(Aliás, qual foi a última canção que você imagina ter sido realmente abraçada organicamente por todos os grupos e chegou ao topo porque foi um sucesso absurdo em todas as plataformas e uniu consumidores de nicho e público em geral, e não porque porque fizeram mutirão de streams?)

O vídeo: o vídeo provavelmente resume o ponto de “leaders and followers”: eu pensei que não teria quase o mesmo tempo da música, e considerei o look inicial com a faca na coxa bem mal aproveitado. De resto, é um vídeo que eu, como consumidora que não faz parte de nenhum dos dois fandoms, não veria outra vez; achei que a paleta de cores merecia mais vibração, um colorido, até porque a letra da música passa um certo sentimento de júbilo; e sinceramente? Não faça duelo de coreô quando seu forte não é coreografia. Gaga é competente na dança – o forte dela sempre foi um movimento repetitivo que nascia icônico (como em “Bad Romance”, por exemplo) – mas não é o suficiente para segurar três minutos de vídeo dançando; o mesmo vale pra Ariana. Além disso, eu entendi que o foco visual da era é essa coisa meio ficção científica, distopia futurista com ar low-budget, mas é possível fazer isso e soar épico. Você é LADY GAGA. Uma de suas marcas registradas são os clipes elaborados, com referências pop bacanas e divertidas, com forte replay value e hype.

Se os dois vídeos que eu vi representam que é essa Gaga pop a qual teremos de nos acostumar, então me informem para que eu pare de comparar com aquela de 2009-13; e isso inclui as músicas também. Se o material que ela apresentou é Lady Gaga hoje, e são essas as músicas que passaram pelo corte final para fazerem parte do seu novo álbum, não comparo mais. Vou focar em ouvir o que ela me apresenta hoje. Nem vou comparar com materiais recentes porque o “Joanne” é um ponto fora da curva do que a Gaga sempre fez e a trilha de “A Star Is Born” é uma comparação injusta – não porque eu queria que ela fizesse aquele som. Não, eu queria que o esforço de qualidade que ela buscou naquele álbum se repetisse aqui.

O triste é que ela mesma colocou o sarrafo lá em cima VÁRIAS VEZES, e eu espero sempre o mais FODA porque Gaga é parte importante de um período bem legal da minha vida, e ela é parte desse meu processo de formação consumindo cultura pop.

Mas, se faz os fãs felizes… Quem sou eu para criticar né?

Últimos lançamentos [1] Uma Lady Gaga apenas eficiente

O ano só começa após o carnaval – e provavelmente o ano neste blog deve começar neste período, mesmo que o Grammy tenha ocorrido há praticamente um mês (e este sim seja o nosso “carnaval”). Entretanto, minha vida fez uma curva de 180° (emprego novo, livro a ser publicado) e agora sim podemos conversar sobre música e os últimos lançamentos! 

Decidi focar em três singles e um CD, com publicações durante a semana, e aos poucos vamos recuperando as discussões de um ano em que eu esperava bem mais dos nomes famosos (oi, Justin Bieber)… E começo hoje com ela mesma, Lady Gaga!

Uma Lady Gaga apenas eficiente

Lady Gaga - Stupid Love.png

A Mother Monster lançou na última sexta-feira (28/02) o lead do seu próximo álbum (chamado “Chromatica”) após um período de verdadeira coqueluche graças ao filme “Nasce uma Estrela” e um álbum pop bem-recebido (“Joanne”). Mas agora, “Stupid Love” é o retorno da Gaga que nós conhecemos: extravagante, dançando muito e com uma música rápida, feita para impactar nas pistas.

“Stupid Love” é uma canção extremamente eficiente. Música pop com vibe disco/dance, visivelmente dentro de uma trend usada por algumas pop stars (como Dua Lipa) de ir atrás dessa sonoridade para sair da dominância rap, podemos considerar um follow-up mais leve de sonoridades similares, apresentadas em “Born This Way” (2011), onde lá a vibe era mais rocker – quase Donna Summer em “Bad Girls” – ainda assim com esse flavor oitentista. O video lançado no mesmo dia é cheio de dança e cores, com referências a programas de TV japoneses como Jaspion e Changeman e o tema principal, a busca pelo amor, é fofo e meio corny. Ou seja, tem a impressão digital da Gaga em cada frame. 

