Um bate-papo sobre posicionamento

Em primeiro lugar, #BLACKLIVESMATTER #VidasNegrasImportam

Em segundo lugar, esse vídeo trata sobre o posicionamento dos artistas no Brasil e no mundo a respeito de questões relacionadas ao povo negro, mas acima de tudo, é um convite para a gente conversar sobre a importância dessa palavra mais assertiva, como também de reforçar que a nossa existência, como negros, já é um posicionamento por si só.

Neste vídeo, vamos falar sobre:

  • Como um assalariado pode se posicionar em questões sociais (e no nosso caso, raciais)
  • Posicionamento de artistas negros;
  • Posicionamento de artistas que trabalham com a cultura negra (mas não são negros);
  • Como artistas brancos podem ajudar;
  • Aulinhas rápidas de história;
  • E alguns áudios dessincronizados que passei horas tentando ajeitar.

É um vídeo pessoal, então não tomem como última palavra, e é uma perspectiva bem individual. Tem várias pessoas comentando também sobre o assunto, com base em outras vivências, e vale a pena ouvir todas elas.

Qual o panorama da cultura pop após a COVID?

A pandemia do coronavírus mudou as nossas rotinas de trabalho, estudo, e nos fez repensar também a nossa relação com o consumo. Mas o mercado musical e a produção artística também mudaram neste período: artistas em quarentena parecem mais produtivos, ainda mais próximos de seus fãs, ou mais ociosos… Um panorama excepcional que pode ser normalizado num futuro pós-pandemia.

Por isso, lanço a questão: o que será da cultura pop, consumo de música e produção musical após este momento de pandemia?

Neste vídeo, a gente vai falar um pouco sobre:
– Novas formas de produzir clipes
– Cultura DIY
– Artistas ociosos inventando moda
– Exemplos positivos de conteúdo bacana e viral com as redes sociais

A famosa carta de Lana del Rey

Todo o stan twitter acordou com aquela boa e velha intriga digna dos bons tempos pré-quarentena: Lana Del Rey publicou uma carta em seu instagram questionando a forma como sua música era criticada por suas temáticas, focando em relacionamentos abusivos, e questões emocionais sérias. Todos sabemos que discussão de relacionamentos tóxicos é parte do liricismo de Lana, incluindo as simbologias relacionadas ao American Way Of Life, que parecem bastante nostálgicas, mas sempre considerei que havia uma crítica, uma ironia dentro do discurso.

Pois bem, o que rendeu B.O. foi justamente o primeiro parágrafo, onde Lana cita nominalmente artistas como Doja Cat, Ariana Grande, Camila Cabello, Cardi B, Kehlani, Nicki Minaj e Beyoncé, por terem chegado à primeira posição com músicas de cunho sexual, enquanto ela canta também sobre assuntos considerados “problemáticos” e é criticada.

Como eu tinha dito nos tweets iniciais sobre esse caso, o problema dessa carta é: é compreensível a chateação de Lana por não ser valorizada como artista, mas as artistas escolhidas para fazer essa pontuação foram mal selecionadas e o timing do discurso péssimo.

Por quê?

Vamos dissecar:

Lana Del Rey é uma artista subestimada, ponto.

Toda a estética tumblr pós-2012 e essa coisa meio moody, as vozes meio oníricas, com certa impostação, se devem muito à Lana. Não teríamos Halsey ou Billie se Lana não tivesse oferecido espaço para essa linha mais sentimental sem barreiras ou rótulos, mas com uma estética puxada pela internet.

Lana Del Rey - Born To Die (2012, CD) | Discogs

Dona de um conceito artístico forte, você sabe o que Lana Del Rey faz de cara, e qual a sonoridade dela, assim como a imagem. E por isso, acho que a crítica a respeito das críticas às suas letras devem ser direcionadas à indústria, aos críticos, a quem quer que seja, sem nominar outras artistas.

Porque o fato é que: mesmo fazendo bons álbuns, alguns aclamados, isso não se traduz em prêmios. E aí é que está o dilema – especialmente quando uma de suas “filhas” sonoras fez a rapa no Grammy neste ano, e você não chegou lá. Isso provavelmente é doloroso, e deve ser por isso que ela escreve algo como “no entanto, também acredito que isso abriu caminho para mulheres pararem de ‘por um sorriso no rosto’ e simplesmente serem capazes de dizerem o que quiserem em suas músicas”.

E aí é que está o outro problema.

Honestidade em relacionamentos e relacionamentos tóxicos não são primazia de Lana.

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familiares para vocês? Lana não é a primeira nem será a última a falar sobre esse tipo de situação na música pop mundial, e Carly Simon já trollou um ex nos anos 70 (“You’re So Vain”), então a tradição de female singer-songwriter usando música como diário de merdas que os homens fazem em suas vidas é tão antigo quanto escrever músicas.

O que pode ser creditado à Lana é a estética, como ela empacota os temas e transforma em música, a música que você ouve e diz “isso é Lana”.

Além disso, a seleção de artistas é extremamente problemática, e vamos ao terceiro ponto.

Temos que racializar o debate.

Eu sou uma mulher negra. Todo o debate na minha vida é racializado. Então, não escreva uma rant incluindo em sua maioria mulheres negras que sofrem com escrutínio em suas carreiras – e em seu liricismo da mesma forma que Lana, e até pior, porque são negras… – porque você vai ser acusada de? Isso mesmo, de racismo.

