hora de incluir “folklore” na sua playlist da quarentena

(post em lowercase porque vamos seguir o tema)

eu já comentei anteriormente sobre álbuns que parecem feitos para encarar o caos que se tornou 2020 (veja aqui) e como estamos em meio a um cenário pós-apocalíptico que nos incentiva às vezes a esquecer os problemas e nos dá o direito de nos alienar por alguns instantes. no entanto, às vezes é importante nos dar outro direito: o de lamber as feridas, de sofrer, nos enlutar, de relembrar o passado, de buscar conforto na nostalgia, de procurar nas memórias mais felizes o caminho para o amadurecimento pessoal, a fim de encarar a merda do dia seguinte.

mas este período em questão, para quem é artista ou trabalha com conteúdo, também se converteu em concentração, inspiração e uso da criatividade como válvula de escape. como escritora, nunca produzi tanto no wattpad (e olha quantos vídeos eu fiz para o canal). taylor swift, por sua vez (meu pai eterno, eu me comparando à taylor swift) optou por lançar um cd despindo-se de superprodução, focando em storytelling e imagens construídas na mente – cinematográficas – além de maturidade na caneta. e quando taylor swift senta para escrever, senta que lá vem história.

folklore“, o oitavo álbum em sua discografia, é espetacular – provavelmente seu melhor trabalho, após momentos irregulares de sua trajetória com o “reputation” e o “lover”, mostra não apenas uma artista consciente de sua capacidade e elasticidade sonora e lírica, como também é uma prova de pico criativo. álbum que sai da caixa pop (e sai mesmo, não é fácil achar singles prontos para as rádios aqui) e trabalha com pouquíssimos produtores e compositores (incluindo o já cansado jack antonoff) num clima mais indie-pop e folk, taylor também brinca com a própria voz, com tapeçarias e camadas que fazem desse trabalho também bastante cuidadoso.

e, para minha surpresa, 16 músicas que não são fillers.

“folklore” me lembra muito um álbum famoso lançado em 2015, o “25” da adele – não em som, evidentemente, mas no sentimento evocativo, de memória. ouvir as músicas desse álbum é navegar em memórias, histórias de outras pessoas (já que taylor canta sobre “personagens”, pessoas criadas para conduzir as canções) que parecem nossas, mesmo que não tenhamos vivido. faixas como “the 1”, “seven”, “this is me trying” são histórias que, mesmo não sendo necessariamente contadas no pretérito, parecem contar dilemas e tramas que se passam em algum ponto lá atrás, seja um ponto em que não precisávamos andar de máscara na rua, ou uma parte da nossa infância onde tudo era grande, imenso, mas as rachaduras estavam lá, só não reparávamos. é um álbum bastante próprio para quem chega aos 30, porque é a fase em que a “vida adulta” chega de verdade – com suas conquistas, arrependimentos e esperanças, e é curioso como uma das melhores faixas do álbum, “invisible string”, reflita tanto essa timeline de tropeços e acertos que nos leva ao caminho da maturidade e da reflexão.

em outras faixas, como a primorosa “mirrorball”, essa “memória” é mais sonora – me lembrou muito faixas de pop dos anos 70, com a voz da taylor tendo como backing vocal a própria taylor, num delicioso exemplo de tapeçaria vocal que eu adoro.

claro que o clima de memórias não seria possível se o trabalho de taylor como storyteller não estivesse tinindo. no auge de sua capacidade como compositora, dividindo a pena com um compositor ou sozinha (como em “my tears ricochet”, visivelmente inspirada no b.o. dela com o ex-chefe da gravadora big machine), taylor foca em contar histórias dos seus personagens (os adolescentes apaixonados do “teenage love triangle”, que delicado!, o que é “betty”?; a mulher considerada “maluca” de “mad woman”, a mulher presa em um relacionamento abusivo de “hoax”) e são muito bem realizadas e bonitas.

isso só é possível porque aqui, a melodia – com muitos instrumentos de corda, pouco peso em baterias e outros instrumentos de percussão, ausência da produção carregada de álbuns anteriores – está a serviço da letra, e não o contrário. existem álbuns em que o contrário se aplica, e são bons do mesmo jeito, quando isso é feito de maneira deliberada. o problema ocorre quando a melodia se sobrepõe à letra de tal forma que ela eclipsa a beleza dos versos; e em “folklore”, a escolha por uma abordagem mais indie pop, com influência do folk, ajuda bastante a entendermos e viajarmos em cada história contada.

melodia aqui é importante, mas a letra é mais. e por isso, a melodia serve aos interesses da história. como se fosse a trilha sonora de um filme que você acha que viu antes, mas desta vez você vai gostar do final 😉

“folklore” é um dos melhores lançamentos de um artista mainstream de 2020 e acho que é a conclusão mais óbvia que se pode chegar. é fascinante ver uma artista que encontrou seu pico criativo fazendo algo bacana sem ser trend chaser (que foi uma crítica minha quando resenhei “reputation“), e sim seguindo o próprio fluxo, fazendo o que gosta e confortável com o próprio som. você vê que taylor não tá lutando com a música que tá fazendo.

se estamos discutindo aqui desde sei lá quando o atual estado do pop, onde o gênero não é mais “o gênero” e quem está trabalhando nele precisa ou lutar contra a maré ou surfar junto com a onda, estamos enxergando vários caminhos propostos – mas nunca levamos em consideração um percurso bem importante: não fazer nem um nem outro. talvez seguir os próprios instintos e se deixar levar pela própria criatividade, enxergar o mundo lá fora nem que seja de uma janela e não se preocupar tanto com sua posição dentro do zeitgeitst. e acho que taylor, em seu pico criativo, também pensou nisso.

oras, ela é uma das maiores artistas pop de seu tempo, com uma fã-base fiel e alguns clássicos recentes em sua discografia. neste momento da carreira, ela pode não querer atingir um público que talvez não esteja tão interessado mais nela, ou que ela não tenha mais tanto interesse em atingir. “folklore” é o resultado de maturidade, reflexão e criatividade afloradas, e o resultado é excepcional.

O problema com a mudança no Grammy de “Urban Contemporary” para “Progressive R&B”

O Grammy fez uma importante mudança nas últimas semanas no nome de uma de suas categorias: o prêmio de álbum de Urban Contemporâneo se transformou em R&B Progressivo, e neste vídeo, vamos explicar que nomes são irrelevantes. Por quê?

