O problema “Starboy” – “Lover”, Taylor Swift

Lá em 2016 eu escrevi uma resenha sobre “Starboy“, o hiperbólico quarto álbum de The Weeknd, em que eu achava o CD bem bom, mas que precisava ser menor. Considerava a duração de mais de uma hora (!) com dezoito músicas, bastante excessivo e distraído – quando as canções eram muito parecidas entre si, especialmente no meio-de-campo que quase chegava às raias do genérico. Entretanto, havia algumas gemas que poderiam ser lançadas como single, e no geral, um recut do CD com mais ou menos doze canções deixaria o álbum mais fluido.

Só que 18 músicas não foi só uma escolha artística ou do ego do cantor – esse número é uma tendência dos artistas recentemente, em busca das disputadas audições via streaming. Quanto mais faixas, mais audições, e mais tempo a pessoa passa ouvindo o CD, e mais streams você dá, aumentando a vendagem do álbum. O problema é quando você está em busca desse número mágico e esquece que precisa engajar os ouvintes – não apenas seus fãs fiéis.

E é este o meu problema com o novo da Taylor Swift, “Lover“.

Taylor Swift - Lover.png

Após um álbum que no seu melhor tem a elegância discreta de deepcuts como “Getaway Car” e o single “Delicate” e no seu pior… Melhor esquecer, Taylor decidiu dar um passo atrás – mas não num sentido ruim, e sim em sonoridade. Sai a produção pesada e all over de place de aberrações como “End Game” e entram materiais mais despretensiosos como “I Forgot You Existed”, por exemplo. O passo “atrás” se dá porque “Lover” parece uma natural continuação de “1989”, só que com mais leveza e maturidade no enfrentamento das novas situações. É como se “reputation” fosse o álbum “fora de lugar” na discografia porque não era o momento nem o lugar para ele acontecer.

(ver “Born This Way”, “Rated R”…)

A produção é bem mais chill, pop com sintetizadores, baladas synth e mais inspirações oitentistas beeem discretinhas, e no geral, as faixas variam entre o amor real e positivo que ela finalmente encontrou (após anos de relacionamentos cheios de problemas), problemas nos relacionamentos com drama (“Afterglow”) e algumas referências à ela mesma, à reputação, mas sem aquele egocentrismo bizarro do CD anterior – e sim com a autopercepção, assumindo posturas e posicionamentos. O que eu havia pensado que Taylor faria em 2017 ela entregou mais ou menos aqui – até mesmo seu entendimento de uma sociedade machista cheia de double standards (em “The Man”, que apesar de ser legal, composição usando projeção foi feita com melhores resultados em “Blank Space”, e aqui soa até clichê) – incluindo sua habilidade intrigante como contadora de histórias (“Soon You’ll Get Better”), algo que eu aprecio sempre na Taylor.

O objetivo dela não é exatamente fazer cinco mil hits, não é… Até pela notável ausência de Max Martin aqui, Taylor busca arejar com outras parcerias (apesar de Jack Antonoff ainda estar aqui como uma praga…) e o resultado é um CD bastante coeso especialmente nas primeiras cinco músicas.

Depois de “The Man”, aí entra o “problema Starboy” que eu tinha falado: muitas faixas que eu não consegui distinguir (a la trilha sonora da Riachuelo), e pra chegar nas highlights, você caminha por um meio de campo absolutamente entediante. Sem contar os primeiros singles entrincheirados no fim do álbum, não fazendo o menor sentido em relação ao resto do álbum nem em sonoridade, nem em letras.

Nisso a gente retorna à discussão no começo desse artigo: eu imagino que “Lover” foi feito para agradar quem consome música via stream, por isso as 18 faixas. Só que um álbum não é uma playlist do Spotify – ele precisa concatenar ideias de forma coesa e concisa, e se for um álbum pop, entremeando deepcuts e faixas com potencial de single. Quando você concatena ideias (✅) de forma coesa (✅) e concisa (❌) entremeando deepcuts (✅❌) e faixas com potencial de single (❌)…

Você entendeu o que eu quis dizer.