Mesmo com canções que falam de sexo, trair, nudez, como ela citou no primeiro parágrafo, essas artistas são criticadas da mesma forma, e até pior, porque para nós, mulheres negras, qualquer passo em falso somos completamente excluídas de qualquer discurso. Alguém ouviu o nome Janet Jackson?

Janet Jackson Reveals The Secret To Her Happiness In ESSENCE's ...

Ah, e ao responder nos comentários sobre as reações das pessoas a respeito da carta, Lana diz que “ama” essas cantoras, e as conhece, e “there are certain women that culture doesn’t want to have a voice it may not have to do with race I don’t know what it has to do with”.
(há algumas mulheres que a ‘cultura’ não quer que tenham uma voz; pode não ter a ver com raça, eu não sei o que tem a ver”)

Detalhe: tem a ver com raça. Tem a ver com raça o fato de que mulheres negras cantando pop ficam restritas ao field de “Urban Contemporary”, que mulheres negras são o gatekeeper da cultura nos EUA (e aqui no Brasil também), mas nossa estética só é aceita no corpo da branca. R&B feminino só é aceito na voz da branca. Nicki Minaj demorou mais de dez anos para chegar ao #1 mas foi Iggy Azalea quem chegou antes. Tudo tem a ver com raça. Madonna foi execrada no começo da década de 90 com o Erotica e o livro Sex, e toda uma postura altamente sexualizada e extravagante, que assustou os conservadores, mas no final da década voltou a ser a rainha do pop celebrada; Janet Jackson mostrou o bico do seio no Superbowl e foi colocada no ostracismo.

Então, tudo tem a ver com raça. Não dá pra tirar raça do pacote, nem quando você inclui duas cantoras brancas dentro da discussão (Ariana e Camila – esta última latina para os americanos, mas branca da mesma forma), quando em sua maioria, são selecionadas na sua rant mulheres negras que fazem música negra.

No final dos comentários, Lana pontua que ela defende o lugar no feminismo para mulheres que parecem e agem como ela, no sentido de “don’t look strong or necessarily smart, or like they’re in control etc. it’s about advocating for a more delicate personality” (“que não pareçam fortes ou necessariamente inteligentes, ou que estejam no controle; é sobre advogar por uma personalidade mais delicada”). De novo, racializando o debate, mulheres brancas sempre foram vistas como mulheres delicadas, frágeis, enquanto mulheres negras sempre foram colocadas como agressivas, “que aguentam tudo por que são fortes” etc. Essa posição a qual Lana luta já existe desde sei lá, SEMPRE.

Então entramos no ponto que eu acho que é essencial…

Lana é uma ótima artista. Mas sua música não é radiofônica o suficiente para fazer crossover.

Como eu já disse, e já repeti, a estética de Lana Del Rey é bastante visível e marcante, sua musicalidade é fácil de sacar de cara, suas letras são “epa, isso é Lana Del Rey” e sua voz é bastante distinta no meio pop. Lana é reconhecível. Entretanto, mesmo com remixes de suas canções, participações em músicas de artistas mais radiofônicos como The Weeknd, Ariana e Miley Cyrus, o fato é que Lana del Rey não vai fazer o sucesso que ela acreditou que deveria fazer (enquanto outras artistas que, sim, beberam de sua fonte, conseguiram #1 e aclamação) porque ela não é radiofônica o suficiente. O som dela e imagem não vão casar com uma rádio top 40 e vida que segue, sabe? Você pode não fazer sucesso e um top 10 na Billboard, mas ser aclamada no seu nicho, saca?

Confira o clipe de "Lust For Life", de Lana Del Rey em parceria ...

E dá pra sentir isso quando Lana entra numa faixa visivelmente pop (“Don’t Call me Angel”) e fica destoando porque definitivamente não é a área dela. E quando está com um Abel, que navega bem entre o alternativo e o pop, ela fica mais à vontade porque se trata de um artista muito parecido com ela.

(e sabe de uma? se ela faz um crossover pop para atrair o top 40, perde toda a essência de quem ela é, e toda a mística em torno de sua imagem. Fazer algo assim seria fatal para sua carreira.)

Eu acho que uma rant como essa não deveria sequer ser direcionada, ou escrita (a tal “question for the culture” que soou tão ruim, porque “for the culture” é uma expressão muito popular entre a comunidade negra americana) num notes do iPhone, e sim transferida para música – como ela mesma disse no final do texto.

Fale mal, faça indiretas, seja assertiva na sua música, mas sem citar nomes de pessoas que sequer tem a mesma sonoridade que você. Se ela tivesse citado Billie, Halsey, ou Lorde, eu ainda consideraria deselegante, mas teria uma lógica na crítica. Mas Beyoncé, com quase 25 anos anos de carreira? Kehlani, uma artista do R&B field?

Então, minha conclusão é: a carta vem de uma inquietação muito justa – “por que não valorizam minha música e criticam minhas letras, elas vem de um lugar que também deve ser levado em consideração”, independentemente se você concorda ou não com o que Lana escreve – mas a escolha das artistas e o timing foi muito ruim, porque as artistas citadas continuam sofrendo escrutínio pelo que escrevem, pela forma como se comportam – incluindo as cantoras que não são negras e estão citadas no texto.

Além disso, a escolha de palavras, determinadas expressões, precisam ser pensadas de forma muito cautelosa, porque você vai ser acusada de ser uma Karen de forma bem coerente.

No fim, talvez seja mais bacana entender que você é uma excelente artista que pode não atravessar o caminho do “alternativo” para o “radiofônico”, e que é bem melhor assim, porque corre risco de perder quem você realmente é no caminho.

Sugestão? Da próxima vez, transforma em música.