Country or not country? “Old Town Road” coloca a Billboard em maus lençóis

Nos últimos dias, a Billboard esteve no centro de uma polêmica envolvendo uma faixa lançada em dezembro que viralizou e se tornou uma das músicas mais ouvidas nos charts country, “Old Town Road“, do jovem rapper Lil Nas X. A música, que estreou em #19 na Billboard Hot Country Songs chart poderia ter sido #1 nas paradas do gênero nesta semana, se não fosse uma decisão da “Bíblia Musical” de retirar a faixa dos charts do gênero por não encontrar na música elementos suficientes do country atual, mesmo com imagem e elementos que lembrem a estética country (a letra tem versos como ” I’m gonna take my horse to the old town road”, “I got the horses in the back/Horse tack is attached”, “Hat is matte black/Got the boots that’s black to match”). A música tem banjo, vocais com referências country, em meio a uma batida trap pesada que dropa pra todo mundo dançar (a propósito, a musica ficou no charts de hip hop/R&B…).


O rapaz de 19 anos, nascido Montero Hill, aliás, ótimo nome de cantor country, disse que a faixa era um country-trap, um blend (bem-feito, aliás) de dois gêneros, mas muita gente acha que não é country porque tem rap e batida trap. No entanto, hip hop atualmente se tornou uma das maiores inspirações do country pop, cujos artistas vêm pegando emprestado as batidas e colocando um toque country, por consequência tocando horrores nas rádios. Ou seja, o rap já vem mudando a cara do country, e isso não é de hoje.

Nelly já tem histórico de crossover country!

Ou seja, a desculpa de “falta de elementos country” de “Old Town Road” cai por terra quando você descobre que essas faixas tiveram airplay forte em rádios COUNTRY e pra mim isso é algum pop com pegada country. Além disso, várias faixas que nada tem a ver com country tocaram horrores dentro do gênero (“Meant to Be”, alguém?); então, não é apenas uma questão do que se adequa melhor ao gênero e que pode entrar na rádio.

O racismo pode aparecer das formas mais sutis, como por exemplo, artistas brancos que usam de gêneros como rap para fazer country popificado são bem-vindos nas rádios do gênero, enquanto um artista negro fazendo algo similar é rejeitado por “não ser country o suficiente“. “Old Town Road” é mais country que a Taylor Swift no “Red”, que foi indicado a um Grammy na categoria, quando o (excelente) álbum de transição da moça tinha que ter ficado com uma vaga no pop field.

E como eu dei a dica no caso do Nelly, crossovers rap/country não são coisa nova (Nelly and Tim McGraw say hello), e em tese, existem espaços para esse tipo de intersecção. O próprio Lil Nas X repete que a faixa é country-trap e deveria estar tanto nas rádios country quanto na de hip hop. Ou seja, há espaço pra esse som – se for coisa do Florida Georgia Line, é o que parece.

A propósito, “Over and Over” não tocou em rádios Country, apesar de ter participação de uma lenda do gênero.

O que podemos concluir, até certo ponto, é que um artista negro, fora de Nashville (o rapper é de Atlanta, terra do rap que influencia todos os sons das rádios americanas no momento), não pode ser abraçado pelos charts conservadores da Billboard fazendo uma música que consegue ser mais “roots” do que os maiores sucessos do gênero na história recente. Se ele fosse branco, seria recebido de braços abertos – com aquele nariz torcido dos mais puristas, mas bateria recordes de audiência mesmo assim e manteria o gênero “vivo”.

Entra o co-sign de uma lenda do country nessa história toda: Billy Ray Cyrus (que os mais jovens conhecem como o pai da Miley) pariticipou do remix de “Old Town Road” (que ganhou mais versos, desta vez sob a perspectiva de uma estrela “das antigas” rica que deseja voltar ao começo), e entregou não apenas sinceridade na faixa, mas um apoio nessa disputa que se tornou algo muito maior do que a Billboard poderia imaginar quando tomou a decisão. Esse encontro estava, de certa forma, escrito: o próprio Lil Nas X quem tinha interesse de incluir Billy Ray na faixa; e o artista foi um dos que se opuseram à decisão da Billboard em retirar a faixa dos charts e ainda o cumprimentou como um outlaw do country. O próprio Billy Ray sofreu isso no passado – seu maior hit, “Achy Breaky Heart“, dividiu ouvintes, que disseram que a faixa destruiria o estilo, enquanto a música acabou abrindo espaço para novos ouvintes, já que o gênero estava morrendo no começo dos anos 90. De ser marginalizado pelas rádios, esse entende.

Agora, com o apoio de uma figura importante do country, será que a música pode ser considerada como tal?

