Country or not country? “Old Town Road” coloca a Billboard em maus lençóis

Nos últimos dias, a Billboard esteve no centro de uma polêmica envolvendo uma faixa lançada em dezembro que viralizou e se tornou uma das músicas mais ouvidas nos charts country, “Old Town Road“, do jovem rapper Lil Nas X. A música, que estreou em #19 na Billboard Hot Country Songs chart poderia ter sido #1 nas paradas do gênero nesta semana, se não fosse uma decisão da “Bíblia Musical” de retirar a faixa dos charts do gênero por não encontrar na música elementos suficientes do country atual, mesmo com imagem e elementos que lembrem a estética country (a letra tem versos como ” I’m gonna take my horse to the old town road”, “I got the horses in the back/Horse tack is attached”, “Hat is matte black/Got the boots that’s black to match”). A música tem banjo, vocais com referências country, em meio a uma batida trap pesada que dropa pra todo mundo dançar (a propósito, a musica ficou no charts de hip hop/R&B…).


O rapaz de 19 anos, nascido Montero Hill, aliás, ótimo nome de cantor country, disse que a faixa era um country-trap, um blend (bem-feito, aliás) de dois gêneros, mas muita gente acha que não é country porque tem rap e batida trap. No entanto, hip hop atualmente se tornou uma das maiores inspirações do country pop, cujos artistas vêm pegando emprestado as batidas e colocando um toque country, por consequência tocando horrores nas rádios. Ou seja, o rap já vem mudando a cara do country, e isso não é de hoje.

Nelly já tem histórico de crossover country!

Ou seja, a desculpa de “falta de elementos country” de “Old Town Road” cai por terra quando você descobre que essas faixas tiveram airplay forte em rádios COUNTRY e pra mim isso é algum pop com pegada country. Além disso, várias faixas que nada tem a ver com country tocaram horrores dentro do gênero (“Meant to Be”, alguém?); então, não é apenas uma questão do que se adequa melhor ao gênero e que pode entrar na rádio.

O racismo pode aparecer das formas mais sutis, como por exemplo, artistas brancos que usam de gêneros como rap para fazer country popificado são bem-vindos nas rádios do gênero, enquanto um artista negro fazendo algo similar é rejeitado por “não ser country o suficiente“. “Old Town Road” é mais country que a Taylor Swift no “Red”, que foi indicado a um Grammy na categoria, quando o (excelente) álbum de transição da moça tinha que ter ficado com uma vaga no pop field.

E como eu dei a dica no caso do Nelly, crossovers rap/country não são coisa nova (Nelly and Tim McGraw say hello), e em tese, existem espaços para esse tipo de intersecção. O próprio Lil Nas X repete que a faixa é country-trap e deveria estar tanto nas rádios country quanto na de hip hop. Ou seja, há espaço pra esse som – se for coisa do Florida Georgia Line, é o que parece.

A propósito, “Over and Over” não tocou em rádios Country, apesar de ter participação de uma lenda do gênero.

O que podemos concluir, até certo ponto, é que um artista negro, fora de Nashville (o rapper é de Atlanta, terra do rap que influencia todos os sons das rádios americanas no momento), não pode ser abraçado pelos charts conservadores da Billboard fazendo uma música que consegue ser mais “roots” do que os maiores sucessos do gênero na história recente. Se ele fosse branco, seria recebido de braços abertos – com aquele nariz torcido dos mais puristas, mas bateria recordes de audiência mesmo assim e manteria o gênero “vivo”.

Entra o co-sign de uma lenda do country nessa história toda: Billy Ray Cyrus (que os mais jovens conhecem como o pai da Miley) pariticipou do remix de “Old Town Road” (que ganhou mais versos, desta vez sob a perspectiva de uma estrela “das antigas” rica que deseja voltar ao começo), e entregou não apenas sinceridade na faixa, mas um apoio nessa disputa que se tornou algo muito maior do que a Billboard poderia imaginar quando tomou a decisão. Esse encontro estava, de certa forma, escrito: o próprio Lil Nas X quem tinha interesse de incluir Billy Ray na faixa; e o artista foi um dos que se opuseram à decisão da Billboard em retirar a faixa dos charts e ainda o cumprimentou como um outlaw do country. O próprio Billy Ray sofreu isso no passado – seu maior hit, “Achy Breaky Heart“, dividiu ouvintes, que disseram que a faixa destruiria o estilo, enquanto a música acabou abrindo espaço para novos ouvintes, já que o gênero estava morrendo no começo dos anos 90. De ser marginalizado pelas rádios, esse entende.

