Qual o futuro da música pop americana?

Nos últimos dois anos, a música pop americana passou por fases interessantes, que vínhamos chamando de um “período de transição”. Em primeiro lugar, quando discutíamos sobre a desconstrução de alguns estilos, a disputa entre “integrados” e “puristas” – quem queria produzir algo fora das caixinhas versus quem fazia um pop mais alinhado a ressignificar as tendências para a rádio top 40; e mesmo assim, o rap continuou (e continua) sendo o gênero mais importante dos últimos anos, o gatekeeper sonoro do público americano.

Além disso, outro elemento está tornando as músicas que são lançadas nos Estados Unidos passíveis de serem hits ou não: se elas se tornam virais no TikTok, a rede social comandada pela Geração Z, meninos nascidos a partir de 1995 até meados de 2010, e que acabam determinando as tendências musicais através das músicas que eles usam para os desafios, dublagens e trends.

Mas, para avaliarmos se as tendências atuais vão continuar por algum tempo – que na verdade não vão continuar por algum tempo, porque tudo é cíclico – ou se finalmente o pop encontrou um percurso, é hora de entendermos um pouco sobre quais são os caminhos que o zeitgeist da música pop americana vai seguir.

Em primeiro lugar, é hora de colocar as coisas em seus devidos lugares. Afinal de contas, quais são os três caminhos que a música pop americana está seguindo neste momento?

1. O rap ainda continua sendo o gênero mais importante da música norte-americana – mas os #1s deste ano contam uma história distinta;

2. Kpop e Reggaeton fazem parte de um movimento que envolve adolescentes e novas formas de consumo musical, bem como grupos demográficos cada vez mais relevantes culturalmente nos EUA – apesar do top 10 não refletir de todo essa perspectiva;

3. O pop norte-americano ainda não sabe para onde ir, mas tem caminhos.

E que caminhos são esses? Eles estão relacionados aos novos artistas do momento, e podemos resumi-los com o

O bedroom pop na verdade é a música lo-fi, canções produzidas com aspectos minimalistas, algumas distorções, e de preferência são realizados dentro de casa, dentro do quarto (daí o termo “bedroom pop”). Com algumas batidas mais destacadas, às vezes marcadas pelo hip hop, se você fizer uma leitura por alto vai entender que eu tô falando de Billie Eilish.

Eu tinha comentado em outra oportunidade que, para mim, era uma representante óbvia de uma tentativa de desconstruir a ideia do que era pop americano, mas aos poucos com os últimos lançamentos (incluindo a acústica “Your Power”, do seu novo álbum), a gente vai enxergando que a área dela é algo mais minimalista e lo-fi, mesmo que ela não seja a primeira a mostrar isso. Mas o fato é que essa sonoridade sendo mais expandida (e premiada com Grammys) abre espaço para que artistas mais novos (ainda mais que a própria Billie) tenham espaço para fazer algo mais “fora da caixinha”, como por exemplo a queridinha dos adolescentes, Olivia Rodrigo.

“drivers license”, seu #1 e o maior hit do ano, parte desse princípio, de produção mais minimalista, com algumas distorções. No seu segundo single, “deja vu”, mais animado até, a produção tem mais informações, mas não há um overproducing, são soluções bem bacanas e bem trabalhadas. Apenas em “good 4 u”, terceiro single e com pegada pop rock anos 2000, você percebe algo maior (e, apesar das boas intenções, eu achei que o arranjo ficou maior do que a voz da própria artista). Onde em som você percebe alguns passos para trás no aspecto de produção, com algo menor (não chegando a ser totalmente mínimo como Billie, por exemplo), nas letras você percebe a influência de singers-songwriters que trabalham justamente com relacionamentos, fim de relacionamentos e a capacidade de colocar indiretas em música – Alanis, Taylor. Já na voz, colocação, impostação, o primeiro nome que veio à mente foi a de outro prodígio, Lorde, que de certa forma foi uma das réguas-e-compasso no começo da década para que jovens cantoras e compositoras fossem respeitadas fazendo um som pop que fugisse um pouco do padrão estilo anos 2000 (as minhas referências pessoais de música pop são justamente daí). Com Lorde, há espaço para você ser mais alternativa, mais indie. E até mais mínima (quem não se lembra das batidas secas e marcadas de “Royals”?).

Quem não se lembra de Alessia Cara?

Ou seja, se você já tem um caminho, herdeiros de uma estética, existe um caminho a seguir.

(eu já li algumas pessoas discutindo o pop/rock ser o novo gênero do momento para o pop americano, mas eu sempre penso em: se tiver que acontecer, é necessário que um nome novo faça essa ponte, e não os artistas consagrados. A ver os próximos capítulos)

Eu não sei até que ponto o bedroom pop vai ser o grande momento da música pop americana que vai responder a até então dominância do rap/urban; mas é importante registrar que ainda existem artistas pop trabalhando com essa linha de encontros, como Justin Bieber e Ariana Grande – já considerados A-List, com uma carreira consolidada e pouco prováveis a mudar esse caminho por conta de novas trends.

Sim, teremos encontros especialmente porque esses artistas em sua gênese tem influências e bom trânsito entre artistas de rap e urban, e até que o que era centro vire nicho (O que eu duvido que isso ocorra, acho que o gênero só terá menos dominância), eles ainda serão muito relevantes e consistentes, se atualizando sempre. Aliás, o #1 de Justin Bieber em 2021, “Peaches”, mostra um bom exemplo dele fazendo pop com pegada R&B, mas com um olhar para as rádios top40 (aliás, a música tem uma batida excelente, apesar da letra mais ou menos), com uma sonoridade fresh, sem parecer datada ou cansada.