Ainda tem outra teoria…

O racismo faz parte da discussão sobre a ausência de “Old Town Road” nos charts country? Sim. Mas existe uma motivação da indústria que é bem curiosa: como a faixa cresceu graças aos streamings (e como é uma faixa independente, os DJs das rádios country tinham que baixar a música do YouTube para atender aos apelos de quem pedia a música nos programas), isso poderia causar problemas num gênero que tem muita dependência das rádios para sobreviver. O country ainda não sofre a influência do stream, que de certa forma é incontrolável e não atende aos desejos dos donos de rádios e payola tradicional – qualquer coisa pode viralizar, incluindo o que não se aplica à caixinha convencional do que é “country”. Então, pode ser que a Billboard tenha sido pressionada também por esses players a limitar as músicas que devem ser consideradas “country” para evitar a dominância de uma plataforma que pode, por conta dos desejos do público, modificar de forma real o que realmente os ouvintes consideram como sendo aquele gênero ou não.

Olha o que Montero Hill aprontou…

Mas não existem artistas negros no country?

Importante ressaltar que Lil Nas X não é a primeira pessoa negra a estar inserida no country. Existe um espaço, mas é muito pequeno, pra não dizer micro, sendo que uma das origens do gênero é justamente o BLUES, de origem negra. Ou seja, mais um gênero em que os negros foram deixados de lado para se tornar totalmente branco – e masculino. É só ver como Carrie, Miranda, as Dixie Chicks, Kacey, sofrem horrores para se manterem visíveis dentro do field.

Entre os acts famosos do gênero negros estão Charley Pride, uma das lendas country, além de Darius Rucker, super respeitado, e acts mais jovens como Mickey Guyton e Kane Brown (com mãe branca e pai negro).

Ou seja, o country é um gênero que já tem problemas de representatividade seríssimos, e quando se confronta com um blend moderno, já feito pelos artistas “certificados como Country”, mas desta fez feito por alguém que é um outsider reclamando sonoridades que são, de fato, suas (pensando no rap criado pelos negros americanos), os charts recusam por… Razões pelas quais deveriam recusar Florida Georgia Line, Sam Hunt… Ou seja, não há explicação plausível para esta resistência, ou a novidade da Billboard que está “considerando” colocar “Old Town Road” de volta ao chart country – de onde nunca deveria ter saído: o remix de “Old Town Road” é tão country quanto a versão original. A diferença é a inclusão de um artista country na música. Tipo, só agora?

A propósito, já que essa é a lógica, Post Malone vai continuar nos charts de rap quando o cara literalmente canta nas músicas ou só vale pra manter a “pureza” de um gênero, ou impedir os streamings de influenciar o chart country?

As coisas estão ficando cada vez mais curiosas no reino da Billboard… Enquanto isso, ouçam o excelente remix de “Old Town Road”, talvez o próximo hino do verão americano:

P.S.: eu ando meio sumida do blog porque minha vida está uma loucura: estou completando minha graduação (agora Licenciatura) e entrei num curso de professor de Inglês, sem contar o trabalho e outros projetos pessoais. Mas não abandonei o Duas Tintas 😊 como milhares de coisas acontecem na indústria, eu decidi que não ficaria tão restrita a resenha-discussão sobre charts-etc e sim trabalhar nesse fluxo mais direto, com artigos sobre coisas que estão acontecendo na popsfera e que valem a pena ser discutidas. Pode ser que saia algo 1x por semana ou 2x ao mês, mas vou tentar publicar e manter o blog movimentado

O canal também vai voltar, mas tudo depende do meu computador suportar as edições… 😭

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Combo de Lançamentos [1]

Depois de retornar do meu período de hibernação pós-Grammy (sinceramente, fiz desintoxicação musical e foi a melhor decisão ever), hora de voltar aos trabalhos e falar um pouco dos lançamentos musicais, entre álbuns e músicas, que podem ter sido comentados (ou não) dentro da popsfera.

Ariana Grande, “thank u, next” (lançado em 08/02)

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/d/dd/Thank_U%2C_Next_album_cover.png

E eu que achava que Ariana não faria melhor que “Sweetener”… “thank u, next” é uma potência de produção, letras e evolução tanto no som quanto nas temáticas, tanto em relação ao álbum anterior da moça, como em toda a sua carreira. É evidente que quem acompanha Ari desde “Yours Truly” sabe que ela sempre teve os dois pés no pop/R&B e que era questão de tempo até que ela fosse full pop ou introduzindo uma vibe mais urban/rap em seus trabalhos. Boa leitora do pop como ela é, Ariana fez melhor: ela entendeu o que realmente está fazendo sucesso (como o trap/urban) e colocou sua pegada pop e radiofriendly com sua voz de ouro (e dicção boa, finalmente) num dos trabalhos mais fodas do mainstream no ano.

