Lançamentos recentes – edição retornos

Nas últimas semanas, tivemos alguns lançamentos de artistas de vários espectros, do R&B/pop, uma grande estrela pop rock, do pop alternativo e até uma parceria trap vinda da fonte mais improvável possível. Hora de falar sobre os últimos releases e ver quais são as possibilidades de sucesso e o contexto desses singles.

“GTFO”, Mariah Carey

Quando uma verdadeira DIVA retorna, temos que prestar atenção em todos os seus movimentos. Um lançamento de Mariah Carey é sempre uma expectativa pra saber se a música que ela trará para o jogo vai relembrar seja o material clássico dos anos 90 ou a surpresa de seu celebrado comeback de 2005; e na década de 2010, entre algumas canções boas (como “#Beautiful” e “You Don’t Know What to Do“) tem muita bomba que parece uma eterna tentativa de capturar a mágica do passado (“You’re Mine (Eternal)“, “Infinity” ou “I Don’t“) ou tentar capturar um público mais novo com o que Mariah e quem quer que estivesse colaborando com ela em álbuns anteriores acreditasse que funcionaria (“Thirsty“) .

Mas as coisas parecem bem diferentes para a 2018 Mariah, mais carefree, disposta a trabalhar com gente nova (a música tem produção de Nineteen85, canadense conhecido pelas produções do Drake; tem sample de uma faixa EDM, “Goodbye to the World“, de Porter Robinson; e ainda Bibi Bourelly entre os compositores) trazendo coisas novas, mas que ao mesmo tempo tenham o DNA da diva – e “GTFO”, single promocional do décimo-quinto álbum da cantora e compositora, coloca Mariah num percurso mais current, mas sem deixar de ser Mariah. É fresh, despretensioso, mas é puramente Mariah.

Apesar de ser uma promo single, é deliciosamente gostosa, bem humorada (Mariah bem humorada é ótima), e a voz está no ponto; os sussurros e vocal runs estão equilibrados. Aliás, é outra faixa pra ninguém conseguir fazer cover, porque tem muitas camadas, muitas variações, mudanças de tom que só Mariah pode fazer. Já disse que a mulher voltou? Sem contar com “GTFO” sendo mais uma faixa com termos para serem incluídos no “dicionário musical” dela, que é expert em inserir palavras pouco usadas em faixas pop (como “disenchanted”= desencantado e “bulldozed” = demolido, arrasado)

Até o clipe tem as coisas Mariah, com as borboletas e a super fofice, mas tem algo mais simples e relatável – oras, quem nunca ficou xingando o ex enquanto toma uma taça de vinho?

nota: ⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

“Wake Up in the Sky”, Gucci Mane feat. Bruno Mars & Kodak Black

Quem não estava prestando muita atenção ao que o pessoal do rap andava fazendo perdeu esse lançamento do Gucci Mane, “Wake Up in the Sky”, parceria com Bruno Mars e Kodak Black, para o novo álbum de Gucci, um dos nomes mais importantes do trap, “Evil Genius”. O que mais me surpreendeu nessa faixa é o quão não-pop e nada pandering para uma rádio pop essa música é (se considerarmos que um dos nomes envolvidos é um dos grandes astros pop da atualidade).

Mas “Wake Up in the Sky”, que tem interpolações com “Unforgettable” do Nat King Cole, é terrivelmente grudenta e chiclete, com a produção simples, mínima, mas sem ser crua, e elegante (curiosamente um dos envolvidos é o próprio Bruno, sem estar dentro do coletivo The Smeezingtons), focada primeiramente no público rap. (tanto que a música vem crescendo solidamente onde interessa no field, o Spotify)

A música no geral é incrível (o refrão fica na minha cabeça até agora) e o flow de Gucci além dos versos são sensacionais. É um dos rappers mais carismáticos da cena, e os versos dele tem um certo humor bem vindo, numa faixa que fala da boa vida sob o consumo de ilícitos (o que é irônico considerando que Gucci está sóbrio há algum tempo). A única coisa que realmente estraga completamente a faixa é quando entra a voz de mosquito de Kodak Black aparece para retirar todo o braggadocio da música; parece um anticlímax que me faz querer editar a faixa até o segundo refrão e repetir o verso de Gucci até fechar o tempo original da faixa.

nota: ⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

“Head Above Water”, Avril Lavigne

A carreira da canadense Avril Lavigne, um dos ícones da minha adolescência, tomou um dos percursos mais esquisitos do pop na década de 2000. Surgida como a “anti-Britney”, cantando pop/rock com guitarra, usando gravatinha, rebite e All-Star, no meio da década fez um rebranding na imagem colocando mechas rosas, cantando sobre “pegar o namorado das outras” e uma vibe toda colorida cheerleader no terceiro CD, “The Best Damn Thing”. Um filler álbum depois (“Goodbye Lullaby”, que mostrou uma distinção entre o som de que ela curtia e o som que a gravadora incentivava Avril a trabalhar) e outro CD com mensagens super confusas (o self-titled, que trouxe a ótima “Here’s to Never Growing Up” e a tenebrosa “Hello Kitty” como singles), a trajetória da canadense, outrora um dos símbolos do pop rock e template para muitas meninas que se lançavam como cantoras nessa vibe, parecia fadada ao ostracismo na década de 2010, em que o rock praticamente foi engolido por todos os outros gêneros.