Ainda não é possível ver artistas mais novos olhando para Bieber ou Ariana como referências e você dizer “nossa, ele é o novo Justin”, e aí é que reside meu questionamento – quem participa dessas interseções vai prosseguir, ainda sem “herdeiros”, mas quem está “nos extremos” já tem seguidores. Ainda temos rappers surgindo e se consolidando: entre as mulheres, por exemplo, Doja Cat é o nome do momento, Megan Thee Stallion, Saweetie. No pop americano, não temos esse surgimento aos montes, de artistas novas, como na virada da década de 2000 para 2010 onde a cada respirada você descobria a “nova Lady Gaga”.

Antes de Olivia Rodrigo emplacar três top 10 na Billboard, quem foi realmente a grande coqueluche feminina pop de artista estreante? Okay, você pode falar “Billie”, mas a distância é grande demais para significar um retorno.

Antes de Billie, quem foi a grande coqueluche feminina pop? Muito provavelmente Meghan Trainor em 2014, se não me engano.

(antes, vamos tirar quem pode ser A-List atualmente, mas precisa apresentar mais consistência, como Dua Lipa e Harry Styles)

Então… Se Justin Bieber e Ariana Grande podem ser considerados os A-Lists da música pop americana atual, quem estourou na virada da década passada ou nas décadas anteriores seria o quê exatamente?

Vamos pensar nos nomes mais óbvios:

Lady Gaga conseguiu retornar a um estado de relevância com “Chromatica”, mas de fato não foi o álbum que todo mundo esperava que fosse o grande retorno de Gaga ao mundo pop. Considerando que ela está dividida na carreira de atriz e de cantora, 0a minha sensação é que hoje em dia ela é uma artista de legado, bastante confortável em sua posição, e que não vai ter os mesmos #1’s do passado, mas jamais vão considerá-la um grande flop caso lance algo novo, porque vamos dizer que ela conseguiu recuperar seu momento e melhorar a imagem após um meio de década confuso.

Katy Perry vai permanecer sempre lançando um bom single, bons trabalhos dentro do pop, mas infelizmente, graças a escolhas ruins de carreira (maldito “Witness” e seleção de singles do “Prism”) o bonde da história acabou sendo perdido.

Kesha entra nesse mesmo grupo, mas não por conta de suas próprias escolhas.

Entre os homens, podemos dizer que The Weeknd finalmente chegou lá no topo. Abel provou sua versatilidade tanto no pop quanto no R&B, deixando sua marca neste último como um som condutor para muita coisa que se ouve hoje na cena. Não dá para saber quais são os próximos passos dele como artista após “After Hours” mas o que podemos dizer é que ele mostrou apelo visual e musical para todos os públicos, fazendo a gente olhar ou ouvir algo dele e dizer “ah, isso aqui é The Weeknd”. Podemos colocá-lo como um A-List atual também, mas numa lógica de construção de carreira muito diferente de Ariana Grande e Justin Bieber.

Pensando em outro #1 lançado este ano, Bruno Mars com o Silk Sonic e “Leave The Door Open” (alto nível de produção, estrutura e sofisticação no arranjo) é um caso um pouco mais complexo, já que ao contrário de outros artistas, a sonoridade dele nunca foi atrás do gênero do momento – você entendia que existia uma consistência no trabalho dele ao buscar como base o passado, até mesmo em seu primeiro álbum, onde o toque retrô é mais sutil.  Considerando que ele já tem dois AOTY  e o respeito dos peers, em tese ele pode lançar e trabalhar no que quiser – e faz sentido expandir seu trabalho com um super grupo, Silk Sonic, em parceria com o rapper Anderson Paak (ainda bem que os ouvintes casuais têm a oportunidade de conhecê-lo!), fazendo um trabalho paralelo. Só que, boom, “Leave the Door Open” foi hit, a música é trend no Tik Tok (para minha surpresa), e esse caminho mais consistente dele vai mantê-lo numa posição de A-List por um bom tempo – e com Bruno, temos a mesma situação de The Weeknd de você bater o olho ou ouvir uma música e dizer “ah, isso aqui é Bruno Mars”.

(ah, e essa estratégia de “lançar um álbum a cada copa do mundo”, impensado em tempos atuais com superexposição em redes sociais, só funciona com ele porque é parte da construção de carreira dele. Um Harry Styles não vai poder fazer isso… Ainda)

Uma dúvida que me consome é como Justin Timberlake vai entrar nessa jogada, já que seu último álbum foi um grande fracasso (então, o álbum é ruim né…). Eu estava pensando nisso porque como ele vai voltar? Com qual público ele vai conversar? Em especial porque esse público novo poderia consumi-lo por nostalgia anos 2000 (seja pela época do NSync ou pela primeira parte de sua carreira solo) ou seria um consumo crítico, graças a todas as questões com a comunidade negra desde a situação com Janet Jackson.

Agora… Eu não sei o que esperar de Rihanna. Seu último foi lançado em 2016, e de lá para cá a música mudou tanto a forma de consumo, as mídias sociais mudaram tanto a linguagem e a forma de produzir conteúdo (bem diferente de como RiRi se movimentava no começo da década, onde o que ela postava no Instagram era sempre viral) que é muito difícil entender se Rihanna consegue funcionar dentro dessa nova estrutura ainda mais superexposta que lá atrás.

O fato é que o “estilo Rihanna” de cantar e as suas interseções com urban já foram incorporados ao léxico do pop; então o seu retorno, como o comeback de uma artista que estava há alguns anos fora da cena, pode soar algo datado ou, a depender de como ocorra, seja o grande momento do século. Mesmo que Rihanna também tenha músicas dela participando de trends do TikTok, não dá para pensar na reação das pessoas em como ela vai voltar – e qual sonoridade ela trabalhará. Confio nela porque Rihanna sempre enxergou além em relação ao som pop, mas ainda assim é uma interrogação.

