O Estado do Pop Brasileiro

Originalmente este post seria no sábado passado, mas como diria uma grande pensadora contemporânea, assista pensando que foi publicado há uma semana atrás…

O vídeo de hoje no canal Duas Tintas de Música trata sobre o pop nacional massivo (termo que vou explicar com calma no vídeo), suas histórias de tensionamento com o chamado “pop tradicional”; a importância dos nomes do passado, tendências vindas de centros fora do eixo RJ-SP e artistas pioneiros no cenário que temos hoje – e evidentemente, qual é o estado do pop brasileiro em 2018.

Espero que aproveitem!

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Shawn Mendes e um amadurecimento esperado

Eu já tinha comentado aqui no blog sobre o Shawn Mendes e como eu sempre simpatizei com o som do jovem canadense – um pop orgânico, com referências de blues e soul, e com apelo bem maior do que as teens que já seguiam o Shawn desde os tempos do Vine. O que eu achava ser necessário para o rapaz era dar um polimento na letra, que era simples, mas ainda com uma vibe juvenil; mas nada como o tempo para trazer esse amadurecimento artístico para ele.

The cover consists of a floral design in the lower left corner with the title spelled out vertically in the centrePois é, esse amadurecimento chegou – e chegou de forma assustadora, com os dois singles lançados na quinta e sexta-feira passada; “In My Blood” e “Lost in Japan”, dois lados até certo pronto extremos de sonoridade que o canadense vai apresentar no terceiro CD. Assustador porque eu ainda não esperava essa elegância e tanta sutileza com 19 anos; e ainda por cima com dois sons que eu não sei como vão se encaixar no novo álbum.

“In My Blood”, a primeira música da nova era que foi lançada, é um pop-rock com cara de stadium anthem, com o DNA do Kings of Leon por toda a canção, e uma excelente letra (a melhora como letrista é absurda), super relatable – sobre ansiedades e dúvidas – e traz um peso ao repertório, que sempre foi mais acústico e intimista (mesmo com uma faixa super “pra cima” como “There’s Nothing Holdin’ Me Back” destoando do todo). Só essa música já tinha me deixado mega animada para o novo CD; mas aí quando ele lançou “Lost in Japan” (que estou já cantando o refrão a plenos pulmões) aí eu fui literalmente comprada pelo som. Que The cover consists of a floral design in the lower left corner with the title spelled out vertically in the centremúsica linda! É um pop/soul retrô dançante que lembra um old Justin Timberlake-meets-John Mayer-and-John Legend e funciona muito bem: o piano conduzindo a música, a linha de baixo marcante, a guitarrinha groovada, os instrumentos de sopro na viradinha do refrão bem discretinho – é uma produção extremamente elegante e equilibrada, um upbeat moderno e adulto, prontinha para consumo crossover. Agora é descobrir como essa música vai se encaixar no resto do álbum hahah

(aliás, se esse lançamento duplo foi inspirado na estratégia do Ed Sheeran, as faixas selecionadas do Shawn Mendes dão uma surra no que o ruivo apresentou pra Divide era.)

De fato, estou encantada pelo novo som do Shawn Mendes – mais maduro, encorpado, preocupado com os arranjos e as letras e uma evolução realmente assustadora em relação aos dois primeiros CDs. A minha empolgação para o novo álbum aumentou horrores e creio que teremos surpresas muito boas do canadense.

E vocês, o que acharam dos dois lançamentos? Se ainda não ouviu, confira aqui:

 

Ótimos álbuns [2] Britney Spears – “Blackout”

Atualmente vivemos no auge do urban e rap como sonoridade dominante nos charts. Nomes já consagrados como Drake dividindo espaço com grupos estouradíssimos (Migos), artistas na ascendente (a exemplo do pavoroso Post Malone e no urban/R&B, SZA, Khalid, Kehlani…), talvez o momento mais bacana pra ser rapper feminina desde os anos 90 (com a Cardi estourando e todo mundo sedento pelo comeback da Nicki) e a reverência aos clássicos (Jay-Z), bem como a solidificação de um novo poeta de sua geração (o genial Kendrick Lamar). Nem vou falar dos hits virais de rappers com nome Lil/Young/similares que volta e meia ficam nos primeiros lugares das playlists do Spotify.