Os temas do “Sweetener” relacionados a inquietações pessoais e ansiedade permanecem em TUN (como em “needy” e “fake smile”), assim como as temáticas de sempre da jovem (no caso, relacionamentos amorosos na excelente e SINGLE MATERIAL “bloodline”, “make up” e seu joguinho de palavras e a super onírica “ghostin”, uma das highlights do CD que deveria encerrar a tracklist), mas tudo com um toque de amadurecimento de quem realmente está vivendo ou viveu essas emoções. Ariana Grande tem história pra contar agora e coloca isso nas músicas. Além disso, “thank u, next” representa muito dos sentimentos e dúvidas de ordem geracional, que impactam parte da fanbase da moça, que é bem jovem, e de uma turma millennial e Gen-Z que se identifica com ela.

(guardadas as devidas proporções de impacto e sucesso, essa leitura do pop e identificação com um público geracional é mais ou menos o que Rihanna fazia tão bem enquanto lançou CDs. Aliás, cadê você RiRi?)

Entre os três primeiros singles, eu já tinha dado minha opinião sobre a faixa-título, mas é engraçado como tanto ela quanto “7 rings” funcionam bem melhor no álbum do que isoladamente. Em relação à segunda, eu acho uma ótima tradução pop de um som atual, mas a letra não tem sinceridade alguma e entra em terrenos bem perigosos. Das três, de longe “break up with your girlfriend, I’m bored” é a melhor – e maravilhosa demais! Não merecia encerrar o álbum, mas eu entendo perfeitamente a presença dessas três músicas no final da tracklist (aliás, ótimo trabalho de Max Martin e Ilya… será que voltarão aos bons momentos?).

Resumidamente, eu AMEI “thank u, next” e acho assombroso o quanto essa menina consegue ir evoluindo e lançando um CD melhor do que o outro. Isso me faz torcer por coisas brilhantes no futuro, e é a prova de que Ariana cimentou seu lugar não apenas como A-list no pop, mas como uma das grandes artistas de sua geração, num todo.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Jonas Brothers, “Sucker” (lançado em 28/02)

Você se lembra de quando os artistas teen masculinos com quem as meninas queriam casar (e certeza que já deviam fazer fanfics desde aquela época) eram os Jonas Brothers? Havia a eterna disputa de quem era mais bonito (não conheço uma abençoada que tenha escolhido Kevin), as músicas eram cantadas e usadas como perfil do Orkut (RIP) à exaustão, tinham ainda os triângulos amorosos da Disney Miley-Nick-Selena, o vai-e-volta entre Joe e Demi, a série dos caras no canal… Eles já foram indicados ao Grammy e cantaram com fucking STEVIE WONDER! Ahhh que saudades do late 2000’s gente…

Pois bem, seis anos após o lançamento do seu último single, e carreiras solo decentes ou bem-recebidas numa banda (vi DNCE ao vivo e Joe nasceu pra ser frontman de banda, sério), os JoBros retornam com “Sucker“, que tomou o feed de nostalgia adolescente e o grande público com um pré-refrão grudento e um refrão ainda mais, cortesia também de Ryan Tedder, um dos compositores da faixa (o “I’m a sucker for all…” com o falsetinho no “all” tem as fingerprints do hitmaker). A música é uma delícia e a cara da banda: é um upbeat pop com aquelas guitarrinhas gostosas e super adulto. é exatamente o que o Jonas Brothers faria depois de alguns anos se ainda tivesse na estrada e não tivesse parado. A letra é bem trabalhada e mesmo com muita informação no refrão, tem repetições suficientes para grudar na sua cabeça – além do “I’m a sucker for you” ser um verso catchy o suficiente pra captar sua atenção.

E cara, assobios no pop = HIT!

O clipe, lançado no mesmo dia da música (é disso que eu gosto, fogo no olhar!) é maravilhoso, com a participação especial de Priyanka Chopra, Sophie Turner e Danielle Jonas, respectivamente esposa, noiva e esposa de Nick, Joe e Kevin (nunca me esqueço de que ele tinha um reality show com a esposa no E! Entertainment Television), super divertido e com figurinos e cenários que gritam investimento – e com essas participações especiais em situações bem-humoradas ao mesmo tempo que super fofas, foi feito pra hitar no YouTube. O resultado desse lançamento que gerou conversa e nostalgia de geral? Chance de lançamento em #1 na Billboard próxima segunda. EU OUVI UM AMÉM IRMÃOS?

(só espero que o DNCE não suma porque me recuso a lidar com Maroon 5 tendo a carreira que deveria ser deles)

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Cardi B & Bruno Mars, “Please Me” (lançado em 15/02)

Num outro espectro musical, vários escorpianos vão nascer por causa de “Please Me” (e eu não sei seter mais escorpianos no mundo é uma boa ou má notícia haha) e vocês podem creditar à segunda parceria entre Cardi B e Bruno Mars. Se “Finesse [Remix]” é a dupla na escola participando da feira de conhecimentos, “Please Me” é uma festa de pegação na faculdade.

