Oi sumida! [2] New faces

Sumi mas voltei, e agora falando especificamente sobre essa dicotomia entre música pop x “fim dos gêneros” x dominância do rap no ano mais interessante em anos – 2019… Ou poderíamos chamar de 2014/2015?

Por que estou falando isso? Porque se prestarmos atenção a este período na música, foi justamente após a decadência do eletropop e o fim da disco-funk wave de 2013, foi impossível para muitos definir “o som” do momento. Era um período de transição, em que muitas coisas faziam sucesso ao mesmo tempo, enquanto os sinais da dominância do rap como gênero e principal produto cultural começavam a aparecer. Por exemplo, Fetty Wap bombou em 2015, trap começou a ficar mais popular, os virais rap chegaram ao top 10 (“Nasty Freestyle”, alguém?), o rap feminino buscou expandir suas estrelas (Iggy explodiu em 2014), Drake finalmente se tornou uma força a ser reconhecida.

Ao mesmo tempo, as grandes estrelas pop da época que sabiam construir o discurso de seu tempo chegavam ao auge (como Katy Perry, por exemplo), ou finalmente se assumiram como pop (Taylor Swift e o “1989”) – sem contar o processo de rebranding de Lady Gaga que ainda não havia começado, bem como pop stars que navegam de outra maneira no zeitgeist se tornaram ubíquos (o Lionel Richie Millennial, Bruno Mars). Já os atuais A-lists estouraram para a consciência pública justamente nestes anos, como Ariana Grande e The Weeknd. E a última grande popstar a surgir com uma formatação típica do período foi Meghan Trainor.

(eu desconsidero o fator Lorde nessa equação porque ela se intersecciona muito com a turma alternativa. Por mais que “Royals” tenha mudado o landscape para um som com vozes de menos volume e um pop mais down, eu acho que esse shift na popsfera não se deu com ela e sim com “Somebody That I Used To Know”, que exigia até mesmo que eu AUMENTASSE O VOLUME do meu celular para ouvir a faixa)

Ao mesmo tempo em que hoje não é possível indicar com evidência o que é pop de fato (tem dance? é urban-inspired? tem influência alternativa? é nostálgica?) ou mesmo o que é pop hoje, temos que levar em consideração outro fenômeno que podemos creditar sua atual forma a Drake: músicas que conversam com outros gêneros, cujo estilo é difícil de definir, e que nos leva a fenômenos como Post Malone e agora, um Lil Nas X que conseguiu fazer rock melhor do que Lil Wayne em 2009.

Naquela época as pessoas já achavam o uso excessivo do autotune uma coisa perigosa

Por isso, vamos dividir esse post da seguinte forma: o primeiro ponto é sobre o rap como produto cultural dominante, que finalmente parece estar deixando de ser um “clube do bolinha”… o que é essencial para o fortalecimento do gênero para os anos seguintes.

Nicki Minaj abriu as portas para o rap feminino brilhar no mainstream, mas a impressão que sempre tive era de que no período da sua dominância, havia uma estratégia a la Highlander quando se tratava da cena feminina:

A cada instante nascia um rapper masculino diferente, enquanto poucas femcees surgiam na mesma força – e quando estouravam, ou decaíam por material aquém e péssimas decisões de carreira dentro ou fora das redes sociais (Iggy) ou por péssimas decisões de carreira dentro das redes sociais (Azealia). No entanto, com a ascensão de Cardi B, parece que alguém (the powers to be, a indústria, quem quer que seja) percebeu que havia sim espaço para outras rappers femininas. Aos poucos, o espaço para femcees ascendentes ou artistas que não tinham espaço no mainstream até então começaram a surgir.

Dessa forma, você tem rappers sexualmente confiantes e cheias de personalidade como Megan Thee Stallion (que está na capa da prestigiada XXL na Freshman 2019 – ou seja, quem a revista classifica que serão os grandes nomes do rap neste ano), um som mais raw das City Girls, ou artistas que são tudo e mais um pouco: como você pode definir Lizzo (que encontrou exposição mainstream em seu terceiro álbum) por exemplo?

O crescimento de nomes femininos na cena (seja rap ou R&B) que não sejam Beyoncé ou Rihanna ou Nicki Minaj é importante para a solidificação de um estilo que domina a conversa cultural a cada dia. O BET Awards que ocorreu na semana passada, por exemplo, trouxe todos os astros que bombaram no último ano em apresentações bem produzidas com a plateia vibrando a cada performance. Nada de audiência entediada, shows preguiçosos e artistas que estão lá sem razão. O BET Awards é hoje o que VMA foi há anos atrás, e isso é um testemunho de que o pop perdeu o bonde da história.