No entanto, Avril enfrentava outros desafios mais complicados: a doença de Lyme, infecção bacteriana comum nos países da América do Norte, que a tirou dos palcos e da vida pública por bastante tempo, até ela retornar à cena com o lead single do sexto álbum, a épica “Head Above Water”, que vai ser comida com gosto e farinha nas rádios adultas (e talvez em rádios cristãs também), porque é épica em todos os sentidos.

O primeiro exemplo da maturidade que talvez uma geração inteira esperava que Avril mostrasse, a faixa é incrível, com sua letra inspiracional e até mesmo religiosa (composta por Avril, Travis Clark da banda We the Kings e o produtor Stephan Moccio, que já trabalhou com uma série de artistas, incluindo na trilha sonora de Cinquenta Tons de Cinza), em que ela supera as adversidades e luta contra a morte por causa da doença de Lyme. Mas não apenas a letra; o pós-refrão (“don’t let me drown” repetindo o “drown”) é espetacular; o arranjo com bateria pesada, acompanhamento no piano e instrumentos de corda é muito bonito e épico, e recomendo aos mais sensíveis ouvir com lencinhos de papel.

Sério, estou muito feliz que um dos ícones da minha adolescência voltou COM SAÚDE e fazendo música FODA, sem cair nas obviedades da sonoridade 2018.

nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

“Mariners Apartment Complex” e “Venice Bitch”, Lana Del Rey

Os dois primeiros singles do novo álbum de Lana, chamado “Norman Fucking Rockwell”, são produzidas por ela e Jack Antonoff, que está aqui mais imerso no mundo da cantora do que ela sendo imersa na vibe dele – o que é ótimo, já que Antonoff nem é o produtor incrível que pensa que é. No entanto, ao ser engolido por uma personalidade mais consistente, ele trabalha bem melhor.

O que eu mais gosto em Lana del Rey é que, mesmo se ela tiver alguma diferença no som que propõe, essa diferença não vai afetar a noção que ela tem de sua própria arte e sonoridade; mesmo colocando guitarras e fazendo rock n’ roll. Se tem um artista com visão muito sólida do próprio som, essa pessoa é Lana, e agora, ela me parece estranhamente mais madura, com uma força interna e uma melancolia que faz mais sentido que em alguns anos antes – porque é algo que ela viveu, e inclui em sua nostalgia crítica natural. Em “Mariners Apartment Complex”, ela parece estar mais confiante em sua própria personalidade e na forma que vê a vida, mas a faixa mantém a tradicional sadness de Lana, só que com um arranjo de cordas, peso na guitarra e uma pegada anos 60 super bem vinda. Outra vez Lana nadando contra a corrente e fazendo música boa.

No entanto, a minha favorita é o segundo single, “Venice Bitch”, que mesmo tendo quase dez minutos, PELAMOR, é uma viagem de pop psicodélico com uma daquelas histórias cinemáticas e puramente americanas que são a cara de Lana. Amor jovem, despreocupado, que retorna depois de algum tempo tornando-se mais sexual; referências a artistas clássicos da cultura americana, e uma dica: nem tudo que parece tão óbvio (ou vazio) é realmente assim; às vezes a arte é complexa, diferente, mais profunda do que se pensa.

Aqui tem um solo de guitarra distorcida, e toda uma vibe anos 60, de ser jovem para sempre, mesmo com a melancolia sempre presente nos trabalhos dela. Dois singles incríveis que prometem um álbum maravilhoso.

nota:

“Mariners Apartment Complex”: ⭐⭐⭐ e 1/2 de ⭐⭐⭐⭐⭐

“Venice Bitch”: ⭐⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

E vocês, o que acharam dos últimos lançamentos? Tem algum que você destacaria?

 

 

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Últimos lançamentos – Nicki e Ariana

Voltei da moita (quer dizer, da segunda metade do meu primeiro mês de trabalho) devendo duas resenhas importantes para vocês, que decidi postar juntas porque o contexto ajuda.