“Please Me” é outro throwback 90s – elemento já conhecido do havaiano mas quase nunca tocado por Belcalis, e com um approach mais R&B do que nunca pra Cardi, mostrando que ela está com foco ainda mais crossover do que apenas o público rap, mas sem cair no pop – o que é uma excelente ideia. Sem perder o bom humor de seus versos (“your pussy basura/my pussy horchata” já é meu top 10 do ano) e ainda em posição de dominância no refrão grudento af (onde é ele quem pede por favor, uma raridade dentro das dinâmicas rapper + cantor/a), “Please Me” é outro win win situation para os dois, provando que o banho de carisma em “Finesse” se repete em condições ainda mais maravilhosas nessa faixa.

(se vc acha que rolava alguma coisa entre Gaga e Bradley Cooper na Awards Season, senta e prepara sua habilidade de fanfic, porque aqui se Cardi e Bruno não se pegaram é porque são ambos comprometidos e respeitam seus relacionamentos ao contrário de uma pessoa cujo nome rima com Upset)

O clipe, ao contrário do que eu e todo mundo pensou, ao invés de ir pro sexy, foi pro modo fofo e o resultado foi ótimo – com ecos de Grease e uma storyline fofíssima, não dá pra não ficar em shipping mode e a única coisa que pensei assistindo foi FUCK OFFSET! Coreografias bem-feitas, ótima fotografia, carisma e química saindo pelos poros e Bruno de bigode (!) O clipe ajudou bastante a manter a música com ótima audiência e a previsão é de top 3 na Billboard semana que vem.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐


E vocês? O que acharam desses lançamentos? O que esperam para as próximas semanas nos charts? E quem vocês acham que está perto de lançar material novo?

Lançamentos recentes – edição retornos

Nas últimas semanas, tivemos alguns lançamentos de artistas de vários espectros, do R&B/pop, uma grande estrela pop rock, do pop alternativo e até uma parceria trap vinda da fonte mais improvável possível. Hora de falar sobre os últimos releases e ver quais são as possibilidades de sucesso e o contexto desses singles.

“GTFO”, Mariah Carey

Quando uma verdadeira DIVA retorna, temos que prestar atenção em todos os seus movimentos. Um lançamento de Mariah Carey é sempre uma expectativa pra saber se a música que ela trará para o jogo vai relembrar seja o material clássico dos anos 90 ou a surpresa de seu celebrado comeback de 2005; e na década de 2010, entre algumas canções boas (como “#Beautiful” e “You Don’t Know What to Do“) tem muita bomba que parece uma eterna tentativa de capturar a mágica do passado (“You’re Mine (Eternal)“, “Infinity” ou “I Don’t“) ou tentar capturar um público mais novo com o que Mariah e quem quer que estivesse colaborando com ela em álbuns anteriores acreditasse que funcionaria (“Thirsty“) .

Mas as coisas parecem bem diferentes para a 2018 Mariah, mais carefree, disposta a trabalhar com gente nova (a música tem produção de Nineteen85, canadense conhecido pelas produções do Drake; tem sample de uma faixa EDM, “Goodbye to the World“, de Porter Robinson; e ainda Bibi Bourelly entre os compositores) trazendo coisas novas, mas que ao mesmo tempo tenham o DNA da diva – e “GTFO”, single promocional do décimo-quinto álbum da cantora e compositora, coloca Mariah num percurso mais current, mas sem deixar de ser Mariah. É fresh, despretensioso, mas é puramente Mariah.

Apesar de ser uma promo single, é deliciosamente gostosa, bem humorada (Mariah bem humorada é ótima), e a voz está no ponto; os sussurros e vocal runs estão equilibrados. Aliás, é outra faixa pra ninguém conseguir fazer cover, porque tem muitas camadas, muitas variações, mudanças de tom que só Mariah pode fazer. Já disse que a mulher voltou? Sem contar com “GTFO” sendo mais uma faixa com termos para serem incluídos no “dicionário musical” dela, que é expert em inserir palavras pouco usadas em faixas pop (como “disenchanted”= desencantado e “bulldozed” = demolido, arrasado)

Até o clipe tem as coisas Mariah, com as borboletas e a super fofice, mas tem algo mais simples e relatável – oras, quem nunca ficou xingando o ex enquanto toma uma taça de vinho?

nota: ⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

“Wake Up in the Sky”, Gucci Mane feat. Bruno Mars & Kodak Black

Quem não estava prestando muita atenção ao que o pessoal do rap andava fazendo perdeu esse lançamento do Gucci Mane, “Wake Up in the Sky”, parceria com Bruno Mars e Kodak Black, para o novo álbum de Gucci, um dos nomes mais importantes do trap, “Evil Genius”. O que mais me surpreendeu nessa faixa é o quão não-pop e nada pandering para uma rádio pop essa música é (se considerarmos que um dos nomes envolvidos é um dos grandes astros pop da atualidade).

