Coragem – Lady Gaga, “Chromatica”

Demorou um pouco para que eu terminasse de ouvir uma, duas, três vezes, e analisar com calma o “Chromatica” da Lady Gaga, o retorno ao pop da mother monster, e sem fazer comparações com materiais anteriores (como eu havia prometido).

Na verdade, só tentarei inserir um único álbum antigo nesta discussão, e apenas no final. Tentarei apenas focar na discussão sobre trazer Gaga como uma major force novamente no pop, em músicas que trabalham com um estilo que está se configurando como a tendência, mas com uma maturidade que apenas o tempo de carreira dá – e como esse contexto é positivo e ao mesmo tempo negativo.

Por isso, hora de dividir a análise em dois pontos – o BOM e o RUIM:

Maturidade artística nas letras: com as letras mais maduras e introspectivas em anos de carreira, Lady Gaga em “Chromatica” tem uma jornada de recuperação, cura e de autoconhecimento, não apenas como artista mas também como pessoa. Se amar antes de amar o outro, se curar das próprias tensões pessoais, a liberdade das próprias escolhas; a qualidade das letras e o processo de autorreflexão de uma Gaga que já viu e passou de tudo só vem quando você tem uma história na música que te permite escrever exatamente isso. E é tão gostoso ver uma artista escrevendo de forma tão profunda, mas numa estética pop que torna todo o material acima do que está sendo feito no pop atualmente.

Dentro da tracklist, os singles são bons de verdade: Vocês já sabem que eu não sou fã de “Stupid Love” e “Rain on Me”, os primeiros singles do álbum, mas dentro da tracklist, eles funcionam muito bem, e acabam se tornando highlights. O combo dos dois juntos é matador, e passamos boa parte do álbum sentindo falta desse combo.

As melhores faixas são as menos óbvias, mais weird Gaga: materiais como “911” e “Sour Candy” são momentos mais bacanas da Gaga e o que a gente espera quando pensamos no que ela pode apresentar, e em que momento da carreira ela está. Depois disso, o grande momento dela é de fato “Sine from Above”, com Elton John, que apesar de correr na mesma sonoridade do resto do “Chromatica”, tem uma beleza na letra que supera qualquer similaridade melódica com o resto do CD. Exceto por “911”, as outras duas são as músicas com maior potencial de serem singles, apesar de não gritarem HIT MASSIVO e #1 na Billboard (exceto se rolar aquele mutirão gostoso).

Coesão não é fazer um álbum todo idêntico: o álbum tem major production do BloodPop, e ter um produtor meio que coordenando todo o álbum ajuda a manter a coesão. Todo grande álbum precisa dessa mão para apoiar essa condução e não transformar o seu CD num apanhado. Entretanto, a coesão do álbum, visivelmente inspirado no dance anos 90 (que é a tendência musical do momento e outros artistas pop vão acabar se rendendo a essa sonoridade para se diferenciar da dominação rap nos charts), torna-se um problema quando em vários momentos eu pareço estar ouvindo o mesmo CD, e as músicas acabam parecendo trilha de academia. Não foi apenas uma vez que eu me senti ouvindo a música que vou usar pra fazer o supino após a pandemia, e olha que eu odeio música de academia.

Arranjos não valorizam as letras: por conta dessa coesão quase que idêntica, os arranjos acabam sendo aquém das letras que os acompanham. Você tem uma música repleta de ironia e crítica como “Plastic Doll” que fica parecendo um eletropop que eu ouvi na década passada, ou “Fun Tonight” que tem uma letra ótima de break-up song e vira um dance que você ouviu em qualquer lugar. Eu particularmente fiquei bem incomodada, até porque as letras ficam desconsideradas em meio à vibe “academia” do álbum.

43 minutos que duram: todos vocês sabem que eu tenho ASCO a álbuns muito longos. Mesmo com três interludes, “Chromatica” tem 16 faixas na versão standard, e apesar das faixas curtas, algumas com até menos de três minutos, ao todo são 43 minutos que não passam. Parece jogo de futebol 0x0 em que nada acontece. Para um álbum que está o tempo todo em uptempo, com poucas quebras, é um fail – e que provavelmente pdoeria ser resolvido se a tracklist tivesse sido rearrumada de alguma forma.