Nicki Minaj lançou o “Queen” em 10.08 com aquela campanha surreal de divulgação em que as fofocas e frases polêmicas se tornaram mais relevantes do que a música de fato. Justamente quando o novo álbum chega num novo espectro do rap, em que o objetivo aqui seria Nicki mostrar para as outras rappers iniciantes no jogo (tipo Cardi B) quem é a melhor da cena atual. Será que ela conseguiu mostrar esse poder no novo CD?

Ariana Grande e seu “Sweetener” (lançado em 17.08) veio com o objetivo de sedimentar uma das carreiras mais consistentes do pop atual, e distanciá-la das ex-acts, colocando-a como uma A-list. A campanha de divulgação parecia até ok até o momento em que o namoro altamente publicizado com o comediante Pete Davidson parecia tomar todas as atenções do material. A pergunta é: o material realmente a coloca em outro patamar?

Confira depois do pulo!

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Combo de Álbuns – Men Edition

Estamos de volta com uma série de posts que reflete minha já conhecida PREGUIÇA – é o “Combo de Álbuns”: ou seja, sempre que eu atraso a resenha de um CD que foi lançado recentemente, costumo publicar tudo junto nessa resenha grandona, até pra cumprir minhas obrigações e continuar ouvindo coisas novas que pode ser (ou não) que entrem em premiações no futuro 😉

Hoje, coincidentemente, os lançamentos são todos masculinos, dois de artistas pop americanos e mais dois de acts fora dos EUA que fazem parte de dois movimentos que já vinham ascendendo em popularidade nos últimos anos. As resenhas de hoje são de Charlie Puth e o seu “Voicenotes” (lançado em 11.05); Shawn Mendes e o Selftitled (lançado em 25.05), a sensação coreana BTS com “Love Yourself: Tear” (lançado em 18.05) e o novo do colombiano J Balvin, “Vibras” (lançado em 25.05).

Vamos lá?

Charlie Puth – “Voicenotes”

Charlie Puth Voicenotes.pngQuem substituiu o Charlie Puth cafona e ruim do “Nine Track Mind” por esse cantor, compositor e produtor sofisticado e fun de “Voicenotes“? Não sei o que houve, mas agradeço pela mudança, porque esse CD é incrível e delicioso de ouvir. Saindo das sensibilidades pop/R&B anos 60 que não funcionaram nem um pouco no debut para algo mais puxado para o R&B/pop late-80/early-90, com direito a sintetizadores, linha de baixo retrô e muita ambientação obscura, Charlie se mostrou um artista bem mais consciente e maduro; e principalmente, um belo contador de histórias. O álbum vai destrinchando histórias de romances, traições e shades – afinal de contas, ele tá falando de quem nesse CD? – que mostram a inspiração do CD sendo as experiências do Charlie entre namoros, affaires e polêmicas com namoradas famosas.

Com letras bem menos cafonas e horrendas (a única exceção é o verso meio bizarro “you won’t wake up beside me / cause I was born in the 90s” em “BOY”, mas a música tem uma  bridge instrumental tão boa que compensa qualquer coisa), arranjos elegantes e prontos para dançar e participações especiais ótimas (Boys II Men SEMPRE delivering em “If You Leave Me Now; Kehlani confortável em “Done for Me”; e a lenda James Taylor em “Change”, a quebra gostosa de expectativa do CD), “Voicenotes” é uma evolução bem vinda para o cantor. Não apenas para mostrar que o primeiro CD foi um mal momento (ou no mínimo algo mal trabalhado pela própria gravadora), mas também dentro do pop que anda tão combalido nesses últimos tempos – dá pra fazer um pop gostosinho sem ir atrás das trends do momento (urban/trap e EDM a la Chainsmokers).


Shawn Mendes – “Shawn Mendes”Shawn Mendes - Shawn Mendes (Official Album Cover).png

Se você não ouvia o canadense Shawn Mendes porque achava micão consumir música de um jovem adolescente, um – perdeu “Illuminate”, uma baita evolução em relação ao primeiro CD, que tinha suas fraquezas; e dois – CORRE logo pra ouvir o selftitled do menino porque ele conseguiu! Com apenas 19 anos, o material que ele apresenta não apenas é um salto absurdo em qualidade, letras e instrumentais em relação aos CDs anteriores, como também o coloca lá na frente em relação aos peers no complicado mundo dos artistas jovens masculinos do pop.

Um esforço pop com experimentações rock (“In My Blood”), soul/funk (“Lost in Japan”) e até R&B (na ótima “Why”), prossegue com a vibe domingo chuvoso de outono tomando cafezinho com mozão ou mozona debaixo das cobertas. E ficou ótimo! A vibe stripped-down do próprio som do rapaz, combinada com produções agradáveis e super coesas (como é bom ter um grupo pequeno de colaboradores né?), além de featurings que agregam – como Julia Michaels e Khalid – aliás, “Youth”, super graciosa, tem uma mensagem simples, forte e efetiva para uma geração que é o foco dos dois jovens artistas. A mensagem atinge fácil a juventude de hoje e tem fôlego, não é um amontoado de clichês.