Tá, e Taylor Swift e Beyoncé? Se formos pensar em Beyoncé, a gente não conta. Ela é uma lenda viva mesmo que ela não lance um single avulso, um longo álbum; mas qualquer coisa que ela lançar vai trazer buzz, independente do formato – vai que a mulher lance o próximo álbum em quatro episódios de um documentário no Disney+ né…

Taylor também fica de fora dessa discussão pra mim. Eu acho que tanto ela quanto Beyonce estão na categoria de lendas, que passaram por poucos momentos complicados no seu percurso de carreira, e se mantém em alta e fazendo sucesso, não importando o que lancem. Atualmente, ambas são ícones que servem de exemplo a serem seguidos, e não precisam provar nenhum ponto, tampouco sua relevância. Então, você não tem como exigir delas que os seus trabalhos sejam sempre #1 e recordes de vendas. Mas trabalhos FODAS, você terá.

O pop americano tem caminhos a seguir. Ele não está mais em meio ao fogo cruzado entre ser o gênero esquecido por conta do gatekeeping do rap, ou tentar se unir a outros gêneros bem-sucedidos para manter a relevância. Existe um percurso, e artistas tentando seguir esse percurso; além disso, os grandes astros que estouraram na década passada, bem como aqueles que se mantém na mídia desde meados dos anos de 2010 ainda possuem uma carreira consistente, não deixando a peteca cair.

O que deve ser mais curioso a avaliar é a partir de 2021 para os anos seguintes: teremos esse caminho aberto pelo lo-fi music (ou bedroom pop), casado com artistas influenciados pelos A-Lists e ícones atuais? Os artistas com mais rodagem vão se manter, mesmo que com menos relevância, ou aos poucos ficarão mais nichados, sendo ouvidos pelos fãs e grupos de ouvintes do pop, longe dos ouvintes casuais? Nessa última situação, quem conseguiu se manter no auge com poucos erros na trajetória, hoje colhe os frutos desse legado, seja sendo um mentor,  um ícone em quem se espelhar, ou seguindo um percurso onde riscos podem ser tomados, e poucos podem fazer – tendo bala na agulha, aclamação e uma boa gravadora pra segurar seu B.O.

Já os jovens A-Lists do momento já tem trajetória e escolhas sonoras consolidadas. Agora o desafio é descobrir qual é o novo (ou velho) som que pode finalmente tornar a disputa de espaço não mais um domínio, e sim uma batalha.

Álbuns Atrasados – Ariana Grande, “Positions” e Miley Cyrus, “Plastic Hearts”

Duas artistas que começaram em posições bem similares – programas de TV destinados ao público adolescente; duas trajetórias de carreira distintas. Solidez, inquietação, identidade forte e uma busca pela identidade.

Ariana Grande e Miley Cyrus estão em momentos diferentes da carreira e lançaram álbuns recentemente, com resultados diversos e temáticas idem. E neste vídeo, sobre álbuns que eu (Marina Teixeira) deveria ter resenhado mais cedo, explico o que mais gostei ou não de “Positions” e “Plastic Hearts”, além de falar um pouco sobre:

– Cansaço x Identidade

– Ser eclético tem limites

– Trilha sonora de loja de departamentos

– E sons de televisão na sala e avião surgindo no meio do vídeo

Apesar de saber que serei muito criticada por este vídeo, espero que gostem!

MUITO DIFÍCIL ARIANA GRANDE ERRAR EM UM LEAD

(e não foi dessa vez que ela errou…)

Se tem uma artista que sabe escolher leads, essa pessoa é Ariana Grande. Desde que surpreendeu a todos com um pop/R&B cheio de personalidade em “The Way“, ela fugiu do pop/rock e dance que as colegas saídas de programas de TV juvenis na mesma época adotavam. Um diferencial, além de trabalhar com nomes fortes desde o começo da carreira (não é qualquer uma que já tem BABYFACE produzindo pra você no debut), que fez com que a carreira dela sempre fosse vista de uma maneira mais cuidadosa em relação a outras estrelas da mesma geração.


Com leads que vão mais ou menos na mesma proposta do som que Ariana sempre demonstrou ter mais simpatia e identificação (“Problem“, “Dangerous Woman“, e mesmo as pops “No Tears Left to Cry” e “Thank U Next” eram a embalagem de álbuns com influência pop e R&B), não é de se surpreender que o novo single da moça, “Positions“, do novo álbum que será lançado nesta semana (30/10, gente rápida é assim) tenha a mesma linha. No entanto, Ariana sempre se mantém fresh, nunca errando em seus leads (mesmo que eu particularmente não seja a maior fã de “Thank U, Next”, o fato é que não tem outra faixa por ali que seja abertura de era com a mesma habilidade que esta), especialmente quando o novo single é tão gostoso de ouvir, mantendo o ar comercial ao mesmo tempo que sendo muito bem feito e produzido.

Com uma levada anos 2000 (até fui caçar se tinha produção de Stargate) e uma certa dose de atualidade com o delivery mais trap, tem guitarrinha na levada e até violino, indicando que provavelmente a nostalgia continua (gente, 2000 tem 20 ANOS), mas com um toque bem moderno, onde nostalgia é apenas uma doce memória.