Em resumo: sim, Taylor Swift recuperou seu mojo e pode dizer que “Lover” é uma vitória após a confusão que foi a era reputation e o próprio CD. Ao mesmo tempo, eu realmente achava que seria O retorno, para sedimentar sua posição como uma das grandes estrelas pop de seu tempo, e a minha reação foi de puro tédio em vários momentos desta longa audição. O álbum venderá horrores, mas ainda espero a sensação de glória que tive ao ouvir o “1989” há uns cinco anos atrás.

E mantendo a tradição, tem RECUT DE LOVER com dez músicas!

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Combo de Lançamentos [1]

Depois de retornar do meu período de hibernação pós-Grammy (sinceramente, fiz desintoxicação musical e foi a melhor decisão ever), hora de voltar aos trabalhos e falar um pouco dos lançamentos musicais, entre álbuns e músicas, que podem ter sido comentados (ou não) dentro da popsfera.

Ariana Grande, “thank u, next” (lançado em 08/02)

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/d/dd/Thank_U%2C_Next_album_cover.png

E eu que achava que Ariana não faria melhor que “Sweetener”… “thank u, next” é uma potência de produção, letras e evolução tanto no som quanto nas temáticas, tanto em relação ao álbum anterior da moça, como em toda a sua carreira. É evidente que quem acompanha Ari desde “Yours Truly” sabe que ela sempre teve os dois pés no pop/R&B e que era questão de tempo até que ela fosse full pop ou introduzindo uma vibe mais urban/rap em seus trabalhos. Boa leitora do pop como ela é, Ariana fez melhor: ela entendeu o que realmente está fazendo sucesso (como o trap/urban) e colocou sua pegada pop e radiofriendly com sua voz de ouro (e dicção boa, finalmente) num dos trabalhos mais fodas do mainstream no ano.

Os temas do “Sweetener” relacionados a inquietações pessoais e ansiedade permanecem em TUN (como em “needy” e “fake smile”), assim como as temáticas de sempre da jovem (no caso, relacionamentos amorosos na excelente e SINGLE MATERIAL “bloodline”, “make up” e seu joguinho de palavras e a super onírica “ghostin”, uma das highlights do CD que deveria encerrar a tracklist), mas tudo com um toque de amadurecimento de quem realmente está vivendo ou viveu essas emoções. Ariana Grande tem história pra contar agora e coloca isso nas músicas. Além disso, “thank u, next” representa muito dos sentimentos e dúvidas de ordem geracional, que impactam parte da fanbase da moça, que é bem jovem, e de uma turma millennial e Gen-Z que se identifica com ela.

(guardadas as devidas proporções de impacto e sucesso, essa leitura do pop e identificação com um público geracional é mais ou menos o que Rihanna fazia tão bem enquanto lançou CDs. Aliás, cadê você RiRi?)

Entre os três primeiros singles, eu já tinha dado minha opinião sobre a faixa-título, mas é engraçado como tanto ela quanto “7 rings” funcionam bem melhor no álbum do que isoladamente. Em relação à segunda, eu acho uma ótima tradução pop de um som atual, mas a letra não tem sinceridade alguma e entra em terrenos bem perigosos. Das três, de longe “break up with your girlfriend, I’m bored” é a melhor – e maravilhosa demais! Não merecia encerrar o álbum, mas eu entendo perfeitamente a presença dessas três músicas no final da tracklist (aliás, ótimo trabalho de Max Martin e Ilya… será que voltarão aos bons momentos?).

