Pós-festa: Grammy Awards 2018

Não queria ser a pessoa que diz “eu te disse”, mas… Eu te disse.

A vitória (que podemos chamar de shocking upset) de Bruno Mars na 60ª edição do Grammy Awards ocorrida ontem à noite (domingo, 28) foi uma surpresa pra muita gente – seis Grammys, uma verdadeira limpa, com três vitórias no Big Four – e colocou o havaiano na lista dos Grammy Darlings como Adele, além de 11 vitórias em casa e um dos artistas mais populares e celebrados da década. No seu field, ele era o favorito para levar, e nós já tínhamos ventilado que o rapaz tinha chance de levar em Song of The Year, além de ser o principal rival de Kendrick Lamar no prêmio de Álbum do Ano.

Tudo isso foi falado e discutido tanto no Drops quanto nos posts do blog. E não deveria ser uma surpresa. Quer dizer, na hora em que o nome “24k Magic” deu as caras em Record, eu comecei a ver a “solução Lionel Richie” se formando. Mesmo antes, quando saíram as premiações que seriam dadas no pre-telecast (a premiação que não é televisionada), deu pra ver o que ia acontecer. Você imagina, prevê, mas pensa que vai acontecer o oposto.

(na verdade, a derrota do Kendrick Lamar estava escrita na estrelas desde 28 de novembro, quando a Academia revelou os indicados finais e em AOTY tinham dois álbuns de rap)

Mas eu não pretendo falar mal dos indicados e sim tentar apontar o resultado dentro de um contexto.

 

Tensão x escapismo

O Grammy é um prêmio da indústria, e como tal, deve congratular quem vendeu e trouxe credibilidade a ela. Ao mesmo tempo, é uma premiação que ainda não consegue refletir o espírito do tempo (como surpreendentemente o Oscar consegue, mesmo com tantos problemas de representatividade). Ano após ano, álbuns academicamente perfeitos para os jurados vencem outros que são mais inventivos, ou mais de acordo com o inconsciente coletivo (seja musicalmente ou na tradução de inquietações sociais ou pessoais), e este ano, quatro desses indicados representaram isso bem – e a própria premiação tentou captar o “espírito do tempo” com apresentações carregadas de política e statements fortes em discursos.

Mas então, por que o grande vencedor era o álbum mais leve?

(e por que o vencedor no pop field foi justamente o cara que esnobou a premiação por birra? essa é uma pergunta que infelizmente não saberei a resposta)

Sobre a vitória do “24k Magic”, por mais que seja o álbum mais “fraco” entre os indicados, ainda é um dos mais populares, e com um apelo que atravessa gostos musicais pessoais, já que o Bruno é um artista que atinge todas as idades. Mas acima de tudo, é um álbum escapista, que usa de nostalgia dos anos 80 como memória afetiva, uma válvula de escape para uma época mais inocente e sem problemas (como boletos). É um álbum seguro das tensões e problemáticas de um “DAMN.”, “4:44”, “Awaken, My Love!” ou mesmo a inquietação sentimental do “Melodrama”. É um álbum divertido, fresh e agradável como uma brisa; é a hora de esquecer por um instante que o mundo tá a um passo de acabar e dançar, nem que seja só um pouco.

Só que era o ano para falar de tensionamentos. De tomar uma postura. De gritar contra o racismo, machismo, a xenofobia, e dar o prêmio a “Despacito” como A Gravação do Ano (e que visivelmente foi tratado como uma “modinha de verão” e não como single sólido e vibrante, fresh, vivo, moderno, current, que sempre foi). E premiar o “DAMN.” como Álbum do Ano porque Kendrick conseguiu fazer sucesso com um álbum comercial do jeito dele e falando de assuntos sérios como black excellence, black experience e política sem perder o flow.

(afinal de contas, o que mais é necessário para Kendrick ganhar esse treco?)

Em Song, eu não daria o prêmio para “Hotline Suicide”, honestamente. A música é importante, mas ruim, os versos são clichês e a escrita pedestre. Por incrível que pareça, o Grammy está em boas mãos – a estrutura de “That’s What I Like” e a forma como foi construída é brilhante.