E corre ainda mais riscos quando se pensa que você não tem um som específico que indique um denominador comum – e mais chocante ainda: os nomes novos colocaram esse “denominador comum” lá pra longe.

Eu me lembro de ter ouvido “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” da Billie Eilish e achado tudo bem… Esquisito, especialmente pra mim, que tenho preferência em som orgânico e ouvir instrumentos, e aparentemente a ausência de um gênero específico e definido no som também me trouxe um certo incômodo. Mas ouvindo as faixas isoladas, eu percebi como o som é um reflexo de uma geração que não se prende a rótulos, até mesmo na música.

“bad guy”, o single mais perto do #1 neste momento, é pop, mas é radio-friendly da maneira mais esquisita possível, já que tem o mínimo de produção possível, bateria seca e um outro trap que quebra todas as expectativas que você tinha com a música. Já “when the party’s over” me lembra muito aquele pop onírico da Lana del Rey (que a própria cantora já citou como influência). “you should see me in a crown” tem mais influência trap com pegada eletrônica; e certeza que ela ouviu “Black Skinhead” do Kanye na produção de “bury a friend”. Até mesmo material anterior ao debut, como “Ocean Eyes” é diferente. É um pop mais straight to the point, de boa qualidade também.

(a propósito, quem comparou Billie com Lorde estava delirando. Ela é como se fosse uma Lana del Rey adolescente e sem o lado retrô. Se existe alguma semelhança, está no uso de elementos urban para construir uma sonoridade pop, mas enquanto na neozelandeza a estrutura é familiar, aqui você demora a se acostumar com os twists and turns das músicas)

A sonoridade parece all over the place, mas tem uma lógica. Apesar das letras meio diário adolescente existencial (todos nós já passamos por isso), há comando do próprio som e da imagem mostrada nos clipes que parecem trailers de filmes de terror, e dificilmente podem ser reproduzidos ou imitados sem parecer que é alguém sendo tryhard. No geral, mesmo que exista um componente eletrônico no som, é visível que há influências mais pop piano-driven, trap e hip hop, que refletem a dominância dos últimos gêneros no inconsciente coletivo pop nos anos formativos da artista.

Mas ao mesmo tempo, não parece com a sua música pop típica, o que nos leva a uma conclusão: o interesse de Billie Eilish aqui não é em se definir com gêneros, mas ir além da divisão óbvia de gêneros.

Claro que, numa indicação ao Grammy, ” When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” entraria numa categoria pop (mas não me surpreenderia se a gravadora submetesse a “alternative” porque é muito bold para a categoria, talvez?), mas se você pensar em álbuns que desafiam o que você entende por gêneros definidos, o outro “gen-z” que se adequa de forma ainda mais complexa nessa discussão de “gênero é não ter gênero” é…

Se você não é gen-z e já tem uma carreira sedimentada dentro da caixa tradicional, não fique chocado. Afinal de contas, mesmo que exista um público que não nutra mais interesse em você graças à distância entre os artistas atuais e a idade dos novos consumidores de música, ainda há um fandom e um grupo mais maduro e propenso a consumir música de outras formas – sem contar que os Millennials ainda são um público forte que consome, gasta e é fortemente identificado com os artistas. Então, se você não é um artista de rap ou não faz música dentro da caixinha, de que forma você pode se adequar aos novos tempos?

Isso, eu conto no próximo artigo do “Oi Sumida!” Até já!

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Oi sumida! [1] The “Old Town Road” summer

Oi, pessoal! Como todos vocês devem ter percebido, eu realmente sumi do blog porque a vida adulta me pegou de verdade – e estava tentando encontrar um espaço de tempo tranquilo para escrever calmamente aqui no “Duas Tintas” sobre música pop e o estado dela em 2019, um ano meio confuso pra mim, onde não dá pra falar de “gêneros” mais. OPS isso é papo pra outro artigo porque hoje é dia de falar sobre o verão de “Old Town Road”, o híbrido de country-rap que está dominando os charts da Billboard há DOZE semanas consecutivas, sem chance de diminuir (teve até single do Drake lançado e… nada). E com o lançamento do EP “7”, uma apresentação bacaníssima no BET Awards (e o verão americano realmente começando agora), duvido que a faixa perca tração – ainda lidera com folga os charts de streaming (que é onde interessa hoje) e ainda nem chegou ao topo das rádios… Então…

Mas o que interessa aqui é: será que a música vai superar “One Sweet Day”? E sobre os rivais, onde eles erraram na sua busca por tirar Lil Nas X e Billy Ray Cyrus do topo? E como o Grammy vai lidar com “Old Town Road”?