Resumidamente, eu AMEI “thank u, next” e acho assombroso o quanto essa menina consegue ir evoluindo e lançando um CD melhor do que o outro. Isso me faz torcer por coisas brilhantes no futuro, e é a prova de que Ariana cimentou seu lugar não apenas como A-list no pop, mas como uma das grandes artistas de sua geração, num todo.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Jonas Brothers, “Sucker” (lançado em 28/02)

Você se lembra de quando os artistas teen masculinos com quem as meninas queriam casar (e certeza que já deviam fazer fanfics desde aquela época) eram os Jonas Brothers? Havia a eterna disputa de quem era mais bonito (não conheço uma abençoada que tenha escolhido Kevin), as músicas eram cantadas e usadas como perfil do Orkut (RIP) à exaustão, tinham ainda os triângulos amorosos da Disney Miley-Nick-Selena, o vai-e-volta entre Joe e Demi, a série dos caras no canal… Eles já foram indicados ao Grammy e cantaram com fucking STEVIE WONDER! Ahhh que saudades do late 2000’s gente…

Pois bem, seis anos após o lançamento do seu último single, e carreiras solo decentes ou bem-recebidas numa banda (vi DNCE ao vivo e Joe nasceu pra ser frontman de banda, sério), os JoBros retornam com “Sucker“, que tomou o feed de nostalgia adolescente e o grande público com um pré-refrão grudento e um refrão ainda mais, cortesia também de Ryan Tedder, um dos compositores da faixa (o “I’m a sucker for all…” com o falsetinho no “all” tem as fingerprints do hitmaker). A música é uma delícia e a cara da banda: é um upbeat pop com aquelas guitarrinhas gostosas e super adulto. é exatamente o que o Jonas Brothers faria depois de alguns anos se ainda tivesse na estrada e não tivesse parado. A letra é bem trabalhada e mesmo com muita informação no refrão, tem repetições suficientes para grudar na sua cabeça – além do “I’m a sucker for you” ser um verso catchy o suficiente pra captar sua atenção.

E cara, assobios no pop = HIT!

O clipe, lançado no mesmo dia da música (é disso que eu gosto, fogo no olhar!) é maravilhoso, com a participação especial de Priyanka Chopra, Sophie Turner e Danielle Jonas, respectivamente esposa, noiva e esposa de Nick, Joe e Kevin (nunca me esqueço de que ele tinha um reality show com a esposa no E! Entertainment Television), super divertido e com figurinos e cenários que gritam investimento – e com essas participações especiais em situações bem-humoradas ao mesmo tempo que super fofas, foi feito pra hitar no YouTube. O resultado desse lançamento que gerou conversa e nostalgia de geral? Chance de lançamento em #1 na Billboard próxima segunda. EU OUVI UM AMÉM IRMÃOS?

(só espero que o DNCE não suma porque me recuso a lidar com Maroon 5 tendo a carreira que deveria ser deles)

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Cardi B & Bruno Mars, “Please Me” (lançado em 15/02)

Num outro espectro musical, vários escorpianos vão nascer por causa de “Please Me” (e eu não sei seter mais escorpianos no mundo é uma boa ou má notícia haha) e vocês podem creditar à segunda parceria entre Cardi B e Bruno Mars. Se “Finesse [Remix]” é a dupla na escola participando da feira de conhecimentos, “Please Me” é uma festa de pegação na faculdade.

“Please Me” é outro throwback 90s – elemento já conhecido do havaiano mas quase nunca tocado por Belcalis, e com um approach mais R&B do que nunca pra Cardi, mostrando que ela está com foco ainda mais crossover do que apenas o público rap, mas sem cair no pop – o que é uma excelente ideia. Sem perder o bom humor de seus versos (“your pussy basura/my pussy horchata” já é meu top 10 do ano) e ainda em posição de dominância no refrão grudento af (onde é ele quem pede por favor, uma raridade dentro das dinâmicas rapper + cantor/a), “Please Me” é outro win win situation para os dois, provando que o banho de carisma em “Finesse” se repete em condições ainda mais maravilhosas nessa faixa.

