Drops Grammy 2018 [4] “Awaken, My Love!”, Childish Gambino

O Grammy Awards está bem perto (faltam menos de duas semanas para a grande noite) e o Drops Grammy 2018 chega ao clássico momento indie dos indicados a Álbum do Ano. O Grammy sempre cotiza uma parte dos indicados para os artistas alternativos desde os tempos do Beck (que até ganhar com o “Morning Phase”, tinha batido na trave umas duas vezes), Radiohead, The White Stripes, Arcade Fire, Alabama Shakes e aquele ano em que todo mundo era indie, pop ou não (2013, com a vitória do Mumford & Sons).

Para 2018, esse espaço é ocupado com glórias merecidas por Donald Glover aka Childish Gambino. Ator, rapper, roteirista, diretor e um dos caras mais queridos da turma nerd/geek e do pessoal que acompanha cultura pop, ele surpreendeu todo mundo com o cuidadoso e incrivelmente bem-trabalhado “Awaken, My Love!“, tomando emprestado referências do funk e do soul dos anos 70 com uma vibe surpreendentemente futurista. A indicação em Álbum do Ano, apesar de surpreendente (já que muitos garantiam no mínimo o single “Redbone” no Big Four), não é injusta – é um grande CD.

Mas será que o CD mais “diferentão” do corte final tem alguma chance nessa premiação? Dê play no vídeo e confira!

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Como chegamos aos indicados a [3] Gravação/Canção do Ano

Eu acompanho Grammy Awards desde 2007 (ano em que as Dixie Chicks fizeram aquele baita comeback com “Not Ready To Make Nice”), mas de uma forma mais consciente a partir de 2011. Nessa época, eu já curtia música observando os charts e resenhas; e por causa desse tempinho assistindo ao Grammy, talvez eu nunca tenha visto uma disputa tão imprevisível como este Big Four de 2018. Honestamente, não me lembro de categorias com tantas possibilidades (e pior, sem favoritos em categorias-chave como Canção do Ano) e com favoritos que são tão diferentes do que se premia usualmente. Não tem um pop puro (que seria cortesia de “Shape of You”, bem ou mal merecedor ao menos de ROTY) – o que mostra em que momento esteve a música pop entre 2016 e 2017; os indicados são de minorias (três negros, três latinos – um deles com ascendência asiática) e o único branco é canadense. As sonoridades – rap, R&B, soul e reggaeton – são fruto dessas minorias e absolutamente representativas do estado da música nesse período. É evidente que o Grammy não virou “woke” do nada (e suspeito que para 2019 voltaremos aos mesmos números de antes, exceto se tivermos um álbum absurdo da Cardi B, a Camila conseguir se manter no topo este ano e a Nicki arrombar a festa), e é importante chamarmos a atenção para as construções de narrativa que foram feitas pra chegar a esse diverso, criativo e muito talentoso grupo de indicados; mas mesmo que muitos reclamem de como chegamos a este corte final de Gravação e Canção do Ano, é inegável que é uma lista respeitável e um reflexo exato do que houve na indústria. A proximidade é real.

Apesar de considerar o lineup de Canção muito light, muito suave (tem música com “mensagem” mas a faixa melhor trabalhada é a do Jay-Z), o fato é que estamos falando mais uma vez de um grupo diverso etnicamente e por idades, sonoridades e influências, o que é um espelho também da sociedade americana e de certa forma, um espelho nosso, tão globalizados e ao mesmo tempo tentando nos identificar com algo, ou alguém. No fim das contas, quem “forçou” ser “too-american” não conseguiu seguir em frente (sim, Lady Gaga), e quem não tinha nenhuma identidade bateu na trave (você mesmo, Ed Sheeran), ficando aqui quem tem alguma conexão com o zeitgeist, seja musical ou cultural.

Neste post, dividido em dois, vou falar um pouco sobre o contexto das indicações a Gravação do Ano (em que a emergência de excelentes músicas e grandes hits amplia o desafio de uma bancada com seus vieses em premiar canções com sonoridades rejeitadas pelo júri conservador) e Canção do Ano (onde a falta de um favorito pode ser a dica para resolver as tensões em Álbum do Ano) e quem são os meus favoritos e dark horses da edição.

É só conferir após o pulo!

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