Apesar de uns dois fillers bem sem graça, no geral “Shawn Mendes” é um dos álbuns pop mais amarrados e bem feitos do ano. Para o próprio Shawn, é uma evolução além – com letras mais intrigantes, uma temática de relacionamentos que consegue atingir ouvintes de todas as idades e vocal ainda por evoluir mais, o canadense já construiu um caminho sólido para si, uma carreira longeva e sólida, além de um público fiel que vai crescer junto com ele.


Love Yourself Tear Cover.jpegBTS – “Love Yourself: Tear”

Como vocês já devem estar sabendo, a boy band coreana BTS foi o primeiro grupo de k-pop a estrear em primeiro lugar no chart de álbuns da Billboard, o que mostra que o gênero já vem alcançando novos caminhos no Ocidente, assim como conquistando fãs jovens que vem migrando do pop americano para a sua contraparte coreana. O motivo? Os grupos e artistas solo de k-pop trazem entretenimento, visuais cativantes e músicas animadas e upbeat, mesmo com letras que tratem às vezes de questões super sérias – e aí você dança com uma mão na cintura e outra na consciência.

Como eu não sou uma grande conhecedora do estilo, fui de coração aberto conferir o terceiro álbum do BTS (em coreano; no total é o sexto dos garotos) e tive uma agradável surpresa em conferir as 11 músicas do CD. Com um conceito bem amarrado sobre a dor da separação e o lado mais obscuro do amor, até mesmo nas músicas mais animadas (como o lead single “FAKE LOVE”) você tem letras que usam de metáforas para falar de um relacionamento que não deu certo e como o “eu lírico” (ou os membros da banda, que participam da composição das faixas) lida com essa sensação de perda. A sonoridade R&B é deliciosa, especialmente porque me lembra muito o que eu costumava ouvir quando era adolescente nos anos 2000, mas nada soa datado, e a as adições eletrônicas na instrumentação orgânica são bem-vindas. Em faixas como a ótima “134240”, que usa a história de Hades e do (ex-atual) planeta Plutão para falar de relacionamentos, a vibe meio “chill” é agradável, mas esconde uma melancolia evidente na letra.

Tirando uma faixa dance que ficou meio away dentro da tracklist (“So What”), “Love Yourself: Tear” não apenas deve ter agradado às fiéis fãs do BTS como pode ser uma bela introdução aos neófitos do k-pop como eu. Entre metáforas bem construídas e uma bem-vinda departure com inspiração latina (“Airplane pt. 2”, que eu gritei na hora do refrão É A NOVA DESPACITO!), é um ótimo CD que merece ganhar o mundo e ampliar ainda mais o perfil dos meninos do BTS no mainstream.


J Balvin – “Vibras”J Balvin Vibras cover.png

O quinto álbum do superstar colombiano do reggaeton na verdade é a trilha sonora pro verão lá no hemisfério Norte. É curioso como Balvin conseguiu fazer um álbum em espanhol, com uma sonoridade latina mega popular, mas com um apelo internacional bem envolvente. É reggaeton, mas faz umas concessões curiosas dentro das próprias faixas que ganham um apelo pop que independe da língua.

Apesar de ter uma intro, “Vibras”, a gente pode considerar que “Mi Gente”, com Willy William (e que chegou até a ter remix com a Beyoncé) é a verdadeira introdução “espiritual” do álbum. A faixa, que quer te fazer dançar sem pensar na nacionalidade ou na origem, é o começo perfeito para determinar o mood do CD – mesmo que a letra seja distinta do coração do álbum, que tem todo um clima de sedução e romance que talvez seja um dos pilares da música latina, seja em espanhol ou em português. Das deliciosas “Ambiente” e “Cuando Tu Quieras”, além de “Noches Pasadas” e “Donde Estarás” – que tem a maior cara de hit; além da gostosíssima “Brillo” (que me lembrou um pouco de “Downtown” da Anitta), J Balvin apresenta no álbum uma vibe gostosa, tropical e ao mesmo tempo noturna, ideal para romper o verão americano sem fazer nenhum esforço.

Apesar de um ou dois fillers (e impressionante como “Machika”, que fecha o CD, parece um corpo estranho na vibe carefree do “Vibras”), é um álbum que merece as reviews calorosas na gringa e uma ouvida atenta – mesmo que estejamos em plena época de São João. Com “Vibras”, o reggaeton realmente se solidifica como um fenômeno pop que não parece sumir tão cedo.


E vocês, já ouviram algum dos quatro álbuns? O que acharam? Podem comentar aqui mesmo no blog ou no nosso Twitter e Facebook!

