O estado do pop em junho

O verão americano – ou a sua proximidade – é sempre uma época muito interessante porque boa parte dos grandes lançamentos dos artistas pop (essencialmente, os artistas que interessam) ocorre justamente nesse período (exemplo: Katy Perry, em seu auge de popularidade, lançando seus álbuns entre Junho e Agosto, sempre considerando que seus singles eram lançados dois, três meses antes, como um preparatório para o verão). Isso ocorre até mesmo em um período de pandemia, em especial na situação dos Estados Unidos, que se encontra num status mais transitório do que o nosso – eles estão com várias opções de vacina, 45% da população totalmente vacinada, casos e mortes atualmente em queda (vocês podem fazer comparativos aqui), e a gente… Enfim, se vocês passaram um dia acompanhando a CPI podem entender por que a gente não teve pelo menos São João esse ano: vacina atrasada porque não compramos imunizantes em tempo hábil e com antecedência, boa parte da população cujo trabalho pode ser remoto ainda está em casa; e situação social, política e econômica em completa instabilidade.

Por isso, os lançamentos geralmente têm um objetivo: serem músicas para o verão, renderem mais streams e bombarem nas boates que estão reabrindo. Essas músicas definitivamente vão ser as trilhas sonoras para o resto do ano.

O mais interessante desse mês de junho é que alguns lançamentos ocorreram justamente num mesmo dia, 11 de junho, sendo que outros dois bastante relevantes ocorreram por agora na sexta-feira, 25/06. Esse novo material tem vários estilos, mas colocam seus artistas em posições bem distintas na indústria.

Lorde, “Solar Power”

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Em primeiro lugar, não tem como não destacar o retorno de Lorde com a música “Solar Power”, do álbum de mesmo nome que será lançado em agosto. É uma música pop com um certo groove (dentro das limitações do groove que você está pensando), que me lembra muito “Freedom” do George Michael, mas numa versão sem sal. Apesar da linha de renascimento, recomeço e positividade da música, uma coisa meio “paz e amor”, que eu particularmente detestei.

Talvez porque eu esteja num país em que eu não tô no clima pra positividade, ou porque um dos aspectos que mais me atraiu na música de Lorde quando ela surgiu em 2013 era o fator de identificação. Apesar de, quando ela estourou, eu tinha alguns anos a mais que ela, as músicas tinham um posicionamento que me intrigava de maneira positiva. Ela era uma figura meio que outsider de Hollywood, também geograficamente falando, que tinha uma vida bastante comum como a de qualquer outra pessoa, fosse adolescente ou um jovem adulto, que eu, com 23 anos, terminando a faculdade, começando um emprego novo, pegando busão pro outro lado da cidade por conta do trabalho, dizia a mim mesma – gente, isso faz muito sentido.

Tanto que eu dei o “Pure Heroine” de aniversário para uma amiga minha, que eu sabia que se identificaria de maneira quase espiritual com aquele livro – e ela regulava em idade comigo.

Quando ela lançou “Melodrama”, em 2017, eu até comentei com vocês o quanto o álbum realmente era muito bom, muito bem feito, mas eu não ouviria depois porque ouvir Lorde parte do sentido de identificação. Eu não me senti identificada com as histórias, mas considerei inegável que ela melhorou muito como tanto como compositora quanto como intérprete.

Em “Solar Power”, ela continua sendo uma boa intérprete, fazendo com maestria elementos que hoje as artistas mais novas tentam imprimir, mas quando se ouve Lorde, você sabe quem realmente é a melhor no seu grupo – o motivo não é apenas por sua habilidade como compositora, mas também porque ela cresceu e entende suas forças e fraquezas como cantora. No entanto, a minha crítica maior em relação a essa música é porque, para um grande retorno, para um artista que já trouxe coisas muito boas, eu achei um pouco… Eu particularmente não achei a letra tão intrigante quanto Lorde pode trazer. Ainda há elementos de seu humor sarcástico, mas… Eu esperava mais, acho realmente que Lorde escreveu coisas melhores.

Mas, eu não duvido nada de que “Solar Power” tem espaço guardado entre os indicados ao Grammy. Pop Solo tá aí; afinal de contas, o Grammy não vai deixar escapar um dos prodígios que a própria Academia – merecidamente – hypou.

Megan Thee Stallion, “Thot Shit”

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Outro lançamento que eu posso destacar é a música nova da Megan Thee Stallion, “Thot Shit”, com um clipe bem divertido – uma crítica à hipocrisia de muitos homens que criticam uma pretensa “hipersexualidade” das artistas, principalmente artistas negras, mas na verdade é racismo puro e simples, quando eles se comportam com a mesma hipocrisia que eles dizem criticar. Eu particularmente acho a música bem interessante, ela funciona diferente de outras canções que ela lançou recentemente – pelo que eu entendi ela está com sua personalidade Tina Snow, que é diferente da Megan que nós conhecemos.

Mas há algo que me incomodou na canção. Eu acho que o grande problema de “Thot Shit”, e nem é o problema dessa música apenas, mas meio que está se tornando uma tendência, é que as músicas são lançadas não porque o artista quer lançar uma música bacana ou porque deseja lançar algo que tenha a ver com sua carreira, sua trajetória.

Os singles são construídos para serem virais no Tik Tok. Drake fez isso no passado, falaram que “Up” da Cardi B era uma música feita para o Tik Tok (não discordo muito); e se analisarmos friamente, “Thot Shit” é feito para essa plataforma. Temos:

1. Uma batida rápida e ágil, feita para dançar, mas que não tem muita variação rítmica, meio que feita para ser ouvida e consumida esquecida depois;

2. O refrão é repetitivo e construído até mesmo para ser usado em um formato mais curto, seja para dançar com alguma coreografia na plataforma, ou para gerar alguma trend, tão comum ao Tik Tok, e fazer mais pessoas ouvirem e gerarem streams.

Eu não sei até que ponto esse tipo de decisão é naturalmente estratégica, porque hoje em dia para os artistas mais novos, dependentes do público mais novo, se você não viraliza no Tik Tok, você não acontece. Algumas faixas parecem uma construção natural – é só ver canções como “Levitating”, “Good 4 U”, qualquer coisa que Doja Cat lance (até mesmo faixas que eu NUNCA pensei virarem trend no Tik Tok, como “Leave the Door Open”), que você percebe não terem sido construídas essencialmente para a plataforma, mas acabam virando trend. Outras vezes, parece que o artista está construindo uma música só para que faça sucesso na plataforma, gere engajamento e vire hit. E isso desvia o objetivo final da música. A música não pode ser só um complemento, ou um background para uma dança. A música pode até ter essa função, mas não pode ser a única função dela.

“Thot Shit” vai fazer sucesso? Creio que sim, em especial porque justamente essa música é o centro de uma grande discussão relacionada à apropriação de danças e movimentos de criadores negros da plataforma Tik Tok, por parte de criadores brancos que não dão créditos às danças e coreografias feitas pelos primeiros criadores. Por isso, muitos criadores negros estão se recusando a fazer coreografias para “Thot Shit”, gerando um engajamento diferente, mais crítico.

É hora de ver o que vai acontecer nos próximos capítulos.

Ed Sheeran – “Bad Habits”

Já no dia 25, Ed Sheeran saiu da sua aposentadoria para lançar a faixa “Bad Habits”, lead single do álbum cujo nome nós não sabemos ainda. Ao contrário de outras músicas que ele lançou, em especial as álbum de parcerias que ele fez (que variavam entre o puro pop, R&B e rock, mas com algum tipo de identidade “Ed Sheeran”), essa música é… Definitivamente algo que eu não esperava. Houve algumas discussões a respeito da estética do lançamento dele, e do clipe, que lembravam demais “After Hours”, do The Weeknd; mas, musicalmente falando, eu discordo. A música, um dance pop feito para as pistas, só me fez dizer uma coisa: 2012 tá chamando a farofa de volta.

Vocês aqui do blog sempre souberam que eu nunca curti Ed Sheeran; mas é fato que ele sempre trouxe músicas chicletes, em especial após o “X” e “÷”. Os dois álbuns, especialmente o último, transformaram Ed Sheeran em Ed Sheeran. “Sing”, “Don’t”, “Photograph”, “Thinking Out Loud”, “Shape of You”, “Perfect”… Faixas que o tornaram um astro. Mas, para isso, a qualidade das músicas teve que diminuir (quer dizer, eu detesto igualmente o segundo e terceiro álbuns dele, e o álbum de parcerias é… Complexo). “Bad Habits”, assim, é mais um exemplo de como a música dele vem piorando com o passar dos anos. Batida genérica, voz genérica, produção gritando 2010-2012, quando eu chamava qualquer coisa lançada com essa sonoridade “farofa” no Twitter e no Orkut.

Esse cara ganhou um Grammy por composição e lançou uma música que parece trilha sonora de academia!