***

Mas voltando ao assunto principal, enquanto o Grammy Awards tentou se conectar com o que acontecia numa premiação bem irregular aliás (foram inúmeras apresentações e quase nada de prêmios entregues), falhando miseravelmente em tomar uma postura mais forward-thinking em relação aos vencedores, qual é o problema, afinal de contas?

 

O problema não é individual. É estrutural.

Não é culpa do Bruno Mars (artista aliás que nutro uma profunda admiração e deve ser uma das pessoas mais talentosas a pisar naquele palco). Ou da Adele. Ou dos stans no twitter.

Pensa no seguinte: a situação já estava formada quando definiram os finalistas e haviam dois álbuns de rap pra dividir votos. Dentro dos jurados já existia um viés, e os jurados (que são produtores, executivos, músicos, artistas) representam o microcosmo de toda a indústria musical. Como essa indústria, que a cada dia que passa é SURRADA pelo streaming, ainda está tão fora de contato com a realidade? O rap é o gênero mais ouvido pelos americanos, os artistas que mais bombam no Spotify são rappers; as músicas mais vistas no YouTube são latinas! Por que cargas d’água o Grammy não reflete isso em suas vitórias?

Por mais que o “24k Magic” seja um CD de R&B extremamente consistente, e eu nem me lembro mais da última vez em que um álbum de R&B levou o prêmio, sabemos que muita da exposição do R&B neste ano com o Bruno se dá pelo fato de que, apesar dele não ser branco, ele não é negro (Bruno tem pai portorriquenho e mãe filipina), mas há uma ambiguidade suficiente para que o público geral o leia como negro. Ou seja, a indústria continua dando apoio o R&B se não é feito por negro. As gravadoras ainda tem resistência absurda para cantoras negras de R&B; o R&B sem influência urban ou rap (há muitos puristas que detestam o R&B feito por SZA e Khalid) inexiste de forma crossover se você não se chama Bruno Mars (e tem gente fazendo esse som por aí mas nem as rádios do field dão apoio). E aí? Como dizer que determinados gêneros são rejeitados no Grammy se a própria indústria nega esse apoio?

A própria indústria cria feuds desnecessários entre rappers femininas.

A própria indústria alimenta que só tenham duas cantoras negras na cena.

A própria indústria trata acts latinos como “modinhas” e a música latina como “a outra”. (e quando você descobre que o Bruno Mars teve problemas antes da fama porque queriam colocar ele como artista latino por causa de um sobrneome e ele queria cantar pop, você entende que a indústria ainda pensa como se vivêssemos nos anos 70)

A própria indústria – e seus apoiadores, como veículos de mídia – alimenta feuds femininos no pop, questiona créditos femininos, coloca as artistas em caixinhas, explora seus trabalhos para depois arrotar hipocrisia no twitter (sim, Sony Music!)…

O problema é mais do que um indivíduo, é da indústria musical como um todo, e que ano após ano alimenta falsas esperanças de que finalmente veremos um Grammy com reflexo do que as pessoas realmente curtem, do que está lá fora, e opta pela válvula confiável de escape (tanto na sonoridade quanto na temática ou na imagem), pra dizer “we are soo woke y’all!”.

 

Qual a solução?

É necessário o Kendrick Lamar lançar um CD de rap que não pareça rap pra levar o prêmio (a la OutKast?) Precisam os grandes nomes boicotarem a premiação para alguém fazer alguma coisa? Eu particularmente não tenho respostas manifestas aqui, só estou tentando pensar (e nem li outras thinkpieces nem olhei o twitter que deve estar uma loucura até agora),  e nem acho que o boicote seja a solução – a ausência de acts mais inventivos no Grammy o tornaria mais fora da realidade do que ele é.