No entanto, confesso que queria ter gostado mais, me envolvido mais, surtado mais com a faixa. É Lady Gaga, não uma act pop random: Gaga é a pessoa que mudou a estética do videoclipe no final da década de 2000 e junto com o BEP, colocou o electropop na cena mainstream de fato; e a música é apenas… Eficiente. Bacaninha, eficiente. Duvido que entraria na tracklist final do “Born This Way” ou mesmo do “Artpop” – no máximo seria a bonus track da edição italiana do álbum. Além disso, o clipe é legal, mas… Não há um grande momento fashion, algo extravagante, nem mesmo a coreografia me parece viral. E pior: o clipe parece barato. 

(importante: parecer barato não significa ser barato. Tem “n” vídeos por aí que parecem baratos por estética e ficam fodas. Esse parece barato e ficou com jeito de low-budget, o que pra mim é surreal em se tratando de Lady Gaga.)

Pior ainda é pensar que Lady Gaga está fazendo isso, quando a gente vê vídeos de kpop entretendo com visuais, trocas de roupa, cenários múltiplos, coreografias divertidas e mesmo quando a música não é lá essas coisas, o vídeo consegue entreter. E importante ressaltar que são os grupos de kpop quem estão dominando o discurso de uma nova geração de consumidores musicais, que provavelmente também são alvo de uma Lady Gaga que quer se reconectar com o público e reforçar sua posição de A-list no olimpo pop. E isso é curioso: uma das maiores popstars dos últimos 10 anos não conseguiu fazer o seu melhor no lead single: entreter.

“Stupid Love” é uma boa música, e bastante eficiente, e seu vídeo deve estar satisfazendo sua fanbase, especialmente porque aqui ela retorna ao pop que a consagrou  Mas, em comparação com o que é amado pelo público atualmente, e com o que Lady Gaga já fez no passado, não é exatamente incrível e extraordinário. Espero que o próximo single ou o álbum sejam melhores do que isso.

E aí, vocês curtiram o novo single da Gaga? Acreditam que esse retorno da Gaga clássica será bem sucedido nessa nova landscape?


O próximo post será de um artista que já “pulou o tubarão” tem algum tempo… Vamos ver se vocês saberão de quem se trata…

Será que existe mesmo a “maldição do quarto álbum”?

Fazer sucesso é um desafio que não começa só quando você lança o CD ou sai em tour. Às vezes, você não passa nem do primeiro single, ou é one-album wonder; mas geralmente pra chegar lá, é um percurso em que você precisa saber quem é musicalmente, ser inteligente, ouvir os mais experientes; e talvez engolir muito sapo (quer dizer, engolir as exigências da gravadora) até ter liberdade para ser “você” como artista.

Geralmente, quando o artista passa do primeiro CD, o segundo álbum é o desafio de mostrar que tem fôlego para resistir aos tubarões da indústria. Já o terceiro CD é, no geral, uma continuidade do sucesso e sedimentação do artista, que às vezes assume alguns riscos, mas nunca sem sair de sua zona de conforto. O quarto álbum, por sua vez, acontece num momento em que o artista, confortável com sua posição, decide que é hora de fazer algo “diferente”.

E é aí que ocorre a merda…

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Eu ouvi a palavra “Oscar”? “Shallow”, Lady Gaga & Bradley Cooper

Impressionante o quanto os últimos anos vem sendo de grandes trilhas sonoras para filmes em Hollywood. Parece que a década de 2010 decidiu retornar aos bons tempos dos anos 80, em que faixas com forte apelo popular eram indicadas e ganhavam Oscar de Canção Original. Podemos colocar na conta de Adele, de todas as pessoas, que tornou “Skyfall” um verdadeiro evento que deu um merecido Oscar a um dos melhores filmes da franquia 007; e depois aparentemente todo mundo do pop apareceu aqui e ali lançando single pra filme, vendo se emplacava aquele Oscar – desde “Happy” (que perdeu pra masterpiece ‘Let It Go”), a emocionante “Glory”; o ano fortíssimo com “‘Til It Happens To You”, “Earned It” e uma das vencedoras mais tenebrosas dos últimos anos “The Writing’s on the Wall” (sem contar que “See You Again” merecia ter chegado até aqui); e ano passado com “Can’t Stop that Feeling”; parece que finalmente o pop voltou a tomar de assalto as categorias de Canção Original com faixas que conseguem ser mais atemporais do que aquelas que alguns artistas ficam lançando sem ser obrigação de filme.