Too safe for my taste: Aqui vem a origem do título da resenha: “coragem”. Sabemos que Gaga voltou a fazer pop, dance-pop nos termos que ela vinha fazendo antes, e esse material é produzido perfeitamente para que faça sucesso, deixe os fãs saudosos da Gaga pop felizes e seja trilha sonora da vida das pessoas neste momento de pandemia – ou seja, atingindo o grande público. E sabe o que é interessante? Vai funcionar, porque Gaga é uma artista com grande aderência e conseguiu em seus rebrandings, se colocar novamente como uma artista que atinge um público maior do que o fandom.

Entretanto, eu esperava mais. Mais faixas pouco óbvias, mais desconstrução, mais surpresas. Até mesmo mais faixas com cara de single, fico pensando o que ela pode buscar aqui para lançar e prosseguir a divulgação da era. Esperava que o som me levasse a algo sem fronteiras, que me divertisse, que representasse esse colorido que eu esperava que fosse a era (aliás, qual é o conceito MESMO desse álbum?), e por fim, o resultado é bastante seguro – e plenamente compreensível: Gaga não pode errar, precisa pegar o bonde da história e dominar esse bonde, como toda artista que sabe liderar é capaz.

Por fim, o fato é que: depois do “Chromatica”, eu vou valorizar ainda mais o esforço de uma Gaga em 2013 que fez “ARTPOP”, mesmo com tantas questões pessoais envolvidas (e a gente sabe que ela não estava bem na época), mas houve um esforço de fazer um material que continuasse testando os limites do pop que ela mesma construiu, e num ponto bastante incipiente na carreira; e tentando conversar com o grande público de maneira radiofônica.

Na verdade, isso faz com que eu valorize ainda mais “Born This Way” (2011) e o que ela fez tão cedo em sua trajetória. Só acerta (e erra) quem tenta, e talvez a juventude nos faça ser mais corajosos, mais destemidos.

Quando se chega a um certo ponto na vida, pensamos em segurança, e isso é ótimo. De certa forma, eu posso pensar assim porque sou assalariada, mas quando se é uma 11x Grammy Winner e Oscar Winner que indiscutivelmente é uma lenda de sua geração, essa segurança é uma faca de dois gumes. Pensando numa trajetória repleta de altos e baixos, de rebrandings e renascimentos, Gaga faz certo porque entrega o que os fãs querem ouvir e a recoloca de maneira segura (de novo) dentro de um contexto pop onde o que ela representa não é mais o discurso principal; mas para quem tem esse currículo, a gente espera muito mais.

Mas minha opinião é só uma opinião gente – “Chromatica” vai concorrer a uma caralhada de prêmios.

Se te faz feliz… – “Rain on Me”, Lady Gaga feat. Ariana Grande

Em alguma thread ou post que eu fiz em algum lugar por aqui comentei sobre “being a leader or being a follower”. Se nunca comentei, hora de falar.

Algum artista famoso falou certa feita (digo algum porque realmente não lembro haha) que existem líderes e seguidores. E realmente, existem artistas que são líderes: eles definem tendências, são pioneiros, escancaram as portas para o resto passar e são reconhecidos por isso. Já outros são os seguidores – quem segue a moda, quem está sempre na zona de conforto e não vai sair dela. Está sempre esperando a porta abrir para ele passar.

E também temos os lobos solitários que fazem o seu, fazem sucesso e seguem sua carreira sem maiores tribulações.

Hoje eu vim falar de uma LÍDER, que surgiu escancarando portas e repensando a cultura pop de seu tempo: Lady Gaga, que hoje lançou o segundo single do novo álbum “Chromatica”, a dançante bem house anos 90 “Rain on Me“, com o featuring de Ariana Grande.

Lady Gaga - Rain on Me.png

Uma faixa própria para as festas em boates, caso estivessem abertas e não estivéssemos em meio a uma pandemia mortal, “Rain on Me” segue a linha apresentada por “Stupid Love”, mas aqui com a influência do dance early 90s bem mais forte, as clássicas faixas que merecem vozes poderosas. O que eu achava que seria bastante estranho – o encontro entre as vozes de Gaga e Ariana, já que a abordagem da primeira é mais raspy, rock até; enquanto a segunda tem um trabalho mais pop, suave, com influência R&B, ficou muito bom. As duas funcionam bem juntas, especialmente quando na segunda estrofe da Ariana, a resposta da Gaga ficou bastante melódica e gostosa de ouvir.

Outro ponto que funcionou bem na música foi a letra, que é simples e efetiva, sobre recomeços, renascimentos e o sentimento de carpe diem. Aqui também temos duas abordagens líricas diferentes, mas que também funcionam bem – e mostram que as duas estavam juntas no processo de composição da faixa.