Mas “Wake Up in the Sky”, que tem interpolações com “Unforgettable” do Nat King Cole, é terrivelmente grudenta e chiclete, com a produção simples, mínima, mas sem ser crua, e elegante (curiosamente um dos envolvidos é o próprio Bruno, sem estar dentro do coletivo The Smeezingtons), focada primeiramente no público rap. (tanto que a música vem crescendo solidamente onde interessa no field, o Spotify)

A música no geral é incrível (o refrão fica na minha cabeça até agora) e o flow de Gucci além dos versos são sensacionais. É um dos rappers mais carismáticos da cena, e os versos dele tem um certo humor bem vindo, numa faixa que fala da boa vida sob o consumo de ilícitos (o que é irônico considerando que Gucci está sóbrio há algum tempo). A única coisa que realmente estraga completamente a faixa é quando entra a voz de mosquito de Kodak Black aparece para retirar todo o braggadocio da música; parece um anticlímax que me faz querer editar a faixa até o segundo refrão e repetir o verso de Gucci até fechar o tempo original da faixa.

nota: ⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

“Head Above Water”, Avril Lavigne

A carreira da canadense Avril Lavigne, um dos ícones da minha adolescência, tomou um dos percursos mais esquisitos do pop na década de 2000. Surgida como a “anti-Britney”, cantando pop/rock com guitarra, usando gravatinha, rebite e All-Star, no meio da década fez um rebranding na imagem colocando mechas rosas, cantando sobre “pegar o namorado das outras” e uma vibe toda colorida cheerleader no terceiro CD, “The Best Damn Thing”. Um filler álbum depois (“Goodbye Lullaby”, que mostrou uma distinção entre o som de que ela curtia e o som que a gravadora incentivava Avril a trabalhar) e outro CD com mensagens super confusas (o self-titled, que trouxe a ótima “Here’s to Never Growing Up” e a tenebrosa “Hello Kitty” como singles), a trajetória da canadense, outrora um dos símbolos do pop rock e template para muitas meninas que se lançavam como cantoras nessa vibe, parecia fadada ao ostracismo na década de 2010, em que o rock praticamente foi engolido por todos os outros gêneros.

No entanto, Avril enfrentava outros desafios mais complicados: a doença de Lyme, infecção bacteriana comum nos países da América do Norte, que a tirou dos palcos e da vida pública por bastante tempo, até ela retornar à cena com o lead single do sexto álbum, a épica “Head Above Water”, que vai ser comida com gosto e farinha nas rádios adultas (e talvez em rádios cristãs também), porque é épica em todos os sentidos.

O primeiro exemplo da maturidade que talvez uma geração inteira esperava que Avril mostrasse, a faixa é incrível, com sua letra inspiracional e até mesmo religiosa (composta por Avril, Travis Clark da banda We the Kings e o produtor Stephan Moccio, que já trabalhou com uma série de artistas, incluindo na trilha sonora de Cinquenta Tons de Cinza), em que ela supera as adversidades e luta contra a morte por causa da doença de Lyme. Mas não apenas a letra; o pós-refrão (“don’t let me drown” repetindo o “drown”) é espetacular; o arranjo com bateria pesada, acompanhamento no piano e instrumentos de corda é muito bonito e épico, e recomendo aos mais sensíveis ouvir com lencinhos de papel.

Sério, estou muito feliz que um dos ícones da minha adolescência voltou COM SAÚDE e fazendo música FODA, sem cair nas obviedades da sonoridade 2018.

nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

“Mariners Apartment Complex” e “Venice Bitch”, Lana Del Rey

Os dois primeiros singles do novo álbum de Lana, chamado “Norman Fucking Rockwell”, são produzidas por ela e Jack Antonoff, que está aqui mais imerso no mundo da cantora do que ela sendo imersa na vibe dele – o que é ótimo, já que Antonoff nem é o produtor incrível que pensa que é. No entanto, ao ser engolido por uma personalidade mais consistente, ele trabalha bem melhor.

O que eu mais gosto em Lana del Rey é que, mesmo se ela tiver alguma diferença no som que propõe, essa diferença não vai afetar a noção que ela tem de sua própria arte e sonoridade; mesmo colocando guitarras e fazendo rock n’ roll. Se tem um artista com visão muito sólida do próprio som, essa pessoa é Lana, e agora, ela me parece estranhamente mais madura, com uma força interna e uma melancolia que faz mais sentido que em alguns anos antes – porque é algo que ela viveu, e inclui em sua nostalgia crítica natural. Em “Mariners Apartment Complex”, ela parece estar mais confiante em sua própria personalidade e na forma que vê a vida, mas a faixa mantém a tradicional sadness de Lana, só que com um arranjo de cordas, peso na guitarra e uma pegada anos 60 super bem vinda. Outra vez Lana nadando contra a corrente e fazendo música boa.

No entanto, a minha favorita é o segundo single, “Venice Bitch”, que mesmo tendo quase dez minutos, PELAMOR, é uma viagem de pop psicodélico com uma daquelas histórias cinemáticas e puramente americanas que são a cara de Lana. Amor jovem, despreocupado, que retorna depois de algum tempo tornando-se mais sexual; referências a artistas clássicos da cultura americana, e uma dica: nem tudo que parece tão óbvio (ou vazio) é realmente assim; às vezes a arte é complexa, diferente, mais profunda do que se pensa.