Pop com Propósito – Christina Aguilera “Fall in Line” (feat. Demi Lovato)

Christina Aguilera prossegue com a divulgação das músicas que vão entrar no novo álbum, “Liberation“, e após a divisiva “Accelerate” e a incrível baladinha “Twice“, finalmente chegou o primeiro single real oficial – “Fall In Line“, um pop/R&B com vibe soul e key change, e a participação de Demi Lovato.

Co-composta pela própria Xtina, é uma faixa super relevante em tempos de #meToo e #timesUp, empoderadíssima e como estratégia de retorno à música após seis anos girando a cadeira do The Voice, trazer um featuring da nova geração é uma sacada incrível – aproxima-se da turma jovem e ainda tá falando de assuntos que fazem parte do zeitgeist. Mesmo assim, Xtina sempre tratou do assunto empoderamento feminino em suas músicas; então, não soa oportunista, e sim a voz de uma artista que conhece o que tá falando – e que viveu isso.

Saindo da parte clínica da indústria para os aspectos artísticos da canção…

yaaaaaaaaaaaas Christina! Que letra, que musicão. Anthem para uma era em que as mulheres cansaram de se calar e estão denunciando abusos, assédios e violências e lutando para melhores condições de trabalho, carreira e vida; e com a voz madura da Christina, não é mais uma jovem inquieta e sim uma mulher mais vivida aconselhando, seguindo junto e dando as mãos a outras mulheres para seguirem juntas, contra aqueles que desejam vê-las sem pensar ou agir por si próprias. Trazer a voz da Demi Lovato, que também tem um apelo forte de empoderamento, e que também tem coisa pra contar, ganha um sentido ainda maior de irmandade entre duas cantoras e duas mulheres fortes. Isso se reflete no encontro das vozes – não ficou uma guerra de egos: as duas dividem bem o dueto (mais que feat), beltam juntas e tem um estilo similar, dramático de cantar. As vozes se equivalem no refrão, e mesmo na tradicional gritaria, você consegue OUVIR as duas.

Aliás, que delícia ver duas vocalistas de gerações distintas se desafiando e se respeitando numa faixa. Até a gritaria clássica pós-key change é linda e eu tô muito empolgada com “Fall In Line” hahaha QUE REFRÃO FORTE, QUE MÚSICA COM ALMA, COR, RELEVÂNCIA MAS SEM SOAR PRETENSIOSO. Pop com propósito, é você?

A batida com a marcha ficou perfeita com a vibe soul da faixa, a guitarra discreta, a produção grandiosa mas sem ser excessiva, é o pop/R&B que esperamos da Christina e que tem tudo a ver com a Demi.

E sabe o que é mais legal entre as faixas ouvidas até agora do “Liberation”? Todas tem um tom, uma linha de raciocínio, uma unidade da produção. Apesar de serem produzidas e compostas por pessoas diferentes – e mesmo com a loucura dissonante de “Accelerate”, você consegue enxergar as três músicas dentro do CD. Difícil pensar que o álbum vai sair ruim…

Por fim, a música tem jeito de hit, e espero que seja divulgada até na barraquinha de cachorro quente da esquina. Musicão, um dos melhores do ano. Christina e Demi merecem!

Hit or miss: Christina Aguilera – “Accelerate”, feat. Ty Dolla $ign & 2 Chainz

Christina Aguilera Accelerate cover artwork.jpgQuando Christina Aguilera lançou seu último álbum, “Lotus” (2012), eu era estagiária numa rádio em Salvador e ainda não tinha terminado a faculdade. Os professores naquele ano entraram em greve, e aproveitei a época para adiantar o TCC, fazer um ou dois cursos pra ampliar as minhas horas de extensão e enfim, colocar as coisas em dia. Com 21, 22 anos, você não tem muito o que fazer na vida a não ser seguir o fluxo.

Enquanto Xtina girava a cadeira do The Voice e a caravana pop passava, eu me formei, prossegui na rádio, cobri a ❤ Copa do Mundo no Brasil ❤ viajei pra fora pela primeira vez, mudei de emprego, viajei de novo, fiz uma pós, perdi o emprego, e cheguei aos 27 anos com milhares de coisas na cabeça e tentando jogar nas 11 – enviando currículo, cuidando do blog, escrevendo, estudando, seguindo em frente, mas buscando controlar o fluxo.