A letra é fácil e o refrão é grudento até cansar, na terceira ouvida você já canta fácil “switching the positions for you” – e a duração curtinha tem um objetivo: STREAMS, porque se tem alguém fora do rap que entende perfeitamente o que é lançar música atualmente… Ariana Grande lê muito bem o mercado, mas consegue ao mesmo tempo produzir músicas BOAS de verdade sem comprometer sua própria personalidade. Aliás, eu deveria parar de me impressionar em como ela é uma artista incrível, mas não consigo. Ariana está chegando ao SEXTO álbum, e não há mostras de que o material lançado desde o primeiro CD tenha algum momento que caiu para subir. Ela vai melhorando, moldando o som e sendo mais ousada em suas escolhas artísticas e escolha de produtores (“Sweetener” é o maior exemplo disso) mesmo dentro do estilo que ela gosta; e existe a busca por subir, crescer e melhorar. Imagina o que tem no álbum…

No geral, “Positions” já é uma das melhores músicas do ano – e o ano foi repleto de ótimas faixas, e vou adiantando que isso aqui é lock em Pop Solo no Grammy haha

Ariana Grande imagines life in the White House in 'Positions' video - CNN

A única coisa que eu realmente não curti do lançamento foi o vídeo, dirigido por Dave Meyers, que já virou o novo parceiro artístico de Ariana. Produção boa, elementos técnicos ok, mas eu esperava um vídeo mais literal, de acordo com a música. Sério, algo que fosse sexy e romântico, Netflix and chill, e a música merecia algo assim, e não algo apenas divertido. Tanto que eu prefiro ouvir a faixa e não ver o vídeo – e olha que não tenho muito problema em vídeos que não conversam com a letra da música, mas a produção é tão gostosa, orgânica, que o vídeo poderia acompanhar esse espírito… Mas enfim, opinião pessoal (e que provavelmente não deve ser lá muito popular)… e vocês?

O que acharam do novo single de Ariana?

Se te faz feliz… – “Rain on Me”, Lady Gaga feat. Ariana Grande

Em alguma thread ou post que eu fiz em algum lugar por aqui comentei sobre “being a leader or being a follower”. Se nunca comentei, hora de falar.

Algum artista famoso falou certa feita (digo algum porque realmente não lembro haha) que existem líderes e seguidores. E realmente, existem artistas que são líderes: eles definem tendências, são pioneiros, escancaram as portas para o resto passar e são reconhecidos por isso. Já outros são os seguidores – quem segue a moda, quem está sempre na zona de conforto e não vai sair dela. Está sempre esperando a porta abrir para ele passar.

E também temos os lobos solitários que fazem o seu, fazem sucesso e seguem sua carreira sem maiores tribulações.

Hoje eu vim falar de uma LÍDER, que surgiu escancarando portas e repensando a cultura pop de seu tempo: Lady Gaga, que hoje lançou o segundo single do novo álbum “Chromatica”, a dançante bem house anos 90 “Rain on Me“, com o featuring de Ariana Grande.

Lady Gaga - Rain on Me.png

Uma faixa própria para as festas em boates, caso estivessem abertas e não estivéssemos em meio a uma pandemia mortal, “Rain on Me” segue a linha apresentada por “Stupid Love”, mas aqui com a influência do dance early 90s bem mais forte, as clássicas faixas que merecem vozes poderosas. O que eu achava que seria bastante estranho – o encontro entre as vozes de Gaga e Ariana, já que a abordagem da primeira é mais raspy, rock até; enquanto a segunda tem um trabalho mais pop, suave, com influência R&B, ficou muito bom. As duas funcionam bem juntas, especialmente quando na segunda estrofe da Ariana, a resposta da Gaga ficou bastante melódica e gostosa de ouvir.

Outro ponto que funcionou bem na música foi a letra, que é simples e efetiva, sobre recomeços, renascimentos e o sentimento de carpe diem. Aqui também temos duas abordagens líricas diferentes, mas que também funcionam bem – e mostram que as duas estavam juntas no processo de composição da faixa.

Agora… Vamos aos problemas: ouvi uma, duas, três vezes a música, porque apesar da letra ser bacana e da interação entre as duas artistas ser bem resolvida, havia alguma coisa que não me amarrava, não me conectava – e considerando que o segundo single é a música que não apenas reforça a ideia principal do CD, como também carrega as vendas do álbum, precisa representar muito bem e ser explosiva o suficiente para tornar o seu CD uma experiência fascinante. E em todas as vezes, sabe qual foi a impressão que “Rain on Me” me deu?

On the nose: sabe aquela faixa que diz “olha, eu sou retrô viu? SABE, EU SOU RETRÔ, olha minhas influências!” e ao invés de ser uma experiência divertida ouvir uma faixa visivelmente inspirada em sonoridades de décadas passadas, parece até que é um atestado de “olha como sou musicalmente inteligente” e a música passa por apática, asséptica – porque é apenas uma experiência, uma tentativa de soar “antiga”, mas sem abraçar de fato as nuances e levá-las na alma, conseguindo brincar e trabalhar com naturalidade com esse som.

Gaga fez isso muito bem no “Born This Way”, quando puxa referências anos 80, dance, disco, envolvendo tudo em instrumentais carregados e quase rock ‘n roll.

Comparando com um artista que fez agorinha mesmo um álbum com referências antigas, The Weeknd consegue usar as referências anos 80 em “After Hours” de uma forma extremamente fluida.

Material aquém da Gaga: se você passou pelas várias fases da carreira de Lady Gaga logo após explodir com um material que até hoje é melhor do que 90% dos lançamentos atuais, eu espero excelência. “Rain on Me” não entra nem na edição Target do ARTPOP, sinceramente. Eu espero LADY GAGA, não um material que há sete anos atrás ela sequer usaria e viraria descarte.

Pra mim, essa não é uma atitude de uma artista líder. E sim de uma follower. Ou no mínimo, uma estrela que deseja mostrar que ainda há lugar para ela dentro do zeitgeist atual, mas não da forma que uma líder deve fazer.

E isso me preocupa: a volta ao pop dela parece mais uma volta ao pop para os fãs e a galera que acompanha música, e não para o público no geral – é claro que as pessoas neste momento estão se importando em não morrer, mas antes disso, havia uma busca, uma agonia por novos álbuns e artistas que mostrassem que o pop tinha um caminho, mas… Nossa, “Rain on Me” é o típico top 10 que chega ao top 10 pela força das fã-bases e não exatamente por um crescimento orgânico, por ter sido abraçada por todos os grupos.