Entretanto, espero sinceramente que, qualquer que seja o retorno do público, de articulistas e de outros membros da indústria sobre o prêmio de domingo, os membros do Grammy tenham a decência de ouvir, absorver e tomar decisões não apenas olhando para si, para suas convicções; e sim para o que há lá fora. O Grammy sempre foi o prêmio da indústria para refletir os artistas mais bem sucedidos em diversas esferas, e não o prêmio para a indústria fazer o discurso diante do próprio espelho.

 

Agora é com vocês! Acompanharam a premiação ontem? O que acharam dos vencedores? Fiquem à vontade para comentar!

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Como chegamos aos indicados a [4] Melhor Álbum Pop

Essa é uma pergunta que mesmo às portas do Grammy, eu não sei bem como responder – especialmente dadas as esnobadas aqui e ali, e a construção do Big Four. Mas de maneira geral, os indicados nesta categoria são os indicados de um período em que o pop prosseguiu sendo uma nota de rodapé no zeitgeist musical, enquanto o rap e o urban dominavam (e ainda dominam) a cena.

Exceto por Ed Sheeran, evidentemente o último pop star que restou (o resto ou flopou ou underperformed ou está no R&B), os outros grandes nomes trouxeram trabalhos cujos resultados não causaram grande impressão. Katy Perry, o pior caso, até trouxe um CD interessante (eu já disse que gosto do “Witness”, só acho a playlist bagunçada e o CD longo, com fillers desnecessários), mas nada rendeu – exceto pelo lead single, “Chained to The Rhythm”. Miley Cyrus flopou forte, mas foi tão anticlimático que nem foi punchline na pop culture. Selena não lançou CD (e quem sabe quando lançará), Demi fez sucesso com “Sorry Not Sorry”, mas isso não se traduziu em indicação…

Lady Gaga na verdade ressuscitou para o grande público com o Superbowl (o que eu acho que será o caso do Timberlake); enquanto Kesha trouxe um dos grandes álbuns do ano que deveria ser mais ouvido – mas a RCA tem uma inabilidade ridícula com divulgação.

No entanto, a questão não é só os materiais dos artistas atuais não serem interessantes de fato em relação à variedade e inquietação do rap/urban atual. O próprio pop parece em meio a uma fase down, pra baixo, com refrões focados mais no grave que no agudo, e pouca diversão. A música pop, mesmo quando é “politizada”, é escapista, divertida e quer te fazer dançar – e nada em 2017 no pop me fez querer dançar (e o sucesso dos ritmos latinos e latino-oriented como “Havana” mostra que as pessoas desejam escapismo de tempos controversos). Tanto que enquanto o rap conseguiu divertir e ser conceitual ao mesmo tempo (onde Kendrick e Migos conviveram em harmonia), o pop quis ser “conceito” – até mesmo com acts que nunca venderam conceito – e agora precisam recorrer ao urban para reencontrar a notoriedade perdida.

Enquanto 2019 não chega com o retorno do pop a momentos mais felizes (o que venho duvidando bastante com o tipo de material que os a-lists vem lançando), hora de conferir o que restou ao Grammy para lidar com o momento no tempo.

Em primeiro lugar, os indicados ao prêmio de Melhor Álbum Pop:

Coldplay – Kaleidoscope EP
Lana Del Rey – Lust for Life
Imagine Dragons – Evolve
Kesha – Rainbow
Lady Gaga – Joanne
Ed Sheeran – ÷

A análise de cada álbum segue com o pulo:

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Como chegamos aos indicados a [3] Gravação/Canção do Ano