Por que estou dizendo tudo isso? Simples: todos nós, anônimos ou artistas pop de impacto, tentamos fazer alguma coisa de positivo (ou alguma coisa significativa) em nossas vidas num período longo de seis anos. Justin Timberlake, que ficou cinco anos fora do radar pop, participou de filme, lançou música indicada ao Oscar e esteve presente diante do público. Mesmo Adele, notória por não fazer mídia em torno de si mesma e avessa à celebridade (talvez seu maior trunfo como marca), lançou música e ganhou Oscar por “Skyfall”. Curiosamente, os dois exemplos que coloquei aqui foram de artistas que entraram em hiato após eras extremamente bem sucedidas, com turnês e presença em awards. Posso incluir outros artistas A-List nesse processo de longas pausas entre álbuns, por motivos diversos – Beyoncé, P!nk, Katy Perry; mas mesmo numa era com “underperformance”, nunca houve motivos para desistir tão facilmente de se fazer música, ou de sumir do radar. É voltar em pouco tempo e seguir em frente.

Christina Aguilera, entre uma colaboração aqui e outra acolá, passou anos girando a cadeira do The Voice e vendendo Oreos. O que não ajuda em nada quando você veio de um fracasso colossal feito o “Bionic” (2010) e um filler album feito o “Lotus”, sem sequer uma turnê ou residência em Vegas. Xtina perdeu o bonde da história com as vendas digitais, o retorno da cultura do videoclipe de impacto e a transição para os streams. Em resumo, são seis anos que parecem seis décadas, em que fazer música e ter presença na popsfera se transformaram.

E de que forma Xtina decide preparar seu retorno para os charts e os corações de uma geração que a viu surgir junto com Britney na virada do milênio (como a minha) e outra que só a conhece do reality show da NBC (a geração Z)?

Com uma aceleração.

Eu confesso: não entendi nada da música, inicialmente. A estrutura é confusa, a virada da intro pra música em si é brusca e o refrão com as vozes da Christina e do Ty Dolla $ign seguidas realmente é… algo. De primeira, quando a batida dropava pro 2 Chainz é quando você sentia a força da música. Mas deu pra ver onde ela estava indo – “Accelerate” é para os streams, o Spotify e a Apple Music. É a reintrodução da Xtina a um mercado que nem sabe da existência dela, a juventude que só consome música via streaming e lá rap e urban são reis. Mas aqui não é o encontro entre pop e urban que ela já tinha mostrado em “Dirrty”, “Can’t Hold Us Down” e “Woohoo“, por exemplo; ela vai bem mais além, tornando o guest verse cansado de sempre em toda canção pop praticamente uma colaboração em que eles dividem espaço com a artista principal, o que é refreshing, sinceramente. Além disso, é urban/hip hop com R&B vibes sem se entregar ao pop mesmo, mais comercial e radiofônico, o que na situação da Christina, é arriscado e bem vindo.

Três ouvidas depois, já estava cantando a música.

(e que delícia é ver a Xtina sem berrar a cada verso numa música, apenas focando na interpretação e no poder da voz. Pena que é visível a diferença de vocal de 2018 para o passado, o que evidentemente denota o desgaste do principal instrumento dela)

No entanto, é uma faixa realmente complicada, e ainda bem que não é o lead. Nem dá pra pensar na música sendo ouvida nas rádios, a estrutura é quase uma colagem (o que explica a quantidade de produtores na faixa, incluindo o novo membro do alt-right do pedaço Kanye West) e tem que ter um pouco de paciência pra sentir a música. Não é um praise universal, a faixa tem mixed reactions e faz sentido ter. É uma música pra odiar ou amar.

Como teremos aparentemente umas quatro músicas novas por semana (para o JT, uma ideia que não funcionou a contento; para a Christina, sem material inédito decente há um bom tempo, ótima estratégia), com vídeos acompanhando, é fato que teremos músicas mais acessíveis e radiofônicas – considerando que a RCA queira investir num belo jabá nas rádios – assim como clipes que sejam melhores do que esse conceito “shoot de revista” que ficou “Accelerate”. Valia a pena apostar em algo mais vistoso, especialmente para uma faixa tão… difícil, para dizer o mínimo.

Mas de uma coisa tenho certeza: o novo álbum de Christina Aguilera, “Liberation” não será previsível.

E vocês, estão no grupo de quem curtiu ou de quem detestou a música? Como vocês imaginam que será a era da Xtina neste 2018?

 

 

 

Mixed feelings: Ariana Grande, “No Tears Left to Cry”

File:Ariana Grande No Tears Left to Cry.pngAriana Grande já pode ser considerada um dos principais nomes do mundo pop atual. Desde o estouro com a throwback 90’s “The Way”, que surpreendeu o mundo liderando o iTunes (e mostrando o poder da fiel fã-base Arianators); com excelentes álbuns que só fazem melhorar lançamento após lançamento; uma voz privilegiada que rendeu comparações à Mariah Carey e uma imagem e som bem característicos, desde o começo ela sempre esteve um passo a mais que as peers.

