hora de incluir “folklore” na sua playlist da quarentena

(post em lowercase porque vamos seguir o tema)

eu já comentei anteriormente sobre álbuns que parecem feitos para encarar o caos que se tornou 2020 (veja aqui) e como estamos em meio a um cenário pós-apocalíptico que nos incentiva às vezes a esquecer os problemas e nos dá o direito de nos alienar por alguns instantes. no entanto, às vezes é importante nos dar outro direito: o de lamber as feridas, de sofrer, nos enlutar, de relembrar o passado, de buscar conforto na nostalgia, de procurar nas memórias mais felizes o caminho para o amadurecimento pessoal, a fim de encarar a merda do dia seguinte.

mas este período em questão, para quem é artista ou trabalha com conteúdo, também se converteu em concentração, inspiração e uso da criatividade como válvula de escape. como escritora, nunca produzi tanto no wattpad (e olha quantos vídeos eu fiz para o canal). taylor swift, por sua vez (meu pai eterno, eu me comparando à taylor swift) optou por lançar um cd despindo-se de superprodução, focando em storytelling e imagens construídas na mente – cinematográficas – além de maturidade na caneta. e quando taylor swift senta para escrever, senta que lá vem história.

folklore“, o oitavo álbum em sua discografia, é espetacular – provavelmente seu melhor trabalho, após momentos irregulares de sua trajetória com o “reputation” e o “lover”, mostra não apenas uma artista consciente de sua capacidade e elasticidade sonora e lírica, como também é uma prova de pico criativo. álbum que sai da caixa pop (e sai mesmo, não é fácil achar singles prontos para as rádios aqui) e trabalha com pouquíssimos produtores e compositores (incluindo o já cansado jack antonoff) num clima mais indie-pop e folk, taylor também brinca com a própria voz, com tapeçarias e camadas que fazem desse trabalho também bastante cuidadoso.

e, para minha surpresa, 16 músicas que não são fillers.

“folklore” me lembra muito um álbum famoso lançado em 2015, o “25” da adele – não em som, evidentemente, mas no sentimento evocativo, de memória. ouvir as músicas desse álbum é navegar em memórias, histórias de outras pessoas (já que taylor canta sobre “personagens”, pessoas criadas para conduzir as canções) que parecem nossas, mesmo que não tenhamos vivido. faixas como “the 1”, “seven”, “this is me trying” são histórias que, mesmo não sendo necessariamente contadas no pretérito, parecem contar dilemas e tramas que se passam em algum ponto lá atrás, seja um ponto em que não precisávamos andar de máscara na rua, ou uma parte da nossa infância onde tudo era grande, imenso, mas as rachaduras estavam lá, só não reparávamos. é um álbum bastante próprio para quem chega aos 30, porque é a fase em que a “vida adulta” chega de verdade – com suas conquistas, arrependimentos e esperanças, e é curioso como uma das melhores faixas do álbum, “invisible string”, reflita tanto essa timeline de tropeços e acertos que nos leva ao caminho da maturidade e da reflexão.

em outras faixas, como a primorosa “mirrorball”, essa “memória” é mais sonora – me lembrou muito faixas de pop dos anos 70, com a voz da taylor tendo como backing vocal a própria taylor, num delicioso exemplo de tapeçaria vocal que eu adoro.

claro que o clima de memórias não seria possível se o trabalho de taylor como storyteller não estivesse tinindo. no auge de sua capacidade como compositora, dividindo a pena com um compositor ou sozinha (como em “my tears ricochet”, visivelmente inspirada no b.o. dela com o ex-chefe da gravadora big machine), taylor foca em contar histórias dos seus personagens (os adolescentes apaixonados do “teenage love triangle”, que delicado!, o que é “betty”?; a mulher considerada “maluca” de “mad woman”, a mulher presa em um relacionamento abusivo de “hoax”) e são muito bem realizadas e bonitas.

isso só é possível porque aqui, a melodia – com muitos instrumentos de corda, pouco peso em baterias e outros instrumentos de percussão, ausência da produção carregada de álbuns anteriores – está a serviço da letra, e não o contrário. existem álbuns em que o contrário se aplica, e são bons do mesmo jeito, quando isso é feito de maneira deliberada. o problema ocorre quando a melodia se sobrepõe à letra de tal forma que ela eclipsa a beleza dos versos; e em “folklore”, a escolha por uma abordagem mais indie pop, com influência do folk, ajuda bastante a entendermos e viajarmos em cada história contada.

melodia aqui é importante, mas a letra é mais. e por isso, a melodia serve aos interesses da história. como se fosse a trilha sonora de um filme que você acha que viu antes, mas desta vez você vai gostar do final 😉

“folklore” é um dos melhores lançamentos de um artista mainstream de 2020 e acho que é a conclusão mais óbvia que se pode chegar. é fascinante ver uma artista que encontrou seu pico criativo fazendo algo bacana sem ser trend chaser (que foi uma crítica minha quando resenhei “reputation“), e sim seguindo o próprio fluxo, fazendo o que gosta e confortável com o próprio som. você vê que taylor não tá lutando com a música que tá fazendo.

se estamos discutindo aqui desde sei lá quando o atual estado do pop, onde o gênero não é mais “o gênero” e quem está trabalhando nele precisa ou lutar contra a maré ou surfar junto com a onda, estamos enxergando vários caminhos propostos – mas nunca levamos em consideração um percurso bem importante: não fazer nem um nem outro. talvez seguir os próprios instintos e se deixar levar pela própria criatividade, enxergar o mundo lá fora nem que seja de uma janela e não se preocupar tanto com sua posição dentro do zeitgeitst. e acho que taylor, em seu pico criativo, também pensou nisso.

oras, ela é uma das maiores artistas pop de seu tempo, com uma fã-base fiel e alguns clássicos recentes em sua discografia. neste momento da carreira, ela pode não querer atingir um público que talvez não esteja tão interessado mais nela, ou que ela não tenha mais tanto interesse em atingir. “folklore” é o resultado de maturidade, reflexão e criatividade afloradas, e o resultado é excepcional.

Comente aqui!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s