No entanto, entre 2008-11, o que dominava o mundo pop era o eletropop, que monopolizou as rádios, definiu carreiras (oi BEP), lançou fenômenos (Lady Gaga) e outros acts na esteira (como a Kesha quando usava $), fez artistas entrarem na onda para se manter na mídia (como Usher e boa parte dos artistas de R&B daquele período) e ainda deu muito dinheiro ao Flo Rida e suas farofas famosíssimas. O eletropop cresceu à medida em que os downloads digitais capitaneados pelo iTunes se tornaram a principal plataforma de consumo de música nesse período específico e o sinal mais forte de que uma música seria sucesso ou não.

Image of the upper body of a brunette woman standing in front of brightly colored squares. She is wearing a pink dress and white fedora.Mas nada disso seria possível se não fossem os pioneiros. Apesar do dance-pop (que é um outro organismo musical) já ter sido usado musicalmente no começo da década, a encarnação eletropop com autotune em todas as faixas, batidas eletrônicas, eletro se infiltrando em outros ritmos e fazendo fusões que até hoje muita gente tem opiniões divergentes sobre essa mistura (os puristas do R&B que o digam) surgiu alguns anos depois, perto do final da década. Se os dois CDs que popularizaram o som para o mainstream pop foram o “The Fame” (2008) e o “The E.N.D.” (2009), quem podemos creditar como um dos pioneiros, oferecendo antecipadamente tudo aquilo que veríamos nos anos seguintes, foi justamente a fonte mais impensável – Britney Spears, a princesa do pop, que todos achavam apenas uma performer que colocava a voz nas músicas, e vivia uma fase complicada na carreira (separada do ex-marido Kevin Federline, mídia e público avaliando e julgando sua vida de mulher solteira e independente, TMZ e X17 ganhando horrores de dinheiro com as fotos dela), lançou um CD fabuloso e atemporal, “Blackout“, em 2007. Ou seja, há quase 11 anos, Britney deu régua e compasso para quem desejava fazer eletropop talvez com o melhor trabalho do gênero entre os artistas pop mainstream que trabalharam no som em todos aqueles anos.

Misturando eletropop, eurodisco (na incrivelmente retrô “Heaven on Earth”, inspirada em Donna Summer), R&B eletrônico e vozes sussurantes, efeitos vocais, vocais em camadas e Britney em fuck y’all mode, as letras faziam todo sentido para a vida dela: noites intermináveis, sexo, romances, liberdade feminina, indiretas ao ex e à mídia sensacionalista, e produtores que a entendiam (como Bloodshy & Avant e o espetacular Danja ❤ ). Mesmo não tendo escrito as letras, é fato que as músicas são as mais pessoais do catálogo, e nada no CD parece forçado ou estranho. A voz da Britney, mesmo quando entre efeitos, é tão reconhecível que mostra a inteligência de uma das intérpretes mais subestimadas do pop.

“Blackout” é atemporal no eletropop de “Gimme More”, com quem eu tinha uma estranha relação – achava pavorosa na época que foi lançada (“muito autotune, clipe ruim”) – meu eu de 17 anos era bem chatinho, confesso, mas hoje, eu acho uma puta música pop, que não envelheceu uma vírgula; no eletro-R&B antecipadíssimo de “Hot as Ice”, que parece ter sido feita em 2010 mas ainda dá pra dançar em 2018; até mesmo nas batidas de “Perfect Lover”, “Get Naked” e “Break the Ice”, que parecem coisa de um Timbaland 2.0 – mas não é por nada, já que Danja era o protegé de Timbo, mas um protegé que superou o mentor de uma forma tão absurda que hoje essas músicas são timeless enquanto as batidas do Timbaland soam reciclagem do “One of a Million” da Aaliyah que tem mais de 20 anos.