Apesar de um single com dois nomes poderosos do pop como Ed Sheeran e Justin Bieber ter hitado na Europa e estar hitando nos EUA, particularmente não consigo enxergar que é através deles ou desse single, “I Don’t Care”, o pop pode estar procurando um caminho próprio dentro dessa landscape diferente da segunda quinzena dos anos 2010 – pelo contrário, a música só é sucesso porque tem os nomes supracitados envolvidos – se um CHARLIE PUTH lançasse isso ficaria enterrado na irrelevância. Além disso, a música é bem fraquinha para o padrão dos dois artistas, e grita 2015 com essa vibe tropical, island, já realizada pelo próprio Bieber (e de alguma forma mais sutil pelo Sheeran) com melhores resultados. Sem contar o clipe pedindo pra viralizar mas falhando miseravelmente (a ideia era a gente usar imagens do clipe como gifs? Não colou não). A capacidade ubíqua de OTR, especialmente num vídeo que casa potencial viral, uso de tendências quentes como o Yeehaw Culture e uma discussão racial bem colocada, supera facilmente uma música com cara de reciclada. É esperar faixas melhores no quarto álbum do cidadão.

Quanto a Taylor, eu sinceramente acreditava que “ME!” seria o single a destronar OTR, até por ser bastante catchy e agradável ao ouvido, além do sentimento gostoso de nostalgia Noughties (com direito a featuring do Brandon Urie). Além disso, essa estética pastel fofinha meio instagram é bem vinda num ano super tenso e dark como 2019. Mas… “You Need to Calm Down” NÃO é a música para ser #1 contra uma faixa fortíssima como OTR. Primeiro, é anticlimática até em seu refrão, a letra (super bacana e bem-vinda também no apoio da Taylor à causa LGBT) também tenta dialogar com a cultura pop geral através de versos com potencial de virar quote, mas a impressão é de que não funciona bem, e até mesmo o clipe estrelado (com a reconciliação das rivais Taylor e Katy) que ajudou a ganhar streamings (Taylor espertíssima) não garante a ubiquidade da faixa como música em si + clipe + repercussão. Houve repercussão? Claro, mas nem se compara ao break the internet que Taylor causou quando do lançamento do primeiro single do “Reputation”, ou na era “1989” – a impressão que fica é de que as táticas que funcionavam há dois anos atrás hoje não funcionam, especialmente quando a música não é tão forte como segundo single que continua a conversação em torno do novo material. Se você perceber, o discurso em 2019 se tornou rap como principal gênero x músicas que não pertencem a gêneros específicos (papo para outro artigo but ok, vou destrinchar neste momento uma parte da conversa), e os singles lançados até agora pela Taylor são pop… Mas não conversam com a discussão geral.

E para “piorar” a situação das suas faves, Lil Nas X lançou seu EP “7“, que apesar de algumas críticas mistas, é a cereja no bolo de um case de marketing e de música que só me faz virar stan desse menino. O EP tem oito músicas (duas sendo OTR), 18 MINUTOS de duração e a música mais longa tem 2’43”. Ou seja, feito para consumo repetitivo eterno nos streamings. Quanto mais eu ouço “Rodeo”, a música com mais potencial de ser #1 desse grupo, mais eu dou streams, e com 2’39” de duração, eu posso floodar eternamente meu Spotify sem cansar porque a música é curtíssima! Além disso, Lil Nas X entendeu perfeitamente o briefing de 2019. Gêneros musicais? OUTDATED. O EP não tem uma definição específica de gênero, tem duas faixas visivelmente rap (“Panini” e “Kick It”), duas músicas híbridas country-rap (OTR e “Rodeo”) duas músicas com vibe rock/pop punk anos 2000 (“F9mily” e “Bring U Down”) e uma faixa meio R&B moderninha (“C7osure”). A produção é curadíssima e até elegante, e apesar dos versos serem corny em vários momentos, tudo tem uma vibe “adolescente fazendo música” e “adolescente de 13 anos rebelde sem causa” que sinceramente vai ser consumido até a exaustão pelos teens e tweens – são letras simples e fáceis de captar, além de versos perfeitos para legenda de instagram.

Mas o que interessa aqui é: eu não sei em que categoria enquadrar esse EP. Lil Nas X é rapper? Boa pergunta, ele canta em boa parte do EP! Tem ROCK no álbum pra você ficar batendo cabeça! Eu não sei, duvido que a Billboard saiba e o Grammy hahahahahahahahahahha

Como vocês já sabem, o Grammy coloca tudo em caixinhas (os afamados fields) e tanto OTR quanto “7” não fazem sentido em caixinhas (é o problema que Drake enfrentou com “Hotline Bling”, por exemplo). “Old Town Road” fica em rap? Country? O próprio Lil Nas X já disse que a faixa é country-trap, então eu suspeito que a Columbia coloque em “rap/sung” é a única categoria em que dá pra encaixar fazendo sentido e não perdendo a chance de indicação… Acredito que entra em Gravação e eu colocaria em Canção porque a letra é super perspicaz, sinceramente. Já o EP… sinceramente… Como uma das mudanças do Grammy é a inclusão de comitê para pop e rock fields para ter um comitê geral que resolva tretas com artistas que trabalham com mistura de categorias, acho que eles terão MUITO trabalho aqui – evidentemente, tudo depende de como a Columbia vai submeter.