Agora… Vamos aos problemas: ouvi uma, duas, três vezes a música, porque apesar da letra ser bacana e da interação entre as duas artistas ser bem resolvida, havia alguma coisa que não me amarrava, não me conectava – e considerando que o segundo single é a música que não apenas reforça a ideia principal do CD, como também carrega as vendas do álbum, precisa representar muito bem e ser explosiva o suficiente para tornar o seu CD uma experiência fascinante. E em todas as vezes, sabe qual foi a impressão que “Rain on Me” me deu?

On the nose: sabe aquela faixa que diz “olha, eu sou retrô viu? SABE, EU SOU RETRÔ, olha minhas influências!” e ao invés de ser uma experiência divertida ouvir uma faixa visivelmente inspirada em sonoridades de décadas passadas, parece até que é um atestado de “olha como sou musicalmente inteligente” e a música passa por apática, asséptica – porque é apenas uma experiência, uma tentativa de soar “antiga”, mas sem abraçar de fato as nuances e levá-las na alma, conseguindo brincar e trabalhar com naturalidade com esse som.

Gaga fez isso muito bem no “Born This Way”, quando puxa referências anos 80, dance, disco, envolvendo tudo em instrumentais carregados e quase rock ‘n roll.

Comparando com um artista que fez agorinha mesmo um álbum com referências antigas, The Weeknd consegue usar as referências anos 80 em “After Hours” de uma forma extremamente fluida.

Material aquém da Gaga: se você passou pelas várias fases da carreira de Lady Gaga logo após explodir com um material que até hoje é melhor do que 90% dos lançamentos atuais, eu espero excelência. “Rain on Me” não entra nem na edição Target do ARTPOP, sinceramente. Eu espero LADY GAGA, não um material que há sete anos atrás ela sequer usaria e viraria descarte.

Pra mim, essa não é uma atitude de uma artista líder. E sim de uma follower. Ou no mínimo, uma estrela que deseja mostrar que ainda há lugar para ela dentro do zeitgeist atual, mas não da forma que uma líder deve fazer.

E isso me preocupa: a volta ao pop dela parece mais uma volta ao pop para os fãs e a galera que acompanha música, e não para o público no geral – é claro que as pessoas neste momento estão se importando em não morrer, mas antes disso, havia uma busca, uma agonia por novos álbuns e artistas que mostrassem que o pop tinha um caminho, mas… Nossa, “Rain on Me” é o típico top 10 que chega ao top 10 pela força das fã-bases e não exatamente por um crescimento orgânico, por ter sido abraçada por todos os grupos.

(Aliás, qual foi a última canção que você imagina ter sido realmente abraçada organicamente por todos os grupos e chegou ao topo porque foi um sucesso absurdo em todas as plataformas e uniu consumidores de nicho e público em geral, e não porque porque fizeram mutirão de streams?)

O vídeo: o vídeo provavelmente resume o ponto de “leaders and followers”: eu pensei que não teria quase o mesmo tempo da música, e considerei o look inicial com a faca na coxa bem mal aproveitado. De resto, é um vídeo que eu, como consumidora que não faz parte de nenhum dos dois fandoms, não veria outra vez; achei que a paleta de cores merecia mais vibração, um colorido, até porque a letra da música passa um certo sentimento de júbilo; e sinceramente? Não faça duelo de coreô quando seu forte não é coreografia. Gaga é competente na dança – o forte dela sempre foi um movimento repetitivo que nascia icônico (como em “Bad Romance”, por exemplo) – mas não é o suficiente para segurar três minutos de vídeo dançando; o mesmo vale pra Ariana. Além disso, eu entendi que o foco visual da era é essa coisa meio ficção científica, distopia futurista com ar low-budget, mas é possível fazer isso e soar épico. Você é LADY GAGA. Uma de suas marcas registradas são os clipes elaborados, com referências pop bacanas e divertidas, com forte replay value e hype.

Se os dois vídeos que eu vi representam que é essa Gaga pop a qual teremos de nos acostumar, então me informem para que eu pare de comparar com aquela de 2009-13; e isso inclui as músicas também. Se o material que ela apresentou é Lady Gaga hoje, e são essas as músicas que passaram pelo corte final para fazerem parte do seu novo álbum, não comparo mais. Vou focar em ouvir o que ela me apresenta hoje. Nem vou comparar com materiais recentes porque o “Joanne” é um ponto fora da curva do que a Gaga sempre fez e a trilha de “A Star Is Born” é uma comparação injusta – não porque eu queria que ela fizesse aquele som. Não, eu queria que o esforço de qualidade que ela buscou naquele álbum se repetisse aqui.