(agora, dai a César o que é de César: quem trouxe de volta a excitação pelo  lançamento de trilhas sonoras de filmes no geral, como mais uma forma de garantir o sucesso da produção, foi justamente “Crepúsculo”, há exatamente dez anos. Até comentei sobre isso nesse post de 2015, que já merece uma atualização)

Pensando nisso, veja como 2018 promete ser outro ano FODA pra se ter músicas indicadas a Original Song. Você tem faixas que são fortes e que fazem parte de um conceito (como “All the Stars”, de “Pantera Negra”), músicas surpreendentemente de acordo com a vibe do filme (a exemplo de “Ashes” em “Deadpool 2”) e pelo que deu pra ver, aqui temos uma música que funciona como canção pop e como música dentro do filme (que evidentemente ainda não vi, e só ouvirei o resto das faixas após assisti-lo).

Estou falando de “Shallow“, primeiro single lançado da trilha sonora de “Nasce uma Estrela“.

Pop/rock anthem pra cantar junto segurando a lanterna do celular, é um tiro curto e direto no seu coração. Na segunda ouvida eu já estava cantando junto; o que indica que os compositores da faixa (incluindo Lady Gaga e Mark Ronson) sabiam exatamente que queriam algo grudento, catchy e que todo mundo se identificasse. O pop atual tá pedindo por isso, e aparentemente, é um musical que fará essa função com maestria.

“Shallow” é um MUSICÃO, com letra simples e EXTREMAMENTE EFETIVA, além de evocativa, melancólica… Não é extremamente elaborada, mas tanto a escolha das palavras e o encontro de vozes entre Gaga e Bradley Cooper (aliás, eu nem imaginava que esse homem cantava tão bem, minha gente) funciona perfeitamente (a timidez que depois explode em glória e liberdade dela; aquela melancolia e um certo cansaço e desesperança dele), o que me faz pensar em quanto o filme deve ser igualmente incrível.

Para os não iniciados, “Nasce uma Estrela” é um filme famoso cujo novo remake, dirigido pelo próprio Bradley, está na sua quarta versão, e já teve regravações com Judy Garland e Barbra Streisend. É a clássica história de um astro famoso que conhece e se apaixona por uma jovem artista iniciante, e enquanto a fama dele decai, a dela só cresce (parece o roteiro de “O Artista” também, mas ok). Confesso que achava esse novo remake uma bomba atômica (quem quer outro “Nasce uma Estrela”, e logo com um diretor novato?), mas o trailer era muito bacana e logo depois as críticas mostraram ser um dos melhores filmes do ano, com sério Oscar Buzz. Ou seja, tudo que cercar “Nasce uma Estrela” tem que ser visto com atenção.

Ainda sobre a música, tem um momento do crescendo, quando Gaga começa a vocalizar e a música vai subindo pra explodir no rock anthem e nessa hora é que ela te pega. A estrutura não é tão óbvia, mas é super sincera. E aparentemente, tem muita relação com o filme, o que para os votantes dessa categoria, é essencial.

Por último, mas não menos importante: lançar “Shallow” agora, no finzinho de setembro, e não na quinta dia 04.10, por exemplo, foi a melhor decisão da vida de quem está cuidando da divulgação desse filme, porque 

  1. tem tempo de concorrer ao Grammy 2019 (Colaboração Pop tá uma VERGONHA, essa faixa entra pra dar o mínimo de respeitabilidade àquilo – se bem que ainda tem Mídia Visual…);
  2. se é o que eu tô pensando, é a música submetida ao Oscar que vão fazer aquele buzz maior. Sempre tem uma ou duas que gostam de submeter, mas tem aquela que investem mais.

Pois bem, e vocês, o que acharam de “Shallow”? Acreditam que esse Oscar finalmente vai pra casa da Gaga?

Dez anos de Lady Gaga

 

Extravagante, complexa, divertida, polêmica, um fenômeno pop que ajudou a pavimentar o caminho para o eletropop se tornar popular e o retorno da cultura do videoclipe no final da década passada. Lady Gaga chegou aos dez anos de carreira já com um legado poderoso em mãos – na música, na imagem e na moda. Mas como essa mulher que foi a mais falada e discutida por três anos sem parar se encontra num novo contexto cultural? E o que o futuro reserva a Gaga? Saiba mais no novo vídeo do canal Duas Tintas de Música!

(finalmente!)

 

Como chegamos aos indicados a [4] Melhor Álbum Pop

Essa é uma pergunta que mesmo às portas do Grammy, eu não sei bem como responder – especialmente dadas as esnobadas aqui e ali, e a construção do Big Four. Mas de maneira geral, os indicados nesta categoria são os indicados de um período em que o pop prosseguiu sendo uma nota de rodapé no zeitgeist musical, enquanto o rap e o urban dominavam (e ainda dominam) a cena.