– O urban como formato de rádio, e depois gênero musical;

– Por que juntar artistas que não conversam entre si num gênero “genérico”?

– Quatro minutos de áudio baixinho porque meu celular já tá pedindo adeus;

– E por que mudar para R&B progressivo e nada é a mesma coisa

As respostas você encontra neste vídeo, dê play e descubra!

Coragem – Lady Gaga, “Chromatica”

Demorou um pouco para que eu terminasse de ouvir uma, duas, três vezes, e analisar com calma o “Chromatica” da Lady Gaga, o retorno ao pop da mother monster, e sem fazer comparações com materiais anteriores (como eu havia prometido).

Na verdade, só tentarei inserir um único álbum antigo nesta discussão, e apenas no final. Tentarei apenas focar na discussão sobre trazer Gaga como uma major force novamente no pop, em músicas que trabalham com um estilo que está se configurando como a tendência, mas com uma maturidade que apenas o tempo de carreira dá – e como esse contexto é positivo e ao mesmo tempo negativo.

Por isso, hora de dividir a análise em dois pontos – o BOM e o RUIM:

Maturidade artística nas letras: com as letras mais maduras e introspectivas em anos de carreira, Lady Gaga em “Chromatica” tem uma jornada de recuperação, cura e de autoconhecimento, não apenas como artista mas também como pessoa. Se amar antes de amar o outro, se curar das próprias tensões pessoais, a liberdade das próprias escolhas; a qualidade das letras e o processo de autorreflexão de uma Gaga que já viu e passou de tudo só vem quando você tem uma história na música que te permite escrever exatamente isso. E é tão gostoso ver uma artista escrevendo de forma tão profunda, mas numa estética pop que torna todo o material acima do que está sendo feito no pop atualmente.

Dentro da tracklist, os singles são bons de verdade: Vocês já sabem que eu não sou fã de “Stupid Love” e “Rain on Me”, os primeiros singles do álbum, mas dentro da tracklist, eles funcionam muito bem, e acabam se tornando highlights. O combo dos dois juntos é matador, e passamos boa parte do álbum sentindo falta desse combo.

As melhores faixas são as menos óbvias, mais weird Gaga: materiais como “911” e “Sour Candy” são momentos mais bacanas da Gaga e o que a gente espera quando pensamos no que ela pode apresentar, e em que momento da carreira ela está. Depois disso, o grande momento dela é de fato “Sine from Above”, com Elton John, que apesar de correr na mesma sonoridade do resto do “Chromatica”, tem uma beleza na letra que supera qualquer similaridade melódica com o resto do CD. Exceto por “911”, as outras duas são as músicas com maior potencial de serem singles, apesar de não gritarem HIT MASSIVO e #1 na Billboard (exceto se rolar aquele mutirão gostoso).

Coesão não é fazer um álbum todo idêntico: o álbum tem major production do BloodPop, e ter um produtor meio que coordenando todo o álbum ajuda a manter a coesão. Todo grande álbum precisa dessa mão para apoiar essa condução e não transformar o seu CD num apanhado. Entretanto, a coesão do álbum, visivelmente inspirado no dance anos 90 (que é a tendência musical do momento e outros artistas pop vão acabar se rendendo a essa sonoridade para se diferenciar da dominação rap nos charts), torna-se um problema quando em vários momentos eu pareço estar ouvindo o mesmo CD, e as músicas acabam parecendo trilha de academia. Não foi apenas uma vez que eu me senti ouvindo a música que vou usar pra fazer o supino após a pandemia, e olha que eu odeio música de academia.

Arranjos não valorizam as letras: por conta dessa coesão quase que idêntica, os arranjos acabam sendo aquém das letras que os acompanham. Você tem uma música repleta de ironia e crítica como “Plastic Doll” que fica parecendo um eletropop que eu ouvi na década passada, ou “Fun Tonight” que tem uma letra ótima de break-up song e vira um dance que você ouviu em qualquer lugar. Eu particularmente fiquei bem incomodada, até porque as letras ficam desconsideradas em meio à vibe “academia” do álbum.

43 minutos que duram: todos vocês sabem que eu tenho ASCO a álbuns muito longos. Mesmo com três interludes, “Chromatica” tem 16 faixas na versão standard, e apesar das faixas curtas, algumas com até menos de três minutos, ao todo são 43 minutos que não passam. Parece jogo de futebol 0x0 em que nada acontece. Para um álbum que está o tempo todo em uptempo, com poucas quebras, é um fail – e que provavelmente pdoeria ser resolvido se a tracklist tivesse sido rearrumada de alguma forma.

Too safe for my taste: Aqui vem a origem do título da resenha: “coragem”. Sabemos que Gaga voltou a fazer pop, dance-pop nos termos que ela vinha fazendo antes, e esse material é produzido perfeitamente para que faça sucesso, deixe os fãs saudosos da Gaga pop felizes e seja trilha sonora da vida das pessoas neste momento de pandemia – ou seja, atingindo o grande público. E sabe o que é interessante? Vai funcionar, porque Gaga é uma artista com grande aderência e conseguiu em seus rebrandings, se colocar novamente como uma artista que atinge um público maior do que o fandom.

Entretanto, eu esperava mais. Mais faixas pouco óbvias, mais desconstrução, mais surpresas. Até mesmo mais faixas com cara de single, fico pensando o que ela pode buscar aqui para lançar e prosseguir a divulgação da era. Esperava que o som me levasse a algo sem fronteiras, que me divertisse, que representasse esse colorido que eu esperava que fosse a era (aliás, qual é o conceito MESMO desse álbum?), e por fim, o resultado é bastante seguro – e plenamente compreensível: Gaga não pode errar, precisa pegar o bonde da história e dominar esse bonde, como toda artista que sabe liderar é capaz.

Por fim, o fato é que: depois do “Chromatica”, eu vou valorizar ainda mais o esforço de uma Gaga em 2013 que fez “ARTPOP”, mesmo com tantas questões pessoais envolvidas (e a gente sabe que ela não estava bem na época), mas houve um esforço de fazer um material que continuasse testando os limites do pop que ela mesma construiu, e num ponto bastante incipiente na carreira; e tentando conversar com o grande público de maneira radiofônica.