Eu acompanho Grammy Awards desde 2007 (ano em que as Dixie Chicks fizeram aquele baita comeback com “Not Ready To Make Nice”), mas de uma forma mais consciente a partir de 2011. Nessa época, eu já curtia música observando os charts e resenhas; e por causa desse tempinho assistindo ao Grammy, talvez eu nunca tenha visto uma disputa tão imprevisível como este Big Four de 2018. Honestamente, não me lembro de categorias com tantas possibilidades (e pior, sem favoritos em categorias-chave como Canção do Ano) e com favoritos que são tão diferentes do que se premia usualmente. Não tem um pop puro (que seria cortesia de “Shape of You”, bem ou mal merecedor ao menos de ROTY) – o que mostra em que momento esteve a música pop entre 2016 e 2017; os indicados são de minorias (três negros, três latinos – um deles com ascendência asiática) e o único branco é canadense. As sonoridades – rap, R&B, soul e reggaeton – são fruto dessas minorias e absolutamente representativas do estado da música nesse período. É evidente que o Grammy não virou “woke” do nada (e suspeito que para 2019 voltaremos aos mesmos números de antes, exceto se tivermos um álbum absurdo da Cardi B, a Camila conseguir se manter no topo este ano e a Nicki arrombar a festa), e é importante chamarmos a atenção para as construções de narrativa que foram feitas pra chegar a esse diverso, criativo e muito talentoso grupo de indicados; mas mesmo que muitos reclamem de como chegamos a este corte final de Gravação e Canção do Ano, é inegável que é uma lista respeitável e um reflexo exato do que houve na indústria. A proximidade é real.

Apesar de considerar o lineup de Canção muito light, muito suave (tem música com “mensagem” mas a faixa melhor trabalhada é a do Jay-Z), o fato é que estamos falando mais uma vez de um grupo diverso etnicamente e por idades, sonoridades e influências, o que é um espelho também da sociedade americana e de certa forma, um espelho nosso, tão globalizados e ao mesmo tempo tentando nos identificar com algo, ou alguém. No fim das contas, quem “forçou” ser “too-american” não conseguiu seguir em frente (sim, Lady Gaga), e quem não tinha nenhuma identidade bateu na trave (você mesmo, Ed Sheeran), ficando aqui quem tem alguma conexão com o zeitgeist, seja musical ou cultural.

Neste post, dividido em dois, vou falar um pouco sobre o contexto das indicações a Gravação do Ano (em que a emergência de excelentes músicas e grandes hits amplia o desafio de uma bancada com seus vieses em premiar canções com sonoridades rejeitadas pelo júri conservador) e Canção do Ano (onde a falta de um favorito pode ser a dica para resolver as tensões em Álbum do Ano) e quem são os meus favoritos e dark horses da edição.

É só conferir após o pulo!

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Como chegamos aos indicados a… [2] Performance Pop Duo/Grupo

É inegável que a categoria de Performance Pop Duo/Grupo, desde a junção dos fields em 2012, se tornou uma das mais disputadas e uma das mais propensas a vitórias dos grandes hits dentro do período de elegibilidade. Especialmente nesta década, em que parcerias se tornaram sucessos mais confiáveis que faixas solo (cantores com rappers, DJs com cantores), levar esse prêmio acabou se tornando a oportunidade de ouro para acts pouco amados pelo Grammy terem a chance de ter um gramofone pra chamar de seu – imagina só, Iggy Azealia, LMFAO e Jessie J já foram indicados por aqui.

Este ano, apesar dos grandes hits serem, além de faixas solo, contribuições de artistas de urban/hip hop, tivemos talvez o grande hit do ano e um acontecimento cultural que foi uma colaboração. Um remix cantado majoritariamente em espanhol, com trechos em inglês de um artista anglo-saxônico, que se tornou coqueluche mundial e nos EUA, igualou um recorde até então imbatível da Billboard de 16 semanas em #1 e talvez seja o símbolo desafiador de um ano em que os latinos sofreram com o preconceito e o desprezo de Trump, e o retorno veio em grande força no entretenimento – “Despacito” é mais que um hit monstruoso. Podemos chamar até de um ato político.

Uma vitória aqui é, talvez, meio caminho andado para voos muito maiores, mais precisamente em Gravação do Ano. No entanto, a dúvida que persiste é: os votantes do Grammy vão se restringir a lembrar “Despacito” como indicação ou premiar com um gramofone?

Antes de responder a essa e outras perguntas, seguem os indicados:

“Something Just Like This” – The Chainsmokers & Coldplay
“Despacito” – Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber
“Thunder” – Imagine Dragons
“Feel It Still” – Portugal. The Man
“Stay” – Zedd feat. Alessia Cara

A análise vai no pulo!

