Ótimos álbuns [2] Britney Spears – “Blackout”

Atualmente vivemos no auge do urban e rap como sonoridade dominante nos charts. Nomes já consagrados como Drake dividindo espaço com grupos estouradíssimos (Migos), artistas na ascendente (a exemplo do pavoroso Post Malone e no urban/R&B, SZA, Khalid, Kehlani…), talvez o momento mais bacana pra ser rapper feminina desde os anos 90 (com a Cardi estourando e todo mundo sedento pelo comeback da Nicki) e a reverência aos clássicos (Jay-Z), bem como a solidificação de um novo poeta de sua geração (o genial Kendrick Lamar). Nem vou falar dos hits virais de rappers com nome Lil/Young/similares que volta e meia ficam nos primeiros lugares das playlists do Spotify.

No entanto, entre 2008-11, o que dominava o mundo pop era o eletropop, que monopolizou as rádios, definiu carreiras (oi BEP), lançou fenômenos (Lady Gaga) e outros acts na esteira (como a Kesha quando usava $), fez artistas entrarem na onda para se manter na mídia (como Usher e boa parte dos artistas de R&B daquele período) e ainda deu muito dinheiro ao Flo Rida e suas farofas famosíssimas. O eletropop cresceu à medida em que os downloads digitais capitaneados pelo iTunes se tornaram a principal plataforma de consumo de música nesse período específico e o sinal mais forte de que uma música seria sucesso ou não.

Image of the upper body of a brunette woman standing in front of brightly colored squares. She is wearing a pink dress and white fedora.Mas nada disso seria possível se não fossem os pioneiros. Apesar do dance-pop (que é um outro organismo musical) já ter sido usado musicalmente no começo da década, a encarnação eletropop com autotune em todas as faixas, batidas eletrônicas, eletro se infiltrando em outros ritmos e fazendo fusões que até hoje muita gente tem opiniões divergentes sobre essa mistura (os puristas do R&B que o digam) surgiu alguns anos depois, perto do final da década. Se os dois CDs que popularizaram o som para o mainstream pop foram o “The Fame” (2008) e o “The E.N.D.” (2009), quem podemos creditar como um dos pioneiros, oferecendo antecipadamente tudo aquilo que veríamos nos anos seguintes, foi justamente a fonte mais impensável – Britney Spears, a princesa do pop, que todos achavam apenas uma performer que colocava a voz nas músicas, e vivia uma fase complicada na carreira (separada do ex-marido Kevin Federline, mídia e público avaliando e julgando sua vida de mulher solteira e independente, TMZ e X17 ganhando horrores de dinheiro com as fotos dela), lançou um CD fabuloso e atemporal, “Blackout“, em 2007. Ou seja, há quase 11 anos, Britney deu régua e compasso para quem desejava fazer eletropop talvez com o melhor trabalho do gênero entre os artistas pop mainstream que trabalharam no som em todos aqueles anos.

Misturando eletropop, eurodisco (na incrivelmente retrô “Heaven on Earth”, inspirada em Donna Summer), R&B eletrônico e vozes sussurantes, efeitos vocais, vocais em camadas e Britney em fuck y’all mode, as letras faziam todo sentido para a vida dela: noites intermináveis, sexo, romances, liberdade feminina, indiretas ao ex e à mídia sensacionalista, e produtores que a entendiam (como Bloodshy & Avant e o espetacular Danja ❤ ). Mesmo não tendo escrito as letras, é fato que as músicas são as mais pessoais do catálogo, e nada no CD parece forçado ou estranho. A voz da Britney, mesmo quando entre efeitos, é tão reconhecível que mostra a inteligência de uma das intérpretes mais subestimadas do pop.

“Blackout” é atemporal no eletropop de “Gimme More”, com quem eu tinha uma estranha relação – achava pavorosa na época que foi lançada (“muito autotune, clipe ruim”) – meu eu de 17 anos era bem chatinho, confesso, mas hoje, eu acho uma puta música pop, que não envelheceu uma vírgula; no eletro-R&B antecipadíssimo de “Hot as Ice”, que parece ter sido feita em 2010 mas ainda dá pra dançar em 2018; até mesmo nas batidas de “Perfect Lover”, “Get Naked” e “Break the Ice”, que parecem coisa de um Timbaland 2.0 – mas não é por nada, já que Danja era o protegé de Timbo, mas um protegé que superou o mentor de uma forma tão absurda que hoje essas músicas são timeless enquanto as batidas do Timbaland soam reciclagem do “One of a Million” da Aaliyah que tem mais de 20 anos.

O CD é deliciosamente sacana e irônico com “Piece of Me”, uma biografia da Britney mandando todo mundo se foder com gosto (gente, imagina que no auge da internet dos anos 2000 as pessoas nos fóruns apostavam quando a Britney ia morrer); sexy em diversos níveis com “Toy Soldier”, a própria “Break the Ice”, em “Ooh Ooh Baby” e “Radar” (que a Britney teve a AUDÁCIA de colocar a música no “Circus” e lançar como single hahahaha no fucks to give); e na única contribuição do Pharrell no CD, “Why Should I Be Sad” é uma mensagem nada cifrada contra o ex-marido, com uma produção menos eletrônica que as outras faixas, um pop/R&B inspired super agradável de ouvir, com a melodia leve, mas a letra cheia de veneno haha e uma produção que consegue ser mais criativa do que tudo que foi feito por ele no Homem da Floresta.

Um álbum icônico não apenas nas músicas, mas também em quotes (“It’s Britney, bitch!”, óbvio; e meio mundo usava em fóruns “another day another drama”), “Blackout” antecipou as sonoridades e tendências do eletropop (e por consequência, da música pop em geral), no final daquela década. Além disso, é um álbum consistente, equilibrado e sem interesse em seguir as tendências do momento – e sim, definir uma sonoridade que fosse de acordo com as letras e a vibe que a Britney queria alcançar. O resultado foi justamente um CD que entregou para o pop mainstream os insumos necessários para fazer o eletropop se tornar o som dominante do final da década.

Longa vida à Princesa do Pop!

(okay, agora é com você: qual é o álbum das antigas – ou que tenha sido lançado ano retrasado mesmo – que você quer uma resenha? Pode sugerir nos comentários!)

 

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