Nem mesmo o Donutgate (quando Ariana cuspiu num donut num restaurante e disse que odiava os EUA, tudo filmado pelas câmeras de uma loja de doces) afetou a imagem da jovem estrela. Pelo contrário, ela conseguiu inverter o jogo com outro lançamento celebrado, o sóbrio e envolvente “Dangerous Woman”, e o auge de sua relação artística com o Midas Max Martin – talvez o último grande trabalho do produtor sueco no pop, antes que chegassem “Witness” e “Reputation” na vida dele.

Só que, apesar de tanta exposição (e quatro indicações ao Grammy), o nome “Ariana Grande” só foi se tornar conhecido mesmo (para até a minha mãe saber quem ela é) no momento mais trágico de sua carreira – o ataque terrorista no final do seu show na cidade britânica de Manchester, ano passado. O atentado chocou o mundo – além da própria característica do ataque, a maior parte das vítimas eram crianças e adolescentes voltando de um show de música pop (o último lugar que você poderia pensar na ação de um homem bomba). 23 pessoas morreram (incluindo o terrorista) e 512 ficaram feridos. Algumas semanas depois, Ariana organizou um show especial (e emocionante, deixando até esta escriba, sempre tão fria, com os olhos marejados) em Manchester, “One Love Manchester”, um show beneficente cujo dinheiro arrecadado foi para ajudar as vítimas e suas famílias.

Todo o mundo finalmente pode conhecer Ariana Grande; e seus próximos passos, pessoais e artísticos, seriam vistos com calma pelo grande público. E uma certa antecipação.

E com grande antecipação que chegou o primeiro single do quarto álbum da jovem diva, a pop/R&B/dance com espírito anos 90, “No Tears Left to Cry“.

Inicialmente, pensando que as pessoas tinham chorado ouvindo a música, e alguns disseram ter referências ao atentado em Manchester, eu imaginava outra coisa – uma balada R&B, ou uma música pop sofrida, algo do gênero – não um pop/R&B com vibe dance anos 90, atualizado para 2018. Eu até gosto da melodia, simpatizo com a pegada quase disco do refrão, mas a execução poderia ser bem melhor. Fiquei imaginando Clivillés e Cole (do C+C Music Factory) com um material desses em mãos, o banger que seria (e curiosamente, nesta música, apesar da voz não parecer, me veio à mente como Mariah Carey trabalharia com a faixa).

No entanto, em comparação com os outros lead singles da Ariana, o resultado final é confuso e decepcionante (mais um na lista de decepções de Max Martin no último ano). A letra até trabalha com a ideia de “não vou chorar, mas vou celebrar a vida”, que talvez seja a referência ao que houve ano passado – mas eu tive que ouvir a música acompanhando no Genius umas cinco ou seis vezes pra entender. Não apenas porque a letra realmente é fraca (e a quebra no refrão é muito ruim), mas porque eu não entendi o que ela falava a música toda.

Eu confesso que meu listening é confuso, mas Ariana Grande sempre teve problemas com a enunciação das palavras nas músicas – uma crítica antiga que achei que teria se dissipado no terceiro álbum, em que a enunciação das palavras é bem mais compreensível. Em “No Tears Left to Cry”, depois de três ouvidas, eu só conseguia entender “I’m picking it up” e “no tears left to cry”. Parece alguém que não sabe a música e fica cantando baboseiras por cima.

Só depois de acompanhar no Genius e ouvir mais vezes fui entender alguma coisa a mais da música (aí depois você se questiona por que a Ariana não ganha Grammy…)

Além desses problemas, sinceramente? Eu fiquei bem broxada com o resultado final. A canção é grower? É; e evidentemente, com os fãs fiéis e novos ouvintes que chegaram depois para a festa, o lançamento será com excelentes números, mas é uma música difícil de pegar de primeira e no fim do dia, uns bons passos pra trás em relação ao que a Ariana já lançou antes – sério, nem uma performance vocal marcante a música tem.

Já o vídeo, de longe um dos melhores do ano. É lindíssimo visualmente, apesar da expressão completamente desprovida de vida com o qual a Ariana faz a dublagem. Sério, Dave Meyers nunca decepciona.

E vocês, o que acharam da nova música da Ariana Grande? Podem comentar!

Nicki Minaj is the boss… e ela sabe disso

O rap é um gênero que se popularizou em alta velocidade, e aproveitou as mudanças no consumo de música para se consolidar como o estilo mais ouvido atualmente. No entanto, ao contrário de outros gêneros, como o pop, predominantemente feminino, o rap é um verdadeiro sausage fest – os rappers masculinos há anos dominam a cena e aparentemente nunca tem espaço para as femecees. No passado (ali no final dos anos 90/início dos 2000), tivemos um grande momento feminino no rap, com vários nomes convivendo juntos e fazendo sons distintos, com grande apelo – Missy Elliot, Lil Kim, Foxy Brown, Eve. No final da década de 2000, no entanto, parecia que a representação feminina tinha desaparecido do rap (ou não chegava ao mainstream) quando chegou o fenômeno Nicki Minaj.

