Últimos lançamentos [3] Seguindo o blueprint para o bem ou para o mal

Continuando as resenhas sobre os lançamentos pré-Corona (ainda vou me debruçar em especial nos últimos lançamentos de fato antes da quarentena e isolamento social), hora de falar sobre algo que gera discussão e tretas tanto quanto quem ganha o Grammy: trilha sonora do James Bond.

Apesar do novo filme do 007 ter sido adiado para novembro (por causa do coronavírus), a música-tema de “No Time to Die” já foi lançada em 13/02 (considerando que o lançamento inicial do filme seria agorinha em Abril), e a responsabilidade pelos vocais e composição da música ficou com a sensação pop Billie Eilish, que se tornou a pessoa mais nova a escrever e cantar uma faixa para um filme do Bond.

Billie Eilish - No Time to Die.png

Atenção: essa resenha é beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem enviesada porque eu sou stan dos filmes do 007, tenho DVD dos filmes e tudo, e tenho minhas preferências de canções originais:

  1. “A View To a Kill”
  2. “For Your Eyes Only”
  3. “Live or Let Die”

E desde que Daniel Craig assumiu o black-tie, o martini batido não mexido e a condução do Aston Martin, tivemos músicas bem irregulares compondo a abertura dos filmes do Bond, que na fase do loiro, são provavelmente os melhores já lançados. Muita gente gosta de “You Know My Name”, do Chris Cornell, mas no cinema o efeito da faixa + abertura e eu dormindo num busão antes do isolamento social é a mesma coisa. Entretanto, todos os filmes do Bond, em suas diversas fases, tem uma faixa clássica para chamar de sua:

Sean Connery era: “Goldfinger” e “Diamonds are Forever”, CERTEZA;
Roger Moore era: incluindo minhas faves, tem “Nobody Does it Better” (talvez as melhores faixas estejam na era dele)
Timothy Dalton era: “The Living Daylights” (mesmo com uma vibe muito parecida com “A View to a Kill”)
Pierce Brosnan era: “GoldenEye” e não se fala mais nisso

(não conto o coitado do George Lazenby porque ele só esteve em um filme e a música-tema toca durante o filme, apesar de ser MARAVILHOSA, OUÇAM “We Have All the Time in the World”)

Pois bem, cortemos para Adele em 2012, que finalmente trouxe para os filmes do Bond com Craig uma faixa clássica e atemporal – “Skyfall”, que tanto fora quanto dentro da abertura causa o mesmo efeito de épico, trágico e classudo; e virou o topo a ser alcançado por quem viesse depois.

Adele ainda é um blueprint do que está sendo feito para trilhas sonoras do James Bond – após “Skyfall”, é visível que as duas faixas seguintes selecionadas priorizam baladas grandiosas (que são até um retorno ao clássico, com as músicas interpretadas pela Shirley Bassey) ou melancólicas que tentam refletir a estética dos Bonds com Daniel Craig, onde o realismo e o elemento trágico sempre caminham. Perceba que nem mesmo em “Spectre”, o final é feliz happy end – tem tragédia e infelicidade por todo canto.

No caso de “No Time to Die”, temos a mesma situação de balada para a trilha do 007, sempre com alguma referência à trilha clássica. A letra é bastante straight to the point com o roteiro, indicando que Bond será traído pela enésima vez, e com estrutura até simples – não há a sensibilidade da visão feminina sobre “James Bond” com “Nobody Does It Better”, ou talvez o senso de humor sacana de “Diamonds Are Forever”, ou mesmo o refrão fodástico de “A View To A Kill”. Se formos comparar com a faixa blueprint, o que acontece: “Skyfall” fala do roteiro do filme, mas de uma forma tão sutil que pode ser também sobre qualquer outra coisa.

O instrumental não é modorrento tem um punch no refrão, ao contrário da SNOOZEFEST que é “Writing’s on the Wall”, mas… É basicamente isso. Quando soube que Billie estava envolvida na faixa, esperava uma música mais uptempo, com bateria marcada e algo mais urgente (em tempo: a última uptempo a ser lançada como trilha do James Bond foi “Another Way to Die” – PAVOROSA – de “Quantum of Solace”, um filme até aceitável se pensarmos que foi escrito na época da greve dos roteiristas), mas a faixa é apenas legal ouvida isoladamente. Pode ser que se torne grandiosa junto da abertura, mas o material é bem esquecível.