(se vc acha que rolava alguma coisa entre Gaga e Bradley Cooper na Awards Season, senta e prepara sua habilidade de fanfic, porque aqui se Cardi e Bruno não se pegaram é porque são ambos comprometidos e respeitam seus relacionamentos ao contrário de uma pessoa cujo nome rima com Upset)

O clipe, ao contrário do que eu e todo mundo pensou, ao invés de ir pro sexy, foi pro modo fofo e o resultado foi ótimo – com ecos de Grease e uma storyline fofíssima, não dá pra não ficar em shipping mode e a única coisa que pensei assistindo foi FUCK OFFSET! Coreografias bem-feitas, ótima fotografia, carisma e química saindo pelos poros e Bruno de bigode (!) O clipe ajudou bastante a manter a música com ótima audiência e a previsão é de top 3 na Billboard semana que vem.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐


E vocês? O que acharam desses lançamentos? O que esperam para as próximas semanas nos charts? E quem vocês acham que está perto de lançar material novo?

Será que existe mesmo a “maldição do quarto álbum”?

Fazer sucesso é um desafio que não começa só quando você lança o CD ou sai em tour. Às vezes, você não passa nem do primeiro single, ou é one-album wonder; mas geralmente pra chegar lá, é um percurso em que você precisa saber quem é musicalmente, ser inteligente, ouvir os mais experientes; e talvez engolir muito sapo (quer dizer, engolir as exigências da gravadora) até ter liberdade para ser “você” como artista.

Geralmente, quando o artista passa do primeiro CD, o segundo álbum é o desafio de mostrar que tem fôlego para resistir aos tubarões da indústria. Já o terceiro CD é, no geral, uma continuidade do sucesso e sedimentação do artista, que às vezes assume alguns riscos, mas nunca sem sair de sua zona de conforto. O quarto álbum, por sua vez, acontece num momento em que o artista, confortável com sua posição, decide que é hora de fazer algo “diferente”.

E é aí que ocorre a merda…

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Últimos lançamentos – Nicki e Ariana

Voltei da moita (quer dizer, da segunda metade do meu primeiro mês de trabalho) devendo duas resenhas importantes para vocês, que decidi postar juntas porque o contexto ajuda.

Nicki Minaj lançou o “Queen” em 10.08 com aquela campanha surreal de divulgação em que as fofocas e frases polêmicas se tornaram mais relevantes do que a música de fato. Justamente quando o novo álbum chega num novo espectro do rap, em que o objetivo aqui seria Nicki mostrar para as outras rappers iniciantes no jogo (tipo Cardi B) quem é a melhor da cena atual. Será que ela conseguiu mostrar esse poder no novo CD?

Ariana Grande e seu “Sweetener” (lançado em 17.08) veio com o objetivo de sedimentar uma das carreiras mais consistentes do pop atual, e distanciá-la das ex-acts, colocando-a como uma A-list. A campanha de divulgação parecia até ok até o momento em que o namoro altamente publicizado com o comediante Pete Davidson parecia tomar todas as atenções do material. A pergunta é: o material realmente a coloca em outro patamar?

Confira depois do pulo!

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Bem-vindos ao mundo de Cardi B em “Invasion of Privacy”

Cardi B - Invasion of Privacy.pngO que acontece quando você faz sucesso com um hit, antes mesmo de lançar um álbum? E quando você lança outros singles como participação especial, que fazem sucesso, e todo mundo espera qual o seu próximo passo? Será que esse momento são apenas 15 minutos de fama ou você se provará um artista constante?