Na verdade, isso faz com que eu valorize ainda mais “Born This Way” (2011) e o que ela fez tão cedo em sua trajetória. Só acerta (e erra) quem tenta, e talvez a juventude nos faça ser mais corajosos, mais destemidos.

Quando se chega a um certo ponto na vida, pensamos em segurança, e isso é ótimo. De certa forma, eu posso pensar assim porque sou assalariada, mas quando se é uma 11x Grammy Winner e Oscar Winner que indiscutivelmente é uma lenda de sua geração, essa segurança é uma faca de dois gumes. Pensando numa trajetória repleta de altos e baixos, de rebrandings e renascimentos, Gaga faz certo porque entrega o que os fãs querem ouvir e a recoloca de maneira segura (de novo) dentro de um contexto pop onde o que ela representa não é mais o discurso principal; mas para quem tem esse currículo, a gente espera muito mais.

Mas minha opinião é só uma opinião gente – “Chromatica” vai concorrer a uma caralhada de prêmios.

Se te faz feliz… – “Rain on Me”, Lady Gaga feat. Ariana Grande

Em alguma thread ou post que eu fiz em algum lugar por aqui comentei sobre “being a leader or being a follower”. Se nunca comentei, hora de falar.

Algum artista famoso falou certa feita (digo algum porque realmente não lembro haha) que existem líderes e seguidores. E realmente, existem artistas que são líderes: eles definem tendências, são pioneiros, escancaram as portas para o resto passar e são reconhecidos por isso. Já outros são os seguidores – quem segue a moda, quem está sempre na zona de conforto e não vai sair dela. Está sempre esperando a porta abrir para ele passar.

E também temos os lobos solitários que fazem o seu, fazem sucesso e seguem sua carreira sem maiores tribulações.

Hoje eu vim falar de uma LÍDER, que surgiu escancarando portas e repensando a cultura pop de seu tempo: Lady Gaga, que hoje lançou o segundo single do novo álbum “Chromatica”, a dançante bem house anos 90 “Rain on Me“, com o featuring de Ariana Grande.

Lady Gaga - Rain on Me.png

Uma faixa própria para as festas em boates, caso estivessem abertas e não estivéssemos em meio a uma pandemia mortal, “Rain on Me” segue a linha apresentada por “Stupid Love”, mas aqui com a influência do dance early 90s bem mais forte, as clássicas faixas que merecem vozes poderosas. O que eu achava que seria bastante estranho – o encontro entre as vozes de Gaga e Ariana, já que a abordagem da primeira é mais raspy, rock até; enquanto a segunda tem um trabalho mais pop, suave, com influência R&B, ficou muito bom. As duas funcionam bem juntas, especialmente quando na segunda estrofe da Ariana, a resposta da Gaga ficou bastante melódica e gostosa de ouvir.

Outro ponto que funcionou bem na música foi a letra, que é simples e efetiva, sobre recomeços, renascimentos e o sentimento de carpe diem. Aqui também temos duas abordagens líricas diferentes, mas que também funcionam bem – e mostram que as duas estavam juntas no processo de composição da faixa.

Agora… Vamos aos problemas: ouvi uma, duas, três vezes a música, porque apesar da letra ser bacana e da interação entre as duas artistas ser bem resolvida, havia alguma coisa que não me amarrava, não me conectava – e considerando que o segundo single é a música que não apenas reforça a ideia principal do CD, como também carrega as vendas do álbum, precisa representar muito bem e ser explosiva o suficiente para tornar o seu CD uma experiência fascinante. E em todas as vezes, sabe qual foi a impressão que “Rain on Me” me deu?

On the nose: sabe aquela faixa que diz “olha, eu sou retrô viu? SABE, EU SOU RETRÔ, olha minhas influências!” e ao invés de ser uma experiência divertida ouvir uma faixa visivelmente inspirada em sonoridades de décadas passadas, parece até que é um atestado de “olha como sou musicalmente inteligente” e a música passa por apática, asséptica – porque é apenas uma experiência, uma tentativa de soar “antiga”, mas sem abraçar de fato as nuances e levá-las na alma, conseguindo brincar e trabalhar com naturalidade com esse som.

Gaga fez isso muito bem no “Born This Way”, quando puxa referências anos 80, dance, disco, envolvendo tudo em instrumentais carregados e quase rock ‘n roll.

Comparando com um artista que fez agorinha mesmo um álbum com referências antigas, The Weeknd consegue usar as referências anos 80 em “After Hours” de uma forma extremamente fluida.

Material aquém da Gaga: se você passou pelas várias fases da carreira de Lady Gaga logo após explodir com um material que até hoje é melhor do que 90% dos lançamentos atuais, eu espero excelência. “Rain on Me” não entra nem na edição Target do ARTPOP, sinceramente. Eu espero LADY GAGA, não um material que há sete anos atrás ela sequer usaria e viraria descarte.

Pra mim, essa não é uma atitude de uma artista líder. E sim de uma follower. Ou no mínimo, uma estrela que deseja mostrar que ainda há lugar para ela dentro do zeitgeist atual, mas não da forma que uma líder deve fazer.

E isso me preocupa: a volta ao pop dela parece mais uma volta ao pop para os fãs e a galera que acompanha música, e não para o público no geral – é claro que as pessoas neste momento estão se importando em não morrer, mas antes disso, havia uma busca, uma agonia por novos álbuns e artistas que mostrassem que o pop tinha um caminho, mas… Nossa, “Rain on Me” é o típico top 10 que chega ao top 10 pela força das fã-bases e não exatamente por um crescimento orgânico, por ter sido abraçada por todos os grupos.

(Aliás, qual foi a última canção que você imagina ter sido realmente abraçada organicamente por todos os grupos e chegou ao topo porque foi um sucesso absurdo em todas as plataformas e uniu consumidores de nicho e público em geral, e não porque porque fizeram mutirão de streams?)