(Aliás, qual foi a última canção que você imagina ter sido realmente abraçada organicamente por todos os grupos e chegou ao topo porque foi um sucesso absurdo em todas as plataformas e uniu consumidores de nicho e público em geral, e não porque porque fizeram mutirão de streams?)

O vídeo: o vídeo provavelmente resume o ponto de “leaders and followers”: eu pensei que não teria quase o mesmo tempo da música, e considerei o look inicial com a faca na coxa bem mal aproveitado. De resto, é um vídeo que eu, como consumidora que não faz parte de nenhum dos dois fandoms, não veria outra vez; achei que a paleta de cores merecia mais vibração, um colorido, até porque a letra da música passa um certo sentimento de júbilo; e sinceramente? Não faça duelo de coreô quando seu forte não é coreografia. Gaga é competente na dança – o forte dela sempre foi um movimento repetitivo que nascia icônico (como em “Bad Romance”, por exemplo) – mas não é o suficiente para segurar três minutos de vídeo dançando; o mesmo vale pra Ariana. Além disso, eu entendi que o foco visual da era é essa coisa meio ficção científica, distopia futurista com ar low-budget, mas é possível fazer isso e soar épico. Você é LADY GAGA. Uma de suas marcas registradas são os clipes elaborados, com referências pop bacanas e divertidas, com forte replay value e hype.

Se os dois vídeos que eu vi representam que é essa Gaga pop a qual teremos de nos acostumar, então me informem para que eu pare de comparar com aquela de 2009-13; e isso inclui as músicas também. Se o material que ela apresentou é Lady Gaga hoje, e são essas as músicas que passaram pelo corte final para fazerem parte do seu novo álbum, não comparo mais. Vou focar em ouvir o que ela me apresenta hoje. Nem vou comparar com materiais recentes porque o “Joanne” é um ponto fora da curva do que a Gaga sempre fez e a trilha de “A Star Is Born” é uma comparação injusta – não porque eu queria que ela fizesse aquele som. Não, eu queria que o esforço de qualidade que ela buscou naquele álbum se repetisse aqui.

O triste é que ela mesma colocou o sarrafo lá em cima VÁRIAS VEZES, e eu espero sempre o mais FODA porque Gaga é parte importante de um período bem legal da minha vida, e ela é parte desse meu processo de formação consumindo cultura pop.

Mas, se faz os fãs felizes… Quem sou eu para criticar né?

Combo de Lançamentos [1]

Depois de retornar do meu período de hibernação pós-Grammy (sinceramente, fiz desintoxicação musical e foi a melhor decisão ever), hora de voltar aos trabalhos e falar um pouco dos lançamentos musicais, entre álbuns e músicas, que podem ter sido comentados (ou não) dentro da popsfera.

Ariana Grande, “thank u, next” (lançado em 08/02)

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/d/dd/Thank_U%2C_Next_album_cover.png

E eu que achava que Ariana não faria melhor que “Sweetener”… “thank u, next” é uma potência de produção, letras e evolução tanto no som quanto nas temáticas, tanto em relação ao álbum anterior da moça, como em toda a sua carreira. É evidente que quem acompanha Ari desde “Yours Truly” sabe que ela sempre teve os dois pés no pop/R&B e que era questão de tempo até que ela fosse full pop ou introduzindo uma vibe mais urban/rap em seus trabalhos. Boa leitora do pop como ela é, Ariana fez melhor: ela entendeu o que realmente está fazendo sucesso (como o trap/urban) e colocou sua pegada pop e radiofriendly com sua voz de ouro (e dicção boa, finalmente) num dos trabalhos mais fodas do mainstream no ano.

Os temas do “Sweetener” relacionados a inquietações pessoais e ansiedade permanecem em TUN (como em “needy” e “fake smile”), assim como as temáticas de sempre da jovem (no caso, relacionamentos amorosos na excelente e SINGLE MATERIAL “bloodline”, “make up” e seu joguinho de palavras e a super onírica “ghostin”, uma das highlights do CD que deveria encerrar a tracklist), mas tudo com um toque de amadurecimento de quem realmente está vivendo ou viveu essas emoções. Ariana Grande tem história pra contar agora e coloca isso nas músicas. Além disso, “thank u, next” representa muito dos sentimentos e dúvidas de ordem geracional, que impactam parte da fanbase da moça, que é bem jovem, e de uma turma millennial e Gen-Z que se identifica com ela.

(guardadas as devidas proporções de impacto e sucesso, essa leitura do pop e identificação com um público geracional é mais ou menos o que Rihanna fazia tão bem enquanto lançou CDs. Aliás, cadê você RiRi?)

Entre os três primeiros singles, eu já tinha dado minha opinião sobre a faixa-título, mas é engraçado como tanto ela quanto “7 rings” funcionam bem melhor no álbum do que isoladamente. Em relação à segunda, eu acho uma ótima tradução pop de um som atual, mas a letra não tem sinceridade alguma e entra em terrenos bem perigosos. Das três, de longe “break up with your girlfriend, I’m bored” é a melhor – e maravilhosa demais! Não merecia encerrar o álbum, mas eu entendo perfeitamente a presença dessas três músicas no final da tracklist (aliás, ótimo trabalho de Max Martin e Ilya… será que voltarão aos bons momentos?).