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Drops Grammy 2018 [2] “Melodrama”, Lorde

Dando continuidade ao Drops Grammy 2018, o papo de hoje será a respeito do segundo álbum indicado ao principal prêmio da noite, Álbum do Ano – o “Melodrama”, da Lorde. Único CD feminino pop (em termos) dentro da lista final, foi aclamado criticamente e considerado um dos melhores do ano. No entanto, apesar de aparentemente ser um óbvio concorrente ao “DAMN.” do Kendrick Lamar, a menina Lorde está numa frágil posição dentro da corrida pelo gramofone graças às maquinações da Academia, que indicaram a jovem neozelandesa a apenas UMA categoria – justamente a mais importante da noite, com um histórico de polêmicas recentes.

Quais as chances de vitória da Lorde?

E por que a posição dela é tão frágil entre os concorrentes?

Confira as respostas a essas e outras perguntas no novo vídeo! Aperte play!

 

Como chegamos aos indicados a… [1] Pop Solo Performance

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Num ano em que o pop se solidificou como um ritmo “marginal” dentro do mainstream (enquanto o rap e o urban se tornaram de fato os ritmos principais da cultura pop), faz até algum sentido as canções associadas ao ritmo não terem feito o corte final no General Field. Evidentemente, todos os “adivinhos” e outros jornalistas pensavam nas divisões de fields e artistas de destaques no ano em que passou (como a gente tinha comentado no esquenta relacionado ao Record of the Year), mas a surpresa foi que o Grammy realmente focou no que fez sucesso e dominou o mainstream, deixando de lado acts famosos e A-lists da música.

Pessoalmente, exceto pela exclusão do Ed Sheeran (que teve um dos maiores hits do ano e pelo menos em ROTY sua indicação era compreensível), ver os resultados no General Field é um sopro de ar fresco em que finalmente o Grammy compreendeu que ele precisa não apenas escolher a excelência em música, assim como a excelência que está relacionada ao que o público realmente ouve nas rádios, celulares e serviços de streaming. Concorde-se ou não com a decisão da Academia, o que interessa é que muitos dos favoritos dos fãs de música pop ficaram restritos ao field – um sinal surpreendente, quando observamos premiações anteriores, mas um reflexo do que realmente houve no período de elegibilidade (e não um “fantástico mundo de Bobby” dos votantes da Academia).

(se essa tendência foi só para este ano, devido a pressões externas, ou se é um sinal de renovação por parte dos jurados, isso só o tempo dirá. Sou cínica e acho que é só uma cortina de fumaça, infelizmente.)

Essa introdução é importante para compreendermos como nós chegamos até esta configuração de indicados a Pop Solo Performance, uma categoria que sempre foi o termômetro para as vitórias em Record (e também Song), mas que agora servirá ou como prêmio de consolação para quem foi esnobado no General Field, ou a consagração de acts em momentos distintos da carreira.

Vamos aos indicados:

“Love So Soft” – Kelly Clarkson
“Praying” – Kesha
“Million Reasons” – Lady Gaga
“What About Us” – P!nk
“Shape Of You” – Ed Sheeran

A análise segue após o pulo!

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Anotaram a placa do caminhão que me atropelou?

Eu ainda estou tonta com as indicações ao Grammy 2018 – sinceramente, nunca imaginei que a lista final (especificamente o General Field) seria como foi. Deve ser o Big Four mais current e alinhado com as tendências atuais e o landscape musical, além de ter o nome mais surpreendente – pra mim – do ano. Algumas pessoas citaram o Jay-Z em alguns fóruns, mas ele nunca foi um nome forte nas listas finais. A presença dele em Canção/Gravação e Álbum do Ano mexeram completamente com as previsões de muita gente e no caso de AOTY, torna a corrida para o prêmio a mais improvável dos últimos anos.

Porque eu não sei mais se o Kendrick Lamar está tão garantido assim com a vitória.