Aqui tem um solo de guitarra distorcida, e toda uma vibe anos 60, de ser jovem para sempre, mesmo com a melancolia sempre presente nos trabalhos dela. Dois singles incríveis que prometem um álbum maravilhoso.

nota:

“Mariners Apartment Complex”: ⭐⭐⭐ e 1/2 de ⭐⭐⭐⭐⭐

“Venice Bitch”: ⭐⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

E vocês, o que acharam dos últimos lançamentos? Tem algum que você destacaria?

 

 

Últimos lançamentos – Nicki e Ariana

Voltei da moita (quer dizer, da segunda metade do meu primeiro mês de trabalho) devendo duas resenhas importantes para vocês, que decidi postar juntas porque o contexto ajuda.

Nicki Minaj lançou o “Queen” em 10.08 com aquela campanha surreal de divulgação em que as fofocas e frases polêmicas se tornaram mais relevantes do que a música de fato. Justamente quando o novo álbum chega num novo espectro do rap, em que o objetivo aqui seria Nicki mostrar para as outras rappers iniciantes no jogo (tipo Cardi B) quem é a melhor da cena atual. Será que ela conseguiu mostrar esse poder no novo CD?

Ariana Grande e seu “Sweetener” (lançado em 17.08) veio com o objetivo de sedimentar uma das carreiras mais consistentes do pop atual, e distanciá-la das ex-acts, colocando-a como uma A-list. A campanha de divulgação parecia até ok até o momento em que o namoro altamente publicizado com o comediante Pete Davidson parecia tomar todas as atenções do material. A pergunta é: o material realmente a coloca em outro patamar?

Confira depois do pulo!

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Video Music Awards 2018 [2] Melhor Vídeo Latino, Hip Hop e Com uma Mensagem

O segundo post com os indicados do Video Music Awards 2018 vai tratar das análises de três categorias ligadas a sonoridades e mensagens em ascendente ou consolidação dentro da popsfera: a música latina, o hip hop e os vídeos com mensagem (seja de autoajuda ou de conotação política).

A tendência das rádios e streams americanos a aderir à sonoridade rap já vinha se desenhando desde 2016, especialmente com a ascensão do trap e do rap de Atlanta. Os virais que chegavam ao top 10 da Billboard, os rappers vindos do soundcloud, a consolidação de Drake como o maior nome pop da década (ele é o pop/rapper soft, crossover, considerado mais “seguro” para as soccers moms e adolescentes brancos do que um Migos, por exemplo), assim como as playlists do Spotify recheadas de rap, mostraram que o gênero dominante nos charts e na cultura popular atualmente é o hip hop. E isso se reflete no visual, onde os acts vão dos vídeos mais “padrão” ostentação e carros até verdadeiras obras de arte como os vídeos do Kendrick Lamar.

Enquanto Spotify e Apple Music são a casa do rap, o YouTube é dominado pela música latina, que já vinha se mostrando como uma das forças musicais mais relevantes do momento – o novo sendo sedimentado não pela visão WASP ou americanizada de música; mas sim pelos latinos, pelos falantes de língua espanhola e pelo som dançante do reggaeton, que poderia ter sido reverenciado com um Grammy para “Despacito”; mas que agora encontra em sonoridades crossover e músicas totalmente em espanhol mais um espaço para informar às rádios e awards que o pop latino tem voz, vez e personalidade. Tudo isso capitaneado por artistas com fome e fogo vindos da Colômbia e de Porto Rico.

Já os Vídeos com Mensagem tem uma história recente no VMA, e surgiram num período em que bombavam nos charts as músicas de “autoajuda” – faixas sobre autoestima, se aceitar como você é, você é bonito do seu jeito: músicas que chegaram até à primeira posição entre 2010-2012. No entanto, com a decadência desse tipo de canção com o passar dos anos, o produto ganhou um novo apelo e se reinventou a partir do momento em que questões políticas ligadas à violência, racismo, desigualdade, se tornaram mais fortes dentro e fora das redes sociais. Não que ninguém discutisse antes; mas os questionamentos atualmente se tornaram mais contundentes, e o outro lado se vê obrigado a ouvir. Por isso, a categoria Melhor Vídeo com uma Mensagem se revela uma das mais importantes nos tempos que correm.

Sem mais, vamos falar das indicações em Melhor Vídeo Latino, Hip Hop e Com uma Mensagem no VMA 2018.