Resumidamente, eu AMEI “thank u, next” e acho assombroso o quanto essa menina consegue ir evoluindo e lançando um CD melhor do que o outro. Isso me faz torcer por coisas brilhantes no futuro, e é a prova de que Ariana cimentou seu lugar não apenas como A-list no pop, mas como uma das grandes artistas de sua geração, num todo.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Jonas Brothers, “Sucker” (lançado em 28/02)

Você se lembra de quando os artistas teen masculinos com quem as meninas queriam casar (e certeza que já deviam fazer fanfics desde aquela época) eram os Jonas Brothers? Havia a eterna disputa de quem era mais bonito (não conheço uma abençoada que tenha escolhido Kevin), as músicas eram cantadas e usadas como perfil do Orkut (RIP) à exaustão, tinham ainda os triângulos amorosos da Disney Miley-Nick-Selena, o vai-e-volta entre Joe e Demi, a série dos caras no canal… Eles já foram indicados ao Grammy e cantaram com fucking STEVIE WONDER! Ahhh que saudades do late 2000’s gente…

Pois bem, seis anos após o lançamento do seu último single, e carreiras solo decentes ou bem-recebidas numa banda (vi DNCE ao vivo e Joe nasceu pra ser frontman de banda, sério), os JoBros retornam com “Sucker“, que tomou o feed de nostalgia adolescente e o grande público com um pré-refrão grudento e um refrão ainda mais, cortesia também de Ryan Tedder, um dos compositores da faixa (o “I’m a sucker for all…” com o falsetinho no “all” tem as fingerprints do hitmaker). A música é uma delícia e a cara da banda: é um upbeat pop com aquelas guitarrinhas gostosas e super adulto. é exatamente o que o Jonas Brothers faria depois de alguns anos se ainda tivesse na estrada e não tivesse parado. A letra é bem trabalhada e mesmo com muita informação no refrão, tem repetições suficientes para grudar na sua cabeça – além do “I’m a sucker for you” ser um verso catchy o suficiente pra captar sua atenção.

E cara, assobios no pop = HIT!

O clipe, lançado no mesmo dia da música (é disso que eu gosto, fogo no olhar!) é maravilhoso, com a participação especial de Priyanka Chopra, Sophie Turner e Danielle Jonas, respectivamente esposa, noiva e esposa de Nick, Joe e Kevin (nunca me esqueço de que ele tinha um reality show com a esposa no E! Entertainment Television), super divertido e com figurinos e cenários que gritam investimento – e com essas participações especiais em situações bem-humoradas ao mesmo tempo que super fofas, foi feito pra hitar no YouTube. O resultado desse lançamento que gerou conversa e nostalgia de geral? Chance de lançamento em #1 na Billboard próxima segunda. EU OUVI UM AMÉM IRMÃOS?

(só espero que o DNCE não suma porque me recuso a lidar com Maroon 5 tendo a carreira que deveria ser deles)

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Cardi B & Bruno Mars, “Please Me” (lançado em 15/02)

Num outro espectro musical, vários escorpianos vão nascer por causa de “Please Me” (e eu não sei seter mais escorpianos no mundo é uma boa ou má notícia haha) e vocês podem creditar à segunda parceria entre Cardi B e Bruno Mars. Se “Finesse [Remix]” é a dupla na escola participando da feira de conhecimentos, “Please Me” é uma festa de pegação na faculdade.

“Please Me” é outro throwback 90s – elemento já conhecido do havaiano mas quase nunca tocado por Belcalis, e com um approach mais R&B do que nunca pra Cardi, mostrando que ela está com foco ainda mais crossover do que apenas o público rap, mas sem cair no pop – o que é uma excelente ideia. Sem perder o bom humor de seus versos (“your pussy basura/my pussy horchata” já é meu top 10 do ano) e ainda em posição de dominância no refrão grudento af (onde é ele quem pede por favor, uma raridade dentro das dinâmicas rapper + cantor/a), “Please Me” é outro win win situation para os dois, provando que o banho de carisma em “Finesse” se repete em condições ainda mais maravilhosas nessa faixa.

(se vc acha que rolava alguma coisa entre Gaga e Bradley Cooper na Awards Season, senta e prepara sua habilidade de fanfic, porque aqui se Cardi e Bruno não se pegaram é porque são ambos comprometidos e respeitam seus relacionamentos ao contrário de uma pessoa cujo nome rima com Upset)

O clipe, ao contrário do que eu e todo mundo pensou, ao invés de ir pro sexy, foi pro modo fofo e o resultado foi ótimo – com ecos de Grease e uma storyline fofíssima, não dá pra não ficar em shipping mode e a única coisa que pensei assistindo foi FUCK OFFSET! Coreografias bem-feitas, ótima fotografia, carisma e química saindo pelos poros e Bruno de bigode (!) O clipe ajudou bastante a manter a música com ótima audiência e a previsão é de top 3 na Billboard semana que vem.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐


E vocês? O que acharam desses lançamentos? O que esperam para as próximas semanas nos charts? E quem vocês acham que está perto de lançar material novo?

Últimos lançamentos – Nicki e Ariana

Voltei da moita (quer dizer, da segunda metade do meu primeiro mês de trabalho) devendo duas resenhas importantes para vocês, que decidi postar juntas porque o contexto ajuda.

Nicki Minaj lançou o “Queen” em 10.08 com aquela campanha surreal de divulgação em que as fofocas e frases polêmicas se tornaram mais relevantes do que a música de fato. Justamente quando o novo álbum chega num novo espectro do rap, em que o objetivo aqui seria Nicki mostrar para as outras rappers iniciantes no jogo (tipo Cardi B) quem é a melhor da cena atual. Será que ela conseguiu mostrar esse poder no novo CD?

Ariana Grande e seu “Sweetener” (lançado em 17.08) veio com o objetivo de sedimentar uma das carreiras mais consistentes do pop atual, e distanciá-la das ex-acts, colocando-a como uma A-list. A campanha de divulgação parecia até ok até o momento em que o namoro altamente publicizado com o comediante Pete Davidson parecia tomar todas as atenções do material. A pergunta é: o material realmente a coloca em outro patamar?

Confira depois do pulo!