Enfim… Quanto ao clipe, eu sei que The Weeknd não inventou o terno e a pegada dark urbana e nem essa fonte que eu usei na minha capa de “Hashtag Máfia” no Wattpad (leiam gente, tá completo por lá), mas a construção de imagem dele com todos esses elementos foi tão forte, e tão bem feita (ele contou uma história com início meio e fim não apenas nos vídeos, mas também em todas as suas presenças em awards e performances no período – Abel usou ele mesmo como quadro para construir sua obra) que é impossível não comparar. Aí, quando você compara, Ed Sheeran parece um daqueles imitadores do Elvis ainda no começo de carreira. A imagem não cola, parece forçado, e a música parece forçada. O vídeo vai um pouco mais além, lembra algo de “Coringa” e “Garotos Perdidos”, mas para que você possa estabelecer uma identidade a partir de algo que muito recentemente esteve presente na mídia de forma massiva, é importante que você assuma isso como seu.

E eu não vejo isso em “Bad Habits”. Não sei qual o nível de sucesso que vai atingir, mas provavelmente eu não vou ouvir – até porque eu não piso na academia desde o começo da pandemia.

Maroon 5, “JORDI”

The cover depicts a drawing of a leopard and a zebra in a flower garden.

Além de novos singles, também foram lançados álbuns nesses últimos dias. O primeiro que eu vou destacar é “JORDI”, do Maroon 5, mais um material que prossegue expondo a decadência artística e de criatividade de Adam Levine e sua turma. Eu queria me impressionar com a capacidade deles de fazerem um álbum ruim, mas quando eu acho que o poço tem fundo, eles encontram o pré-sal. “JORDI” (cujo nome é em homenagem ao empresário da banda, falecido em 2017), segue a linha muito parecida com o “Red Pill Blues”, cheio de participações especiais, e músicas de produção extremamente genérica. As faixas gritam final da década de 2010, pré-pandemia, e não ficaria surpresa se eles de verdade foram buscar faixas rejeitadas pelo The Chainsmokers há quatro anos para lançar com a voz de Adam Levine agora.

As letras são outro poço sem fundo de criatividade. “Lost” tem o objetivo de ser catchy com refrão repetitivo, mas o resultado parece um grupo de compositores que não costuma acessar o dicionário de sinônimos. Outra atrocidade é “Lovesick”, também padecendo de uma visita ao dicionário de sinônimos, o arranjo até interessante sendo desperdiçado por uma letra repetitiva. “Nobody’s Love”, sem comentários. Google is your friend, buddy. Encontre um sinônimo.

Algumas faixas, por exemplo “Seasons”, são medíocres. Parece uma rejeitada do “Changes”, do Justin Bieber, e talvez se tivesse na voz do Justin Bieber fosse mais credível. Uma das melhores do álbum é “Convince me Otherwise”, muito mais por conta da participação especial de H.E.R, que conseguiu escapar do raio genérico deles – os caras conseguiram fazer MEGAN THEE STALLION soar genérica – porque tecnicamente falando… A música é difícil, bem difícil.

Outras faixas inspiradas do álbum são “One Light” (que realmente tem simplicidade em sua composição, mas não é preguiçosa. O refrão é repetitivo, mas tem uma quebra muito bacana) e “Memories”, que eu particularmente achava bem legal, e pensava que finalmente o Maroon 5 tomaria um rumo mais interessante do que eles vinham fazendo anteriormente (e essa música é exatamente um reflexo da gente, das nossas perdas, das merdas pelas quais passamos ano passado e esse ano, mesmo tendo sido lançado antes da pandemia). Mas eu fui enganada.

O fato é: eu estou impressionada como Maroon 5 lança álbum ruim após álbum ruim há literalmente UMA DÉCADA. O último álbum audível, que parece “Maroon 5” é “Hands All Over”, de 2010, que sofreu nos charts e aí eles decidiram focar exclusivamente nos charts com “Moves Like Jagger”… E nunca voltaram. Eu digo isso de cátedra, fui a um show deles na época do OVEREXPOSED, e eu odeio esse CD (a única coisa boa do álbum é a capa) – era visível como as faixas antigas brilhavam ao vivo em relação ao arranjo sem graça das faixas do “Overexposed”. Acho que apenas o “V”, de 2014, era mais aceitável, mas não é inesquecível.

Eu acho que desde o momento que Maroon 5 abriu espaço para outros compositores, deixando de apenas os membros serem os principais letristas, a banda perdeu completamente o diferencial – ainda sinto falta da levada funk e jazz dos dois primeiros álbuns e de toda a vibe sensual, algumas das canções pareciam uma carícia safada. É tudo tão estéril.

(como infelizmente o DNCE, do Joe Jonas, não vai lançar mais nada, nós não teremos por algum tempo uma versão do Maroon 5 que lançou faixas melhores do que o “original”.)

Doja Cat – “Planet Her”

Já o último lançamento esperado por muitos – incluindo a escriba aqui – é o “Planet Her” de Doja Cat. O terceiro álbum da cantora, rapper, e talvez uma das artistas mais interessantes do cenário atual, chega após o sucesso massivo de “Hot Pink”, que estava hitando música até agora em 2021. “Kiss Me More”, o primeiro single com SZA, já é um hit; mas a minha dúvida era: será que esse CD geraria o mesmo momento, a mesma quantidade de hits que “Hot Pink”, de fato o álbum que apresentou Doja à consciência coletiva?

O que eu posso dizer é: she did it again. Apesar da audição não ser tão instantânea (seu álbum anterior parecia um compilado de hits, músicas com potencial para fazer sucesso), “Planet Her” é mais coeso. Você, evidentemente, encontra ritmos variados como afrobeat, reggaeton, pop e R&B juntos em várias faixas, mas o material é proeminente pop e R&B, mas com a mistura de canto e rap que Doja faz com habilidade, incluindo seu flow, que pode não ser impressionante, mas você consegue enxergar a personalidade dela em cada música.

Aqui, as letras têm o senso de humor debochadíssimo dela, completamente imersa no mundo das redes sociais (ela é um troll, real e oficial), em “Ain’t Shit” ; conversas sobre relacionamentos (“I Don’t Do Drugs” e seu verso impecável “I just want you, but I don’t do drugs”, com o pós-refrão “Still I want you”; “Been Like This”, “Alone”); momento para crítica direto ao ponto e valorização da mulher em “Woman”; e sim, o quanto ela está em controle de sua sexualidade. Há tempo até para uma menção direta bem fofa e respeitosa à Nicki Minaj.

O álbum é repleto de participações especiais, como The Weeknd (a match para a personalidade excêntrica de Doja na ótima “You Right”, segundo single do álbum, aliás, que música sensacional – no aguardo das indicações em SOTY e ROTY, porque o tricky aqui não é apenas uma sugestão de traição, mas o fato de que ela ama uma pessoa, mas talvez ela ame mesmo outra, sinta aquele je ne sais quoi por outra), Young Thug e Ariana Grande, mas o álbum é totalmente de Doja Cat (ser fiel ao conceito é essencial). Você consegue enxergar seus variados flows, sua inquietação musical em fazer vários ritmos, seu humor; a consistência nos temas. É um álbum que começa uma velocidade mais baixa, mas que vai melhorando bastante e mantendo o alto nível até nas faixas mais lentas. Eu gostei muito do álbum e acho que o Grammy tem mais uma oportunidade de premiar Doja com pelo menos o prêmio de colaboração – e sim, colocar este material no pop field, porque definitivamente é um álbum pop.

Mas como este é um álbum pop, várias canções têm potencial para manter o “Planet Her” como parte da conversa coletiva por algum tempo: “Payday”, com Young Thug; a própria promocional “Need to Know”; “Alone”, “Ain’t Shit”, “I Don’t Do Drugs”…

Curiosamente, o lead “Kiss Me More” fica meio isolado lá no final da tracklist, o que de certa forma faz algum sentido, porque o álbum no geral tem uma linha muito específica de produção que não conversa tanto com essa música; mas, ao mesmo tempo, não é avulsa dentro da proposta do CD.

Resumindo: altamente recomendável – você ouve rápido, são músicas curtas, perfeitas para consumo repetitivo no streaming, e muito provavelmente várias faixas vão bombar no Tik Tok, mas porque elas não parecem terem sido construídas para a plataforma. É porque elas são viciantes. Não tem canções tão instantâneas, mas é visível que as músicas tiveram um cuidado e um carinho ainda maior – cumprindo seu objetivo: colocar Doja Cat no panteão da música pop, como a incrível artista pop que ela é.

(mesmo que infelizmente esse álbum tenha produção dele mesmo, Dr. Luke, que aparece em “Need To Know” e “You Right”. Quando você verifica, ela é da Kemosabe, mesma gravadora de Kesha; contratada aos 17 anos, provavelmente tem a ver com contrato, mas não posso atestar nada aqui)

E aí? O que você achou dos últimos lançamentos? Conta pra gente!

Ah, que saudades de uma angústia adolescente no pop

Adolescente é uma figura angustiada, é uma figura estressada, super dramática, que acha que o mundo vai acabar amanhã e é necessário fazer tudo ao seu alcance para ver se consegue alcançar os objetivos: conquistar o amor da sua vida, tirar 10 naquela prova chata, ou confrontar sua amiga sobre o batom que você emprestou e ela ainda não devolveu.