Exceto por Ed Sheeran, evidentemente o último pop star que restou (o resto ou flopou ou underperformed ou está no R&B), os outros grandes nomes trouxeram trabalhos cujos resultados não causaram grande impressão. Katy Perry, o pior caso, até trouxe um CD interessante (eu já disse que gosto do “Witness”, só acho a playlist bagunçada e o CD longo, com fillers desnecessários), mas nada rendeu – exceto pelo lead single, “Chained to The Rhythm”. Miley Cyrus flopou forte, mas foi tão anticlimático que nem foi punchline na pop culture. Selena não lançou CD (e quem sabe quando lançará), Demi fez sucesso com “Sorry Not Sorry”, mas isso não se traduziu em indicação…

Lady Gaga na verdade ressuscitou para o grande público com o Superbowl (o que eu acho que será o caso do Timberlake); enquanto Kesha trouxe um dos grandes álbuns do ano que deveria ser mais ouvido – mas a RCA tem uma inabilidade ridícula com divulgação.

No entanto, a questão não é só os materiais dos artistas atuais não serem interessantes de fato em relação à variedade e inquietação do rap/urban atual. O próprio pop parece em meio a uma fase down, pra baixo, com refrões focados mais no grave que no agudo, e pouca diversão. A música pop, mesmo quando é “politizada”, é escapista, divertida e quer te fazer dançar – e nada em 2017 no pop me fez querer dançar (e o sucesso dos ritmos latinos e latino-oriented como “Havana” mostra que as pessoas desejam escapismo de tempos controversos). Tanto que enquanto o rap conseguiu divertir e ser conceitual ao mesmo tempo (onde Kendrick e Migos conviveram em harmonia), o pop quis ser “conceito” – até mesmo com acts que nunca venderam conceito – e agora precisam recorrer ao urban para reencontrar a notoriedade perdida.

Enquanto 2019 não chega com o retorno do pop a momentos mais felizes (o que venho duvidando bastante com o tipo de material que os a-lists vem lançando), hora de conferir o que restou ao Grammy para lidar com o momento no tempo.

Em primeiro lugar, os indicados ao prêmio de Melhor Álbum Pop:

Coldplay – Kaleidoscope EP
Lana Del Rey – Lust for Life
Imagine Dragons – Evolve
Kesha – Rainbow
Lady Gaga – Joanne
Ed Sheeran – ÷

A análise de cada álbum segue com o pulo:

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Como chegamos aos indicados a… [1] Pop Solo Performance

08

Num ano em que o pop se solidificou como um ritmo “marginal” dentro do mainstream (enquanto o rap e o urban se tornaram de fato os ritmos principais da cultura pop), faz até algum sentido as canções associadas ao ritmo não terem feito o corte final no General Field. Evidentemente, todos os “adivinhos” e outros jornalistas pensavam nas divisões de fields e artistas de destaques no ano em que passou (como a gente tinha comentado no esquenta relacionado ao Record of the Year), mas a surpresa foi que o Grammy realmente focou no que fez sucesso e dominou o mainstream, deixando de lado acts famosos e A-lists da música.

Pessoalmente, exceto pela exclusão do Ed Sheeran (que teve um dos maiores hits do ano e pelo menos em ROTY sua indicação era compreensível), ver os resultados no General Field é um sopro de ar fresco em que finalmente o Grammy compreendeu que ele precisa não apenas escolher a excelência em música, assim como a excelência que está relacionada ao que o público realmente ouve nas rádios, celulares e serviços de streaming. Concorde-se ou não com a decisão da Academia, o que interessa é que muitos dos favoritos dos fãs de música pop ficaram restritos ao field – um sinal surpreendente, quando observamos premiações anteriores, mas um reflexo do que realmente houve no período de elegibilidade (e não um “fantástico mundo de Bobby” dos votantes da Academia).

(se essa tendência foi só para este ano, devido a pressões externas, ou se é um sinal de renovação por parte dos jurados, isso só o tempo dirá. Sou cínica e acho que é só uma cortina de fumaça, infelizmente.)

Essa introdução é importante para compreendermos como nós chegamos até esta configuração de indicados a Pop Solo Performance, uma categoria que sempre foi o termômetro para as vitórias em Record (e também Song), mas que agora servirá ou como prêmio de consolação para quem foi esnobado no General Field, ou a consagração de acts em momentos distintos da carreira.

Vamos aos indicados:

“Love So Soft” – Kelly Clarkson
“Praying” – Kesha
“Million Reasons” – Lady Gaga
“What About Us” – P!nk
“Shape Of You” – Ed Sheeran

A análise segue após o pulo!

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