O CD é deliciosamente sacana e irônico com “Piece of Me”, uma biografia da Britney mandando todo mundo se foder com gosto (gente, imagina que no auge da internet dos anos 2000 as pessoas nos fóruns apostavam quando a Britney ia morrer); sexy em diversos níveis com “Toy Soldier”, a própria “Break the Ice”, em “Ooh Ooh Baby” e “Radar” (que a Britney teve a AUDÁCIA de colocar a música no “Circus” e lançar como single hahahaha no fucks to give); e na única contribuição do Pharrell no CD, “Why Should I Be Sad” é uma mensagem nada cifrada contra o ex-marido, com uma produção menos eletrônica que as outras faixas, um pop/R&B inspired super agradável de ouvir, com a melodia leve, mas a letra cheia de veneno haha e uma produção que consegue ser mais criativa do que tudo que foi feito por ele no Homem da Floresta.

Um álbum icônico não apenas nas músicas, mas também em quotes (“It’s Britney, bitch!”, óbvio; e meio mundo usava em fóruns “another day another drama”), “Blackout” antecipou as sonoridades e tendências do eletropop (e por consequência, da música pop em geral), no final daquela década. Além disso, é um álbum consistente, equilibrado e sem interesse em seguir as tendências do momento – e sim, definir uma sonoridade que fosse de acordo com as letras e a vibe que a Britney queria alcançar. O resultado foi justamente um CD que entregou para o pop mainstream os insumos necessários para fazer o eletropop se tornar o som dominante do final da década.

Longa vida à Princesa do Pop!

(okay, agora é com você: qual é o álbum das antigas – ou que tenha sido lançado ano retrasado mesmo – que você quer uma resenha? Pode sugerir nos comentários!)

 

Design de um top 10 [37] Mais quantos meses com essa música do Drake no topo?

Um amigo meu perguntou essa semana se o pop anda meio morto ultimamente. Então, eu disse a ele que para quem acompanha as divas pop, pode parecer meio sem graça; mas se formos considerar que o rap é o pop hoje, a cena tá bem inventiva e variada.

No entanto, é meio difícil pensar assim quando o ano nem começou e já temos uma faixa com previsão de passar dois meses no topo dos charts, deixando o Hot 100 chato e nada variado. E pior, a música em questão nem é essa maravilha toda. Sim, estou falando do primeiro grande smash de 2018, “God’s Plan”, do Drake, com recordes no Spotify, vídeo bem assistido e óbvio apelo popular com o som do momento.

Ou seja, é sobre o Drake e outros destaques da semana o tema deste Design de um Top 10 de hoje.

Top 10 Billboard Hot 100 17.03.2018

#1 God’s Plan – Drake

#2 Perfect – Ed Sheeran

#3 Finesse Remix – Bruno Mars feat. Cardi B

#4 Psycho – Post Malone feat. Ty Dollar $ign

#5 Meant to Be – Bebe Rexha feat. Florida Georgia Line

#6 Havana – Camila Cabello feat. Young Thug

#7 Look Alive – BlocBoy JB feat. Drake

#8 The Middle – Zedd, Maren Morris and Grey

#9 Pray For Me – The Weeknd feat. Kendrick Lamar

#10 Sir Fry – Migos

 

Resultado de imagem para Drake god's plan gifDenise, eu não aguento mais o Drake! Já são sete semanas no topo, e a julgar pelos números, tá longe de sair de lá. A música lidera em quase todos os charts de plataforma (menos as rádios, onde o #1 está com “Finesse”, mas a trajetória do canadense é só de subida) – entre todos, é o streaming que se configura como a maior força para a música do Drake. Aliás, “God’s Plan” nem é a melhor coisa do catálogo dele; pelo contrário, pouco envolvente ou grudenta, é inexplicável como está fazendo tanto sucesso – só pode ser porque é o som do momento. Seria algo muito mais vivo e divertido se estivesse na voz do Migos.