No próximo post do “OI SUMIDA” eu vou falar sobre algumas das novas faces da música em 2019 e me estender mais sobre essa O FIM DOS GÊNEROS (bold statement, hein?) e se isso procede mesmo. Até logo!

Country or not country? “Old Town Road” coloca a Billboard em maus lençóis

Nos últimos dias, a Billboard esteve no centro de uma polêmica envolvendo uma faixa lançada em dezembro que viralizou e se tornou uma das músicas mais ouvidas nos charts country, “Old Town Road“, do jovem rapper Lil Nas X. A música, que estreou em #19 na Billboard Hot Country Songs chart poderia ter sido #1 nas paradas do gênero nesta semana, se não fosse uma decisão da “Bíblia Musical” de retirar a faixa dos charts do gênero por não encontrar na música elementos suficientes do country atual, mesmo com imagem e elementos que lembrem a estética country (a letra tem versos como ” I’m gonna take my horse to the old town road”, “I got the horses in the back/Horse tack is attached”, “Hat is matte black/Got the boots that’s black to match”). A música tem banjo, vocais com referências country, em meio a uma batida trap pesada que dropa pra todo mundo dançar (a propósito, a musica ficou no charts de hip hop/R&B…).


O rapaz de 19 anos, nascido Montero Hill, aliás, ótimo nome de cantor country, disse que a faixa era um country-trap, um blend (bem-feito, aliás) de dois gêneros, mas muita gente acha que não é country porque tem rap e batida trap. No entanto, hip hop atualmente se tornou uma das maiores inspirações do country pop, cujos artistas vêm pegando emprestado as batidas e colocando um toque country, por consequência tocando horrores nas rádios. Ou seja, o rap já vem mudando a cara do country, e isso não é de hoje.

Nelly já tem histórico de crossover country!

Ou seja, a desculpa de “falta de elementos country” de “Old Town Road” cai por terra quando você descobre que essas faixas tiveram airplay forte em rádios COUNTRY e pra mim isso é algum pop com pegada country. Além disso, várias faixas que nada tem a ver com country tocaram horrores dentro do gênero (“Meant to Be”, alguém?); então, não é apenas uma questão do que se adequa melhor ao gênero e que pode entrar na rádio.

O racismo pode aparecer das formas mais sutis, como por exemplo, artistas brancos que usam de gêneros como rap para fazer country popificado são bem-vindos nas rádios do gênero, enquanto um artista negro fazendo algo similar é rejeitado por “não ser country o suficiente“. “Old Town Road” é mais country que a Taylor Swift no “Red”, que foi indicado a um Grammy na categoria, quando o (excelente) álbum de transição da moça tinha que ter ficado com uma vaga no pop field.

E como eu dei a dica no caso do Nelly, crossovers rap/country não são coisa nova (Nelly and Tim McGraw say hello), e em tese, existem espaços para esse tipo de intersecção. O próprio Lil Nas X repete que a faixa é country-trap e deveria estar tanto nas rádios country quanto na de hip hop. Ou seja, há espaço pra esse som – se for coisa do Florida Georgia Line, é o que parece.

A propósito, “Over and Over” não tocou em rádios Country, apesar de ter participação de uma lenda do gênero.

O que podemos concluir, até certo ponto, é que um artista negro, fora de Nashville (o rapper é de Atlanta, terra do rap que influencia todos os sons das rádios americanas no momento), não pode ser abraçado pelos charts conservadores da Billboard fazendo uma música que consegue ser mais “roots” do que os maiores sucessos do gênero na história recente. Se ele fosse branco, seria recebido de braços abertos – com aquele nariz torcido dos mais puristas, mas bateria recordes de audiência mesmo assim e manteria o gênero “vivo”.