No caso de Belcalis Almanzar – ou Cardi B, a rapper revelação mais bombada de 2017-18 – a situação se construiu mais ou menos assim: participante de um reality show famoso, ” Love & Hip Hop: New York”, e popular com seus vídeos altamente sinceros no Instagram, já tinha lançado mixtapes antes de estourar com o primeiro single na gravadora Atlantic, a ubíqua “Bodak Yellow”, primeiro #1 solo de uma rapper feminina desde Lauryn Hill, e ainda por cima indicada ao Grammy. O sucesso gerou outras parcerias e hits (“No Limit“, “Motorsport“, “Finesse [Remix]“) além de um segundo single que, apesar do lançamento do vídeo num timing excelente (pra não dizer outra coisa), também bombou bastante – a ótima “Bartier Cardi”.

Mas faltava uma coisa – o álbum. Afinal de contas, era hora de mostrar se Cardi B podia entrar na lista de rappers ascendentes da cena ou seria apenas mais uma three-hit wonder que infestam o top 10 do Hot 100. E “Invasion of Privacy”, o debut da novaiorquina, demorou bastante, mas finalmente chegou; e provou que Bardi não veio apenas para ser mais uma na multidão.

Afinal de contas, o mundo é de Belcalis Almanzar, e nós apenas vivemos nele.


Eu estava bem preocupada com a possibilidade da demora no lançamento do álbum ser por conta de um “polimento” – tornar o som agressivo e trap da Cardi mais pop pra atender a um público crossover e deixar acessível. Pelo contrário, “Invasion of Privacy” é agressivo, in-your-face, real, sincero, ao mesmo tempo em que é vulnerável e bem-humorado – do jeitinho da Cardi.

Tem muito trap, batidas fortes, alguns sons mais puxados pro R&B – que saíram bem vindos, e uma faixa com a colaboração latina que é smash garantido. Bem dividido entre trechos mais fortes (de “Get Up 10”, a biografia da Cardi, até o sucesso “Bodak Yellow”), um miolo mais leve, onde tem a pior música do CD (“Be Careful” só é boa pelo potencial de treta por causa do Offset, o noivo da Cardi que já foi acusado de traição várias vezes; mas o rap dela tá numa velocidade diferente do resto da música e soa esquisitíssimo) e “I Like It”, o smash latino com cara de #1 (o que é um feat equilibrado né gente? Bad Bunny e J Balvin praticamente são parte de um trio, e não versos inseridos); assim como o terço final variado entre o rap com influências trap bem agressivo, o rap/R&B mais confessional (o que é “Thru Your Phone”?) e um final que é um tiro de bazuca – “I Do”, com o ótimo feat da SZA numa das melhores músicas do ano até agora.

Mesclando letras que vão desde a história da própria vida, o passado como stripper, como as pessoas a veem (“is she a stripper, a rapper or a singer?” em “Drip”, colaboração com o Migos), sua busca pelo sucesso, os momentos de glória e o relacionamento cheio de altos e baixos – e desconfianças – com o namorado (e que, dadas as informações que já temos sobre o Offset, já sabemos que se trata do cidadão); assim como momentos super bem humorados em que eu me vi rindo enquanto acompanhava a música – “Money Bag” e “I Do” são as primeiras que me vêm à mente – o que mostram a personalidade da Cardi em todo o álbum. O DNA dela está em todo lugar.

Algumas músicas são bem fillers, como “Ring” (com a Kehlani), e o flow da Cardi não é um dos mais brilhantes no jogo, e você pode até achar que ela não muda muito pelo álbum. No entanto, eu já a vi roubando a cena num som fora de seu território, e o fato é que, em “Invasion of Privacy”, tudo tem a ver com ela. É real, sincero, engraçado, confiante, super comercial porque é o som do momento, mas com a personalidade da Cardi impressa em cada faixa.

Fiquei muito contente que o debut da Cardi, demorado como foi, chegou e não teve concessões pop ou alguma coisa que fugisse da rapper que todo mundo aprendeu a amar nos últimos tempos. É coeso, divertido, tem fôlego e ainda termina com um gostinho de “quero mais” mesmo com 13 músicas. Fiquem de olho porque “Invasion of Privacy” pode render ainda mais que hits… E sinceramente?