(a propósito, ouvir o trabalho vocal da Billie me lembra de que Lana Del Rey é uma intérprete/compositora de filmes para James Bond perdida. Ela tem voz e phisique du rôle para o trabalho)

(a propósito, saudades rockão a la Duran Duran nessas aberturas… Ou um R&B sensual a la The Weeknd, a última/única vez que tivemos um R&B foi “Licence to Kill”, com uma das piores letras já escritas dentro da música pop)

E vocês, o que acharam de “No Time To Die”? Aliás, vocês tem alguma música favorita da trilha do James Bond ou a franquia não te enche os olhos?

Oi sumida! [2] New faces

Sumi mas voltei, e agora falando especificamente sobre essa dicotomia entre música pop x “fim dos gêneros” x dominância do rap no ano mais interessante em anos – 2019… Ou poderíamos chamar de 2014/2015?

Por que estou falando isso? Porque se prestarmos atenção a este período na música, foi justamente após a decadência do eletropop e o fim da disco-funk wave de 2013, foi impossível para muitos definir “o som” do momento. Era um período de transição, em que muitas coisas faziam sucesso ao mesmo tempo, enquanto os sinais da dominância do rap como gênero e principal produto cultural começavam a aparecer. Por exemplo, Fetty Wap bombou em 2015, trap começou a ficar mais popular, os virais rap chegaram ao top 10 (“Nasty Freestyle”, alguém?), o rap feminino buscou expandir suas estrelas (Iggy explodiu em 2014), Drake finalmente se tornou uma força a ser reconhecida.

Ao mesmo tempo, as grandes estrelas pop da época que sabiam construir o discurso de seu tempo chegavam ao auge (como Katy Perry, por exemplo), ou finalmente se assumiram como pop (Taylor Swift e o “1989”) – sem contar o processo de rebranding de Lady Gaga que ainda não havia começado, bem como pop stars que navegam de outra maneira no zeitgeist se tornaram ubíquos (o Lionel Richie Millennial, Bruno Mars). Já os atuais A-lists estouraram para a consciência pública justamente nestes anos, como Ariana Grande e The Weeknd. E a última grande popstar a surgir com uma formatação típica do período foi Meghan Trainor.

(eu desconsidero o fator Lorde nessa equação porque ela se intersecciona muito com a turma alternativa. Por mais que “Royals” tenha mudado o landscape para um som com vozes de menos volume e um pop mais down, eu acho que esse shift na popsfera não se deu com ela e sim com “Somebody That I Used To Know”, que exigia até mesmo que eu AUMENTASSE O VOLUME do meu celular para ouvir a faixa)

Ao mesmo tempo em que hoje não é possível indicar com evidência o que é pop de fato (tem dance? é urban-inspired? tem influência alternativa? é nostálgica?) ou mesmo o que é pop hoje, temos que levar em consideração outro fenômeno que podemos creditar sua atual forma a Drake: músicas que conversam com outros gêneros, cujo estilo é difícil de definir, e que nos leva a fenômenos como Post Malone e agora, um Lil Nas X que conseguiu fazer rock melhor do que Lil Wayne em 2009.

Naquela época as pessoas já achavam o uso excessivo do autotune uma coisa perigosa

Por isso, vamos dividir esse post da seguinte forma: o primeiro ponto é sobre o rap como produto cultural dominante, que finalmente parece estar deixando de ser um “clube do bolinha”… o que é essencial para o fortalecimento do gênero para os anos seguintes.

Nicki Minaj abriu as portas para o rap feminino brilhar no mainstream, mas a impressão que sempre tive era de que no período da sua dominância, havia uma estratégia a la Highlander quando se tratava da cena feminina:

A cada instante nascia um rapper masculino diferente, enquanto poucas femcees surgiam na mesma força – e quando estouravam, ou decaíam por material aquém e péssimas decisões de carreira dentro ou fora das redes sociais (Iggy) ou por péssimas decisões de carreira dentro das redes sociais (Azealia). No entanto, com a ascensão de Cardi B, parece que alguém (the powers to be, a indústria, quem quer que seja) percebeu que havia sim espaço para outras rappers femininas. Aos poucos, o espaço para femcees ascendentes ou artistas que não tinham espaço no mainstream até então começaram a surgir.