 

Bebe Rexha emplacou mais uma com “Meant to Be”, que subiu duas posições esta semana. O single, dueto com o Resultado de imagem para bebe rexha meant to be gifFlorida Georgia Line, faz parte do EP All Your Fault pt. 2, e de certa forma é o grande hit dessa era da artista. Um sucesso crossover, já que está liderando o chart country com 15 semanas, e está ganhando boost nas rádios pop. Também é o primeiro top 5 pra Bebe e segundo top 5 do Georgia Line. Apesar desse desempenho super positivo do hit, uma dúvida me acomete: “Meant to Be” pode significar que finalmente a Bebe vai fazer o grande jump para se tornar uma estrela pop de fato? Porque é curioso como ela emplaca um hitzinho mas nunca se converte numa carreira pop sólida. Veremos as cenas dos próximos capítulos.

 

Resultado de imagem para the middle zedd video gifQuem deve estar felizona aqui é a Maren Morris, já que “The Middle”, colaboração do Zedd com a cantora country e Grey, é o primeiro top 10 da Maren, uma das grandes revelações do country nos últimos anos. Também é o quarto top 10 do Zedd e o primeiro do duo Grey; e mostra que o EDM ainda está vivo e bem, só que com uma versão menos farofada. No entanto, “The Middle” parece muito com tudo que sei lá, o Zeed, os Chainsmokers e outros DJs andam fazendo recentemente na cena, e a voz da Maren Morris ficou tão sem personalidade que parece com qualquer outra voz de pop star ascendendo na carreira. Altamente genérica, a faixa tem chances de mofar no top 10 – apesar da queda no chart de streaming, está muito bem no digital e vem crescendo nas rádios.

 

E olha quem continua mostrando força: Quavo, Offset e Takeoff do Migos retornaram ao top 10 com “Stir Fry”, queResultado de imagem para migos stir fry gif já tinha peakado em #8, e agora na décima posição, mostra que o grupo não parece nem um pouco distante da saturação. O legal de “Stir Fry” é que o som é bem diferente do rap que eles sempre apresentaram, tem uma vibe beem upbeat, dançante e até pop, graças à produção bem inspirada do Pharrel, que aqui produziu com vigor (enquanto com os Neptunes no álbum do JT, parecia bem preguiçoso…). Não se surpreendam se 2018 continuar com o Migos continuando a fazer sucesso (e a indústria tentando fazer o Quavo acontecer…).

 

E vocês, o que acharam do top 10 esta semana da Billboard? Quais são as suas músicas favoritas desse grupo?

 

Dia Internacional da Mulher: Oito músicas para reforçar o poder feminino

Hoje não é exatamente um dia de “comemoração” – o 8 de Março é mais uma data importante, de luta, para lembrarmos sempre sobre o quanto “ser mulher” é luta pra sobreviver num país que mata mulheres diariamente, que violenta e agride mulheres desde a infância e que ainda paga menos, desvaloriza e as trata como apenas anexos.

Mas aqui no blog eu vou abrir um pouco de espaço para reforçar o poder da mulher – ela que é capaz de tudo e mais um pouco, que tem inúmeros papeis, que não tem medo de enfrentar os desafios e assumir seus sonhos, paixões, medos, alegrias e loucuras. E a melhor forma de fazer isso é por meio da música de mulheres incríveis com temáticas super caras a nós. Alguns clássicos, deep cuts que merecem sua atenção, sucessos pop recentes e um guilty pleasure que ninguém é de ferro.

“Woman”- Kesha Featuring The Dap-Kings Horns

Vale a pena começar com um dos hinos do incrível “Rainbow”, o renascimento da Kesha como artista e mulher – “Woman” é puro empoderamento, com direito a uma indireta bem direta pro inominável Dr. Lucifer com “‘Cause I write this shit, baby, I write this shit”, e de certa forma, uma indireta para toda a indústria, que sempre questiona se uma mulher realmente escreveu determinada música num álbum.