As minhas angústias adolescentes nos anos 2000 giravam em torno de duas coisas: eu precisava tirar notas boas para passar de ano no terceiro bimestre (e geralmente eu conseguia fazer isso), além de lidar com o fato de que eu tinha um crush na época da escola e ele nem imaginava quais eram os meus sentimentos…

Ao contrário de outras pessoas da minha idade, que chegaram à adolescência no período entre 2002-2007, eu não conseguia converter esses medos e anseios em músicas as quais eu me identificava. Nessa época, eu já era mais nerd musical – gostava de ouvir música pelo prazer de ouvir música e já pesquisava sobre os sons que eu curtia. Por identificação – estética, sonoridade, habilidade lírica e estilo – eu era fã de Amy Winehouse e o “Back to Black”, até por ela fazer música que eu curtia horrores (inspirada na Motown dos anos 60). Já devo ter comentado que curtia bastante JoJo, porque ela também fazia o gênero de música que eu gostava (um pop/R&B leve, bem ligado ao que bombava na época) e tinha uma voz poderosa para alguém tão jovem. Não tinha um visual super marcante, mas era “gente como a gente”, e eu me identificava.

Mas o tipo de música específica para lidar com angústia adolescente que eu tenho minha primeira memória foi ali na primeira metade da década de 2000, quando surgiu aquela que apresentou um grande shift nos nossos gostos por um artista e também na questão estética, fashion: Avril Lavigne, que a partir de 2002 com o lançamento do seu primeiro álbum, “Let Go”,  proporcionou a várias meninas que eu conheci na escola alguém com grande apelo popular a representando. Meninas que não gostavam de Britney ou Christina, que não se identificavam com a sonoridade pop ou com tudo que vinha junto (padrão estético, roupas, maquiagem) que não curtiam pegar as coreografias dos clipes na MTV. Meninas que viam em Avril e suas músicas referências líricas e de estilo: várias colegas minhas começaram a usar Converse preto (ou a versão falsificada, porque o tênis sempre foi caro), spikes, colar de correntes, gravatinha no pescoço, olhos beeeem fortes com delineador preto.

Aos poucos, você tinha bandas como Evanescence, que atraiu meninas mais góticas, além de outras artistas que já eram conhecidas antes de Avril, mas ganharam ainda mais impulso com o crescimento do pop-rock, como P!nk, quem seguiu nesse percurso como Kelly Clarkson; e também artistas masculinos, bandas de pop-punk que representavam essas angústias adolescentes: Fall Out Boy, My Chemical Romance, Simple Plan, e daí surge toda a estética do emo, que na época todo mundo descia o sarrafo no Orkut – e hoje já estão falando de revival fashion.

Outra banda que estourou no final da década com essa estética pop-punk bem cool, descolada, “i’m not like the others” foi o Paramore, e como pop-rock tinha um retorno nas rádios top 40, artistas da Disney que ainda estavam em séries e lançamentos do canal produziam álbuns com essa sonoridade, também com letras tratando desses dilemas adolescentes (e muuuuuito romance juvenil), mas de uma forma mais polida, sem xingamentos, tudo bastante modesto e sem controvérsias.

Mas esse shift precisa ser colocado na conta de Avril, e quem testemunhou essas mudanças ao vivo consegue perceber o quanto “Let Go” e “Under My Skin” foram importantes para adolescentes que em algum momento, não se viam representadas em seu estilo e modo de vida, nas cantoras famosas que passavam diariamente no Disk MTV. E o mais interessante era que Avril era próxima da gente em idade – tinha 17 anos quando lançou seu primeiro álbum, então, dúvidas, inquietações, namoros ruins, caras com jeito de problema, sonhos; enfim, questionamentos de toda adolescente e que Avril, por mais que tenha feito esse movimento, não foi a primeira e nem se tornou a última a expor essas vulnerabilidades na música pop. Nos anos 90, Alanis Morissette lançou “Jagged Little Pill”, e pode perguntar a alguma mulher que foi adolescente naquela época qual a sua relação com este álbum. Nos anos 80, Debbie Gibson vinha de um lugar de sinceridade, mesmo não tratando de coisas polêmicas em suas músicas. Era uma adolescente que compunha, e agia como tal. (estamos falando de uma pessoa que até hoje é a pessoa mais nova a escrever, produzir e interpretar um single que chegou ao topo da Billboard SOZINHA (17 anos).

Mais recentemente (2013), a gente teve outro exemplo de alguém que, se não teve um shift estético, proporcionou mudanças na parte musical, tornando o pop mais indie ainda mais consumível para o grande público: a neozelandesa Lorde, que tinha 16 anos quando lançou “Royals” e o álbum “Pure Heroine”, que traduzia anseios de adolescente longe do mundinho pantanoso de Hollywood. Sua vida comum, sem glamour ou luxo, em um país pouco comentado à época, Nova Zelândia, não atraiu apenas adolescentes identificados com aquele ar meio entediado da Lorde, como também muitos jovens adultos. Na época, eu presenteei uma amiga minha com o “Pure Heroine” de aniversário, e nós já tínhamos 22, 23 anos. Não éramos mais o público-alvo da Lorde, mas eu via nas letras coisas que eu achava que ela poderia se identificar.

É o que eu sinto um pouco nas reações de jovens adultos, millenials no geral, ouvindo o álbum novo de Olivia Rodrigo, que comentam sua identificação com os sentimentos passados pela balada “drivers license” ou têm uma sessão nostalgia com “good 4 U”.

Curiosamente, depois de alguns anos com MUITOS misses, finalmente a Disney conseguiu uma artista de seu catálogo de séries com sucesso, reconhecimento geral e – algo que eles não tinham há 12 anos – apelo positivo com a crítica.

Mas… Como isso foi acontecer?

Disney parou de limitar seus artistas

(ou eles entenderam que poderiam ter uma Ariana para chamar de sua?)

A Disney sempre limitou seus acts, que deveriam seguir regrinhas e limites dentro da máquina que os havia nutrido. Não podiam sair do quadrado, as músicas tinham que ter mais ou menos o mesmo apelo das faixas que eles lançavam nas séries e filmes do canal, e nada de polêmicas para os pais das crianças não deixarem de comprar os álbuns.

Tanto que é possível ver esse conflito entre o tipo de artista que a Disney quer que “eu” seja versus o tipo de artista que “eu” sou no caso de Miley Cyrus, que provavelmente passou anos vivendo uma versão realista de sua própria série, Hannah Montana.

No entanto, com o passar dos anos e a mudança no surgimento de novos artistas no pop, esse formato de act ex-Disney comprimido pela máquina acabou ficando de fora da movimentação da indústria: no final da década de 2000, os novos popstars de grande apelo foram compositores no passado, e já surgiram com a identidade toda definida. Compunham, produziam, visualmente marcantes. Outros artistas, na virada da década, estouraram após construir fã-base em plataformas como Soundcloud, YouTube, ou no falecido Vine.

(mas não podemos esquecer da decadência do pop, e o estouro do rap que atrapalhou o surgimento de grandes artistas vindos dessa máquina da Disney)

Além disso, eu posso suspeitar que a Disney olhou pro lado e viu: olha, a concorrência também sabe fazer isso, de uma forma mais convincente, com Ariana Grande. Quando Ariana estourou, em 2013, ela ainda fazia séries na Nickelodeon (Victorious e Sam & Cat), conhecida entre os adolescentes, mas  conseguiu distinguir a sua personalidade na série em relação a dela como cantora. Não era necessário sequer que eu tivesse visto um episódio da série dela para ter AMADO “Yours Truly”, eu nem sabia que a menina fazia séries juvenis! As músicas dela possuíam produção elegante, longe de ser vendável para uma audiência puramente infanto-juvenil, ou juvenil: ela já tinha parcerias com Mac Miller, Big Sean, e composições de nomes lendários da música, como Babyface (eu sempre repito isso porque na época, quando soube que Babyface estava envolvido no “Yours Truly”, eu parei e pensei: “essa menina vai MUITO longe”). Por fim, esse álbum mostrou que Ariana não apenas era um artista muito boa surgida de uma série de TV. Não estava limitada pelos interesses ou por regras da emissora.

Dessa forma, quando você ouve o “Sour” da Olívia Rodrigo, você entende que a Disney meio que deixou o rio correr pro mar: ela é da Interscope/Geffen (sdds das tretas no falecido Orkut do pessoal xingando a Hollywood Records pela forma como conduzia a carreira de Miley, Demi e Selena…), boa parte das músicas está lá com EXPLICIT pontuado – ou seja, ela pode estar até no elenco de uma série juvenil do Disney+, mas ninguém vai controlar de fato o que e como ela trabalhar com a própria música. Você pode ouvir a música dela sem nunca ter consumido a série e você pode consumir a série numa boa para depois, se quiser, ouvir o álbum fora do contexto do programa. A personalidade dela como cantora não vai se misturar com a personalidade dela como atriz, e essa fama não fica limitada.