O triste é que ela mesma colocou o sarrafo lá em cima VÁRIAS VEZES, e eu espero sempre o mais FODA porque Gaga é parte importante de um período bem legal da minha vida, e ela é parte desse meu processo de formação consumindo cultura pop.

Mas, se faz os fãs felizes… Quem sou eu para criticar né?

Últimos lançamentos [1] Uma Lady Gaga apenas eficiente

O ano só começa após o carnaval – e provavelmente o ano neste blog deve começar neste período, mesmo que o Grammy tenha ocorrido há praticamente um mês (e este sim seja o nosso “carnaval”). Entretanto, minha vida fez uma curva de 180° (emprego novo, livro a ser publicado) e agora sim podemos conversar sobre música e os últimos lançamentos! 

Decidi focar em três singles e um CD, com publicações durante a semana, e aos poucos vamos recuperando as discussões de um ano em que eu esperava bem mais dos nomes famosos (oi, Justin Bieber)… E começo hoje com ela mesma, Lady Gaga!

Uma Lady Gaga apenas eficiente

Lady Gaga - Stupid Love.png

A Mother Monster lançou na última sexta-feira (28/02) o lead do seu próximo álbum (chamado “Chromatica”) após um período de verdadeira coqueluche graças ao filme “Nasce uma Estrela” e um álbum pop bem-recebido (“Joanne”). Mas agora, “Stupid Love” é o retorno da Gaga que nós conhecemos: extravagante, dançando muito e com uma música rápida, feita para impactar nas pistas.

“Stupid Love” é uma canção extremamente eficiente. Música pop com vibe disco/dance, visivelmente dentro de uma trend usada por algumas pop stars (como Dua Lipa) de ir atrás dessa sonoridade para sair da dominância rap, podemos considerar um follow-up mais leve de sonoridades similares, apresentadas em “Born This Way” (2011), onde lá a vibe era mais rocker – quase Donna Summer em “Bad Girls” – ainda assim com esse flavor oitentista. O video lançado no mesmo dia é cheio de dança e cores, com referências a programas de TV japoneses como Jaspion e Changeman e o tema principal, a busca pelo amor, é fofo e meio corny. Ou seja, tem a impressão digital da Gaga em cada frame. 

No entanto, confesso que queria ter gostado mais, me envolvido mais, surtado mais com a faixa. É Lady Gaga, não uma act pop random: Gaga é a pessoa que mudou a estética do videoclipe no final da década de 2000 e junto com o BEP, colocou o electropop na cena mainstream de fato; e a música é apenas… Eficiente. Bacaninha, eficiente. Duvido que entraria na tracklist final do “Born This Way” ou mesmo do “Artpop” – no máximo seria a bonus track da edição italiana do álbum. Além disso, o clipe é legal, mas… Não há um grande momento fashion, algo extravagante, nem mesmo a coreografia me parece viral. E pior: o clipe parece barato. 

(importante: parecer barato não significa ser barato. Tem “n” vídeos por aí que parecem baratos por estética e ficam fodas. Esse parece barato e ficou com jeito de low-budget, o que pra mim é surreal em se tratando de Lady Gaga.)

Pior ainda é pensar que Lady Gaga está fazendo isso, quando a gente vê vídeos de kpop entretendo com visuais, trocas de roupa, cenários múltiplos, coreografias divertidas e mesmo quando a música não é lá essas coisas, o vídeo consegue entreter. E importante ressaltar que são os grupos de kpop quem estão dominando o discurso de uma nova geração de consumidores musicais, que provavelmente também são alvo de uma Lady Gaga que quer se reconectar com o público e reforçar sua posição de A-list no olimpo pop. E isso é curioso: uma das maiores popstars dos últimos 10 anos não conseguiu fazer o seu melhor no lead single: entreter.

“Stupid Love” é uma boa música, e bastante eficiente, e seu vídeo deve estar satisfazendo sua fanbase, especialmente porque aqui ela retorna ao pop que a consagrou  Mas, em comparação com o que é amado pelo público atualmente, e com o que Lady Gaga já fez no passado, não é exatamente incrível e extraordinário. Espero que o próximo single ou o álbum sejam melhores do que isso.

E aí, vocês curtiram o novo single da Gaga? Acreditam que esse retorno da Gaga clássica será bem sucedido nessa nova landscape?


O próximo post será de um artista que já “pulou o tubarão” tem algum tempo… Vamos ver se vocês saberão de quem se trata…