Será que existe mesmo a “maldição do quarto álbum”?

Fazer sucesso é um desafio que não começa só quando você lança o CD ou sai em tour. Às vezes, você não passa nem do primeiro single, ou é one-album wonder; mas geralmente pra chegar lá, é um percurso em que você precisa saber quem é musicalmente, ser inteligente, ouvir os mais experientes; e talvez engolir muito sapo (quer dizer, engolir as exigências da gravadora) até ter liberdade para ser “você” como artista.

Geralmente, quando o artista passa do primeiro CD, o segundo álbum é o desafio de mostrar que tem fôlego para resistir aos tubarões da indústria. Já o terceiro CD é, no geral, uma continuidade do sucesso e sedimentação do artista, que às vezes assume alguns riscos, mas nunca sem sair de sua zona de conforto. O quarto álbum, por sua vez, acontece num momento em que o artista, confortável com sua posição, decide que é hora de fazer algo “diferente”.

E é aí que ocorre a merda…

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As narrativas do Grammy [3] Gravação do Ano

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No Big Four do Grammy Awards, as narrativas nunca estão sozinhas, elas dependem dos entrechos de outras categorias. Quem ganha em seus fields nas categorias de song/performance tem mais chances aqui; e discutindo os álbuns, quem leva o field tem meio caminho andado para o principal prêmio.

Falando em Gravação do Ano, que celebra as melhores produções do período de elegibilidade, trata-se de uma categoria onde os grandes sucessos se encontram. Mas também temos narrativas aqui, e 2015-16 foi um momento em que as bolhas social e musical se mesclaram de uma maneira surpreendente especialmente no big 4 – o  que pode criar algumas narrativas e divisões interessantes (ou surpresas imprevisíveis) no grande dia. Algumas dessas narrativas continuarão resistindo, outras não.

Hora de falar dos indicados, com análise após o pulo:

GRAVAÇÃO DO ANO:
“Formation” – Beyoncé
“Hello” – Adele
“7 Years” – Lukas Graham
“Work” – Rihanna Feat. Drake
“Stressed Out” – twenty one pilots

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As narrativas do Grammy 2017 [1] Melhor Performance Pop Solo

 

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O Grammy, como qualquer outra premiação, é construído por narrativas, que vão se descortinando durante o ano (de elegibilidade) até chegar ao ponto de explosão – o momento das indicações, quando as histórias que acompanhamos (o grande comeback, o grande álbum, o coming-of-age, o azarão) se encontram numa categoria para definir qual é a história que a Academia decidiu comprar e adotar.

Dessa forma, as narrativas que se apresentam para a categoria de Melhor Performance Pop Solo, onde se encontram as duas grandes artistas femininas do ano – Adele e Beyoncé – estão entrelaçadas pelas histórias delas, de outros artistas em destaque e das tendências musicais de um período curioso para a música pop, onde vemos aspectos técnicos, artísticos e sociais se misturando dentro da cultura pop.

Primeiro vamos aos indicados!

Best Pop Solo Performance
“Hello” – Adele
“Hold Up” – Beyoncé
“Love Yourself” – Justin Bieber
“Piece By Piece (Idol Version)” – Kelly Clarkson
“Dangerous Woman” – Ariana Grande

Agora é a hora da análise!

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Indicados ao VMA [6] COMBO DE CHANCES

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Hoje é dia de tretas, polêmicas e grandes apresentações, o Video Music Awards 2016! Já sabemos que Britney Spears vai se apresentar, Beyoncé também, Rihanna vai ganhar o Vanguard Award (prêmio que homenageia grandes nomes que contribuíram de forma inovadora com os videoclipes) e terá tempo para fazer uma apresentação marcante; além do Kanye West com quatro minutos pra fazer o que quiser.

Por isso, já esperando o começo da premiação, a partir das 21h, hora de fazer um último post sobre os indicados, desta vez falando das chances de vitória nas três categorias que restam para serem discutidas – o que eu chamei de COMBO DE CHANCES. Afinal de contas, tô juntando três categorias num post só 😉

Confira tudo após o pulo!

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Indicados ao VMA [5] Melhor Vídeo Pop

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Assim como o vídeo de hip hop, a premiação relativa aos vídeos pop surgiu em 1999 – surpreendentemente nos dois casos. Mesmo focando em música pop, acts R&B, pop/rock e de música latina já venceram essa categoria, sempre uma das mais disputadas e com vídeos icônicos. “Livin’ La Vida Loca”, “Bye Bye Bye”, “Since You Been Gone”, “Bad Romance” e “Blank Space” levaram em anos anteriores; e outras gemas como “Lady Marmalade”, “Sk8ter Boi”, “Toxic”, “Poker Face”, “We Found Love” e ano passado “Uptown Funk” foram indicados. Tem muita coisa boa e que marcou épocas, de 17 anos atrás e hoje em dia.

Esse ano, temos uma ótima lista de indicados, que passeiam por vários estilos musicais e visões artísticas. Mas eu vejo nessa premiação um duelo interessante entre dois dos nomes mais famosos da indústria: a rainha e o bad boy.

Melhor Vídeo Pop

Adele — “Hello”
Beyoncé — “Formation”
Justin Bieber — “Sorry”
Alessia Cara — “Wild Things”
Ariana Grande — “Into You”

A análise segue após o pulo!