Deve ter sido um grande aprendizado para a Disney, entender que ela não precisa controlar todos os passos de seus artistas.

Billie has kid sisters

Eu acho que o outro ponto que a gente tem que levar em consideração é que Olivia Rodrigo não é uma novidade, digamos assim, como cantora. Mesmo que ela não seja influenciada pela artista em questão que estamos falando, precisamos entender que falamos de MERCADO, então nenhuma artista no pop funciona sozinha: eu acredito que o sucesso dela está relacionado ao sucesso recente de Billie Eilish, em especial quando você ouve as faixas mais lowtempo do álbum, com produções mais minimalistas. Billie trouxe pro centro vocais menos grandiloquentes, uma presença mais jovem, moderninha e urbana, sinceridade e uma resposta a uma maneira mais tradicional dos artistas pop se posicionarem, aparecerem na mídia. Billie também não é a primeira de seu tempo; afinal de contas sem Lorde ou Lana Del Rey não teria espaço pra ela. Também podemos dizer que Olivia não existiria sem Taylor Swift; até na forma como ela compõe suas músicas (a tal ponto de “1 step forward, 3 steps back” ter uma interpolação com “New Year’s Day” e Taylor estar creditada como compositora da faixa), e você consegue enxergar uma postura “gente como a gente”, mais próximo de uma jovem comum – com a única diferença sendo Olivia Rodrigo sendo uma cantora famosa.

Tá, mas o SOUR é bom mesmo?

Depois de tanto textão, é a pergunta que não quer calar: o álbum de Olivia Rodrigo realmente é bom? A aclamação faz sentido? Os recordes de lançamento em vários países fazem sentido? “SOUR” vale mesmo esse hype todo?

Então, de fato é um bom álbum. É um álbum de uma adolescente, e que trata de uma maneira bastante direta e sincera sobre os problemas dentro de um relacionamento. Confesso que me incomodou muito ver que pessoas falam mal dela por apenas escrever sobre esse assunto, mas esse é o tema dela, e Olivia faz bastante bem. Não apenas no single debut “drivers license” mas em outras faixas, por exemplo, a ótima “happier” – em que ela quer ver o cara feliz, mas não tão feliz do que quando estava com ela. Olivia mostra habilidade na escrita, além de vulnerabilidade – ela fica pistola por ter sido traída, se sente culpada, se sente enganada, se sente amarga, irônica, deseja o “bem” entre aspas, depois começa a superar, e a vida é assim. Apesar do meio de campo ser um pouco mais lento, e focado muito mais em músicas mais acústicas com uma produção menor, consegue ser coeso e rápido. Acredito que esse acerto vem do fato de “SOUR” ter pouquíssimos produtores – o principal é Dan Nigro, que também é co-compositor das músicas junto com Olivia.

Além de temas mais de romance, que aparentemente estão relacionadas a um ex-namorado com quem ela contracena na série da Disney, algumas músicas (“brutal”, “jealousy, jealousy”) tratam do medo de crescer, um pouco sobre a cultura tóxica da internet, e elementos que têm tudo a ver com a geração dela, o público que vai se sentir mais identificado com o álbum. Não, eu não me identifiquei – hahaha meus 30 anos bateram na hora, mas dá pra perceber os elementos onde os adolescentes vão encontrar conforto.

O outro problema de “SOUR” é que as melhores faixas são justamente os singles lançados – adiciono aqui “happier”, uma das melhores faixas do álbum. Eu particularmente não curto as faixas mais bacanas serem justamente os singles porque fica a impressão de que só focaram no que seria lançado e o resto ficou ali pra encher linguiça. As faixas da tracklist são boas também, mas não chegam ao brilhantismo da trinca já lançada. Destaco “good 4 u”, que no começo eu não achava muito interessante, achava a produção maior do que a voz dela, mas mudei de ideia real oficial e pra mim, é o grande momento do álbum. Além disso, pode fazer a gente repensar de novo a discussão sobre qual o gênero que pode funcionar como resposta à dominância do rap – e como o pop-rock, pop punk, se converte em uma interessante solução.

Mas no geral… Eu não comprei o hype. “SOUR” é um álbum que muita gente está colocando em um pedestal – a crítica especializada, incluso – mas pra mim é o debut de uma adolescente que sabe compor bem, mas você percebe que ainda é necessário um certo polimento, para o bom se tornar brilhante, até por causa de algumas músicas que fazem parte da tracklist não serem tão interessantes quanto os singles lançados. Eu acho que tem que ter um pouco de calma, não chega a ser o maior début de uma artista adolescente (ainda acho que nos últimos dez anos, Lorde é definitivamente uns vários níveis acima, por conseguir me entreter mesmo não tendo 16 anos em 2013 – e sim vinte e três). Ainda acredito que é importante ter um segundo álbum até pra perceber uma evolução na composição, mas está aí o potencial pro brilhantismo.

Ainda sobre o futuro, acredito que veremos “SOUR” lá na frente indicado ao Grammy, e se eu fosse a Geffen, pensaria em submissões dessa forma: “drivers license” indicava para gravação e canção do ano, naturalmente. É uma música grandiosa, grandiloquente, comercialmente bem-sucedida, e o Grammy já tem precedentes em indicar (e até premiar, dependendo da situação) artistas mais novos por aqui. “good 4 u” eu colocaria como performance pop: a música funciona justamente por conta da interpretação dela bastante irônica e sarcástica para a faixa. Eu acho que eles deveriam fazer isso; para além, claro, da indicação do álbum para o pop field.

E vocês? Quais são as suas maiores lembranças a respeito de angústia adolescente? O que vocês acharam do álbum da Olívia Rodrigo?

Qual o futuro da música pop americana?

Nos últimos dois anos, a música pop americana passou por fases interessantes, que vínhamos chamando de um “período de transição”. Em primeiro lugar, quando discutíamos sobre a desconstrução de alguns estilos, a disputa entre “integrados” e “puristas” – quem queria produzir algo fora das caixinhas versus quem fazia um pop mais alinhado a ressignificar as tendências para a rádio top 40; e mesmo assim, o rap continuou (e continua) sendo o gênero mais importante dos últimos anos, o gatekeeper sonoro do público americano.

Além disso, outro elemento está tornando as músicas que são lançadas nos Estados Unidos passíveis de serem hits ou não: se elas se tornam virais no TikTok, a rede social comandada pela Geração Z, meninos nascidos a partir de 1995 até meados de 2010, e que acabam determinando as tendências musicais através das músicas que eles usam para os desafios, dublagens e trends.

Mas, para avaliarmos se as tendências atuais vão continuar por algum tempo – que na verdade não vão continuar por algum tempo, porque tudo é cíclico – ou se finalmente o pop encontrou um percurso, é hora de entendermos um pouco sobre quais são os caminhos que o zeitgeist da música pop americana vai seguir.

Em primeiro lugar, é hora de colocar as coisas em seus devidos lugares. Afinal de contas, quais são os três caminhos que a música pop americana está seguindo neste momento?

1. O rap ainda continua sendo o gênero mais importante da música norte-americana – mas os #1s deste ano contam uma história distinta;

2. Kpop e Reggaeton fazem parte de um movimento que envolve adolescentes e novas formas de consumo musical, bem como grupos demográficos cada vez mais relevantes culturalmente nos EUA – apesar do top 10 não refletir de todo essa perspectiva;

3. O pop norte-americano ainda não sabe para onde ir, mas tem caminhos.

E que caminhos são esses? Eles estão relacionados aos novos artistas do momento, e podemos resumi-los com o

O bedroom pop na verdade é a música lo-fi, canções produzidas com aspectos minimalistas, algumas distorções, e de preferência são realizados dentro de casa, dentro do quarto (daí o termo “bedroom pop”). Com algumas batidas mais destacadas, às vezes marcadas pelo hip hop, se você fizer uma leitura por alto vai entender que eu tô falando de Billie Eilish.

Eu tinha comentado em outra oportunidade que, para mim, era uma representante óbvia de uma tentativa de desconstruir a ideia do que era pop americano, mas aos poucos com os últimos lançamentos (incluindo a acústica “Your Power”, do seu novo álbum), a gente vai enxergando que a área dela é algo mais minimalista e lo-fi, mesmo que ela não seja a primeira a mostrar isso. Mas o fato é que essa sonoridade sendo mais expandida (e premiada com Grammys) abre espaço para que artistas mais novos (ainda mais que a própria Billie) tenham espaço para fazer algo mais “fora da caixinha”, como por exemplo a queridinha dos adolescentes, Olivia Rodrigo.