Agora, com o apoio de uma figura importante do country, será que a música pode ser considerada como tal?

Ainda tem outra teoria…

O racismo faz parte da discussão sobre a ausência de “Old Town Road” nos charts country? Sim. Mas existe uma motivação da indústria que é bem curiosa: como a faixa cresceu graças aos streamings (e como é uma faixa independente, os DJs das rádios country tinham que baixar a música do YouTube para atender aos apelos de quem pedia a música nos programas), isso poderia causar problemas num gênero que tem muita dependência das rádios para sobreviver. O country ainda não sofre a influência do stream, que de certa forma é incontrolável e não atende aos desejos dos donos de rádios e payola tradicional – qualquer coisa pode viralizar, incluindo o que não se aplica à caixinha convencional do que é “country”. Então, pode ser que a Billboard tenha sido pressionada também por esses players a limitar as músicas que devem ser consideradas “country” para evitar a dominância de uma plataforma que pode, por conta dos desejos do público, modificar de forma real o que realmente os ouvintes consideram como sendo aquele gênero ou não.

Olha o que Montero Hill aprontou…

Mas não existem artistas negros no country?

Importante ressaltar que Lil Nas X não é a primeira pessoa negra a estar inserida no country. Existe um espaço, mas é muito pequeno, pra não dizer micro, sendo que uma das origens do gênero é justamente o BLUES, de origem negra. Ou seja, mais um gênero em que os negros foram deixados de lado para se tornar totalmente branco – e masculino. É só ver como Carrie, Miranda, as Dixie Chicks, Kacey, sofrem horrores para se manterem visíveis dentro do field.

Entre os acts famosos do gênero negros estão Charley Pride, uma das lendas country, além de Darius Rucker, super respeitado, e acts mais jovens como Mickey Guyton e Kane Brown (com mãe branca e pai negro).

Ou seja, o country é um gênero que já tem problemas de representatividade seríssimos, e quando se confronta com um blend moderno, já feito pelos artistas “certificados como Country”, mas desta fez feito por alguém que é um outsider reclamando sonoridades que são, de fato, suas (pensando no rap criado pelos negros americanos), os charts recusam por… Razões pelas quais deveriam recusar Florida Georgia Line, Sam Hunt… Ou seja, não há explicação plausível para esta resistência, ou a novidade da Billboard que está “considerando” colocar “Old Town Road” de volta ao chart country – de onde nunca deveria ter saído: o remix de “Old Town Road” é tão country quanto a versão original. A diferença é a inclusão de um artista country na música. Tipo, só agora?

A propósito, já que essa é a lógica, Post Malone vai continuar nos charts de rap quando o cara literalmente canta nas músicas ou só vale pra manter a “pureza” de um gênero, ou impedir os streamings de influenciar o chart country?

As coisas estão ficando cada vez mais curiosas no reino da Billboard… Enquanto isso, ouçam o excelente remix de “Old Town Road”, talvez o próximo hino do verão americano:

P.S.: eu ando meio sumida do blog porque minha vida está uma loucura: estou completando minha graduação (agora Licenciatura) e entrei num curso de professor de Inglês, sem contar o trabalho e outros projetos pessoais. Mas não abandonei o Duas Tintas 😊 como milhares de coisas acontecem na indústria, eu decidi que não ficaria tão restrita a resenha-discussão sobre charts-etc e sim trabalhar nesse fluxo mais direto, com artigos sobre coisas que estão acontecendo na popsfera e que valem a pena ser discutidas. Pode ser que saia algo 1x por semana ou 2x ao mês, mas vou tentar publicar e manter o blog movimentado

O canal também vai voltar, mas tudo depende do meu computador suportar as edições… 😭

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Dia Internacional da Mulher: Oito músicas para reforçar o poder feminino

Hoje não é exatamente um dia de “comemoração” – o 8 de Março é mais uma data importante, de luta, para lembrarmos sempre sobre o quanto “ser mulher” é luta pra sobreviver num país que mata mulheres diariamente, que violenta e agride mulheres desde a infância e que ainda paga menos, desvaloriza e as trata como apenas anexos.

Mas aqui no blog eu vou abrir um pouco de espaço para reforçar o poder da mulher – ela que é capaz de tudo e mais um pouco, que tem inúmeros papeis, que não tem medo de enfrentar os desafios e assumir seus sonhos, paixões, medos, alegrias e loucuras. E a melhor forma de fazer isso é por meio da música de mulheres incríveis com temáticas super caras a nós. Alguns clássicos, deep cuts que merecem sua atenção, sucessos pop recentes e um guilty pleasure que ninguém é de ferro.