Eu me sinto muito bem em viver no mundo comandado por Belcalis Almanzar.

Ótimos álbuns [2] Britney Spears – “Blackout”

Atualmente vivemos no auge do urban e rap como sonoridade dominante nos charts. Nomes já consagrados como Drake dividindo espaço com grupos estouradíssimos (Migos), artistas na ascendente (a exemplo do pavoroso Post Malone e no urban/R&B, SZA, Khalid, Kehlani…), talvez o momento mais bacana pra ser rapper feminina desde os anos 90 (com a Cardi estourando e todo mundo sedento pelo comeback da Nicki) e a reverência aos clássicos (Jay-Z), bem como a solidificação de um novo poeta de sua geração (o genial Kendrick Lamar). Nem vou falar dos hits virais de rappers com nome Lil/Young/similares que volta e meia ficam nos primeiros lugares das playlists do Spotify.

No entanto, entre 2008-11, o que dominava o mundo pop era o eletropop, que monopolizou as rádios, definiu carreiras (oi BEP), lançou fenômenos (Lady Gaga) e outros acts na esteira (como a Kesha quando usava $), fez artistas entrarem na onda para se manter na mídia (como Usher e boa parte dos artistas de R&B daquele período) e ainda deu muito dinheiro ao Flo Rida e suas farofas famosíssimas. O eletropop cresceu à medida em que os downloads digitais capitaneados pelo iTunes se tornaram a principal plataforma de consumo de música nesse período específico e o sinal mais forte de que uma música seria sucesso ou não.

Image of the upper body of a brunette woman standing in front of brightly colored squares. She is wearing a pink dress and white fedora.Mas nada disso seria possível se não fossem os pioneiros. Apesar do dance-pop (que é um outro organismo musical) já ter sido usado musicalmente no começo da década, a encarnação eletropop com autotune em todas as faixas, batidas eletrônicas, eletro se infiltrando em outros ritmos e fazendo fusões que até hoje muita gente tem opiniões divergentes sobre essa mistura (os puristas do R&B que o digam) surgiu alguns anos depois, perto do final da década. Se os dois CDs que popularizaram o som para o mainstream pop foram o “The Fame” (2008) e o “The E.N.D.” (2009), quem podemos creditar como um dos pioneiros, oferecendo antecipadamente tudo aquilo que veríamos nos anos seguintes, foi justamente a fonte mais impensável – Britney Spears, a princesa do pop, que todos achavam apenas uma performer que colocava a voz nas músicas, e vivia uma fase complicada na carreira (separada do ex-marido Kevin Federline, mídia e público avaliando e julgando sua vida de mulher solteira e independente, TMZ e X17 ganhando horrores de dinheiro com as fotos dela), lançou um CD fabuloso e atemporal, “Blackout“, em 2007. Ou seja, há quase 11 anos, Britney deu régua e compasso para quem desejava fazer eletropop talvez com o melhor trabalho do gênero entre os artistas pop mainstream que trabalharam no som em todos aqueles anos.

Misturando eletropop, eurodisco (na incrivelmente retrô “Heaven on Earth”, inspirada em Donna Summer), R&B eletrônico e vozes sussurantes, efeitos vocais, vocais em camadas e Britney em fuck y’all mode, as letras faziam todo sentido para a vida dela: noites intermináveis, sexo, romances, liberdade feminina, indiretas ao ex e à mídia sensacionalista, e produtores que a entendiam (como Bloodshy & Avant e o espetacular Danja ❤ ). Mesmo não tendo escrito as letras, é fato que as músicas são as mais pessoais do catálogo, e nada no CD parece forçado ou estranho. A voz da Britney, mesmo quando entre efeitos, é tão reconhecível que mostra a inteligência de uma das intérpretes mais subestimadas do pop.