Entra o co-sign de uma lenda do country nessa história toda: Billy Ray Cyrus (que os mais jovens conhecem como o pai da Miley) pariticipou do remix de “Old Town Road” (que ganhou mais versos, desta vez sob a perspectiva de uma estrela “das antigas” rica que deseja voltar ao começo), e entregou não apenas sinceridade na faixa, mas um apoio nessa disputa que se tornou algo muito maior do que a Billboard poderia imaginar quando tomou a decisão. Esse encontro estava, de certa forma, escrito: o próprio Lil Nas X quem tinha interesse de incluir Billy Ray na faixa; e o artista foi um dos que se opuseram à decisão da Billboard em retirar a faixa dos charts e ainda o cumprimentou como um outlaw do country. O próprio Billy Ray sofreu isso no passado – seu maior hit, “Achy Breaky Heart“, dividiu ouvintes, que disseram que a faixa destruiria o estilo, enquanto a música acabou abrindo espaço para novos ouvintes, já que o gênero estava morrendo no começo dos anos 90. De ser marginalizado pelas rádios, esse entende.

Agora, com o apoio de uma figura importante do country, será que a música pode ser considerada como tal?

Ainda tem outra teoria…

O racismo faz parte da discussão sobre a ausência de “Old Town Road” nos charts country? Sim. Mas existe uma motivação da indústria que é bem curiosa: como a faixa cresceu graças aos streamings (e como é uma faixa independente, os DJs das rádios country tinham que baixar a música do YouTube para atender aos apelos de quem pedia a música nos programas), isso poderia causar problemas num gênero que tem muita dependência das rádios para sobreviver. O country ainda não sofre a influência do stream, que de certa forma é incontrolável e não atende aos desejos dos donos de rádios e payola tradicional – qualquer coisa pode viralizar, incluindo o que não se aplica à caixinha convencional do que é “country”. Então, pode ser que a Billboard tenha sido pressionada também por esses players a limitar as músicas que devem ser consideradas “country” para evitar a dominância de uma plataforma que pode, por conta dos desejos do público, modificar de forma real o que realmente os ouvintes consideram como sendo aquele gênero ou não.

Olha o que Montero Hill aprontou…

Mas não existem artistas negros no country?

Importante ressaltar que Lil Nas X não é a primeira pessoa negra a estar inserida no country. Existe um espaço, mas é muito pequeno, pra não dizer micro, sendo que uma das origens do gênero é justamente o BLUES, de origem negra. Ou seja, mais um gênero em que os negros foram deixados de lado para se tornar totalmente branco – e masculino. É só ver como Carrie, Miranda, as Dixie Chicks, Kacey, sofrem horrores para se manterem visíveis dentro do field.

Entre os acts famosos do gênero negros estão Charley Pride, uma das lendas country, além de Darius Rucker, super respeitado, e acts mais jovens como Mickey Guyton e Kane Brown (com mãe branca e pai negro).

Ou seja, o country é um gênero que já tem problemas de representatividade seríssimos, e quando se confronta com um blend moderno, já feito pelos artistas “certificados como Country”, mas desta fez feito por alguém que é um outsider reclamando sonoridades que são, de fato, suas (pensando no rap criado pelos negros americanos), os charts recusam por… Razões pelas quais deveriam recusar Florida Georgia Line, Sam Hunt… Ou seja, não há explicação plausível para esta resistência, ou a novidade da Billboard que está “considerando” colocar “Old Town Road” de volta ao chart country – de onde nunca deveria ter saído: o remix de “Old Town Road” é tão country quanto a versão original. A diferença é a inclusão de um artista country na música. Tipo, só agora?

A propósito, já que essa é a lógica, Post Malone vai continuar nos charts de rap quando o cara literalmente canta nas músicas ou só vale pra manter a “pureza” de um gênero, ou impedir os streamings de influenciar o chart country?

As coisas estão ficando cada vez mais curiosas no reino da Billboard… Enquanto isso, ouçam o excelente remix de “Old Town Road”, talvez o próximo hino do verão americano:

P.S.: eu ando meio sumida do blog porque minha vida está uma loucura: estou completando minha graduação (agora Licenciatura) e entrei num curso de professor de Inglês, sem contar o trabalho e outros projetos pessoais. Mas não abandonei o Duas Tintas 😊 como milhares de coisas acontecem na indústria, eu decidi que não ficaria tão restrita a resenha-discussão sobre charts-etc e sim trabalhar nesse fluxo mais direto, com artigos sobre coisas que estão acontecendo na popsfera e que valem a pena ser discutidas. Pode ser que saia algo 1x por semana ou 2x ao mês, mas vou tentar publicar e manter o blog movimentado

O canal também vai voltar, mas tudo depende do meu computador suportar as edições… 😭

Drops Grammy 2019 [3] Canção e Gravação do Ano

Falta uma semana para o Grammy 2019 e a escriba que vos fala continua a saga de análises dos indicados ao prêmio mais importante da música; desta vez com o General Field. A discussão aqui é mais do que “Música de Grammy”, e sim a importância da Academia fazer valer a mudança que fez para ampliar o escopo – especialmente em se tratando de Gravação do Ano.