 

“I’m Every Woman” – Whitney Houston

Um clássico do R&B que tinha estourado numa vibe disco na voz de outra diva, Chaka Khan, ganhou ainda mais status de ícone na voz da Voz, Whitney Houston, que regravou para a trilha sonora de “O Guarda Costas”, em 1992. Reforçando a ideia de que essa mulher é tudo e todas as coisas, e consegue fazer o que quer sem esforço, tem um significado especial (e melancólico) quando pensamos que o vídeo oficial da faixa tem a Whitney grávida da Bobbi.

 

“Independent Women Part 1” – Destiny’s Child

Não é de hoje que Beyoncé fala do poder feminino em sua carreira. As Destiny’s Child já falavam de sororidade e independência  no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Mas com certeza “Independent Women Part 1” é um dos clássicos mais instantâneos por ser parte da trilha do filme “As Panteras” (minha infância purinha) e ser um hino pra todas as mulheres que trabalham, se divertem e amam na mesma medida.

 

“Respect” – Aretha Franklin

Um clássico atemporal do empoderamento feminino, tem uma história curiosa – escrita e lançada originalmente por um homem, Otis Redding (de quem vou falar dia desses), foi regravada por Aretha, que ainda incluiu alguns versos e referências que refletissem o seu objetivo na música: exigir respeito do marido/namorado, não apenas como esposa, mas como parceira. Uma música que não envelhece nunca.

 

“Can’t Hold Us Down” – Christina Aguilera Feat. Lil Kim

Xtina sempre foi de falar o que pensava, mesmo que isso fosse um problema pra ela depois – e quando ela se juntou com Lil Kim pra criticar o double standard entre homens e mulheres (e jogar shade no Eminem), surgiu uma das faixas mais atemporais da Christina e dos anos 2000. Ainda estamos discutindo o tema de “Can’t Hold Us Down” – mostra de que nós mulheres ainda temos um longo caminho para sermos respeitadas em nossa sexualidade.

 

“Hey Girl” – Lady Gaga Featuring Florence Welch

Deep cut do “Joanne” que merecia ter sido single, essa faixa super anos 70 coloca Gaga e Florence (do Florence + The Machine) juntas numa cute song sobre irmandade feminina, que as mulheres não devem brigar entre si e sim se unir. Além da própria mensagem de união, é uma indireta sutil a toda uma indústria e mídia que adoram criar feuds femininos para vender álbuns e jornais.

“That’s My Girl” – Fifth Harmony

O último single das Quintas antes da saída da Camila Cabello, representa musicalmente a vibe que as meninas  apresentaram em entrevistas e no convívio com as jovens fãs do grupo – a amizade e apoio feminino para enfrentar os desafios da vida. Mesmo que a relação de fato entre as cinco não tenha sido perfeita do começo ao fim, ao menos elas entregaram ao fandom na música o discurso empoderado pelo qual ficaram conhecidas no começo da carreira.

 

“Man! I Feel Like a Woman” – Shania Twain

Encerrando em grande estilo o post, um clássico do country-pop da Shania Twain que até hoje coloca meio mundo pra dançar e várias garotas para se divertirem sem pensar no dia seguinte. Outra música que dominou minha infância (foi até tema de novela), é acompanhado por um clipe que é a versão invertida (com os gêneros trocados) de um vídeo do Robert Palmer, “Addicted to Love“. Uma ironia finíssima, btw.


Esse post foi para dar uma suavizada, refletida, um reforço novamente do poder da mulher neste 8 de Março. Mulheres que se divertem (e nos divertem), que gritam, que não tem medo de cara feia ou opiniões ultrapassadas, mulheres incríveis de ontem, hoje e todos os tempos, que juntei nessa listinha que com certeza devo ter esquecido outras artistas, mas fiquem à vontade nos comentários para listar outras artistas com músicas poderosas (e empoderadas) ou indicar as suas favoritas.