“Woman”- Kesha Featuring The Dap-Kings Horns

Vale a pena começar com um dos hinos do incrível “Rainbow”, o renascimento da Kesha como artista e mulher – “Woman” é puro empoderamento, com direito a uma indireta bem direta pro inominável Dr. Lucifer com “‘Cause I write this shit, baby, I write this shit”, e de certa forma, uma indireta para toda a indústria, que sempre questiona se uma mulher realmente escreveu determinada música num álbum.

 

“I’m Every Woman” – Whitney Houston

Um clássico do R&B que tinha estourado numa vibe disco na voz de outra diva, Chaka Khan, ganhou ainda mais status de ícone na voz da Voz, Whitney Houston, que regravou para a trilha sonora de “O Guarda Costas”, em 1992. Reforçando a ideia de que essa mulher é tudo e todas as coisas, e consegue fazer o que quer sem esforço, tem um significado especial (e melancólico) quando pensamos que o vídeo oficial da faixa tem a Whitney grávida da Bobbi.

 

“Independent Women Part 1” – Destiny’s Child

Não é de hoje que Beyoncé fala do poder feminino em sua carreira. As Destiny’s Child já falavam de sororidade e independência  no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Mas com certeza “Independent Women Part 1” é um dos clássicos mais instantâneos por ser parte da trilha do filme “As Panteras” (minha infância purinha) e ser um hino pra todas as mulheres que trabalham, se divertem e amam na mesma medida.

 

“Respect” – Aretha Franklin

Um clássico atemporal do empoderamento feminino, tem uma história curiosa – escrita e lançada originalmente por um homem, Otis Redding (de quem vou falar dia desses), foi regravada por Aretha, que ainda incluiu alguns versos e referências que refletissem o seu objetivo na música: exigir respeito do marido/namorado, não apenas como esposa, mas como parceira. Uma música que não envelhece nunca.

 

“Can’t Hold Us Down” – Christina Aguilera Feat. Lil Kim

Xtina sempre foi de falar o que pensava, mesmo que isso fosse um problema pra ela depois – e quando ela se juntou com Lil Kim pra criticar o double standard entre homens e mulheres (e jogar shade no Eminem), surgiu uma das faixas mais atemporais da Christina e dos anos 2000. Ainda estamos discutindo o tema de “Can’t Hold Us Down” – mostra de que nós mulheres ainda temos um longo caminho para sermos respeitadas em nossa sexualidade.

 

“Hey Girl” – Lady Gaga Featuring Florence Welch

Deep cut do “Joanne” que merecia ter sido single, essa faixa super anos 70 coloca Gaga e Florence (do Florence + The Machine) juntas numa cute song sobre irmandade feminina, que as mulheres não devem brigar entre si e sim se unir. Além da própria mensagem de união, é uma indireta sutil a toda uma indústria e mídia que adoram criar feuds femininos para vender álbuns e jornais.

“That’s My Girl” – Fifth Harmony

O último single das Quintas antes da saída da Camila Cabello, representa musicalmente a vibe que as meninas  apresentaram em entrevistas e no convívio com as jovens fãs do grupo – a amizade e apoio feminino para enfrentar os desafios da vida. Mesmo que a relação de fato entre as cinco não tenha sido perfeita do começo ao fim, ao menos elas entregaram ao fandom na música o discurso empoderado pelo qual ficaram conhecidas no começo da carreira.

 

“Man! I Feel Like a Woman” – Shania Twain

Encerrando em grande estilo o post, um clássico do country-pop da Shania Twain que até hoje coloca meio mundo pra dançar e várias garotas para se divertirem sem pensar no dia seguinte. Outra música que dominou minha infância (foi até tema de novela), é acompanhado por um clipe que é a versão invertida (com os gêneros trocados) de um vídeo do Robert Palmer, “Addicted to Love“. Uma ironia finíssima, btw.


Esse post foi para dar uma suavizada, refletida, um reforço novamente do poder da mulher neste 8 de Março. Mulheres que se divertem (e nos divertem), que gritam, que não tem medo de cara feia ou opiniões ultrapassadas, mulheres incríveis de ontem, hoje e todos os tempos, que juntei nessa listinha que com certeza devo ter esquecido outras artistas, mas fiquem à vontade nos comentários para listar outras artistas com músicas poderosas (e empoderadas) ou indicar as suas favoritas.

 

E para todas as mulheres: seguimos!