E repetimos o mantra deste ano: 2018 é exceção!

Drops Grammy 2019 [1] – Pop Solo Performance

Eu não sou Papai Noel, mas também trago presente de Natal: o primeiro video dos Drops do Grammy 2019, focando nos indicados do Pop Field (que virou nicho) e no General Field.

Hoje eu começo falando sobre os indicados ao Grammy de Pop Solo Performance e as narrativas que estão inseridas nessa lista curiosa de indicados.

Antes de dar play, confira os indicados:

“Colors” — Beck 
“Havana (Live)” — Camila Cabello
“God Is A Woman” — Ariana Grande
“Joanne (Where Do You Think You’re Goin’?)” — Lady Gaga
“Better Now” — Post Malone

Agora confira o vídeo!

Lembrando que o próximo vídeo do Drops vai falar dos indicados a Best Pop Duo/Group Performance – em que o gerente pirou!

Grammy 2019 enxergou o óbvio

Mas esperamos que essa nova virada nos acontecimentos indique vitórias mais coerentes no dia 10 de Fevereiro do ano que vem, né…
Resultado de imagem para grammy 2019

Antes de mais nada, os indicados…

Album Of The Year
Invasion Of Privacy – Cardi B
By The Way, I Forgive You – Brandi Carlile
Scorpion – Drake
H.E.R. – H.E.R.
Beerbongs & Bentleys – Post Malone
Dirty Computer – Janelle Monáe
Golden Hour – Kacey Musgraves
Black Panther: The Album, Music From And Inspired By – Various Artists (feat. Kendrick Lamar)

Record Of The Year
I Like It – Cardi B, Bad Bunny & J Balvin
The Joke – Brandi Carlile
This Is America – Childish Gambino
God’s Plan – Drake
Shallow – Lady Gaga & Bradley Cooper
All The Stars – Kendrick Lamar & SZA
Rockstar – Post Malone Featuring 21 Savage
The Middle – Zedd, Maren Morris & Grey

Song Of The Year:
“All The Stars” — Kendrick Duckworth, Solána Rowe, Al Shuckburgh, Mark Spears & Anthony Tiffith, songwriters (Kendrick Lamar & SZA)
“Boo’d Up” — Larrance Dopson, Joelle James, Ella Mai & Dijon McFarlane, songwriters (Ella Mai)
“God’s Plan” — Aubrey Graham, Daveon Jackson, Brock Korsan, Ron LaTour, Matthew Samuels & Noah Shebib, songwriters (Drake)
“In My Blood” — Teddy Geiger, Scott Harris, Shawn Mendes & Geoffrey Warburton, songwriters (Shawn Mendes)
“The Joke” — Brandi Carlile, Dave Cobb, Phil Hanseroth & Tim Hanseroth, songwriters (Brandi Carlile)
“The Middle” — Sarah Aarons, Jordan K. Johnson, Stefan Johnson, Marcus Lomax, Kyle Trewartha, Michael Trewartha & Anton Zaslavski, songwriters (Zedd, Maren Morris & Grey)
“Shallow” — Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando & Andrew Wyatt, songwriters (Lady Gaga & Bradley Cooper)
“This Is America” — Donald Glover & Ludwig Goransson, songwriters (Childish Gambino)

Best New Artist:
Chloe x Halle
Luke Combs
Greta Van Fleet
H.E.R.
Dua Lipa
Margo Price
Bebe Rexha
Jorja Smith

Best Pop Solo Performance:
“Colors” — Beck
“Havana (Live)” — Camila Cabello
“God Is A Woman” — Ariana Grande
“Joanne (Where Do You Think You’re Goin’?)” — Lady Gaga
“Better Now” — Post Malone

Best Pop Vocal Album:
Camila — Camila Cabello
Meaning Of Life — Kelly Clarkson
Sweetener — Ariana Grande
Shawn Mendes — Shawn Mendes
Beautiful Trauma — P!nk
Reputation — Taylor Swift

Best Pop Duo/Group Performance
“Fall in Line” – Christina Aguilera featuring Demi Lovato
“Don’t Go Breaking My Heart” – Backstreet Boys
“‘S Wonderful” – Tony Bennett & Diana Krall
“Shallow” – Lady Gaga & Bradley Cooper
“Girls Like You” – Maroon 5 featuring Cardi B
“Say Something” – Justin Timberlake featuring Chris Stapleton
“The Middle” – Zedd, Maren Morris and Grey

Best Dance Recording:
“Northern Soul” — Above & Beyond Featuring Richard Bedford
“Ultimatum” — Disclosure (Featuring Fatoumata Diawara)
“Losing It” — Fisher
“Electricity” — Silk City & Dua Lipa Featuring Diplo & Mark Ronson
“Ghost Voices” — Virtual Self