 

E para todas as mulheres: seguimos!

Todo poder ao rei na trilha sonora de Pantera Negra

The cover image features a neck-ornament upon complete black background. It is made of animal incisors used as beads and worn by T'Challa.Se vocês ainda não assistiram ao grande sucesso do ano até o momento (três semanas liderando as bilheterias e pertinho do bilhão – sem a China!) “Pantera Negra”, o novo, mais desafiador, excitante filme da Marvel (que até agora gera discussões e thinkpieces), o que estão fazendo da vida? Eu assisti duas vezes, e já quero campanha antecipada para todas as premiações da awards season – espetáculo visual, de figurino, fotografia, maquiagem, de performances incríveis (o que é Michael B. Jordan como Erik Killmonger? Chadwick Boseman exalando poder e realeza como T’Challa? E a força e personalidade de Danai Gurira, Lupita Nyong’o e Letitia Wright defendendo personagens femininas multidimensionais num filme pipoca da Marvel? A CONCEPT!), além de roteiro e de motivações inteligentes (graças ao script co-escrito pelo diretor, Ryan Coogler, uma das pessoas mais interessantes por trás de uma câmera atualmente na indústria). “Pantera Negra” não é apenas um blockbuster que traz mais do que entretenimento e ação, é um acontecimento cultural, de representatividade na frente e nos bastidores; do que representa a África para nós (que parece tão distante, mas pra quem mora aqui em SSA, é uma lembrança mais próxima – nos rostos, na culinária, na música, na religiosidade), e o que é ser negro, especialmente negro da diáspora, e como essa identidade nos moldou para nos tornar o que somos hoje.

Acompanhando esse filme fabuloso tem uma trilha sonora de respeito – não apenas os incríveis instrumentais do Ludwig Göransson, colaborador antigo do Coogler – mas também o álbum curado do Kung Fu Kenny: Black Panther: The Album – Music from and Inspired By, o CD com faixas inspiradas no filme, e com músicas que apareceram em “Pantera Negra”, tudo organizado pela visão sempre incrível de Kendrick Lamar, que chamou os amigos, colaboradores habituais e rappers da África do Sul para apresentar o álbum do ano (e estamos começando Março!)

 

Apesar de evidentemente recomendar que você assista ao filme, dá pra curtir “Black Panther: The Album” numa boa, porque as músicas tem vida própria (e poucas estão no filme); mas é bem mais gostoso ouvir o CD conhecendo os tensionamentos do filme – especialmente porque o Kendrick pensou nas músicas como perspectivas do T’Challa e do Erik Killmonger – ou seja, são as visões dos dois personagens principais que perpassam o álbum, e você sente isso na produção: as faixas que tratam do posicionamento do Erik (como “Opps”, “Paramedic”, a INSANA “King’s Dead” tem produções mais pesadas, bem mais hardcore, e uma certa urgência e darkness e tensão que fazem parte da rage do personagem, e que tratam de violência, de inadequação a uma sociedade que o odeia, ou pura raiva e catarse). Já as músicas ligadas ao T’Challa são mais suaves, variam em sonoridade (o afrobeat de “Redemption”, a mistura de “X”, a vibe slowjam de “The Ways”) e em temáticas, desde a responsabilidade (com grandes poderes… sorry, herói da Marvel errado), dúvidas, medos, relacionamentos amorosos, segundas chances. E com as perspectivas tão divididas – e tão fortes – a dúvida mais poderosa de todo o filme (quem viu sabe) permanece em “Black Panther: The Album”.

