Álbuns para enfrentar 2020

Domingo de Páscoa chegando ao fim, mas com o vídeo do Duas Tintas de Música, finalmente numa qualidade que me deixa mais satisfeita, editado com meu notebook novo E nesse formato sentadinha em frente à bancada E com um editor de vídeo gratuito! Hoje é dia de falar sobre dois álbuns que eu tenho o feeling que vão representar bem os sentimentos desencontrados do ano de 2020: “After Hours”, do The Weeknd; e “Future Nostalgia”, da Dua Lipa.

Na conversa, uma defesa da disco, parêntese para falar sobre Usher e participação especial de gafanhotos e dos brinquedos do McLanche Feliz e BK Kids.

(aproveitando gente, lavem a mão e se possível, fiquem em casa!)

Últimos Lançamentos [2] Justin Timberlake já pulou o tubarão faz tempo

Às vezes um artista toma uma decisão que podemos considerar a pior possível, e quando o act em questão é um homem, a gente se questiona ainda mais a razão: geralmente o fandom de act masculino não é tão flexível com mudanças de imagem ou som quanto os fãs de acts femininas – ter uma fave mulher é sempre contar que ela vai mudar, desenvolver o som, sair da caixa e fugir das obviedades, e é o que a gente quer! E geralmente, essas mudanças, quando bem-realizadas, funcionam.

Quanto aos homens, raros são os acts que decidem chutar o pau da barraca e dizer “hoje eu decidi mudar tudo!” – e entre os raros, pouquíssimos são bem sucedidos nisso. É como se as mulheres no pop estivessem sempre movimentando, buscando romper barreiras, enquanto os homens prosseguissem numa toada bastante confortável. Dá uma análise interessante sociológica, mas nem é meu foco aqui.

Confissão: eu faço parte do fandom de um artista masculino, e sonho com álbuns de sonoridades diferentes no futuro – tô sempre esperando qualquer coisa dele. Mas eu me chocaria se ele fizesse algo que não é parte do coração do seu som, tipo lançar um CD de EDM pesadíssimo produzido pelo Calvin Harris.

… Tá, mas falando em acts masculinos que decidiram mudar tudo, tem dois exemplos de movimentos musicais que deram errado, muito errado, gerando o “jumping the shark” – é como se eles tivessem passado do ponto, sem possibilidade de voltar ao que eram antes. Um deles é Usher (Usher, Usher…), que ao alienar sua fanbase R&B para entrar na modinha eletropop, foi para uma viagem e nunca mais voltou. Aliado ao fato de que ele nunca reforçou a própria brand muito bem, hoje poucos imaginam que o blueprint do artista pop/R&B que dança, canta em falsete e tem cenas sensuais em seus vídeos é Usher – e não o artista de quem falaremos agora.

O segundo a “jump the shark” é Justin Timberlake, e esse processo foi longo, culminando com o TENEBROSO “Man of the Woods”, aquela apresentação sem graça no Halftime Show e essa música lançada para a trilha sonora do novo filme do “Trolls” (desapega disso, homem!), chamada “The Other Side” (lançada em 26/02) em parceria com SZA.

SZA and Justin Timberlake - The Other Side.png

Provavelmente a melhor faixa envolvendo Timberlake em ANOS (desde a segunda parte do 20/20) é um disco-funk chill e divertidinho, cheio de balanço e um refrão bastante grudento que mostra a versatilidade da própria SZA, um dos principais nomes do R&B atual, criticadíssima pelos puristas do gênero por cantar em itálico (ou seja, aquela voz meio manhosa, como se tivesse bebido demais, que muitos puristas não curtem muito), mas que aqui vira uma diva funk que torna Timberlake desnecessário numa faixa para um filme onde ele é o protagonista.

O vídeo é simples e eficiente, e SZA de longe é a estrela, enquanto Timberlake parece o “cara das antigas” tentando recuperar o sucesso com a nova geração, numa música que é boa, mas não é exatamente o que o cara que realizou “FutureSex/LoveSounds” e colocou o pop pro futuro junto com Timbaland. E sabe onde ele realmente “pulou o tubarão”? No dia em que ele gravou “Can’t Stop The Feeling”.