Best Rock Song:
“Black Smoke Rising” — Jacob Thomas Kiszka, Joshua Michael Kiszka, Samuel Francis Kiszka & Daniel Robert Wagner, songwriters (Greta Van Fleet)
“Jumpsuit” — Tyler Joseph, songwriter (Twenty One Pilots)
“MANTRA” — Jordan Fish, Matthew Kean, Lee Malia, Matthew Nicholls & Oliver Sykes, songwriters (Bring Me The Horizon)
“Masseduction” — Jack Antonoff & Annie Clark, songwriters (St. Vincent)
“Rats” — Tom Dalgety & A Ghoul Writer, songwriters (Ghost)

Best Urban Contemporary Album:
Everything Is Love — The Carters
The Kids Are Alright — Chloe x Halle
Chris Dave And The Drumhedz — Chris Dave And The Drumhedz
War & Leisure — Miguel
Ventriloquism — Meshell Ndegeocello

Best Rap Album:
Invasion Of Privacy — Cardi B
Swimming — Mac Miller
Victory Lap — Nipsey Hussle
Daytona — Pusha T
Astroworld — Travis Scott

Best Country Album:
Unapologetically — Kelsea Ballerini
Port Saint Joe — Brothers Osborne
Girl Going Nowhere — Ashley McBryde
Golden Hour — Kacey Musgraves
From A Room: Volume 2 — Chris Stapleton

Best Americana Album:
By The Way, I Forgive You — Brandi Carlile
Things Have Changed — Bettye LaVette
The Tree Of Forgiveness — John Prine
The Lonely, The Lonesome & The Gone — Lee Ann Womack
One Drop Of Truth — The Wood Brothers

Best Song Written For Visual Media:
“All The Stars” — Kendrick Duckworth, Solána Rowe, Alexander William Shuckburgh, Mark Anthony Spears & Anthony Tiffith, songwriters (Kendrick Lamar & SZA), Track from: Black Panther
“Mystery Of Love” — Sufjan Stevens, songwriter (Sufjan Stevens), Track from: Call Me By Your Name
“Remember Me” — Kristen Anderson-Lopez & Robert Lopez, songwriters (Miguel Featuring Natalia Lafourcade), Track from: Coco
“Shallow” — Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando & Andrew Wyatt, songwriters (Lady Gaga & Bradley Cooper), Track from: A Star Is Born
“This Is Me” — Benj Pasek & Justin Paul, songwriters (Keala Settle & The Greatest Showman Ensemble), Track from: The Greatest Showman

Producer Of The Year, Non-Classical:
Boi-1da
Larry Klein
Linda Perry
Kanye West
Pharrell Williams

Confesso que ao ver a lista de indicados na manhã de hoje, a minha primeira reação foi dar um gritinho de choque. Nem no último Grammy os membros da Academia foram tão justos e perceptivos sobre o atual estado das coisas na música popular americana. Excetuando pelos “intrusos” “Golden Hour” e “By The Way, I Forgive You”, você tem em níveis diversos um painel bem compreensivo do que realmente é ouvido e consumido pelos americanos atualmente – e o que vem dominando a indústria. 

É Drake, que conseguiu mesclar o rap com sua sensibilidade R&B/pop (e que se não fosse ele não haveria Post Malone, por exemplo); Cardi B com o álbum mais pop do ano (porque trap é pop); a trilha sonora de “Black Panther” que é mais um triunfo do poeta do rap Kendrick Lamar; bem como a consagração de Janelle Monaé como artista pop (num sentido mais amplo) completa, entre soul, funk e R&B; e as tendências de R&B alternativo e contemporâneo da novata H.E.R. . Ou seja, a pressão por mudanças e a diversidade da bancada fizeram efeito.

Ter oito indicados amplia muito mais as perspectivas e oferece oportunidades para músicas e artistas em evolução se apresentarem (que agrado – e que surpresa – ver “In My Blood” em SOTY, um letrão mostrando a maturidade artística de um menino como Shawn Mendes); músicas meio out-of-the-box se destacarem (“This Is America”, por exemplo), assim como quem está ou virou nicho se impor pela força de uma boa música. Afinal de contas, pop hoje é nicho, e “Shallow” é a principal representante, solitária e classuda, desse nicho. Que retorno de Lady Gaga!

(e Bradley Cooper pode ganhar um Grammy antes de muita gente. RAPAZ…)

Nos fields, onde ficam os segredos das vitórias para AOTY, temos surpresas surpreendentes – como “Scorpion” nowhere, a decisão BURRA de submeter a trilha de “Black Panther” em rap que tirou a chance fácil de levar em Álbum para Mídia Visual (e agora o caminho tá livre para “The Greatest Showman”… ou talvez um certo Mercenário Tagarela?) e Janelle Monaé também não apareceu em Urban Contemporary. 