Sobre as colaborações, Kendrick só vai trazer artistas de alto nível, e fazer os encontros musicais corretos: Travis Scott, James Blake, Future, The Weeknd; e rappers sul-africanos que fazem a necessária ponte entre as representações do negro na Motherland e nos EUA – Saudi, Yugen Blakrok, Babes Wodumo e Sjava oferecem perspectivas e sonoridades (e vozes, acentos, línguas) distintas que enriquecem ainda mais a audição de “Black Panther: The Album”. Não é apenas um álbum de um rapper americano para um filme de Hollywood tentando se conectar com a África; é um encontro de culturas, sons e experiências (com direito a vários versos em Zulu), e que apresentam temáticas que se conectam com o próprio filme (como destino e tradição) assim como refletem questões atuais, dentro da realidade da África do Sul, e por extensão, do continente africano.

Como o álbum é feito por músicas que fazem parte da trilha e que são inspiradas por “Pantera Negra”, algumas faixas – apesar de aparecerem no filme – são mais reflexivas ou mais comerciais do que o resto do grupo, como a futura vencedora do Oscar de Melhor Canção Original “All The Stars” e a incrível “Pray For Me” (melhor que todo o último álbum do Abel); o que não afeta em nada a coesão do álbum, se você quiser ouvir antes ou depois de ver “Pantera Negra”, ou se você quer curtir de forma independente.

Em resumo, Kendrick did it again! conseguiu produzir, curar, juntar uma turma altamente talentosa e apresentou ao mundo outro álbum destinado a ser clássico, um sucesso de público e crítica, e se possível – e se formos justos – uma oportunidade para a Academia fazer a coisa certa e celebrar um dos artistas mais incríveis dos últimos anos com um certo gramofone…

(e não se esqueçam de ver ou rever “Pantera Negra”, viu? #wakandaforever)

Meghan Trainor – “No Excuses”

A blonde woman standing in front of a pink background with "No Excuses" written above and behind her in white font.Sempre achei que Meghan Trainor tinha tudo para ser a Katy Perry dessa segunda metade da década. Bom tino para músicas catchy, personalidade divertida, jeito de sucesso. O primeiro álbum provou que ela podia seguir esse rumo (e baseado no fato de que pelo menos um Grammy ela já tem), mas algo aconteceu na produção do segundo álbum – o grande desafio de todo artista novato – ou podemos dizer, uma Epic aconteceu nesse período que transformou o novo CD naquela bomba que era o “Thank You” e um promissor single, “NO”, a única coisa decente de uma era que mal aconteceu de fato.

Meghan deu uma sumida (que eu nem sei bem se foi bom ou ruim pra carreira dela), voltou a ser loira (impressionante como ruiva tirava toda a personalidade dela) e agora está com um lead single, abrindo os trabalhos do terceiro álbum (infelizmente, ainda com a Epic) com “No Excuses”.

Será que agora vai?

Sobre a música, era óbvio que a Meghan voltaria com um som mais moderno, mas com leves influências retrô, que é justamente a vibe da moça. A linha de baixo meio eletrônica, as palminhas. É bem gostosinho, bem primeiro single pro verão. O refrão é forte e a letra até interessante – parece a Meghan respondendo a alguém sendo impertinente com ela; mas no geral, a produção é altamente descartável. Bem qualquer nota.

Agora, uma música chiclete, apesar da produção batida, pode crescer bastante com um bom clipe. Não é o caso do vídeo de “No Excuses”, fraquíssimo, com zero replay value e com cara de que a Epic não investiu um níquel nisso. Acho que o único dinheiro que a gravadora botou nesse clipe foi pro CGI para ampliar o número de Meghans. Até “All About That Bass” e “Lips Are Movin” pareciam ter mais budget. Essa mulher ganhou um GRAMMY, cadê dinheiro pra investir???

No fim das contas, apesar da música até ser boa e grudenta, a faixa tem um problema sério: não é marcante, não se destaca, não me atrai para ouvir o resto do futuro CD. Não traz nada de interessante até mesmo para o ano, especialmente com o vídeo sem graça. Queria muito ter gostado, porque simpatizo de graça com a Meghan Trainor; no entanto, aparentemente ela perdeu o bonde da história há algum tempo.

O que achou do novo single da Meghan? Pode comentar!