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Nicki Minaj is the boss… e ela sabe disso

O rap é um gênero que se popularizou em alta velocidade, e aproveitou as mudanças no consumo de música para se consolidar como o estilo mais ouvido atualmente. No entanto, ao contrário de outros gêneros, como o pop, predominantemente feminino, o rap é um verdadeiro sausage fest – os rappers masculinos há anos dominam a cena e aparentemente nunca tem espaço para as femecees. No passado (ali no final dos anos 90/início dos 2000), tivemos um grande momento feminino no rap, com vários nomes convivendo juntos e fazendo sons distintos, com grande apelo – Missy Elliot, Lil Kim, Foxy Brown, Eve. No final da década de 2000, no entanto, parecia que a representação feminina tinha desaparecido do rap (ou não chegava ao mainstream) quando chegou o fenômeno Nicki Minaj.

Já fazendo seu nome por meio de mixtapes, em 2009 assinou com a Young Money, gravadora do Lil Wayne, e a carreira dela começou a decolar, com featurings de nome em faixas da Mariah Carey, Christina Aguilera (eu super achava que a Nicki ia estourar com “Woohoo”), Usher, Kanye West (e o já clássico verso de “Monster“); culminando no bem sucedido debut com o “Pink Friday”. No entanto, enquanto era a principal rapper feminina no jogo, Minaj flertava com sonoridades pop, o que – apesar de em nenhum momento diminuírem a moral dela com o público que sempre a apoiou – não tinham o mesmo nível do material rap que ela trazia. Tornavam Nicki igual a qualquer pop star, com farofas medíocres e rimas fracas.

No entanto, entre várias participações em outras faixas e expansão do nome “Nicki Minaj” em várias áreas do entretenimento (jurada do American Idol, atriz), foi realmente no terceiro álbum, “The Pinkprint”, que Nicki começou a organizar essa variedade de sons e necessidades que ela apresentava como artista: a rapper mainstream com forte apelo popular, mas que precisava fazer um som mais rap, menos influenciado pelos ritmos do momento.

Pois é, parece que ela aperfeiçoou com o lançamento dos lead singles do quarto álbum ainda não intitulado – as vibrantes “Barbie Tingz” e “Chun-Li“. E sinceramente? Apesar de ter uma preferida, não sei de qual eu gosto mais 😀

Resultado de imagem para barbie tingz

Aqui não tem farofa, não tem single pop, não tem concessão: as duas músicas são rap, tem uma super vibe old school, super divertidas e mostram uma Nicki bossy do jeito que a gente gosta: rimas inteligentes, flow rápido, a voz da Nicki brincando na faixa e muita autoconfiança, e muitos shades porque ela se envolveu em beefs polêmicos no último ano – e este é o momento para reforçar seu papel dentro do rap game.

“Barbie Tingz” é bem old school com um toque moderno, produção econômica com destaque para os versos rápidos da Nicki, batida pancadão que nunca perde o ritmo e uma letra cheia de tiros. Nicki is the best and those bitches aren’t like her; and they’re still trying to. Curiosamente, ela é mais direta nos motivos pelos quais “as outras” querem ser como Nicki em “Chun-Li”, mas aqui ela entrega uma metralhadora em formato de refrão:

Want the Nicki cheat code? Come on, bitch, nice try
Let’s be real, all you bitches wanna look like me
Wanna be in demand, get booked like me
Wanna run up in the lab and cook like me
But ain’t nan you hoes pussy good like me
Pussy so good his ex wanna still fight me
Face so pretty bitches wish they could slice me

E várias shades na Remy Ma pelo caminho. Nicki Minaj não veio pra brincadeira.

Eu amo “Barbie Tingz”, mas a minha preferida é “Chun-Li”, outra faixa que nasceu com cara de clássico. Em homenagem à popular e poderosa personagem do jogo Resultado de imagem para chun-li nicki minaj“Street Fighter”, consegue também ser um rap de respeito – flow rápido, interpretação imponente, referências e metáforas bem colocadas, e com uma estrutura quebrada por conta de uma interlude que não é shade, é uma baita direta contra todos que querem pintá-la como a “vilã da história” em todos os rap beefs recentes

Oh, I get it, they paintin’ me out to be the bad guy
Well when’s the last time you see a bad guy do the rap game like me?

They need rappers like me, they need rappers like me
So they can get on their fucking keyboards and make me the bad guy, Chun-Li

“Todos” nesse caso podem ser a mídia, que adora colocar mulheres umas contra as outras (especialmente as femecees, porque estranhamente só pode “haver uma” – amore, isso aqui não é o plot do “Highlander”), assim como gravadoras que lucram com esses feuds mais falsos que uma nota de três.

Com um arranjo que em alguns momentos parece mesmo com a trilha sonora de um game de luta, a letra também mostra uma Nicki poderosa e que sabe que é temida pela concorrência – e mais importante: shades aside, ela brada que mesmo todos falando mal dela e a taxando de vilã, precisam da Nicki porque ela é a melhor rapper no jogo.

São duas músicas fortes, vibrantes, que mostram a variedade do flow e da personalidade da Nicki, provando que ela não vem pra brincadeira em 2018. E tampouco o rap, que parece a cada dia sedimentado como o gênero pop da década. Imagina isso no Grammy.