“Blackout” é atemporal no eletropop de “Gimme More”, com quem eu tinha uma estranha relação – achava pavorosa na época que foi lançada (“muito autotune, clipe ruim”) – meu eu de 17 anos era bem chatinho, confesso, mas hoje, eu acho uma puta música pop, que não envelheceu uma vírgula; no eletro-R&B antecipadíssimo de “Hot as Ice”, que parece ter sido feita em 2010 mas ainda dá pra dançar em 2018; até mesmo nas batidas de “Perfect Lover”, “Get Naked” e “Break the Ice”, que parecem coisa de um Timbaland 2.0 – mas não é por nada, já que Danja era o protegé de Timbo, mas um protegé que superou o mentor de uma forma tão absurda que hoje essas músicas são timeless enquanto as batidas do Timbaland soam reciclagem do “One of a Million” da Aaliyah que tem mais de 20 anos.

O CD é deliciosamente sacana e irônico com “Piece of Me”, uma biografia da Britney mandando todo mundo se foder com gosto (gente, imagina que no auge da internet dos anos 2000 as pessoas nos fóruns apostavam quando a Britney ia morrer); sexy em diversos níveis com “Toy Soldier”, a própria “Break the Ice”, em “Ooh Ooh Baby” e “Radar” (que a Britney teve a AUDÁCIA de colocar a música no “Circus” e lançar como single hahahaha no fucks to give); e na única contribuição do Pharrell no CD, “Why Should I Be Sad” é uma mensagem nada cifrada contra o ex-marido, com uma produção menos eletrônica que as outras faixas, um pop/R&B inspired super agradável de ouvir, com a melodia leve, mas a letra cheia de veneno haha e uma produção que consegue ser mais criativa do que tudo que foi feito por ele no Homem da Floresta.

Um álbum icônico não apenas nas músicas, mas também em quotes (“It’s Britney, bitch!”, óbvio; e meio mundo usava em fóruns “another day another drama”), “Blackout” antecipou as sonoridades e tendências do eletropop (e por consequência, da música pop em geral), no final daquela década. Além disso, é um álbum consistente, equilibrado e sem interesse em seguir as tendências do momento – e sim, definir uma sonoridade que fosse de acordo com as letras e a vibe que a Britney queria alcançar. O resultado foi justamente um CD que entregou para o pop mainstream os insumos necessários para fazer o eletropop se tornar o som dominante do final da década.

Longa vida à Princesa do Pop!

(okay, agora é com você: qual é o álbum das antigas – ou que tenha sido lançado ano retrasado mesmo – que você quer uma resenha? Pode sugerir nos comentários!)

 

Todo poder ao rei na trilha sonora de Pantera Negra

The cover image features a neck-ornament upon complete black background. It is made of animal incisors used as beads and worn by T'Challa.Se vocês ainda não assistiram ao grande sucesso do ano até o momento (três semanas liderando as bilheterias e pertinho do bilhão – sem a China!) “Pantera Negra”, o novo, mais desafiador, excitante filme da Marvel (que até agora gera discussões e thinkpieces), o que estão fazendo da vida? Eu assisti duas vezes, e já quero campanha antecipada para todas as premiações da awards season – espetáculo visual, de figurino, fotografia, maquiagem, de performances incríveis (o que é Michael B. Jordan como Erik Killmonger? Chadwick Boseman exalando poder e realeza como T’Challa? E a força e personalidade de Danai Gurira, Lupita Nyong’o e Letitia Wright defendendo personagens femininas multidimensionais num filme pipoca da Marvel? A CONCEPT!), além de roteiro e de motivações inteligentes (graças ao script co-escrito pelo diretor, Ryan Coogler, uma das pessoas mais interessantes por trás de uma câmera atualmente na indústria). “Pantera Negra” não é apenas um blockbuster que traz mais do que entretenimento e ação, é um acontecimento cultural, de representatividade na frente e nos bastidores; do que representa a África para nós (que parece tão distante, mas pra quem mora aqui em SSA, é uma lembrança mais próxima – nos rostos, na culinária, na música, na religiosidade), e o que é ser negro, especialmente negro da diáspora, e como essa identidade nos moldou para nos tornar o que somos hoje.