“drivers license”, seu #1 e o maior hit do ano, parte desse princípio, de produção mais minimalista, com algumas distorções. No seu segundo single, “deja vu”, mais animado até, a produção tem mais informações, mas não há um overproducing, são soluções bem bacanas e bem trabalhadas. Apenas em “good 4 u”, terceiro single e com pegada pop rock anos 2000, você percebe algo maior (e, apesar das boas intenções, eu achei que o arranjo ficou maior do que a voz da própria artista). Onde em som você percebe alguns passos para trás no aspecto de produção, com algo menor (não chegando a ser totalmente mínimo como Billie, por exemplo), nas letras você percebe a influência de singers-songwriters que trabalham justamente com relacionamentos, fim de relacionamentos e a capacidade de colocar indiretas em música – Alanis, Taylor. Já na voz, colocação, impostação, o primeiro nome que veio à mente foi a de outro prodígio, Lorde, que de certa forma foi uma das réguas-e-compasso no começo da década para que jovens cantoras e compositoras fossem respeitadas fazendo um som pop que fugisse um pouco do padrão estilo anos 2000 (as minhas referências pessoais de música pop são justamente daí). Com Lorde, há espaço para você ser mais alternativa, mais indie. E até mais mínima (quem não se lembra das batidas secas e marcadas de “Royals”?).

Quem não se lembra de Alessia Cara?

Ou seja, se você já tem um caminho, herdeiros de uma estética, existe um caminho a seguir.

(eu já li algumas pessoas discutindo o pop/rock ser o novo gênero do momento para o pop americano, mas eu sempre penso em: se tiver que acontecer, é necessário que um nome novo faça essa ponte, e não os artistas consagrados. A ver os próximos capítulos)

Eu não sei até que ponto o bedroom pop vai ser o grande momento da música pop americana que vai responder a até então dominância do rap/urban; mas é importante registrar que ainda existem artistas pop trabalhando com essa linha de encontros, como Justin Bieber e Ariana Grande – já considerados A-List, com uma carreira consolidada e pouco prováveis a mudar esse caminho por conta de novas trends.

Sim, teremos encontros especialmente porque esses artistas em sua gênese tem influências e bom trânsito entre artistas de rap e urban, e até que o que era centro vire nicho (O que eu duvido que isso ocorra, acho que o gênero só terá menos dominância), eles ainda serão muito relevantes e consistentes, se atualizando sempre. Aliás, o #1 de Justin Bieber em 2021, “Peaches”, mostra um bom exemplo dele fazendo pop com pegada R&B, mas com um olhar para as rádios top40 (aliás, a música tem uma batida excelente, apesar da letra mais ou menos), com uma sonoridade fresh, sem parecer datada ou cansada.

Ainda não é possível ver artistas mais novos olhando para Bieber ou Ariana como referências e você dizer “nossa, ele é o novo Justin”, e aí é que reside meu questionamento – quem participa dessas interseções vai prosseguir, ainda sem “herdeiros”, mas quem está “nos extremos” já tem seguidores. Ainda temos rappers surgindo e se consolidando: entre as mulheres, por exemplo, Doja Cat é o nome do momento, Megan Thee Stallion, Saweetie. No pop americano, não temos esse surgimento aos montes, de artistas novas, como na virada da década de 2000 para 2010 onde a cada respirada você descobria a “nova Lady Gaga”.

Antes de Olivia Rodrigo emplacar três top 10 na Billboard, quem foi realmente a grande coqueluche feminina pop de artista estreante? Okay, você pode falar “Billie”, mas a distância é grande demais para significar um retorno.

Antes de Billie, quem foi a grande coqueluche feminina pop? Muito provavelmente Meghan Trainor em 2014, se não me engano.

(antes, vamos tirar quem pode ser A-List atualmente, mas precisa apresentar mais consistência, como Dua Lipa e Harry Styles)

Então… Se Justin Bieber e Ariana Grande podem ser considerados os A-Lists da música pop americana atual, quem estourou na virada da década passada ou nas décadas anteriores seria o quê exatamente?

Vamos pensar nos nomes mais óbvios:

Lady Gaga conseguiu retornar a um estado de relevância com “Chromatica”, mas de fato não foi o álbum que todo mundo esperava que fosse o grande retorno de Gaga ao mundo pop. Considerando que ela está dividida na carreira de atriz e de cantora, 0a minha sensação é que hoje em dia ela é uma artista de legado, bastante confortável em sua posição, e que não vai ter os mesmos #1’s do passado, mas jamais vão considerá-la um grande flop caso lance algo novo, porque vamos dizer que ela conseguiu recuperar seu momento e melhorar a imagem após um meio de década confuso.

Katy Perry vai permanecer sempre lançando um bom single, bons trabalhos dentro do pop, mas infelizmente, graças a escolhas ruins de carreira (maldito “Witness” e seleção de singles do “Prism”) o bonde da história acabou sendo perdido.

Kesha entra nesse mesmo grupo, mas não por conta de suas próprias escolhas.

Entre os homens, podemos dizer que The Weeknd finalmente chegou lá no topo. Abel provou sua versatilidade tanto no pop quanto no R&B, deixando sua marca neste último como um som condutor para muita coisa que se ouve hoje na cena. Não dá para saber quais são os próximos passos dele como artista após “After Hours” mas o que podemos dizer é que ele mostrou apelo visual e musical para todos os públicos, fazendo a gente olhar ou ouvir algo dele e dizer “ah, isso aqui é The Weeknd”. Podemos colocá-lo como um A-List atual também, mas numa lógica de construção de carreira muito diferente de Ariana Grande e Justin Bieber.

Pensando em outro #1 lançado este ano, Bruno Mars com o Silk Sonic e “Leave The Door Open” (alto nível de produção, estrutura e sofisticação no arranjo) é um caso um pouco mais complexo, já que ao contrário de outros artistas, a sonoridade dele nunca foi atrás do gênero do momento – você entendia que existia uma consistência no trabalho dele ao buscar como base o passado, até mesmo em seu primeiro álbum, onde o toque retrô é mais sutil.  Considerando que ele já tem dois AOTY  e o respeito dos peers, em tese ele pode lançar e trabalhar no que quiser – e faz sentido expandir seu trabalho com um super grupo, Silk Sonic, em parceria com o rapper Anderson Paak (ainda bem que os ouvintes casuais têm a oportunidade de conhecê-lo!), fazendo um trabalho paralelo. Só que, boom, “Leave the Door Open” foi hit, a música é trend no Tik Tok (para minha surpresa), e esse caminho mais consistente dele vai mantê-lo numa posição de A-List por um bom tempo – e com Bruno, temos a mesma situação de The Weeknd de você bater o olho ou ouvir uma música e dizer “ah, isso aqui é Bruno Mars”.

(ah, e essa estratégia de “lançar um álbum a cada copa do mundo”, impensado em tempos atuais com superexposição em redes sociais, só funciona com ele porque é parte da construção de carreira dele. Um Harry Styles não vai poder fazer isso… Ainda)

Uma dúvida que me consome é como Justin Timberlake vai entrar nessa jogada, já que seu último álbum foi um grande fracasso (então, o álbum é ruim né…). Eu estava pensando nisso porque como ele vai voltar? Com qual público ele vai conversar? Em especial porque esse público novo poderia consumi-lo por nostalgia anos 2000 (seja pela época do NSync ou pela primeira parte de sua carreira solo) ou seria um consumo crítico, graças a todas as questões com a comunidade negra desde a situação com Janet Jackson.

Agora… Eu não sei o que esperar de Rihanna. Seu último foi lançado em 2016, e de lá para cá a música mudou tanto a forma de consumo, as mídias sociais mudaram tanto a linguagem e a forma de produzir conteúdo (bem diferente de como RiRi se movimentava no começo da década, onde o que ela postava no Instagram era sempre viral) que é muito difícil entender se Rihanna consegue funcionar dentro dessa nova estrutura ainda mais superexposta que lá atrás.

O fato é que o “estilo Rihanna” de cantar e as suas interseções com urban já foram incorporados ao léxico do pop; então o seu retorno, como o comeback de uma artista que estava há alguns anos fora da cena, pode soar algo datado ou, a depender de como ocorra, seja o grande momento do século. Mesmo que Rihanna também tenha músicas dela participando de trends do TikTok, não dá para pensar na reação das pessoas em como ela vai voltar – e qual sonoridade ela trabalhará. Confio nela porque Rihanna sempre enxergou além em relação ao som pop, mas ainda assim é uma interrogação.

Tá, e Taylor Swift e Beyoncé? Se formos pensar em Beyoncé, a gente não conta. Ela é uma lenda viva mesmo que ela não lance um single avulso, um longo álbum; mas qualquer coisa que ela lançar vai trazer buzz, independente do formato – vai que a mulher lance o próximo álbum em quatro episódios de um documentário no Disney+ né…

Taylor também fica de fora dessa discussão pra mim. Eu acho que tanto ela quanto Beyonce estão na categoria de lendas, que passaram por poucos momentos complicados no seu percurso de carreira, e se mantém em alta e fazendo sucesso, não importando o que lancem. Atualmente, ambas são ícones que servem de exemplo a serem seguidos, e não precisam provar nenhum ponto, tampouco sua relevância. Então, você não tem como exigir delas que os seus trabalhos sejam sempre #1 e recordes de vendas. Mas trabalhos FODAS, você terá.