 

(e por favor, nada de alimentar feuds entre rappers femininas! É tão difícil uma rapper conseguir quebrar as barreiras e ser abraçada pelo grande público – não é porque uma está estourada que a outra tem que flopar ou ficar por baixo.)

Bem-vindos ao mundo de Cardi B em “Invasion of Privacy”

Cardi B - Invasion of Privacy.pngO que acontece quando você faz sucesso com um hit, antes mesmo de lançar um álbum? E quando você lança outros singles como participação especial, que fazem sucesso, e todo mundo espera qual o seu próximo passo? Será que esse momento são apenas 15 minutos de fama ou você se provará um artista constante?

No caso de Belcalis Almanzar – ou Cardi B, a rapper revelação mais bombada de 2017-18 – a situação se construiu mais ou menos assim: participante de um reality show famoso, ” Love & Hip Hop: New York”, e popular com seus vídeos altamente sinceros no Instagram, já tinha lançado mixtapes antes de estourar com o primeiro single na gravadora Atlantic, a ubíqua “Bodak Yellow”, primeiro #1 solo de uma rapper feminina desde Lauryn Hill, e ainda por cima indicada ao Grammy. O sucesso gerou outras parcerias e hits (“No Limit“, “Motorsport“, “Finesse [Remix]“) além de um segundo single que, apesar do lançamento do vídeo num timing excelente (pra não dizer outra coisa), também bombou bastante – a ótima “Bartier Cardi”.

Mas faltava uma coisa – o álbum. Afinal de contas, era hora de mostrar se Cardi B podia entrar na lista de rappers ascendentes da cena ou seria apenas mais uma three-hit wonder que infestam o top 10 do Hot 100. E “Invasion of Privacy”, o debut da novaiorquina, demorou bastante, mas finalmente chegou; e provou que Bardi não veio apenas para ser mais uma na multidão.

Afinal de contas, o mundo é de Belcalis Almanzar, e nós apenas vivemos nele.


Eu estava bem preocupada com a possibilidade da demora no lançamento do álbum ser por conta de um “polimento” – tornar o som agressivo e trap da Cardi mais pop pra atender a um público crossover e deixar acessível. Pelo contrário, “Invasion of Privacy” é agressivo, in-your-face, real, sincero, ao mesmo tempo em que é vulnerável e bem-humorado – do jeitinho da Cardi.

Tem muito trap, batidas fortes, alguns sons mais puxados pro R&B – que saíram bem vindos, e uma faixa com a colaboração latina que é smash garantido. Bem dividido entre trechos mais fortes (de “Get Up 10”, a biografia da Cardi, até o sucesso “Bodak Yellow”), um miolo mais leve, onde tem a pior música do CD (“Be Careful” só é boa pelo potencial de treta por causa do Offset, o noivo da Cardi que já foi acusado de traição várias vezes; mas o rap dela tá numa velocidade diferente do resto da música e soa esquisitíssimo) e “I Like It”, o smash latino com cara de #1 (o que é um feat equilibrado né gente? Bad Bunny e J Balvin praticamente são parte de um trio, e não versos inseridos); assim como o terço final variado entre o rap com influências trap bem agressivo, o rap/R&B mais confessional (o que é “Thru Your Phone”?) e um final que é um tiro de bazuca – “I Do”, com o ótimo feat da SZA numa das melhores músicas do ano até agora.

Mesclando letras que vão desde a história da própria vida, o passado como stripper, como as pessoas a veem (“is she a stripper, a rapper or a singer?” em “Drip”, colaboração com o Migos), sua busca pelo sucesso, os momentos de glória e o relacionamento cheio de altos e baixos – e desconfianças – com o namorado (e que, dadas as informações que já temos sobre o Offset, já sabemos que se trata do cidadão); assim como momentos super bem humorados em que eu me vi rindo enquanto acompanhava a música – “Money Bag” e “I Do” são as primeiras que me vêm à mente – o que mostram a personalidade da Cardi em todo o álbum. O DNA dela está em todo lugar.

Algumas músicas são bem fillers, como “Ring” (com a Kehlani), e o flow da Cardi não é um dos mais brilhantes no jogo, e você pode até achar que ela não muda muito pelo álbum. No entanto, eu já a vi roubando a cena num som fora de seu território, e o fato é que, em “Invasion of Privacy”, tudo tem a ver com ela. É real, sincero, engraçado, confiante, super comercial porque é o som do momento, mas com a personalidade da Cardi impressa em cada faixa.

Fiquei muito contente que o debut da Cardi, demorado como foi, chegou e não teve concessões pop ou alguma coisa que fugisse da rapper que todo mundo aprendeu a amar nos últimos tempos. É coeso, divertido, tem fôlego e ainda termina com um gostinho de “quero mais” mesmo com 13 músicas. Fiquem de olho porque “Invasion of Privacy” pode render ainda mais que hits… E sinceramente?

Eu me sinto muito bem em viver no mundo comandado por Belcalis Almanzar.