Já fazendo seu nome por meio de mixtapes, em 2009 assinou com a Young Money, gravadora do Lil Wayne, e a carreira dela começou a decolar, com featurings de nome em faixas da Mariah Carey, Christina Aguilera (eu super achava que a Nicki ia estourar com “Woohoo”), Usher, Kanye West (e o já clássico verso de “Monster“); culminando no bem sucedido debut com o “Pink Friday”. No entanto, enquanto era a principal rapper feminina no jogo, Minaj flertava com sonoridades pop, o que – apesar de em nenhum momento diminuírem a moral dela com o público que sempre a apoiou – não tinham o mesmo nível do material rap que ela trazia. Tornavam Nicki igual a qualquer pop star, com farofas medíocres e rimas fracas.

No entanto, entre várias participações em outras faixas e expansão do nome “Nicki Minaj” em várias áreas do entretenimento (jurada do American Idol, atriz), foi realmente no terceiro álbum, “The Pinkprint”, que Nicki começou a organizar essa variedade de sons e necessidades que ela apresentava como artista: a rapper mainstream com forte apelo popular, mas que precisava fazer um som mais rap, menos influenciado pelos ritmos do momento.

Pois é, parece que ela aperfeiçoou com o lançamento dos lead singles do quarto álbum ainda não intitulado – as vibrantes “Barbie Tingz” e “Chun-Li“. E sinceramente? Apesar de ter uma preferida, não sei de qual eu gosto mais 😀

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Aqui não tem farofa, não tem single pop, não tem concessão: as duas músicas são rap, tem uma super vibe old school, super divertidas e mostram uma Nicki bossy do jeito que a gente gosta: rimas inteligentes, flow rápido, a voz da Nicki brincando na faixa e muita autoconfiança, e muitos shades porque ela se envolveu em beefs polêmicos no último ano – e este é o momento para reforçar seu papel dentro do rap game.

“Barbie Tingz” é bem old school com um toque moderno, produção econômica com destaque para os versos rápidos da Nicki, batida pancadão que nunca perde o ritmo e uma letra cheia de tiros. Nicki is the best and those bitches aren’t like her; and they’re still trying to. Curiosamente, ela é mais direta nos motivos pelos quais “as outras” querem ser como Nicki em “Chun-Li”, mas aqui ela entrega uma metralhadora em formato de refrão:

Want the Nicki cheat code? Come on, bitch, nice try
Let’s be real, all you bitches wanna look like me
Wanna be in demand, get booked like me
Wanna run up in the lab and cook like me
But ain’t nan you hoes pussy good like me
Pussy so good his ex wanna still fight me
Face so pretty bitches wish they could slice me

E várias shades na Remy Ma pelo caminho. Nicki Minaj não veio pra brincadeira.

Eu amo “Barbie Tingz”, mas a minha preferida é “Chun-Li”, outra faixa que nasceu com cara de clássico. Em homenagem à popular e poderosa personagem do jogo Resultado de imagem para chun-li nicki minaj“Street Fighter”, consegue também ser um rap de respeito – flow rápido, interpretação imponente, referências e metáforas bem colocadas, e com uma estrutura quebrada por conta de uma interlude que não é shade, é uma baita direta contra todos que querem pintá-la como a “vilã da história” em todos os rap beefs recentes

Oh, I get it, they paintin’ me out to be the bad guy
Well when’s the last time you see a bad guy do the rap game like me?

They need rappers like me, they need rappers like me
So they can get on their fucking keyboards and make me the bad guy, Chun-Li

“Todos” nesse caso podem ser a mídia, que adora colocar mulheres umas contra as outras (especialmente as femecees, porque estranhamente só pode “haver uma” – amore, isso aqui não é o plot do “Highlander”), assim como gravadoras que lucram com esses feuds mais falsos que uma nota de três.

Com um arranjo que em alguns momentos parece mesmo com a trilha sonora de um game de luta, a letra também mostra uma Nicki poderosa e que sabe que é temida pela concorrência – e mais importante: shades aside, ela brada que mesmo todos falando mal dela e a taxando de vilã, precisam da Nicki porque ela é a melhor rapper no jogo.

São duas músicas fortes, vibrantes, que mostram a variedade do flow e da personalidade da Nicki, provando que ela não vem pra brincadeira em 2018. E tampouco o rap, que parece a cada dia sedimentado como o gênero pop da década. Imagina isso no Grammy.

 

(e por favor, nada de alimentar feuds entre rappers femininas! É tão difícil uma rapper conseguir quebrar as barreiras e ser abraçada pelo grande público – não é porque uma está estourada que a outra tem que flopar ou ficar por baixo.)