E isso não é apenas uma constatação minha – muita gente considera que essa decisão minou alguma coisa na relação de JT com seu público – de “Mr. Sexo” para cantor de trilha sonora de filme infantil, e não houve retorno. Não sei se isso tem a ver com a voz dele, que a cada ano parece mais com voz de ex-membro de boy band, ou o fato de que se dividir entre ator e cantor (quem recomendou gente? A projeção vocal dele é péssima para um lead actor…) causou alguma desconexão e ele mesmo passou a acreditar demais no próprio hype – a julgar por aquele SuperBowl…………………………

Ao mesmo tempo, retornar ao pop/R&B (e buscar inspiração em soul, funk e disco) é back to basics para Timberlake, o movimento mais óbvio para quem perdeu tração nos últimos anos, e tem muita gente interessante na cena, que parece estar retomando um certo protagonismo, com quem ele pode se aliar (Kehlani, H.E.R, The Weeknd, Lizzo). O problema é que ele pode não ter o retorno de público, já que muitos o viram como alguém que sempre se utilizou da cultura negra para lucrar (muitos esperam o perdão pra Janet…), e a landscape sobre apropriação cultural e brancos sendo “a face” da música negra é bastante prevalente nos últimos anos.

Por isso…? acho que o caminho do Timberlake vai ser testar as águas pra ver se não dá pra pular outro tubarão e voltar tudo de novo. O que é impossível.

E vocês? O que acharam da música com o JT? Acreditam que ele tem chance para um comeback após divulgar “Trolls World Tour” ou ele perdeu o bonde da história?

O próximo lançamento que vou comentar aqui é de um single com a marca registrada de uma famosa franquia, e de uma música famosa dessa mesma franquia… Quem será?

COMBÃO de singles [Outubro ’19]

Antes de começarmos a falar de fato sobre Grammy (afinal de contas, no momento em que este post for publicado eu já devo ter comentado sobre os indicados), hora daquele resumão de lançamentos que ocorreram mês passado, e que provavelmente podem entrar no Grammy 2021 (ou não, a depender da situação de carreira dos envolvidos)

(ah, e sobre o Grammy, os vídeos voltarão sim, como eu tinha comentado no post dos indicados! 😊 Vou fazer um esforço para compensar meus sumiços – que tem diversas explicações, como trabalho, projetos de escrita literária, crises de ansiedade, picos de estresse etc – e gravar os vídeos além de + um podcast com explicações que considero plausíveis sobre os indicados, conversas sobre os charts e papo sobre kpop)

Sem mais, vamos lá – em ordem cronológica:

Harry Styles, “Lights Up” (lançado em 11/10)

Harry Styles - Lights Up.png

Se eu te disser que no começo, não entendi bem como funcionava essa música e achado bem sem graça, vocês me perdoam? Então, eu tinha me acostumado com o rockstar anos 70 neojurássico do debut, por isso a vibe psicodélica indie tinha meio que me surpreendido; mas numa segunda ouvida, a faixa é mais que forte, é extremamente forte e a cara do Harry. Ele encontrou um nicho bastante particular, que ele consegue tornar radiofônico e pop, e funciona bem pra caralho – nicho esse que outros acts masculinos pop da mesma faixa de idade não estão fazendo, o que torna a trajetória de carreira dele desde a saída do One Direction uma das mais curiosas de acompanhar.

(aliás, nem dá pra lembrar, apenas se você for fã e não apenas um ouvinte comum, que algum dia Harry foi membro do One Direction. Parece um artista completamente diferente pra mim)

A música tem umas quebras de expectativa que numa rádio top 40 podem causar alguma estranheza, mas em outros charts (como o adulto ou o rock) funcionam perfeitamente. Ao mesmo tempo, “Lights Up“, com seu refrão feito em coro, versos crípticos e universais e um clima de elevação e liberdade, é a faixa perfeita para ser cantada em festivais.

Ou seja, o rockstar continua vivo.