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Vencedores e perdedores de 2018 [primeiro semestre]

O ano de 2018 chegou à metade e sempre é bom ver, em retrospecto, as coisas que deram certo ou não dentro do pop. Quer dizer, as raridades que deram certo na terra arrasada do pop né; porque com as plataformas de stream dominando a forma de consumo dos americanos, o pop simplesmente não tem vez dentro do zeitgeist musical ocidental, pensando em EUA (porque na Europa a coisa é diferente, sem falar dos movimentos musicais em outros continentes que vamos comentando aos poucos). Quem realmente bomba no Spotify/Apple Music são os rappers (especialmente a turma trap-inspired e o rap de Atlanta), com ênfase em “os” – o grande destaque feminino continua sendo a rapper do momento Cardi B, enquanto Nicki Minaj busca se fortalecer numa nova estrutura de cultura pop/rap.

Enquanto isso, os acts pop mais novos parecem ter esquecido a importância do YouTube e de bons vídeos para manter o interesse geral, já que não rola aderência no Spotify, as vendas digitais estão na UTI e as rádios pop estão imersas em “quem paga mais” (apenas a gravadora da Camila Cabello entendeu bem isso); os mais experientes lançaram materiais ou muito ruins ou muito bons mas sem apoio; e parece que as coisas mais inventivas do pop não vem exatamente dos EUA. Movimentos fora do esquemão americano WASP ganham espaço.

Pensando nestes encontros e desencontros é que eu trago uma lista de vencedores e perdedores no pop de 2018, cobrindo o primeiro semestre. Lá no final do ano, eu retomo essa mesma lista com os destaques do ano em geral, e perspectivas para 2018. Por isso, coloque os headphones, aperte play na “Today’s Top Hits” do Spotify e continue lendo!

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Mixed feelings: Ariana Grande, “No Tears Left to Cry”

File:Ariana Grande No Tears Left to Cry.pngAriana Grande já pode ser considerada um dos principais nomes do mundo pop atual. Desde o estouro com a throwback 90’s “The Way”, que surpreendeu o mundo liderando o iTunes (e mostrando o poder da fiel fã-base Arianators); com excelentes álbuns que só fazem melhorar lançamento após lançamento; uma voz privilegiada que rendeu comparações à Mariah Carey e uma imagem e som bem característicos, desde o começo ela sempre esteve um passo a mais que as peers.

Nem mesmo o Donutgate (quando Ariana cuspiu num donut num restaurante e disse que odiava os EUA, tudo filmado pelas câmeras de uma loja de doces) afetou a imagem da jovem estrela. Pelo contrário, ela conseguiu inverter o jogo com outro lançamento celebrado, o sóbrio e envolvente “Dangerous Woman”, e o auge de sua relação artística com o Midas Max Martin – talvez o último grande trabalho do produtor sueco no pop, antes que chegassem “Witness” e “Reputation” na vida dele.

Só que, apesar de tanta exposição (e quatro indicações ao Grammy), o nome “Ariana Grande” só foi se tornar conhecido mesmo (para até a minha mãe saber quem ela é) no momento mais trágico de sua carreira – o ataque terrorista no final do seu show na cidade britânica de Manchester, ano passado. O atentado chocou o mundo – além da própria característica do ataque, a maior parte das vítimas eram crianças e adolescentes voltando de um show de música pop (o último lugar que você poderia pensar na ação de um homem bomba). 23 pessoas morreram (incluindo o terrorista) e 512 ficaram feridos. Algumas semanas depois, Ariana organizou um show especial (e emocionante, deixando até esta escriba, sempre tão fria, com os olhos marejados) em Manchester, “One Love Manchester”, um show beneficente cujo dinheiro arrecadado foi para ajudar as vítimas e suas famílias.

Todo o mundo finalmente pode conhecer Ariana Grande; e seus próximos passos, pessoais e artísticos, seriam vistos com calma pelo grande público. E uma certa antecipação.

E com grande antecipação que chegou o primeiro single do quarto álbum da jovem diva, a pop/R&B/dance com espírito anos 90, “No Tears Left to Cry“.

Inicialmente, pensando que as pessoas tinham chorado ouvindo a música, e alguns disseram ter referências ao atentado em Manchester, eu imaginava outra coisa – uma balada R&B, ou uma música pop sofrida, algo do gênero – não um pop/R&B com vibe dance anos 90, atualizado para 2018. Eu até gosto da melodia, simpatizo com a pegada quase disco do refrão, mas a execução poderia ser bem melhor. Fiquei imaginando Clivillés e Cole (do C+C Music Factory) com um material desses em mãos, o banger que seria (e curiosamente, nesta música, apesar da voz não parecer, me veio à mente como Mariah Carey trabalharia com a faixa).

No entanto, em comparação com os outros lead singles da Ariana, o resultado final é confuso e decepcionante (mais um na lista de decepções de Max Martin no último ano). A letra até trabalha com a ideia de “não vou chorar, mas vou celebrar a vida”, que talvez seja a referência ao que houve ano passado – mas eu tive que ouvir a música acompanhando no Genius umas cinco ou seis vezes pra entender. Não apenas porque a letra realmente é fraca (e a quebra no refrão é muito ruim), mas porque eu não entendi o que ela falava a música toda.

Eu confesso que meu listening é confuso, mas Ariana Grande sempre teve problemas com a enunciação das palavras nas músicas – uma crítica antiga que achei que teria se dissipado no terceiro álbum, em que a enunciação das palavras é bem mais compreensível. Em “No Tears Left to Cry”, depois de três ouvidas, eu só conseguia entender “I’m picking it up” e “no tears left to cry”. Parece alguém que não sabe a música e fica cantando baboseiras por cima.

Só depois de acompanhar no Genius e ouvir mais vezes fui entender alguma coisa a mais da música (aí depois você se questiona por que a Ariana não ganha Grammy…)

Além desses problemas, sinceramente? Eu fiquei bem broxada com o resultado final. A canção é grower? É; e evidentemente, com os fãs fiéis e novos ouvintes que chegaram depois para a festa, o lançamento será com excelentes números, mas é uma música difícil de pegar de primeira e no fim do dia, uns bons passos pra trás em relação ao que a Ariana já lançou antes – sério, nem uma performance vocal marcante a música tem.