O vídeo: o vídeo provavelmente resume o ponto de “leaders and followers”: eu pensei que não teria quase o mesmo tempo da música, e considerei o look inicial com a faca na coxa bem mal aproveitado. De resto, é um vídeo que eu, como consumidora que não faz parte de nenhum dos dois fandoms, não veria outra vez; achei que a paleta de cores merecia mais vibração, um colorido, até porque a letra da música passa um certo sentimento de júbilo; e sinceramente? Não faça duelo de coreô quando seu forte não é coreografia. Gaga é competente na dança – o forte dela sempre foi um movimento repetitivo que nascia icônico (como em “Bad Romance”, por exemplo) – mas não é o suficiente para segurar três minutos de vídeo dançando; o mesmo vale pra Ariana. Além disso, eu entendi que o foco visual da era é essa coisa meio ficção científica, distopia futurista com ar low-budget, mas é possível fazer isso e soar épico. Você é LADY GAGA. Uma de suas marcas registradas são os clipes elaborados, com referências pop bacanas e divertidas, com forte replay value e hype.

Se os dois vídeos que eu vi representam que é essa Gaga pop a qual teremos de nos acostumar, então me informem para que eu pare de comparar com aquela de 2009-13; e isso inclui as músicas também. Se o material que ela apresentou é Lady Gaga hoje, e são essas as músicas que passaram pelo corte final para fazerem parte do seu novo álbum, não comparo mais. Vou focar em ouvir o que ela me apresenta hoje. Nem vou comparar com materiais recentes porque o “Joanne” é um ponto fora da curva do que a Gaga sempre fez e a trilha de “A Star Is Born” é uma comparação injusta – não porque eu queria que ela fizesse aquele som. Não, eu queria que o esforço de qualidade que ela buscou naquele álbum se repetisse aqui.

O triste é que ela mesma colocou o sarrafo lá em cima VÁRIAS VEZES, e eu espero sempre o mais FODA porque Gaga é parte importante de um período bem legal da minha vida, e ela é parte desse meu processo de formação consumindo cultura pop.

Mas, se faz os fãs felizes… Quem sou eu para criticar né?

A famosa carta de Lana del Rey

Todo o stan twitter acordou com aquela boa e velha intriga digna dos bons tempos pré-quarentena: Lana Del Rey publicou uma carta em seu instagram questionando a forma como sua música era criticada por suas temáticas, focando em relacionamentos abusivos, e questões emocionais sérias. Todos sabemos que discussão de relacionamentos tóxicos é parte do liricismo de Lana, incluindo as simbologias relacionadas ao American Way Of Life, que parecem bastante nostálgicas, mas sempre considerei que havia uma crítica, uma ironia dentro do discurso.

Pois bem, o que rendeu B.O. foi justamente o primeiro parágrafo, onde Lana cita nominalmente artistas como Doja Cat, Ariana Grande, Camila Cabello, Cardi B, Kehlani, Nicki Minaj e Beyoncé, por terem chegado à primeira posição com músicas de cunho sexual, enquanto ela canta também sobre assuntos considerados “problemáticos” e é criticada.

Como eu tinha dito nos tweets iniciais sobre esse caso, o problema dessa carta é: é compreensível a chateação de Lana por não ser valorizada como artista, mas as artistas escolhidas para fazer essa pontuação foram mal selecionadas e o timing do discurso péssimo.

Por quê?

Vamos dissecar:

Lana Del Rey é uma artista subestimada, ponto.

Toda a estética tumblr pós-2012 e essa coisa meio moody, as vozes meio oníricas, com certa impostação, se devem muito à Lana. Não teríamos Halsey ou Billie se Lana não tivesse oferecido espaço para essa linha mais sentimental sem barreiras ou rótulos, mas com uma estética puxada pela internet.

Lana Del Rey - Born To Die (2012, CD) | Discogs

Dona de um conceito artístico forte, você sabe o que Lana Del Rey faz de cara, e qual a sonoridade dela, assim como a imagem. E por isso, acho que a crítica a respeito das críticas às suas letras devem ser direcionadas à indústria, aos críticos, a quem quer que seja, sem nominar outras artistas.

Porque o fato é que: mesmo fazendo bons álbuns, alguns aclamados, isso não se traduz em prêmios. E aí é que está o dilema – especialmente quando uma de suas “filhas” sonoras fez a rapa no Grammy neste ano, e você não chegou lá. Isso provavelmente é doloroso, e deve ser por isso que ela escreve algo como “no entanto, também acredito que isso abriu caminho para mulheres pararem de ‘por um sorriso no rosto’ e simplesmente serem capazes de dizerem o que quiserem em suas músicas”.

E aí é que está o outro problema.

Honestidade em relacionamentos e relacionamentos tóxicos não são primazia de Lana.

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familiares para vocês? Lana não é a primeira nem será a última a falar sobre esse tipo de situação na música pop mundial, e Carly Simon já trollou um ex nos anos 70 (“You’re So Vain”), então a tradição de female singer-songwriter usando música como diário de merdas que os homens fazem em suas vidas é tão antigo quanto escrever músicas.

O que pode ser creditado à Lana é a estética, como ela empacota os temas e transforma em música, a música que você ouve e diz “isso é Lana”.

Além disso, a seleção de artistas é extremamente problemática, e vamos ao terceiro ponto.

Temos que racializar o debate.

Eu sou uma mulher negra. Todo o debate na minha vida é racializado. Então, não escreva uma rant incluindo em sua maioria mulheres negras que sofrem com escrutínio em suas carreiras – e em seu liricismo da mesma forma que Lana, e até pior, porque são negras… – porque você vai ser acusada de? Isso mesmo, de racismo.

Mesmo com canções que falam de sexo, trair, nudez, como ela citou no primeiro parágrafo, essas artistas são criticadas da mesma forma, e até pior, porque para nós, mulheres negras, qualquer passo em falso somos completamente excluídas de qualquer discurso. Alguém ouviu o nome Janet Jackson?

Janet Jackson Reveals The Secret To Her Happiness In ESSENCE's ...