Katy Perry - Harleys in Hawaii.png

Katy Perry, “Harleys in Hawaii” (lançado em 16/10)

Lembram-se de que eu tinha feito há muito tempo atrás um vídeo sobre a carreira da Katy Perry, onde eu não conseguia ver bem qual seria a função ou espaço dela dentro da landscape musical do momento? Então, como boa parte desses problemas estão relacionados ao descolamento da imagem dela em relação à música que ela fazia/faz, neste momento, a impressão que eu tenho é de que Katy está tentando colar novamente a imagem com um pop mais puro, e uma imagem mais divertida, mas sem ser paródica. Dessa forma, surgem os melhores materiais que ela lançou desde a parte boa do “Prism”, o que se inclui “Harleys in Hawaii“, uma faixa deliciosa e que poderia facilmente ser lançada no verão como aquele single perfeito para um fim de tarde com o love.

Entretanto, há um sério problema com essa música: ok que ela poderia lançar no verão, mas dentro de um contexto maior, de uma era, em que Katy já teria lançado um CD, um conceito, uma ideia sobre o que ela pretende fazer musicalmente. HiH parece a faixa terceiro single de um álbum já lançado, que todo mundo conhece as músicas e a era de coração (como foi no tempo de “Teenage Dream”, por exemplo). Nesta era (se assim podemos chamar) da Katy, todas as faixas parecem jogadas ao vento, o que é um desperdício para um material tão bacana (especialmente “Never Really Over”, um petardo pop que merecia uma sorte BEM, mas BEM melhor).

Eu não sei, sinceramente, qual o próximo passo da Katy – se teremos álbum, se será um compilado de canções lançadas, se estamos ouvindo um EP ou teremos uma grande surpresa – mas sinceramente eu não sei como qualquer estratégia de carreira se aplica especialmente no pop playlist de hoje (ou seja, música que serve mais como background)… Ou o pop que ela faz ficou em 2010.

Aí gera minha pergunta: será que Katy Perry perdeu o bonde da história com o “Witness”?

Selena Gomez, “Lose You To Love Me” (lançado em 23/10)

Selena Gomez - Lose You to Love Me.png

Finalmente Selena Gomez conseguiu seu #1 na Billboard com uma balada sentimental, evocativa e cheia de mensagens subliminares sobre um certo ex e sua atual esposa, após um período de carreira solo em que Selena se metamorfoseou de uma ex-Disney Star buscando uma carreira solo no pop para alguém com um material absolutamente intrigante e perfeito para a voz que ela tem.

Entretanto, o minimalismo que sempre foi bastante presente em seus materiais a partir do “Revival”, tanto vocal quanto em batidas, produções e a “vibe” do material se perde um pouquinho em “Lose You to Love Me“, o single que chegou ao topo da Billboard. Co-escrito pela dupla Julia Michaels e Justin Tranter, a música tem todas as características do som que os fez os hitmakers mais procurados há alguns anos. Entretanto, mesmo com o frescor da letra com caráter pessoal, as batidas marcadas, a escolha da interpretação e a produção, mesmo com um ar mais épico no refrão, GRITAM 2017. A balada não é exatamente groundbreaking (exceto pela letra) e tudo me parece meio datado.

O #1, provavelmente, foi graças ao buzz do retorno e o apoio da fã-base, porque os predicados da canção não exatamente colaboram para este resultado tão bom.

… E a propósito, o segundo single (surpresa), “Look at me Now“, consegue ser menos interessante ainda que LYTLM. Confesso que, enquanto ouvia o som pop eletrônico da música, senti falta da Selena do “Revival” e da que lançou “Bad Liar” (INJUSTIÇADA!!!) e “Fetish”, que funcionava num mundo diferente de outras peers. Fico contente que ela está buscando uma linha mais pop direta ao ponto, sem genre-bending, fiel às suas raízes, mas a música é tão… anticlimática…

Dua Lipa – “Don’t Start Now” (lançada em 31/10)

Dua Lipa - Don't Start Now.png

O primeiro single do segundo álbum da cantora britânica é bastante distinto do que ela já vinha trabalhando nos singles do debut – que eram mais pop, sem tantas influências (exceto por “New Rules”) – mas é audível que “Don’t Start Now” é uma continuidade do som que já estávamos ouvindo da Dua em seus featurings (“One Kiss” e “Electricity”, que eram mais dance, house, anos 90). Entretanto, o novo single busca referências mais anos 70, mais disco (ouça o pré-refrão e o instrumentalzinho curto após o segundo refrão), conversando com essa pegada dance anos 90 – e o encontro é um SMASH!