Aparentemente a bancada ouviu as reclamações dos últimos anos e deram espaço a acts negros e latinos no Big Four. Temos em AOTY três negros e um latino; em Record, três negros e três latinos; e entre os últimos, quatro em Canção (Julia Michaels tem origem mexicana). Os indicados em artista revelação também apresentam essa diversidade. É importante ressaltar que o espaço dado às minorias no Grammy, mesmo que pareça (e tem jeito de) “ato de bondade” (mesmo que saibamos que é uma cortina de fumaça para ano que vem voltar a ser “tudo a mesma coisa”), e sim reconhecimento de quem realmente movimenta e lança trends no mercado musical. Quem realmente domina o mainstream e deveria receber mais crédito.

Para a 60ª edição do Grammy, a promessa é de mais surpresas do que eu pensava – se eu achava que a noite seria dispersa com vários prêmios espalhados para artistas distintos, agora acho que se bobear, vai ter gente saindo com um prêmio cada (ou pelo menos um artista dominando seu field). Surpresas como a indicação de “Despacito” em Gravação E Canção; as indicações recebidas pela Kesha (lembra-se de que eu achava que ela só teria chance em Pop Solo – e conquistou uma indicação merecida, maravilhosa, por Álbum Pop?); o Grammy mostrar algum amor pela Lana del Rey; as indicações pro Childish Gambino (Donald Glover), coroando um ano maravilhoso para o rapaz, que já em tem casa Globo de Ouro e Emmy. Será que rola Grammy no caminho?

Entre surpresas e indicações até óbvias (Lady Gaga no pop field, as indicações do K-Dot e do Bruno Mars, até mesmo a indicação dos Imagine Dragons), a esnobada que talvez seja a mais dolorida foi a do Ed Sheeran. Para muitos (eu mesma!) era lock em Record, tinha chances altas de levar prêmio e era o rival perfeito do “DAMN.”, mas a Academia simplesmente restringiu o medíocre “÷” nas categorias onde ele deve estar, pelo apelo comercial e abrangência pop, no field pop. E sinceramente? Não duvido nada de que o ruivo saia de mãos vazias da premiação. A categoria em que ele está se tornou forte demais.

Já a Lorde, podemos desconfiar do objetivo do Grammy em relação a essa indicação solitária para Álbum do Ano. Acredito que ela pode não ter conseguido os votos suficientes para fazer o corte final no Pop Field, mas os votantes do General Field “empurraram” a indicação da neozelandeza em AOTY por objetivos políticos – para que a lineup não fosse totalmente masculina. Lorde é uma artista com aclamação da crítica, ninguém acharia estranho. Só que soa pouco sutil a única mulher indicada a Álbum do Ano ser branca. Como se fosse uma “safe choice” caso os votos se dividam.

Dadas essas considerações (e perguntas para queimar sua mente), vamos acompanhar calmamente essa campanha do Grammy, mas a corrida do Big Four vai ser surpreendente. Vai depender muito dos fields e dos gostos dos votantes (e da política, claro). Aposto que eles vão encontrar uma solução safe, mas edgy, pra ninguém ficar chateado.

Agora é hora de conferir os indicados ao Grammy 2018!

RECORD OF THE YEAR
Redbone – Childish Gambino
Despacito – Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber
The Story Of O.J. – JAY-Z
HUMBLE. – Kendrick Lamar
24K Magic – Bruno Mars

 

ALBUM OF THE YEAR
“Awaken, My Love!” – Childish Gambino
4:44 – JAY-Z
DAMN. – Kendrick Lamar
Melodrama – Lorde
24K Magic – Bruno Mars

 

SONG OF THE YEAR
Despacito – Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber
4:44 – JAY-Z
Issues – Julia Michaels
1-800-273-8255 – Logic feat. Alessia Cara
That’s What I Like – Bruno Mars

 

BEST NEW ARTIST
Alessia Cara
Khalid
Lil Uzi Vert
Julia Michaels
SZA

 