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Indicados ao VMA [2] – Melhor Colaboração

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A categoria de Melhor Colaboração do Video Music Awards surgiu com o nome de Most Earthshattering Collaboration (algo como Melhor Colaboração que fez a Terra tremer), em 2007, ano em que a MTV tentou inventar moda com novos nomes para as categorias na busca por atualização. A primeira vitória foi de Beyoncé e Shakira, com “Beautiful Liar” (o vídeo em que fizeram as duas divas ficarem idênticas). Dois anos após a categoria ficar fora das indicações, retorna com o nome que conhecemos hoje, e os vídeos mais bombados e grandes sucessos são indicados e vencem. Afinal de contas, o século XXI é o século das parcerias, featurings e encontros musicais na popsfera.

Vídeos clássicos, polêmicos e bem produzidos já levaram o Moonman (“Telephone”, “Bad Blood” e “Drunk in Love”) e este ano temos uma seleção bem sortida de clipes pop honestos, trabalhos de alto nível e o velho clipe preguiçoso de DJ. O negócio aqui é que, ao contrário de outros anos, em que o fator sucesso colaborava para a escolha dos vídeos – e às vezes clipes pouco interessantes ganhavam em anos sem inspiração (“E.T” em 2011) porque eram grandes hits – aqui, além do sucesso, outro fator pode contribuir para a escolha da MTV em premiar determinada colaboração: a massa de fãs votando.

Primeiro, confira os indicados:

Melhor Colaboração

Beyoncé feat. Kendrick Lamar – “Freedom”
Fifth Harmony feat. Ty Dolla $ign – “Work From Home”
Ariana Grande feat. Lil Wayne – “Let Me Love You”
Calvin Harris feat. Rihanna – “This Is What You Came For”
Rihanna feat. Drake – “Work”

A análise segue após o pulo!

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Beyoncé fez a Beyoncé com “Formation”

Cover Beyoncé FormationApós o lançamento surpresa do “BEYONCÉ”, em que o álbum completo (com direito a vídeos de todas as músicas) foi lançado no iTunes e criou até a expressão “fazer a Beyoncé” (ou seja, lançar alguma coisa de surpresa) – sem contar com toda a discussão social gerada pelo conteúdo do álbum e do que houve no Grammy deste ano, público e crítica começaram a imaginar o que Beyoncé faria no próximo lançamento.

Lançar single e clipe e álbum no formato tradicional?

Jogar o álbum todo no infame TIDAL?

Divulgar o CD no Soundcloud?

Não, Beyoncé basicamente “fez a Beyoncé” e um dia antes do Superbowl em que ela fará participação especial (o headliner é o Coldplay, mas ninguém parece muito interessado neles 😉 ), lançou uma faixa nova junto com o vídeo, chamada “Formation“. O clipe é repleto de referências à cidade de Nova Orleans, Louisiana, e a música é um urbanzão daqueles que funciona como uma continuidade mais pesada à sonoridade do selftitled.

Com produção de um inspiradíssimo Mike Will Made It (a mente por trás das batidas do Bangerz), “Formation” não é exatamente a música mais fácil e acessível do catálogo da cantora. Na sonoridade, a música tem algumas quebras no meio, com inclusão de samples e um refrão que se revela lá no meio do álbum, enquanto Beyoncé emula seu lado rapper, mais versando que cantando. Um urban/hip hop mais pesado e pouco convidativo a um ouvido pop, tem uma letra igualmente contundente, falando de empoderamento – Beyoncé tem orgulho de seus traços, de suas raízes, do seu poder como mulher (no trecho “When he fuck me good I take his ass to Red Lobster, cause I slay”, Red Lobster é uma rede de restaurantes que servem pescado – ou seja, se o rapaz fizer o serviço direito, ela leva ele no restaurante – ela paga, btw) e como figura pública.

É uma música com uma mensagem direta, não só da Beyoncé para os críticos ou para a comunidade negra, mas também é uma canção para que a comunidade negra a abrace, especialmente as mulheres – para que elas também digam e se orgulhem de sua estética, de que são bem sucedidas, independentes. Em meio a tantas tensões relacionadas à representatividade negra no show biz (o #OscarsSoWhite é o maior exemplo disso), “Formation” vem para colocar mais um ponto nessa discussão, no sentido positivo de empoderar a população negra – especificamente a feminina.

É uma ótima, grande canção, e impactante – só não vejo como um hit crossover na rádio pop. Não é soft para as rádios pop, mas funciona perfeitamente para o público urban (o público que, imagino, Beyoncé queira continuar ligada agora, nos próximos passos da carreira, já que é um público fiel e não volátil como o pop, que lança e descarta novos artistas a cada mês). Acho que fará um sucesso absurdo nas rádios urban, e se for lançada a tempo no iTunes, pode subir muito por ser Beyoncé (já que o impacto do lançamento foi perdido) (digo se lançado porque a música ainda não está no chart digital /parabéns aos envolvidos), sem contar o fator stream. Vai ficar no TIDAL? Vai manter as views do Youtube?

(a pergunta é: e Beyoncé quer ainda esse tipo de exposição? Lançando “Formation”, seguindo a tendência do “BEYONCÉ”, nascido pela curva ao R&B do “4”, Beyoncé acaba se reposicionando no mercado – acredito que são passos largos para a artista se atrelar a um público que continuará consumindo seu trabalho, por identificação mútua, e por também falar sobre aquilo que esse público quer ouvir.)

E você? O que achou desse novo trabalho da Bey?