Dessa forma, você tem rappers sexualmente confiantes e cheias de personalidade como Megan Thee Stallion (que está na capa da prestigiada XXL na Freshman 2019 – ou seja, quem a revista classifica que serão os grandes nomes do rap neste ano), um som mais raw das City Girls, ou artistas que são tudo e mais um pouco: como você pode definir Lizzo (que encontrou exposição mainstream em seu terceiro álbum) por exemplo?

O crescimento de nomes femininos na cena (seja rap ou R&B) que não sejam Beyoncé ou Rihanna ou Nicki Minaj é importante para a solidificação de um estilo que domina a conversa cultural a cada dia. O BET Awards que ocorreu na semana passada, por exemplo, trouxe todos os astros que bombaram no último ano em apresentações bem produzidas com a plateia vibrando a cada performance. Nada de audiência entediada, shows preguiçosos e artistas que estão lá sem razão. O BET Awards é hoje o que VMA foi há anos atrás, e isso é um testemunho de que o pop perdeu o bonde da história.

E corre ainda mais riscos quando se pensa que você não tem um som específico que indique um denominador comum – e mais chocante ainda: os nomes novos colocaram esse “denominador comum” lá pra longe.

Eu me lembro de ter ouvido “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” da Billie Eilish e achado tudo bem… Esquisito, especialmente pra mim, que tenho preferência em som orgânico e ouvir instrumentos, e aparentemente a ausência de um gênero específico e definido no som também me trouxe um certo incômodo. Mas ouvindo as faixas isoladas, eu percebi como o som é um reflexo de uma geração que não se prende a rótulos, até mesmo na música.

“bad guy”, o single mais perto do #1 neste momento, é pop, mas é radio-friendly da maneira mais esquisita possível, já que tem o mínimo de produção possível, bateria seca e um outro trap que quebra todas as expectativas que você tinha com a música. Já “when the party’s over” me lembra muito aquele pop onírico da Lana del Rey (que a própria cantora já citou como influência). “you should see me in a crown” tem mais influência trap com pegada eletrônica; e certeza que ela ouviu “Black Skinhead” do Kanye na produção de “bury a friend”. Até mesmo material anterior ao debut, como “Ocean Eyes” é diferente. É um pop mais straight to the point, de boa qualidade também.

(a propósito, quem comparou Billie com Lorde estava delirando. Ela é como se fosse uma Lana del Rey adolescente e sem o lado retrô. Se existe alguma semelhança, está no uso de elementos urban para construir uma sonoridade pop, mas enquanto na neozelandeza a estrutura é familiar, aqui você demora a se acostumar com os twists and turns das músicas)

A sonoridade parece all over the place, mas tem uma lógica. Apesar das letras meio diário adolescente existencial (todos nós já passamos por isso), há comando do próprio som e da imagem mostrada nos clipes que parecem trailers de filmes de terror, e dificilmente podem ser reproduzidos ou imitados sem parecer que é alguém sendo tryhard. No geral, mesmo que exista um componente eletrônico no som, é visível que há influências mais pop piano-driven, trap e hip hop, que refletem a dominância dos últimos gêneros no inconsciente coletivo pop nos anos formativos da artista.

Mas ao mesmo tempo, não parece com a sua música pop típica, o que nos leva a uma conclusão: o interesse de Billie Eilish aqui não é em se definir com gêneros, mas ir além da divisão óbvia de gêneros.

Claro que, numa indicação ao Grammy, ” When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” entraria numa categoria pop (mas não me surpreenderia se a gravadora submetesse a “alternative” porque é muito bold para a categoria, talvez?), mas se você pensar em álbuns que desafiam o que você entende por gêneros definidos, o outro “gen-z” que se adequa de forma ainda mais complexa nessa discussão de “gênero é não ter gênero” é…

Se você não é gen-z e já tem uma carreira sedimentada dentro da caixa tradicional, não fique chocado. Afinal de contas, mesmo que exista um público que não nutra mais interesse em você graças à distância entre os artistas atuais e a idade dos novos consumidores de música, ainda há um fandom e um grupo mais maduro e propenso a consumir música de outras formas – sem contar que os Millennials ainda são um público forte que consome, gasta e é fortemente identificado com os artistas. Então, se você não é um artista de rap ou não faz música dentro da caixinha, de que forma você pode se adequar aos novos tempos?

Isso, eu conto no próximo artigo do “Oi Sumida!” Até já!