Ah, e ao responder nos comentários sobre as reações das pessoas a respeito da carta, Lana diz que “ama” essas cantoras, e as conhece, e “there are certain women that culture doesn’t want to have a voice it may not have to do with race I don’t know what it has to do with”.
(há algumas mulheres que a ‘cultura’ não quer que tenham uma voz; pode não ter a ver com raça, eu não sei o que tem a ver”)

Detalhe: tem a ver com raça. Tem a ver com raça o fato de que mulheres negras cantando pop ficam restritas ao field de “Urban Contemporary”, que mulheres negras são o gatekeeper da cultura nos EUA (e aqui no Brasil também), mas nossa estética só é aceita no corpo da branca. R&B feminino só é aceito na voz da branca. Nicki Minaj demorou mais de dez anos para chegar ao #1 mas foi Iggy Azalea quem chegou antes. Tudo tem a ver com raça. Madonna foi execrada no começo da década de 90 com o Erotica e o livro Sex, e toda uma postura altamente sexualizada e extravagante, que assustou os conservadores, mas no final da década voltou a ser a rainha do pop celebrada; Janet Jackson mostrou o bico do seio no Superbowl e foi colocada no ostracismo.

Então, tudo tem a ver com raça. Não dá pra tirar raça do pacote, nem quando você inclui duas cantoras brancas dentro da discussão (Ariana e Camila – esta última latina para os americanos, mas branca da mesma forma), quando em sua maioria, são selecionadas na sua rant mulheres negras que fazem música negra.

No final dos comentários, Lana pontua que ela defende o lugar no feminismo para mulheres que parecem e agem como ela, no sentido de “don’t look strong or necessarily smart, or like they’re in control etc. it’s about advocating for a more delicate personality” (“que não pareçam fortes ou necessariamente inteligentes, ou que estejam no controle; é sobre advogar por uma personalidade mais delicada”). De novo, racializando o debate, mulheres brancas sempre foram vistas como mulheres delicadas, frágeis, enquanto mulheres negras sempre foram colocadas como agressivas, “que aguentam tudo por que são fortes” etc. Essa posição a qual Lana luta já existe desde sei lá, SEMPRE.

Então entramos no ponto que eu acho que é essencial…

Lana é uma ótima artista. Mas sua música não é radiofônica o suficiente para fazer crossover.

Como eu já disse, e já repeti, a estética de Lana Del Rey é bastante visível e marcante, sua musicalidade é fácil de sacar de cara, suas letras são “epa, isso é Lana Del Rey” e sua voz é bastante distinta no meio pop. Lana é reconhecível. Entretanto, mesmo com remixes de suas canções, participações em músicas de artistas mais radiofônicos como The Weeknd, Ariana e Miley Cyrus, o fato é que Lana del Rey não vai fazer o sucesso que ela acreditou que deveria fazer (enquanto outras artistas que, sim, beberam de sua fonte, conseguiram #1 e aclamação) porque ela não é radiofônica o suficiente. O som dela e imagem não vão casar com uma rádio top 40 e vida que segue, sabe? Você pode não fazer sucesso e um top 10 na Billboard, mas ser aclamada no seu nicho, saca?

Confira o clipe de "Lust For Life", de Lana Del Rey em parceria ...

E dá pra sentir isso quando Lana entra numa faixa visivelmente pop (“Don’t Call me Angel”) e fica destoando porque definitivamente não é a área dela. E quando está com um Abel, que navega bem entre o alternativo e o pop, ela fica mais à vontade porque se trata de um artista muito parecido com ela.

(e sabe de uma? se ela faz um crossover pop para atrair o top 40, perde toda a essência de quem ela é, e toda a mística em torno de sua imagem. Fazer algo assim seria fatal para sua carreira.)

Eu acho que uma rant como essa não deveria sequer ser direcionada, ou escrita (a tal “question for the culture” que soou tão ruim, porque “for the culture” é uma expressão muito popular entre a comunidade negra americana) num notes do iPhone, e sim transferida para música – como ela mesma disse no final do texto.

Fale mal, faça indiretas, seja assertiva na sua música, mas sem citar nomes de pessoas que sequer tem a mesma sonoridade que você. Se ela tivesse citado Billie, Halsey, ou Lorde, eu ainda consideraria deselegante, mas teria uma lógica na crítica. Mas Beyoncé, com quase 25 anos anos de carreira? Kehlani, uma artista do R&B field?

Então, minha conclusão é: a carta vem de uma inquietação muito justa – “por que não valorizam minha música e criticam minhas letras, elas vem de um lugar que também deve ser levado em consideração”, independentemente se você concorda ou não com o que Lana escreve – mas a escolha das artistas e o timing foi muito ruim, porque as artistas citadas continuam sofrendo escrutínio pelo que escrevem, pela forma como se comportam – incluindo as cantoras que não são negras e estão citadas no texto.

Além disso, a escolha de palavras, determinadas expressões, precisam ser pensadas de forma muito cautelosa, porque você vai ser acusada de ser uma Karen de forma bem coerente.

No fim, talvez seja mais bacana entender que você é uma excelente artista que pode não atravessar o caminho do “alternativo” para o “radiofônico”, e que é bem melhor assim, porque corre risco de perder quem você realmente é no caminho.

Sugestão? Da próxima vez, transforma em música.

O caminho certo da história: “Daisies”, Katy Perry

Katy Perry Daisies.png

Uma das coisas que sempre me questionei quando se tratava da carreira de Katy Perry era – qual seria o próximo passo da californiana após o fracasso da era “Witness” (tanto visual quanto musical e em imagem perante o grande público), em que ela parecia ter perdido o bonde da história?

Fazer um som puxado pro urban para ampliar a demografia de público seria bastante forçado – mesmo que ela tivesse trabalhado com um faux-trap em “Dark Horse”, mas naquela época, soou bastante arriscado e até maduro, não trend-chaser. Prosseguir com parcerias EDM seria até cruel para uma artista com poucos featurings na carreira (e soaria bem desesperado).

Dessa forma, Katy seguiu low-profile com lançamentos de singles mais avulsos, mas que indicavam um caminho que ela poderia ter seguido lá atrás, após o “Prism” (2013): pop puro, maduro e com o toque de diversão que é característica da própria artista. Tenho lá minhas restrições a “Small Talk“, por exemplo, mas o fato é que uma das maiores injustiças dos últimos anos foi “Never Really Over” não ter chegado a um topo da Billboard Hot 100 ou a uma indicação ao Grammy porque a música é uma raridade – uma faixa moderna, atual e sem vibe retrô.

(digo isso como uma pessoa que quando ouve linha de baixo oitentista já grita MINHA MÚSICA)

Pois bem, Katy Perry continua a seguir a mesma linha, e sendo bastante autobiográfica em seu novo single, “Daisies“, lead do seu novo álbum, que veio com um vídeo simples, bem “vídeo mãezona”, e faz todo o sentido em tempos de pandemia.