(Não é querendo alarmar, não, mas as mensagens estão aí. Quem não prestou atenção ao que houve nos últimos anos, tá comendo mosca…)

(pior que nem temos Engenharia de Som, Não-Clássico pra dar a dica)

A propósito, o pop como field voltou a ser divertidíssimo. Pop Solo tá uma disputa acirrada (neste momento, vejo Ariana um pouco à frente); enquanto Melhor Álbum Pop tá bem interessante, e sem favoritos. Já Pop Duo/Group… Meu eu de 10 anos berrou ALTO vendo os Backstreet Boys de volta a um Grammy (os caras já foram indicados no General Field no auge), e a disputa tá deliciosa. “Shallow” tá na frente, eu percebo, mas tem um hit e dois vencedores tradicionais da categoria, que pode bagunçar ainda mais esse coreto. 

Confesso que bati bastante na trave em algumas das minhas considerações (o corte final de Pop Duo/Grupo hahaha) mas tem algumas coisas que falo com tranquilidade /choquedecultura : eu disse – acho que foi uma jogada bem ruim a gravadora da Ariana ter submetido “God is a Woman” em Record e “No Tears Left to Cry” em Song (e acho que GIAW poderia disputar vaga com “In My Blood”, que não fechou no field). Além disso, tinha deixado “Shallow” nos wildcards no General Field, mas estou feliz que uma das minhas suspeitas, a fofíssima “Boo’d Up”, entrou em SOTY, renovando ainda mais a tendência da Academia em prestar atenção aos novatos. Acho a disputa de Song ainda mais acirrada que a deste ano.

No geral, as mudanças que a Academia promoveu trouxeram mais do que uma bem-vinda diversidade nos nomes,  em ter mais mulheres entre indicadas e um Grammy que não é white male. Ampliou-se os horizontes até mesmo em idade (ver Kelly, Xtina, P!nk indicadas, com todo o ageism imposto na carreira delas, é muito legal) e nas sonoridades e imagens que são consumidas pelo público (vocês viram o “Love Yourself: Tear” do BTS indicado em Melhor Encarte?). Para não perder a relevância, o Grammy precisou olhar realmente para si, seus erros e olhar o mundo lá fora, entendê-lo para tentar reproduzi-lo em suas indicações. 

Esperamos que tenha feito a coisa certa quando saírem os envelopes.

Some bullet points:

  • … Mas “Rockstar” não foi lançado em Setembro de 2017? O que tá fazendo sendo indicado a tudo quanto é coisa quando o período de elegibilidade é entre 1º de Outubro de 2017 e 30 de Setembro de 2018?
  • O pop nichou tanto que não temos representantes puramente pop no corte final. Eu apostava em “reputation” pela brand Taylor Swift, mas faz sentido o álbum ter ficado de fora.
  • Nicki Minaj não conseguiu UMA indicação pelo “Queen”. O álbum foi muito mal divulgado e o conceito vendido de forma errônea, infelizmente.
  • Os Carters ficaram restritos ao nicho mesmo; assim como Ed Sheeran nem foi lembrado por “Perfect Duet”. Academia é canceriana, gente; não esquece. Só deve ter perdoado Drake por causa do sucesso massivo do “Scorpion”. E Timberlake pelo combo música REALMENTE boa + Chris Stapleton.
  • Mac Miller teve uma indicação póstuma 😥 
  • E Ryan Reynolds também é um indicado ao Grammy. Pela trilha de “Deadpool 2”. 2018.

E você? O que achou da lista de indicados, suspeitas e esnobadas da Academia? Fique à vontade para comentar, e logo logo teremos o primeiro vídeo de indicados ao Grammy 2019, sobre Melhor Performance Pop Solo. Até lá!

A cheesy playlist para hiperbólicos apaixonados

Eu não sou uma pessoa irremediavelmente romântica, mas sempre curti umas baladas sofrimento-dor-de-corno até pra cantar junto e ter repertório para o karaokê. Como vocês já sabem que boa parte da minha vida eu fiquei ouvindo apenas músicas dos anos 80 para trás, um pedaço da formação musical que eu tenho está associado a essas canções, à dor das letras e a delícia das interpretações chorosas e melodramáticas.

Pensando nisso (e inspirada numa ótima playlist do Spotify chamada Cheesy and Overly Romantic), decidi escrever um post com as minhas músicas românticas favoritas de ontem, hoje e sempre. Ou seja, deu pra achar cafonada BOA da década de 2000 pra cá!

Segue o pulo!

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