Eu amei a música, e não apenas porque eu gosto de música disco hahaha mas porque Dua funciona nesse som – ela tem a voz de diva dance, ela funciona nisso, tem o volume, tem algo que chama atenção e uma certa ironia na interpretação (bem britânico) que fica bem melhor do que fazer a coitada dar uma de estrela pop no padrão anos 2000 ao qual estamos acostumados. A faixa é gostosa, vibrante, não sei se o pré-refrão ou o refrão são a melhor parte da música, mas sinceramente? Uma das melhores coisas lançadas neste fim de ano, e se a próxima sonoridade pop brincar com house 90’s e disco 70’s, pode me chamar que tô feliz.


Agora é com vocês: quais foram as faixas favoritas de vocês neste último período? O que recomendam de lançamentos do pop neste fim de ano? Fiquem à vontade para comentar!

As linhas borradas dos samples

Se tem uma coisa que é mais comum que feuds na música pop é o uso dos samples. O sampling é o ato de usar uma parte de uma música (normalmente o instrumental) e utilizá-la para fazer outra música. Claro que dando os devidos créditos ao cantor/compositor original.

Normalmente, a gente encontra os samples no hip hop, mas algumas músicas pop famosas já se utilizaram desse recurso na construção de suas canções, tanto que muitas vezes, você acaba ouvindo uma música e percebendo que já a ouviu em algum lugar. Ou então achando que artista x plagiou alguma canção desconhecida e ninguém informou isso até agora.

Foi o que aconteceu comigo quando ouvi “Blurred Lines” do Robin Thicke pela primeira vez: eu achei que tinha sample de “Got To Give It Up”, do Marvin Gaye, e fiquei realmente surpresa quando soube que a composição não incluía os créditos do Gaye – ou seja, era apenas uma música parecida. Quando a família do Marvin colocou Pharrell e Thicke na justiça, tentando provar que a música era plágio, não me senti enganada – as duas músicas eram parecidas. Por isso, quando você sentir que “já ouviu aquela música antes” e achar que alguém está sampleando/plagiando um artista anterior, não tenha medo em procurar saber (ou desconfiar) sobre a canção.

E como a decisão já foi tomada nos EUA – declarando que “Blurred Lines” realmente tinha plagiado “Got to Give it Up” e que tanto Robin Thicke quanto Pharrell devem pagar uma soma milionária à família de Gaye, achei interessante fazer um post aqui sobre melodias e batidas emprestadas de forma honesta dos artistas originais – os samples. No caso, samples curiosos e não tão conhecidos de músicas que vocês amam, odeiam ou amam odiar (ou odeiam amar, tudo vale).

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Mark Ronson e o fôlego em Uptown Special

Cover CD Mark Ronson Uptown SpecialQuem acompanha música deve conhecer alguma coisa sobre Mark Ronson. O DJ e produtor britânico por trás do clássico “Back To Black”, da Amy Winehouse (além de trabalhos com Lily Allen, Christina Aguilera, Robbie Williams e Bruno Mars), é sempre sinônimo de mistura de várias influências em busca de um som moderno, mas com um pezinho no passado. E com o lançamento de “Uptown Special”, o foco são os anos 70.

O que ninguém – nem ele mesmo esperava, como relatado na reportagem de capa da Billboard desta semana– era que o seu novo álbum (o terceiro em sua discografia) seria tão ansiosamente esperado por causa do primeiro grande hit do ano, “Uptown Funk”, um sucesso massivo e que não dá mostras de diminuir a velocidade da dominação tão cedo. O lead-single do álbum acabou levando crítica e público a conferir o que Ronson tinha preparado para o álbum – como a participação especial do mito Stevie Wonder em duas faixas, além da contribuição do escritor vencedor do Pulitzer Michael Chabon nas músicas do CD.

Será que já podemos incluir “Uptown Special” nas listinhas futuras de melhores de 2015, ainda em Janeiro? Confira no track-by-track!

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