Produzida pelo time The Monsters & Strangerz, cujos créditos de composição incluem várias faixas do excelente “Future Nostalgia”, além de produção de vários artistas que passam por Maroon 5 a Bebe Rexha, “Daisies” me lembrou vagamente o arranjo de “Unconditionally” (o que é ótimo), e tem uma letra bem bacana, soando como uma indireta para quem a quis colocar como has-been e fracassada após tudo que ocorreu na era “Witness”

They told me I was out there, tried to knock me down
Took those sticks and stones, showed ‘em I could build a house

They said I’m going nowhere, tried to count me out

Não é um instant hit feito “Roar” ou “California Gurls”, mas “Daisies” provavelmente é uma daquelas faixas que valem a pena ser ouvidas nos tempos de hoje. É a clássica música para dar quentinho no coração e pensar em dias melhores. Além disso, nem sei se Katy ainda quer aquele sucesso absurdo e massivo, que trouxe em troca pressões que a afetaram e a fragilizaram bastante. Ela me parece num momento diferente, em especial com a gravidez, e o vídeo mostra que ela parece bastante em paz consigo mesma.

Minha impressão? É de que este álbum será o melhor trabalho dela, porque finalmente Katy Perry pegou o trem certo para continuar sua história.

Álbuns para enfrentar 2020

Domingo de Páscoa chegando ao fim, mas com o vídeo do Duas Tintas de Música, finalmente numa qualidade que me deixa mais satisfeita, editado com meu notebook novo E nesse formato sentadinha em frente à bancada E com um editor de vídeo gratuito! Hoje é dia de falar sobre dois álbuns que eu tenho o feeling que vão representar bem os sentimentos desencontrados do ano de 2020: “After Hours”, do The Weeknd; e “Future Nostalgia”, da Dua Lipa.

Na conversa, uma defesa da disco, parêntese para falar sobre Usher e participação especial de gafanhotos e dos brinquedos do McLanche Feliz e BK Kids.

(aproveitando gente, lavem a mão e se possível, fiquem em casa!)

Últimos lançamentos [3] Seguindo o blueprint para o bem ou para o mal

Continuando as resenhas sobre os lançamentos pré-Corona (ainda vou me debruçar em especial nos últimos lançamentos de fato antes da quarentena e isolamento social), hora de falar sobre algo que gera discussão e tretas tanto quanto quem ganha o Grammy: trilha sonora do James Bond.

Apesar do novo filme do 007 ter sido adiado para novembro (por causa do coronavírus), a música-tema de “No Time to Die” já foi lançada em 13/02 (considerando que o lançamento inicial do filme seria agorinha em Abril), e a responsabilidade pelos vocais e composição da música ficou com a sensação pop Billie Eilish, que se tornou a pessoa mais nova a escrever e cantar uma faixa para um filme do Bond.

Billie Eilish - No Time to Die.png

Atenção: essa resenha é beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem enviesada porque eu sou stan dos filmes do 007, tenho DVD dos filmes e tudo, e tenho minhas preferências de canções originais:

  1. “A View To a Kill”
  2. “For Your Eyes Only”
  3. “Live or Let Die”

E desde que Daniel Craig assumiu o black-tie, o martini batido não mexido e a condução do Aston Martin, tivemos músicas bem irregulares compondo a abertura dos filmes do Bond, que na fase do loiro, são provavelmente os melhores já lançados. Muita gente gosta de “You Know My Name”, do Chris Cornell, mas no cinema o efeito da faixa + abertura e eu dormindo num busão antes do isolamento social é a mesma coisa. Entretanto, todos os filmes do Bond, em suas diversas fases, tem uma faixa clássica para chamar de sua:

Sean Connery era: “Goldfinger” e “Diamonds are Forever”, CERTEZA;
Roger Moore era: incluindo minhas faves, tem “Nobody Does it Better” (talvez as melhores faixas estejam na era dele)
Timothy Dalton era: “The Living Daylights” (mesmo com uma vibe muito parecida com “A View to a Kill”)
Pierce Brosnan era: “GoldenEye” e não se fala mais nisso

(não conto o coitado do George Lazenby porque ele só esteve em um filme e a música-tema toca durante o filme, apesar de ser MARAVILHOSA, OUÇAM “We Have All the Time in the World”)

Pois bem, cortemos para Adele em 2012, que finalmente trouxe para os filmes do Bond com Craig uma faixa clássica e atemporal – “Skyfall”, que tanto fora quanto dentro da abertura causa o mesmo efeito de épico, trágico e classudo; e virou o topo a ser alcançado por quem viesse depois.

Adele ainda é um blueprint do que está sendo feito para trilhas sonoras do James Bond – após “Skyfall”, é visível que as duas faixas seguintes selecionadas priorizam baladas grandiosas (que são até um retorno ao clássico, com as músicas interpretadas pela Shirley Bassey) ou melancólicas que tentam refletir a estética dos Bonds com Daniel Craig, onde o realismo e o elemento trágico sempre caminham. Perceba que nem mesmo em “Spectre”, o final é feliz happy end – tem tragédia e infelicidade por todo canto.

No caso de “No Time to Die”, temos a mesma situação de balada para a trilha do 007, sempre com alguma referência à trilha clássica. A letra é bastante straight to the point com o roteiro, indicando que Bond será traído pela enésima vez, e com estrutura até simples – não há a sensibilidade da visão feminina sobre “James Bond” com “Nobody Does It Better”, ou talvez o senso de humor sacana de “Diamonds Are Forever”, ou mesmo o refrão fodástico de “A View To A Kill”. Se formos comparar com a faixa blueprint, o que acontece: “Skyfall” fala do roteiro do filme, mas de uma forma tão sutil que pode ser também sobre qualquer outra coisa.

O instrumental não é modorrento tem um punch no refrão, ao contrário da SNOOZEFEST que é “Writing’s on the Wall”, mas… É basicamente isso. Quando soube que Billie estava envolvida na faixa, esperava uma música mais uptempo, com bateria marcada e algo mais urgente (em tempo: a última uptempo a ser lançada como trilha do James Bond foi “Another Way to Die” – PAVOROSA – de “Quantum of Solace”, um filme até aceitável se pensarmos que foi escrito na época da greve dos roteiristas), mas a faixa é apenas legal ouvida isoladamente. Pode ser que se torne grandiosa junto da abertura, mas o material é bem esquecível.