Acompanhando esse filme fabuloso tem uma trilha sonora de respeito – não apenas os incríveis instrumentais do Ludwig Göransson, colaborador antigo do Coogler – mas também o álbum curado do Kung Fu Kenny: Black Panther: The Album – Music from and Inspired By, o CD com faixas inspiradas no filme, e com músicas que apareceram em “Pantera Negra”, tudo organizado pela visão sempre incrível de Kendrick Lamar, que chamou os amigos, colaboradores habituais e rappers da África do Sul para apresentar o álbum do ano (e estamos começando Março!)

 

Apesar de evidentemente recomendar que você assista ao filme, dá pra curtir “Black Panther: The Album” numa boa, porque as músicas tem vida própria (e poucas estão no filme); mas é bem mais gostoso ouvir o CD conhecendo os tensionamentos do filme – especialmente porque o Kendrick pensou nas músicas como perspectivas do T’Challa e do Erik Killmonger – ou seja, são as visões dos dois personagens principais que perpassam o álbum, e você sente isso na produção: as faixas que tratam do posicionamento do Erik (como “Opps”, “Paramedic”, a INSANA “King’s Dead” tem produções mais pesadas, bem mais hardcore, e uma certa urgência e darkness e tensão que fazem parte da rage do personagem, e que tratam de violência, de inadequação a uma sociedade que o odeia, ou pura raiva e catarse). Já as músicas ligadas ao T’Challa são mais suaves, variam em sonoridade (o afrobeat de “Redemption”, a mistura de “X”, a vibe slowjam de “The Ways”) e em temáticas, desde a responsabilidade (com grandes poderes… sorry, herói da Marvel errado), dúvidas, medos, relacionamentos amorosos, segundas chances. E com as perspectivas tão divididas – e tão fortes – a dúvida mais poderosa de todo o filme (quem viu sabe) permanece em “Black Panther: The Album”.

Sobre as colaborações, Kendrick só vai trazer artistas de alto nível, e fazer os encontros musicais corretos: Travis Scott, James Blake, Future, The Weeknd; e rappers sul-africanos que fazem a necessária ponte entre as representações do negro na Motherland e nos EUA – Saudi, Yugen Blakrok, Babes Wodumo e Sjava oferecem perspectivas e sonoridades (e vozes, acentos, línguas) distintas que enriquecem ainda mais a audição de “Black Panther: The Album”. Não é apenas um álbum de um rapper americano para um filme de Hollywood tentando se conectar com a África; é um encontro de culturas, sons e experiências (com direito a vários versos em Zulu), e que apresentam temáticas que se conectam com o próprio filme (como destino e tradição) assim como refletem questões atuais, dentro da realidade da África do Sul, e por extensão, do continente africano.

Como o álbum é feito por músicas que fazem parte da trilha e que são inspiradas por “Pantera Negra”, algumas faixas – apesar de aparecerem no filme – são mais reflexivas ou mais comerciais do que o resto do grupo, como a futura vencedora do Oscar de Melhor Canção Original “All The Stars” e a incrível “Pray For Me” (melhor que todo o último álbum do Abel); o que não afeta em nada a coesão do álbum, se você quiser ouvir antes ou depois de ver “Pantera Negra”, ou se você quer curtir de forma independente.

Em resumo, Kendrick did it again! conseguiu produzir, curar, juntar uma turma altamente talentosa e apresentou ao mundo outro álbum destinado a ser clássico, um sucesso de público e crítica, e se possível – e se formos justos – uma oportunidade para a Academia fazer a coisa certa e celebrar um dos artistas mais incríveis dos últimos anos com um certo gramofone…

(e não se esqueçam de ver ou rever “Pantera Negra”, viu? #wakandaforever)