O pop americano tem caminhos a seguir. Ele não está mais em meio ao fogo cruzado entre ser o gênero esquecido por conta do gatekeeping do rap, ou tentar se unir a outros gêneros bem-sucedidos para manter a relevância. Existe um percurso, e artistas tentando seguir esse percurso; além disso, os grandes astros que estouraram na década passada, bem como aqueles que se mantém na mídia desde meados dos anos de 2010 ainda possuem uma carreira consistente, não deixando a peteca cair.

O que deve ser mais curioso a avaliar é a partir de 2021 para os anos seguintes: teremos esse caminho aberto pelo lo-fi music (ou bedroom pop), casado com artistas influenciados pelos A-Lists e ícones atuais? Os artistas com mais rodagem vão se manter, mesmo que com menos relevância, ou aos poucos ficarão mais nichados, sendo ouvidos pelos fãs e grupos de ouvintes do pop, longe dos ouvintes casuais? Nessa última situação, quem conseguiu se manter no auge com poucos erros na trajetória, hoje colhe os frutos desse legado, seja sendo um mentor,  um ícone em quem se espelhar, ou seguindo um percurso onde riscos podem ser tomados, e poucos podem fazer – tendo bala na agulha, aclamação e uma boa gravadora pra segurar seu B.O.

Já os jovens A-Lists do momento já tem trajetória e escolhas sonoras consolidadas. Agora o desafio é descobrir qual é o novo (ou velho) som que pode finalmente tornar a disputa de espaço não mais um domínio, e sim uma batalha.

Grammy 2021 [1] – Pop Field

Eu tinha prometido entregar esse vídeo ontem (19/12) – tanto que até cito a data no vídeo (não ajustei para manter o charme haha) – mas hoje tem vídeo sobre o Grammy!

O papo de hoje é sobre o Pop Field, onde eu comento um pouco sobre os indicados, explicar porque não gostei do cover de “September” feito por Taylor Swift, tento destrinchar o motivo de Justin Bieber não ter sido indicado no field R&B e lanço algumas teorias relacionadas aos prováveis vencedores do Grammy 2021… Ou 22?

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Álbuns Atrasados – Ariana Grande, “Positions” e Miley Cyrus, “Plastic Hearts”

Duas artistas que começaram em posições bem similares – programas de TV destinados ao público adolescente; duas trajetórias de carreira distintas. Solidez, inquietação, identidade forte e uma busca pela identidade.

Ariana Grande e Miley Cyrus estão em momentos diferentes da carreira e lançaram álbuns recentemente, com resultados diversos e temáticas idem. E neste vídeo, sobre álbuns que eu (Marina Teixeira) deveria ter resenhado mais cedo, explico o que mais gostei ou não de “Positions” e “Plastic Hearts”, além de falar um pouco sobre:

– Cansaço x Identidade

– Ser eclético tem limites

– Trilha sonora de loja de departamentos

– E sons de televisão na sala e avião surgindo no meio do vídeo

Apesar de saber que serei muito criticada por este vídeo, espero que gostem!

MUITO DIFÍCIL ARIANA GRANDE ERRAR EM UM LEAD

(e não foi dessa vez que ela errou…)

Se tem uma artista que sabe escolher leads, essa pessoa é Ariana Grande. Desde que surpreendeu a todos com um pop/R&B cheio de personalidade em “The Way“, ela fugiu do pop/rock e dance que as colegas saídas de programas de TV juvenis na mesma época adotavam. Um diferencial, além de trabalhar com nomes fortes desde o começo da carreira (não é qualquer uma que já tem BABYFACE produzindo pra você no debut), que fez com que a carreira dela sempre fosse vista de uma maneira mais cuidadosa em relação a outras estrelas da mesma geração.


Com leads que vão mais ou menos na mesma proposta do som que Ariana sempre demonstrou ter mais simpatia e identificação (“Problem“, “Dangerous Woman“, e mesmo as pops “No Tears Left to Cry” e “Thank U Next” eram a embalagem de álbuns com influência pop e R&B), não é de se surpreender que o novo single da moça, “Positions“, do novo álbum que será lançado nesta semana (30/10, gente rápida é assim) tenha a mesma linha. No entanto, Ariana sempre se mantém fresh, nunca errando em seus leads (mesmo que eu particularmente não seja a maior fã de “Thank U, Next”, o fato é que não tem outra faixa por ali que seja abertura de era com a mesma habilidade que esta), especialmente quando o novo single é tão gostoso de ouvir, mantendo o ar comercial ao mesmo tempo que sendo muito bem feito e produzido.

Com uma levada anos 2000 (até fui caçar se tinha produção de Stargate) e uma certa dose de atualidade com o delivery mais trap, tem guitarrinha na levada e até violino, indicando que provavelmente a nostalgia continua (gente, 2000 tem 20 ANOS), mas com um toque bem moderno, onde nostalgia é apenas uma doce memória.

A letra é fácil e o refrão é grudento até cansar, na terceira ouvida você já canta fácil “switching the positions for you” – e a duração curtinha tem um objetivo: STREAMS, porque se tem alguém fora do rap que entende perfeitamente o que é lançar música atualmente… Ariana Grande lê muito bem o mercado, mas consegue ao mesmo tempo produzir músicas BOAS de verdade sem comprometer sua própria personalidade. Aliás, eu deveria parar de me impressionar em como ela é uma artista incrível, mas não consigo. Ariana está chegando ao SEXTO álbum, e não há mostras de que o material lançado desde o primeiro CD tenha algum momento que caiu para subir. Ela vai melhorando, moldando o som e sendo mais ousada em suas escolhas artísticas e escolha de produtores (“Sweetener” é o maior exemplo disso) mesmo dentro do estilo que ela gosta; e existe a busca por subir, crescer e melhorar. Imagina o que tem no álbum…

No geral, “Positions” já é uma das melhores músicas do ano – e o ano foi repleto de ótimas faixas, e vou adiantando que isso aqui é lock em Pop Solo no Grammy haha

Ariana Grande imagines life in the White House in 'Positions' video - CNN

A única coisa que eu realmente não curti do lançamento foi o vídeo, dirigido por Dave Meyers, que já virou o novo parceiro artístico de Ariana. Produção boa, elementos técnicos ok, mas eu esperava um vídeo mais literal, de acordo com a música. Sério, algo que fosse sexy e romântico, Netflix and chill, e a música merecia algo assim, e não algo apenas divertido. Tanto que eu prefiro ouvir a faixa e não ver o vídeo – e olha que não tenho muito problema em vídeos que não conversam com a letra da música, mas a produção é tão gostosa, orgânica, que o vídeo poderia acompanhar esse espírito… Mas enfim, opinião pessoal (e que provavelmente não deve ser lá muito popular)… e vocês?

O que acharam do novo single de Ariana?

hora de incluir “folklore” na sua playlist da quarentena

(post em lowercase porque vamos seguir o tema)

eu já comentei anteriormente sobre álbuns que parecem feitos para encarar o caos que se tornou 2020 (veja aqui) e como estamos em meio a um cenário pós-apocalíptico que nos incentiva às vezes a esquecer os problemas e nos dá o direito de nos alienar por alguns instantes. no entanto, às vezes é importante nos dar outro direito: o de lamber as feridas, de sofrer, nos enlutar, de relembrar o passado, de buscar conforto na nostalgia, de procurar nas memórias mais felizes o caminho para o amadurecimento pessoal, a fim de encarar a merda do dia seguinte.

mas este período em questão, para quem é artista ou trabalha com conteúdo, também se converteu em concentração, inspiração e uso da criatividade como válvula de escape. como escritora, nunca produzi tanto no wattpad (e olha quantos vídeos eu fiz para o canal). taylor swift, por sua vez (meu pai eterno, eu me comparando à taylor swift) optou por lançar um cd despindo-se de superprodução, focando em storytelling e imagens construídas na mente – cinematográficas – além de maturidade na caneta. e quando taylor swift senta para escrever, senta que lá vem história.

folklore“, o oitavo álbum em sua discografia, é espetacular – provavelmente seu melhor trabalho, após momentos irregulares de sua trajetória com o “reputation” e o “lover”, mostra não apenas uma artista consciente de sua capacidade e elasticidade sonora e lírica, como também é uma prova de pico criativo. álbum que sai da caixa pop (e sai mesmo, não é fácil achar singles prontos para as rádios aqui) e trabalha com pouquíssimos produtores e compositores (incluindo o já cansado jack antonoff) num clima mais indie-pop e folk, taylor também brinca com a própria voz, com tapeçarias e camadas que fazem desse trabalho também bastante cuidadoso.

e, para minha surpresa, 16 músicas que não são fillers.