(a propósito, ouvir o trabalho vocal da Billie me lembra de que Lana Del Rey é uma intérprete/compositora de filmes para James Bond perdida. Ela tem voz e phisique du rôle para o trabalho)

(a propósito, saudades rockão a la Duran Duran nessas aberturas… Ou um R&B sensual a la The Weeknd, a última/única vez que tivemos um R&B foi “Licence to Kill”, com uma das piores letras já escritas dentro da música pop)

E vocês, o que acharam de “No Time To Die”? Aliás, vocês tem alguma música favorita da trilha do James Bond ou a franquia não te enche os olhos?

Últimos lançamentos [1] Uma Lady Gaga apenas eficiente

O ano só começa após o carnaval – e provavelmente o ano neste blog deve começar neste período, mesmo que o Grammy tenha ocorrido há praticamente um mês (e este sim seja o nosso “carnaval”). Entretanto, minha vida fez uma curva de 180° (emprego novo, livro a ser publicado) e agora sim podemos conversar sobre música e os últimos lançamentos! 

Decidi focar em três singles e um CD, com publicações durante a semana, e aos poucos vamos recuperando as discussões de um ano em que eu esperava bem mais dos nomes famosos (oi, Justin Bieber)… E começo hoje com ela mesma, Lady Gaga!

Uma Lady Gaga apenas eficiente

Lady Gaga - Stupid Love.png

A Mother Monster lançou na última sexta-feira (28/02) o lead do seu próximo álbum (chamado “Chromatica”) após um período de verdadeira coqueluche graças ao filme “Nasce uma Estrela” e um álbum pop bem-recebido (“Joanne”). Mas agora, “Stupid Love” é o retorno da Gaga que nós conhecemos: extravagante, dançando muito e com uma música rápida, feita para impactar nas pistas.

“Stupid Love” é uma canção extremamente eficiente. Música pop com vibe disco/dance, visivelmente dentro de uma trend usada por algumas pop stars (como Dua Lipa) de ir atrás dessa sonoridade para sair da dominância rap, podemos considerar um follow-up mais leve de sonoridades similares, apresentadas em “Born This Way” (2011), onde lá a vibe era mais rocker – quase Donna Summer em “Bad Girls” – ainda assim com esse flavor oitentista. O video lançado no mesmo dia é cheio de dança e cores, com referências a programas de TV japoneses como Jaspion e Changeman e o tema principal, a busca pelo amor, é fofo e meio corny. Ou seja, tem a impressão digital da Gaga em cada frame. 

No entanto, confesso que queria ter gostado mais, me envolvido mais, surtado mais com a faixa. É Lady Gaga, não uma act pop random: Gaga é a pessoa que mudou a estética do videoclipe no final da década de 2000 e junto com o BEP, colocou o electropop na cena mainstream de fato; e a música é apenas… Eficiente. Bacaninha, eficiente. Duvido que entraria na tracklist final do “Born This Way” ou mesmo do “Artpop” – no máximo seria a bonus track da edição italiana do álbum. Além disso, o clipe é legal, mas… Não há um grande momento fashion, algo extravagante, nem mesmo a coreografia me parece viral. E pior: o clipe parece barato. 

(importante: parecer barato não significa ser barato. Tem “n” vídeos por aí que parecem baratos por estética e ficam fodas. Esse parece barato e ficou com jeito de low-budget, o que pra mim é surreal em se tratando de Lady Gaga.)

Pior ainda é pensar que Lady Gaga está fazendo isso, quando a gente vê vídeos de kpop entretendo com visuais, trocas de roupa, cenários múltiplos, coreografias divertidas e mesmo quando a música não é lá essas coisas, o vídeo consegue entreter. E importante ressaltar que são os grupos de kpop quem estão dominando o discurso de uma nova geração de consumidores musicais, que provavelmente também são alvo de uma Lady Gaga que quer se reconectar com o público e reforçar sua posição de A-list no olimpo pop. E isso é curioso: uma das maiores popstars dos últimos 10 anos não conseguiu fazer o seu melhor no lead single: entreter.

“Stupid Love” é uma boa música, e bastante eficiente, e seu vídeo deve estar satisfazendo sua fanbase, especialmente porque aqui ela retorna ao pop que a consagrou  Mas, em comparação com o que é amado pelo público atualmente, e com o que Lady Gaga já fez no passado, não é exatamente incrível e extraordinário. Espero que o próximo single ou o álbum sejam melhores do que isso.

E aí, vocês curtiram o novo single da Gaga? Acreditam que esse retorno da Gaga clássica será bem sucedido nessa nova landscape?


O próximo post será de um artista que já “pulou o tubarão” tem algum tempo… Vamos ver se vocês saberão de quem se trata…

COMBÃO de singles [Outubro ’19]

Antes de começarmos a falar de fato sobre Grammy (afinal de contas, no momento em que este post for publicado eu já devo ter comentado sobre os indicados), hora daquele resumão de lançamentos que ocorreram mês passado, e que provavelmente podem entrar no Grammy 2021 (ou não, a depender da situação de carreira dos envolvidos)

(ah, e sobre o Grammy, os vídeos voltarão sim, como eu tinha comentado no post dos indicados! 😊 Vou fazer um esforço para compensar meus sumiços – que tem diversas explicações, como trabalho, projetos de escrita literária, crises de ansiedade, picos de estresse etc – e gravar os vídeos além de + um podcast com explicações que considero plausíveis sobre os indicados, conversas sobre os charts e papo sobre kpop)

Sem mais, vamos lá – em ordem cronológica:

Harry Styles, “Lights Up” (lançado em 11/10)

Harry Styles - Lights Up.png

Se eu te disser que no começo, não entendi bem como funcionava essa música e achado bem sem graça, vocês me perdoam? Então, eu tinha me acostumado com o rockstar anos 70 neojurássico do debut, por isso a vibe psicodélica indie tinha meio que me surpreendido; mas numa segunda ouvida, a faixa é mais que forte, é extremamente forte e a cara do Harry. Ele encontrou um nicho bastante particular, que ele consegue tornar radiofônico e pop, e funciona bem pra caralho – nicho esse que outros acts masculinos pop da mesma faixa de idade não estão fazendo, o que torna a trajetória de carreira dele desde a saída do One Direction uma das mais curiosas de acompanhar.