BEST POP SOLO PERFORMANCE
“Love So Soft” – Kelly Clarkson
“Praying” – Kesha
“Million Reasons” – Lady Gaga
“What About Us” – P!nk
“Shape Of You” – Ed Sheeran

 

BEST POP DUO/GROUP PERFORMANCE
“Something Just Like This” – The Chainsmokers & Coldplay
“Despacito” – Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber
“Thunder” – Imagine Dragons
“Feel It Still” – Portugal. The Man
“Stay” – Zedd feat. Alessia Cara

 

BEST POP VOCAL ALBUM
“Kaleidoscope EP” — Coldplay
“Lust for Life” — Lana Del Rey
“Evolve” — Imagine Dragons
“Rainbow” — Kesha
“Joanne” — Lady Gaga
“÷” — Ed Sheeran

 

BEST DANCE RECORDING
Bambro Koyo Ganda – Bonobo Featuring Innov Gnawa
Cola – Camelphat & Elderbrook
Andromeda – Gorillaz Featuring DRAM
Tonite – LCD Soundsystem
Line Of Sight – Odesza Featuring WYNNE & Mansionair

 

BEST DANCE/ELECTRONIC ALBUM
“Migration” — Bonobo
“3-D the Catalogue” — Kraftwerk
“Mura Masa” — Mura Masa
“A Moment Apart” — Odesza
“What Now” — Sylvan Esso

 

BEST URBAN CONTEMPORARY ALBUM
“Free 6lack” — 6lack
“Awaken, My Love!” — Childish Gambino
“American Teen” — Khalid
“CTRL” — SZA
“Starboy” — The Weeknd

 

BEST R&B ALBUM
Freudian – Daniel Caesar
Let Love Rule – Ledisi
24K Magic – Bruno Mars
Gumbo – PJ Morton
Feel The Real – Musiq Soulchild

 

BEST RAP PERFORMANCE
“Bounce Back” — Big Sean
“Bodak Yellow” — Cardi B
“4:44” — Jay-Z
“HUMBLE.” — Kendrick Lamar
“Bad and Boujee” — Migos featuring Lil Uzi Vert

 

BEST RAP ALBUM
“4:44” — Jay-Z
“DAMN.” — Kendrick Lamar
“Culture” — Migos
“Laila’s Wisdom” — Rapsody
“Flower Boy” — Tyler, the Creator

 

BEST LATIN POP ALBUM
“Lo Único Constante” — Alex Cuba
“Mis Planes Son Amarte” — Juanes
“Amar y Vivir en Vivo Desde la Ciudad de México, 2017” — La Santa Cecilia
“Musas (Un Homenaje al Folclore Latinoamericano en Manos de los Macorinos)” — Natalia Lafourcade
“El Dorado” — Shakira

 

BEST LATIN ROCK, URBAN OR ALTERNATIVE ALBUM
“Ayo” — Bomba Estéreo
“Pa’ Fuera” — C4 Trío and Desorden Público
“Salvavidas de Hielo” — Jorge Drexler
“El Paradise” — Los Amigos Invisibles
“Residente” — Residente

 

BEST SONG WRITTEN FOR VISUAL MEDIA
City Of Stars – Justin Hurwitz
How Far I’ll Go – Lin-Manuel Miranda
I Don’t Wanna Live Forever (Fifty Shades Darker) – Jack Antonoff
Never Give Up – Sia Furler & Greg Kurstin
Stand Up For Something – Common & Diane Warren

 

BEST MUSIC VIDEO
Up All Night – Beck
Makeba – JAIN
The Story Of O.J. – JAY-Z
HUMBLE. – Kendrick Lamar
1-800-273-8255 – Logic feat. Alessia Cara

Vamos começar as análises dos indicados ao Grammy com uma categoria que se tornou de cara a mais excitante dos últimos anos – Pop Solo Performance. Habemus competição!

(e sobre as análises de indicados a Álbum do Ano, tem uma novidade chegando por aí, que não vou contar até que apareça aqui no blog… Fique de olho)