“folklore” me lembra muito um álbum famoso lançado em 2015, o “25” da adele – não em som, evidentemente, mas no sentimento evocativo, de memória. ouvir as músicas desse álbum é navegar em memórias, histórias de outras pessoas (já que taylor canta sobre “personagens”, pessoas criadas para conduzir as canções) que parecem nossas, mesmo que não tenhamos vivido. faixas como “the 1”, “seven”, “this is me trying” são histórias que, mesmo não sendo necessariamente contadas no pretérito, parecem contar dilemas e tramas que se passam em algum ponto lá atrás, seja um ponto em que não precisávamos andar de máscara na rua, ou uma parte da nossa infância onde tudo era grande, imenso, mas as rachaduras estavam lá, só não reparávamos. é um álbum bastante próprio para quem chega aos 30, porque é a fase em que a “vida adulta” chega de verdade – com suas conquistas, arrependimentos e esperanças, e é curioso como uma das melhores faixas do álbum, “invisible string”, reflita tanto essa timeline de tropeços e acertos que nos leva ao caminho da maturidade e da reflexão.

em outras faixas, como a primorosa “mirrorball”, essa “memória” é mais sonora – me lembrou muito faixas de pop dos anos 70, com a voz da taylor tendo como backing vocal a própria taylor, num delicioso exemplo de tapeçaria vocal que eu adoro.

claro que o clima de memórias não seria possível se o trabalho de taylor como storyteller não estivesse tinindo. no auge de sua capacidade como compositora, dividindo a pena com um compositor ou sozinha (como em “my tears ricochet”, visivelmente inspirada no b.o. dela com o ex-chefe da gravadora big machine), taylor foca em contar histórias dos seus personagens (os adolescentes apaixonados do “teenage love triangle”, que delicado!, o que é “betty”?; a mulher considerada “maluca” de “mad woman”, a mulher presa em um relacionamento abusivo de “hoax”) e são muito bem realizadas e bonitas.

isso só é possível porque aqui, a melodia – com muitos instrumentos de corda, pouco peso em baterias e outros instrumentos de percussão, ausência da produção carregada de álbuns anteriores – está a serviço da letra, e não o contrário. existem álbuns em que o contrário se aplica, e são bons do mesmo jeito, quando isso é feito de maneira deliberada. o problema ocorre quando a melodia se sobrepõe à letra de tal forma que ela eclipsa a beleza dos versos; e em “folklore”, a escolha por uma abordagem mais indie pop, com influência do folk, ajuda bastante a entendermos e viajarmos em cada história contada.

melodia aqui é importante, mas a letra é mais. e por isso, a melodia serve aos interesses da história. como se fosse a trilha sonora de um filme que você acha que viu antes, mas desta vez você vai gostar do final 😉

“folklore” é um dos melhores lançamentos de um artista mainstream de 2020 e acho que é a conclusão mais óbvia que se pode chegar. é fascinante ver uma artista que encontrou seu pico criativo fazendo algo bacana sem ser trend chaser (que foi uma crítica minha quando resenhei “reputation“), e sim seguindo o próprio fluxo, fazendo o que gosta e confortável com o próprio som. você vê que taylor não tá lutando com a música que tá fazendo.

se estamos discutindo aqui desde sei lá quando o atual estado do pop, onde o gênero não é mais “o gênero” e quem está trabalhando nele precisa ou lutar contra a maré ou surfar junto com a onda, estamos enxergando vários caminhos propostos – mas nunca levamos em consideração um percurso bem importante: não fazer nem um nem outro. talvez seguir os próprios instintos e se deixar levar pela própria criatividade, enxergar o mundo lá fora nem que seja de uma janela e não se preocupar tanto com sua posição dentro do zeitgeitst. e acho que taylor, em seu pico criativo, também pensou nisso.

oras, ela é uma das maiores artistas pop de seu tempo, com uma fã-base fiel e alguns clássicos recentes em sua discografia. neste momento da carreira, ela pode não querer atingir um público que talvez não esteja tão interessado mais nela, ou que ela não tenha mais tanto interesse em atingir. “folklore” é o resultado de maturidade, reflexão e criatividade afloradas, e o resultado é excepcional.

O problema com a mudança no Grammy de “Urban Contemporary” para “Progressive R&B”

O Grammy fez uma importante mudança nas últimas semanas no nome de uma de suas categorias: o prêmio de álbum de Urban Contemporâneo se transformou em R&B Progressivo, e neste vídeo, vamos explicar que nomes são irrelevantes. Por quê?

– O urban como formato de rádio, e depois gênero musical;

– Por que juntar artistas que não conversam entre si num gênero “genérico”?

– Quatro minutos de áudio baixinho porque meu celular já tá pedindo adeus;

– E por que mudar para R&B progressivo e nada é a mesma coisa

As respostas você encontra neste vídeo, dê play e descubra!

Coragem – Lady Gaga, “Chromatica”

Demorou um pouco para que eu terminasse de ouvir uma, duas, três vezes, e analisar com calma o “Chromatica” da Lady Gaga, o retorno ao pop da mother monster, e sem fazer comparações com materiais anteriores (como eu havia prometido).

Na verdade, só tentarei inserir um único álbum antigo nesta discussão, e apenas no final. Tentarei apenas focar na discussão sobre trazer Gaga como uma major force novamente no pop, em músicas que trabalham com um estilo que está se configurando como a tendência, mas com uma maturidade que apenas o tempo de carreira dá – e como esse contexto é positivo e ao mesmo tempo negativo.

Por isso, hora de dividir a análise em dois pontos – o BOM e o RUIM:

Maturidade artística nas letras: com as letras mais maduras e introspectivas em anos de carreira, Lady Gaga em “Chromatica” tem uma jornada de recuperação, cura e de autoconhecimento, não apenas como artista mas também como pessoa. Se amar antes de amar o outro, se curar das próprias tensões pessoais, a liberdade das próprias escolhas; a qualidade das letras e o processo de autorreflexão de uma Gaga que já viu e passou de tudo só vem quando você tem uma história na música que te permite escrever exatamente isso. E é tão gostoso ver uma artista escrevendo de forma tão profunda, mas numa estética pop que torna todo o material acima do que está sendo feito no pop atualmente.

Dentro da tracklist, os singles são bons de verdade: Vocês já sabem que eu não sou fã de “Stupid Love” e “Rain on Me”, os primeiros singles do álbum, mas dentro da tracklist, eles funcionam muito bem, e acabam se tornando highlights. O combo dos dois juntos é matador, e passamos boa parte do álbum sentindo falta desse combo.

As melhores faixas são as menos óbvias, mais weird Gaga: materiais como “911” e “Sour Candy” são momentos mais bacanas da Gaga e o que a gente espera quando pensamos no que ela pode apresentar, e em que momento da carreira ela está. Depois disso, o grande momento dela é de fato “Sine from Above”, com Elton John, que apesar de correr na mesma sonoridade do resto do “Chromatica”, tem uma beleza na letra que supera qualquer similaridade melódica com o resto do CD. Exceto por “911”, as outras duas são as músicas com maior potencial de serem singles, apesar de não gritarem HIT MASSIVO e #1 na Billboard (exceto se rolar aquele mutirão gostoso).

Coesão não é fazer um álbum todo idêntico: o álbum tem major production do BloodPop, e ter um produtor meio que coordenando todo o álbum ajuda a manter a coesão. Todo grande álbum precisa dessa mão para apoiar essa condução e não transformar o seu CD num apanhado. Entretanto, a coesão do álbum, visivelmente inspirado no dance anos 90 (que é a tendência musical do momento e outros artistas pop vão acabar se rendendo a essa sonoridade para se diferenciar da dominação rap nos charts), torna-se um problema quando em vários momentos eu pareço estar ouvindo o mesmo CD, e as músicas acabam parecendo trilha de academia. Não foi apenas uma vez que eu me senti ouvindo a música que vou usar pra fazer o supino após a pandemia, e olha que eu odeio música de academia.

Arranjos não valorizam as letras: por conta dessa coesão quase que idêntica, os arranjos acabam sendo aquém das letras que os acompanham. Você tem uma música repleta de ironia e crítica como “Plastic Doll” que fica parecendo um eletropop que eu ouvi na década passada, ou “Fun Tonight” que tem uma letra ótima de break-up song e vira um dance que você ouviu em qualquer lugar. Eu particularmente fiquei bem incomodada, até porque as letras ficam desconsideradas em meio à vibe “academia” do álbum.

43 minutos que duram: todos vocês sabem que eu tenho ASCO a álbuns muito longos. Mesmo com três interludes, “Chromatica” tem 16 faixas na versão standard, e apesar das faixas curtas, algumas com até menos de três minutos, ao todo são 43 minutos que não passam. Parece jogo de futebol 0x0 em que nada acontece. Para um álbum que está o tempo todo em uptempo, com poucas quebras, é um fail – e que provavelmente pdoeria ser resolvido se a tracklist tivesse sido rearrumada de alguma forma.

Too safe for my taste: Aqui vem a origem do título da resenha: “coragem”. Sabemos que Gaga voltou a fazer pop, dance-pop nos termos que ela vinha fazendo antes, e esse material é produzido perfeitamente para que faça sucesso, deixe os fãs saudosos da Gaga pop felizes e seja trilha sonora da vida das pessoas neste momento de pandemia – ou seja, atingindo o grande público. E sabe o que é interessante? Vai funcionar, porque Gaga é uma artista com grande aderência e conseguiu em seus rebrandings, se colocar novamente como uma artista que atinge um público maior do que o fandom.