(aliás, nem dá pra lembrar, apenas se você for fã e não apenas um ouvinte comum, que algum dia Harry foi membro do One Direction. Parece um artista completamente diferente pra mim)

A música tem umas quebras de expectativa que numa rádio top 40 podem causar alguma estranheza, mas em outros charts (como o adulto ou o rock) funcionam perfeitamente. Ao mesmo tempo, “Lights Up“, com seu refrão feito em coro, versos crípticos e universais e um clima de elevação e liberdade, é a faixa perfeita para ser cantada em festivais.

Ou seja, o rockstar continua vivo.

Katy Perry - Harleys in Hawaii.png

Katy Perry, “Harleys in Hawaii” (lançado em 16/10)

Lembram-se de que eu tinha feito há muito tempo atrás um vídeo sobre a carreira da Katy Perry, onde eu não conseguia ver bem qual seria a função ou espaço dela dentro da landscape musical do momento? Então, como boa parte desses problemas estão relacionados ao descolamento da imagem dela em relação à música que ela fazia/faz, neste momento, a impressão que eu tenho é de que Katy está tentando colar novamente a imagem com um pop mais puro, e uma imagem mais divertida, mas sem ser paródica. Dessa forma, surgem os melhores materiais que ela lançou desde a parte boa do “Prism”, o que se inclui “Harleys in Hawaii“, uma faixa deliciosa e que poderia facilmente ser lançada no verão como aquele single perfeito para um fim de tarde com o love.

Entretanto, há um sério problema com essa música: ok que ela poderia lançar no verão, mas dentro de um contexto maior, de uma era, em que Katy já teria lançado um CD, um conceito, uma ideia sobre o que ela pretende fazer musicalmente. HiH parece a faixa terceiro single de um álbum já lançado, que todo mundo conhece as músicas e a era de coração (como foi no tempo de “Teenage Dream”, por exemplo). Nesta era (se assim podemos chamar) da Katy, todas as faixas parecem jogadas ao vento, o que é um desperdício para um material tão bacana (especialmente “Never Really Over”, um petardo pop que merecia uma sorte BEM, mas BEM melhor).

Eu não sei, sinceramente, qual o próximo passo da Katy – se teremos álbum, se será um compilado de canções lançadas, se estamos ouvindo um EP ou teremos uma grande surpresa – mas sinceramente eu não sei como qualquer estratégia de carreira se aplica especialmente no pop playlist de hoje (ou seja, música que serve mais como background)… Ou o pop que ela faz ficou em 2010.

Aí gera minha pergunta: será que Katy Perry perdeu o bonde da história com o “Witness”?

Selena Gomez, “Lose You To Love Me” (lançado em 23/10)

Selena Gomez - Lose You to Love Me.png

Finalmente Selena Gomez conseguiu seu #1 na Billboard com uma balada sentimental, evocativa e cheia de mensagens subliminares sobre um certo ex e sua atual esposa, após um período de carreira solo em que Selena se metamorfoseou de uma ex-Disney Star buscando uma carreira solo no pop para alguém com um material absolutamente intrigante e perfeito para a voz que ela tem.

Entretanto, o minimalismo que sempre foi bastante presente em seus materiais a partir do “Revival”, tanto vocal quanto em batidas, produções e a “vibe” do material se perde um pouquinho em “Lose You to Love Me“, o single que chegou ao topo da Billboard. Co-escrito pela dupla Julia Michaels e Justin Tranter, a música tem todas as características do som que os fez os hitmakers mais procurados há alguns anos. Entretanto, mesmo com o frescor da letra com caráter pessoal, as batidas marcadas, a escolha da interpretação e a produção, mesmo com um ar mais épico no refrão, GRITAM 2017. A balada não é exatamente groundbreaking (exceto pela letra) e tudo me parece meio datado.

O #1, provavelmente, foi graças ao buzz do retorno e o apoio da fã-base, porque os predicados da canção não exatamente colaboram para este resultado tão bom.

… E a propósito, o segundo single (surpresa), “Look at me Now“, consegue ser menos interessante ainda que LYTLM. Confesso que, enquanto ouvia o som pop eletrônico da música, senti falta da Selena do “Revival” e da que lançou “Bad Liar” (INJUSTIÇADA!!!) e “Fetish”, que funcionava num mundo diferente de outras peers. Fico contente que ela está buscando uma linha mais pop direta ao ponto, sem genre-bending, fiel às suas raízes, mas a música é tão… anticlimática…

Dua Lipa – “Don’t Start Now” (lançada em 31/10)

Dua Lipa - Don't Start Now.png

O primeiro single do segundo álbum da cantora britânica é bastante distinto do que ela já vinha trabalhando nos singles do debut – que eram mais pop, sem tantas influências (exceto por “New Rules”) – mas é audível que “Don’t Start Now” é uma continuidade do som que já estávamos ouvindo da Dua em seus featurings (“One Kiss” e “Electricity”, que eram mais dance, house, anos 90). Entretanto, o novo single busca referências mais anos 70, mais disco (ouça o pré-refrão e o instrumentalzinho curto após o segundo refrão), conversando com essa pegada dance anos 90 – e o encontro é um SMASH!

Eu amei a música, e não apenas porque eu gosto de música disco hahaha mas porque Dua funciona nesse som – ela tem a voz de diva dance, ela funciona nisso, tem o volume, tem algo que chama atenção e uma certa ironia na interpretação (bem britânico) que fica bem melhor do que fazer a coitada dar uma de estrela pop no padrão anos 2000 ao qual estamos acostumados. A faixa é gostosa, vibrante, não sei se o pré-refrão ou o refrão são a melhor parte da música, mas sinceramente? Uma das melhores coisas lançadas neste fim de ano, e se a próxima sonoridade pop brincar com house 90’s e disco 70’s, pode me chamar que tô feliz.


Agora é com vocês: quais foram as faixas favoritas de vocês neste último período? O que recomendam de lançamentos do pop neste fim de ano? Fiquem à vontade para comentar!