Já o vídeo, de longe um dos melhores do ano. É lindíssimo visualmente, apesar da expressão completamente desprovida de vida com o qual a Ariana faz a dublagem. Sério, Dave Meyers nunca decepciona.

E vocês, o que acharam da nova música da Ariana Grande? Podem comentar!

As narrativas do Grammy 2017 [1] Melhor Performance Pop Solo

 

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O Grammy, como qualquer outra premiação, é construído por narrativas, que vão se descortinando durante o ano (de elegibilidade) até chegar ao ponto de explosão – o momento das indicações, quando as histórias que acompanhamos (o grande comeback, o grande álbum, o coming-of-age, o azarão) se encontram numa categoria para definir qual é a história que a Academia decidiu comprar e adotar.

Dessa forma, as narrativas que se apresentam para a categoria de Melhor Performance Pop Solo, onde se encontram as duas grandes artistas femininas do ano – Adele e Beyoncé – estão entrelaçadas pelas histórias delas, de outros artistas em destaque e das tendências musicais de um período curioso para a música pop, onde vemos aspectos técnicos, artísticos e sociais se misturando dentro da cultura pop.

Primeiro vamos aos indicados!

Best Pop Solo Performance
“Hello” – Adele
“Hold Up” – Beyoncé
“Love Yourself” – Justin Bieber
“Piece By Piece (Idol Version)” – Kelly Clarkson
“Dangerous Woman” – Ariana Grande

Agora é a hora da análise!

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Design de um top 10 [33] Mágicos em bicicletas

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Num quarto trimestre em que cada semana é um lançamento bomba de um act A-list do pop, quem parece intocável no topo até o momento é o duo EDM The Chainsmokers, que chegou a nove semanas no topo da Billboard Hot 100 com o hit de fim de estação “Closer”. No entanto, com novas faixas chegando e crescendo nas rádios (enquanto “Closer” já começa a dar sinais de cansaço no airplay), é hora de pensar quem vai tirar o trono da dupla nas próximas semanas (ou será logo?)
Top 10 Billboard Hot 100 29.10.2016
1 The Chainsmokers – Closer ft. Halsey
2 The Weeknd – Starboy ft. Daft Punk
3 Twenty One Pilots – Heathens
4 DJ Snake – Let Me Love You ft. Justin Bieber
5 Bruno Mars – 24K Magic
6 D.R.A.M. – Broccoli ft. Lil Yachty
7  Major Lazer – Cold Water ft. Justin Bieber & MO
8 Shawn Mendes – Treat You Better
9 Sia – Cheap Thrills ft. Sean Paul
10  Ariana Grande – Side To Side ft. Nicki Minaj

Enquanto “Let me Love You” ainda não tem clipe e “Heathens” já passou de seu peak, apenas The Weeknd e sua “Starboy” parecem com chances firmes de chegar ao primeiro na Billboard (seria o terceiro do canadense). A faixa vem subindo bem nas rádios (está em sétimo no chart), encontra-se estável no chart digital (em terceiro; não se esqueça de que esses dias tiveram várias faixas de gente relevante estreando) e está em segundo lugar no Stream (aliás, destronou “Closer” no Spotify). The Weeknd já cantou no SNL (divulgação das boas), com certeza deve ir ao American Music Awards, a faixa já tem clipe lançado e a música caiu no gosto popular. Das três, é a que está em caminhada ascendente ao topo, e em pelo menos uma a duas semanas “Starboy” chega à primeira posição.

(isso se não for lançado um clipe de “Closer”…)

Ou então se o Bruno Mars fizer um barulho ainda maior com “24k Magic”, a melhor estreia do moço desde o começo da trajetória, lá em 2010. O lead-single do novo álbum estreou em #5 na Billboard, graças à estratégia certeira de lançar logo tudo de uma vez e não ficar enrolando com as plataformas. Conseguiu exposição nas rádios (onde só tem subidas consistentes – ficou em #15 no chart das rádios, mas não se esqueçam de que as rádios têm uma relação de amor com o Bruno só comparada à relação com a Rihanna); está em segundo nos charts digitais e chegou à nona colocação nos charts de stream (olha como lançar o vídeo logo e enfiar o single em todas as plataformas possíveis é bom). A faixa ainda vai ser trabalhada bastante (já rolou SNL, ele vai abrir o AMA e com certeza ainda tem mais por aí) e como a música não sai da cabeça, o Bruno vai dar muito trabalho ainda nesse top 10, pode esperar.

Já menina Ariana Grande provou que a era “Dangerous Woman” é a era de afirmação de sua capacidade como hitmaker e fortalecimento da imagem. “Side to Side” é o grande hit que o álbum pedia, e a parceria com Nicki Minaj subiu duas posições no chart, chegando à décima colocação e dando à moça o oitavo top 10 da carreira. A faixa ainda tem uma lenha pra queimar nas rádios e no digital; mas os streams vem ajudando muito a música (Ariana teve dificuldades por aqui na era, mas o clipe provocativo, as boas apresentações e agora um comercial com sua participação e ainda tocando a música, vêm ajudando a manter a faixa na cabeça das pessoas).  Em oitavo nos charts de stream, #10 nos charts digitais, e subindo para a trigésima-primeira posição no airplay, parece que o caminho para Ariana é subir. De bicicleta, evidentemente.

E você? Acha que “Starboy” será o próximo primeiro ou teremos alguma surpresinha neste chart nas próximas semanas? Ou acha que minha previsão foi ruim e vai demorar mais para “Closer” sair do #1? Deixe sua resposta nos comentários – e ouça o hit da bicicleta, “Side to Side”.