Entretanto, eu esperava mais. Mais faixas pouco óbvias, mais desconstrução, mais surpresas. Até mesmo mais faixas com cara de single, fico pensando o que ela pode buscar aqui para lançar e prosseguir a divulgação da era. Esperava que o som me levasse a algo sem fronteiras, que me divertisse, que representasse esse colorido que eu esperava que fosse a era (aliás, qual é o conceito MESMO desse álbum?), e por fim, o resultado é bastante seguro – e plenamente compreensível: Gaga não pode errar, precisa pegar o bonde da história e dominar esse bonde, como toda artista que sabe liderar é capaz.

Por fim, o fato é que: depois do “Chromatica”, eu vou valorizar ainda mais o esforço de uma Gaga em 2013 que fez “ARTPOP”, mesmo com tantas questões pessoais envolvidas (e a gente sabe que ela não estava bem na época), mas houve um esforço de fazer um material que continuasse testando os limites do pop que ela mesma construiu, e num ponto bastante incipiente na carreira; e tentando conversar com o grande público de maneira radiofônica.

Na verdade, isso faz com que eu valorize ainda mais “Born This Way” (2011) e o que ela fez tão cedo em sua trajetória. Só acerta (e erra) quem tenta, e talvez a juventude nos faça ser mais corajosos, mais destemidos.

Quando se chega a um certo ponto na vida, pensamos em segurança, e isso é ótimo. De certa forma, eu posso pensar assim porque sou assalariada, mas quando se é uma 11x Grammy Winner e Oscar Winner que indiscutivelmente é uma lenda de sua geração, essa segurança é uma faca de dois gumes. Pensando numa trajetória repleta de altos e baixos, de rebrandings e renascimentos, Gaga faz certo porque entrega o que os fãs querem ouvir e a recoloca de maneira segura (de novo) dentro de um contexto pop onde o que ela representa não é mais o discurso principal; mas para quem tem esse currículo, a gente espera muito mais.

Mas minha opinião é só uma opinião gente – “Chromatica” vai concorrer a uma caralhada de prêmios.

Se te faz feliz… – “Rain on Me”, Lady Gaga feat. Ariana Grande

Em alguma thread ou post que eu fiz em algum lugar por aqui comentei sobre “being a leader or being a follower”. Se nunca comentei, hora de falar.

Algum artista famoso falou certa feita (digo algum porque realmente não lembro haha) que existem líderes e seguidores. E realmente, existem artistas que são líderes: eles definem tendências, são pioneiros, escancaram as portas para o resto passar e são reconhecidos por isso. Já outros são os seguidores – quem segue a moda, quem está sempre na zona de conforto e não vai sair dela. Está sempre esperando a porta abrir para ele passar.

E também temos os lobos solitários que fazem o seu, fazem sucesso e seguem sua carreira sem maiores tribulações.

Hoje eu vim falar de uma LÍDER, que surgiu escancarando portas e repensando a cultura pop de seu tempo: Lady Gaga, que hoje lançou o segundo single do novo álbum “Chromatica”, a dançante bem house anos 90 “Rain on Me“, com o featuring de Ariana Grande.

Lady Gaga - Rain on Me.png

Uma faixa própria para as festas em boates, caso estivessem abertas e não estivéssemos em meio a uma pandemia mortal, “Rain on Me” segue a linha apresentada por “Stupid Love”, mas aqui com a influência do dance early 90s bem mais forte, as clássicas faixas que merecem vozes poderosas. O que eu achava que seria bastante estranho – o encontro entre as vozes de Gaga e Ariana, já que a abordagem da primeira é mais raspy, rock até; enquanto a segunda tem um trabalho mais pop, suave, com influência R&B, ficou muito bom. As duas funcionam bem juntas, especialmente quando na segunda estrofe da Ariana, a resposta da Gaga ficou bastante melódica e gostosa de ouvir.

Outro ponto que funcionou bem na música foi a letra, que é simples e efetiva, sobre recomeços, renascimentos e o sentimento de carpe diem. Aqui também temos duas abordagens líricas diferentes, mas que também funcionam bem – e mostram que as duas estavam juntas no processo de composição da faixa.

Agora… Vamos aos problemas: ouvi uma, duas, três vezes a música, porque apesar da letra ser bacana e da interação entre as duas artistas ser bem resolvida, havia alguma coisa que não me amarrava, não me conectava – e considerando que o segundo single é a música que não apenas reforça a ideia principal do CD, como também carrega as vendas do álbum, precisa representar muito bem e ser explosiva o suficiente para tornar o seu CD uma experiência fascinante. E em todas as vezes, sabe qual foi a impressão que “Rain on Me” me deu?

On the nose: sabe aquela faixa que diz “olha, eu sou retrô viu? SABE, EU SOU RETRÔ, olha minhas influências!” e ao invés de ser uma experiência divertida ouvir uma faixa visivelmente inspirada em sonoridades de décadas passadas, parece até que é um atestado de “olha como sou musicalmente inteligente” e a música passa por apática, asséptica – porque é apenas uma experiência, uma tentativa de soar “antiga”, mas sem abraçar de fato as nuances e levá-las na alma, conseguindo brincar e trabalhar com naturalidade com esse som.

Gaga fez isso muito bem no “Born This Way”, quando puxa referências anos 80, dance, disco, envolvendo tudo em instrumentais carregados e quase rock ‘n roll.

Comparando com um artista que fez agorinha mesmo um álbum com referências antigas, The Weeknd consegue usar as referências anos 80 em “After Hours” de uma forma extremamente fluida.

Material aquém da Gaga: se você passou pelas várias fases da carreira de Lady Gaga logo após explodir com um material que até hoje é melhor do que 90% dos lançamentos atuais, eu espero excelência. “Rain on Me” não entra nem na edição Target do ARTPOP, sinceramente. Eu espero LADY GAGA, não um material que há sete anos atrás ela sequer usaria e viraria descarte.

Pra mim, essa não é uma atitude de uma artista líder. E sim de uma follower. Ou no mínimo, uma estrela que deseja mostrar que ainda há lugar para ela dentro do zeitgeist atual, mas não da forma que uma líder deve fazer.

E isso me preocupa: a volta ao pop dela parece mais uma volta ao pop para os fãs e a galera que acompanha música, e não para o público no geral – é claro que as pessoas neste momento estão se importando em não morrer, mas antes disso, havia uma busca, uma agonia por novos álbuns e artistas que mostrassem que o pop tinha um caminho, mas… Nossa, “Rain on Me” é o típico top 10 que chega ao top 10 pela força das fã-bases e não exatamente por um crescimento orgânico, por ter sido abraçada por todos os grupos.

(Aliás, qual foi a última canção que você imagina ter sido realmente abraçada organicamente por todos os grupos e chegou ao topo porque foi um sucesso absurdo em todas as plataformas e uniu consumidores de nicho e público em geral, e não porque porque fizeram mutirão de streams?)

O vídeo: o vídeo provavelmente resume o ponto de “leaders and followers”: eu pensei que não teria quase o mesmo tempo da música, e considerei o look inicial com a faca na coxa bem mal aproveitado. De resto, é um vídeo que eu, como consumidora que não faz parte de nenhum dos dois fandoms, não veria outra vez; achei que a paleta de cores merecia mais vibração, um colorido, até porque a letra da música passa um certo sentimento de júbilo; e sinceramente? Não faça duelo de coreô quando seu forte não é coreografia. Gaga é competente na dança – o forte dela sempre foi um movimento repetitivo que nascia icônico (como em “Bad Romance”, por exemplo) – mas não é o suficiente para segurar três minutos de vídeo dançando; o mesmo vale pra Ariana. Além disso, eu entendi que o foco visual da era é essa coisa meio ficção científica, distopia futurista com ar low-budget, mas é possível fazer isso e soar épico. Você é LADY GAGA. Uma de suas marcas registradas são os clipes elaborados, com referências pop bacanas e divertidas, com forte replay value e hype.

Se os dois vídeos que eu vi representam que é essa Gaga pop a qual teremos de nos acostumar, então me informem para que eu pare de comparar com aquela de 2009-13; e isso inclui as músicas também. Se o material que ela apresentou é Lady Gaga hoje, e são essas as músicas que passaram pelo corte final para fazerem parte do seu novo álbum, não comparo mais. Vou focar em ouvir o que ela me apresenta hoje. Nem vou comparar com materiais recentes porque o “Joanne” é um ponto fora da curva do que a Gaga sempre fez e a trilha de “A Star Is Born” é uma comparação injusta – não porque eu queria que ela fizesse aquele som. Não, eu queria que o esforço de qualidade que ela buscou naquele álbum se repetisse aqui.

O triste é que ela mesma colocou o sarrafo lá em cima VÁRIAS VEZES, e eu espero sempre o mais FODA porque Gaga é parte importante de um período bem legal da minha vida, e ela é parte desse meu processo de formação consumindo cultura pop.

Mas, se faz os fãs felizes… Quem sou eu para criticar né?