Design de um top 10 [40] e o atual estado da música

Eu demorei muito a fazer um post novo com a análise do top 10 da Billboard (último post? 24 de setembro, JEEZ) porque eu literalmente não estava a fim. Não por preguiça de escrever, mas a preguiça de acompanhar mesmo. Talvez porque a música pop esteja nesse limbo que venho relatando há algum tempo, ou porque o que vinha fazendo sucesso não me apetecia ou era relatável às minhas experiências em nada.

Talvez seja esse melancólico momento da mudança de guarda entre gerações. Eu sou uma old millennial (tenho 28 anos), e me sinto a cada dia mais apartada da “cultura jovem” – e olha que faço um esforço hercúleo para me manter atualizada. Gen-Z tem seus próprios códigos, interesses e principalmente estilos e modos de performance que muitas vezes não se aplicam ao que eu ou parte da geração com a qual cresci curte.

Por isso, tentando entender o que muitos que me leem ouvem, mudei completamente a abordagem do Design de um Top 10 com uma análise resumida e sincera de CADA música que chegou às dez primeiras posições esta semana no Billboard Hot 100. Isso mesmo. Uma análise com filtro bem reduzido, sobre cada uma das faixas e seus desempenhos.

Antes de mais nada, o resumo geral:

Top 10 Billboard Hot 100 (12.01.2019)

1+1HalseyWithout Me
2-1Ariana GrandeThank U, Next
3+2Post Malone & Swae LeeSunflower
4=Travis ScottSICKOMODE
5+1Panic! at the DiscoHigh Hopes
6+1Bastille & MarshmelloHappier
7+7Maroon 5Girls Like You
8+4Lil Baby & GunnaDrip too Hard
9+6Kodak BlackZEZE
10+13Post MaloneBetter Now

#1 “Without Me” – Halsey é o nome mais mainstream de um pop que a gente nos fóruns da vida chamava de tumblr-pop, altamente confessional e moody, mas ao contrário de um act mais conceitual como Lana del Rey, por exemplo, as influências aqui são mais adolescentes, uma estética de imagem quase instagram e letras prontas para serem convertidas em gif. Pra completar, a voz dela ainda é extremamente adocicada, quase Disney, mas mesmo num ambiente absurdamente bland como é o pop atual, Halsey consegue se destacar, por oferecer nesse grupo essa mistura de pop com urban e eletrônico perfeito para o top 40 – nem tão ~hard~ que as soccer moms não possam ouvir, tampouco muito polido que não seja tocado numa playlist crossover do Spotify.

Além disso, a influência urban no trabalho dela é a prova de que o urban é o pop, que influencia os acts que tentam fazer sucesso atualmente, caso eles não rimem. Parece que funcionou, porque hoje Halsey é uma das poucas da nova leva do pop cuja voz eu consigo distinguir, bem como a aparência, numa seara de acts intercambiáveis. Apesar da voz dela não ser uma das mais agradáveis ao meu ouvido, “Without Me” é grudenta como poucas faixas pop lançadas nos últimos anos e tem uma coisa que eu busco como sedento por água no deserto: PUNCH, um refrão que tenha cara de refrão e algum interesse na música que está cantando. Ela vive na sua performance a música que canta e pra mim já é o suficiente.

#2 “Thank U, Next” – Confesso que eu acho essa música tão ruim! O sucesso de TUN é bem evidente quando pensamos que a grande estrela pop do momento é Ariana Grande, a que mais sabe conversar com a geração Z, usou inteligentemente suas relações pessoais numa música com um quote já imortalizado pela cultura pop (“thank u, next”) e um dos vídeos mais legais do ano, com tudo que a gente sempre quis num vídeo pop. Ela é uma das poucas do gênero que tem bom retorno no Streaming, e agora a música está crescendo na rádio – ou seja, se não retornar ao primeiro lugar (onde ficou por sete semanas não consecutivas), é hit massivo e consolidado. (aliás, esse álbum novo dela parece que finalmente vai colocá-la além das colegas de geração e fazer Ariana jogar com os chefes)

No entanto, a letra é muito ruim, extremamente infantil, e a tal ponto que parece uma paródia ruim do SNL, assim como o arranjo apenas simpático e o meu principal problema com a faixa: a DICÇÃO de Ariana. Eu falo tão bem da moça, como ela está melhorando em sua interpretação, como falta pouco para se tornar A vocalista de sua geração, e uma das mais importantes dos últimos anos, mas as grandes divas FALAVAM muito bem em suas músicas – e isso é essencial até mesmo para cantar melhor.

#3 “Sunflower” – Ficaria muito contente se alguém me explicar por que Post Malone faz tanto sucesso. Isso deve ser culpa do Drake.

#4 “SICKO MODE” – uma das coisas mais estranhas (e incríveis) de um gênero como o rap ser o dominante no mainstream é ver colagens insanas e pouco identificáveis com o top 40 como “SICKO MODE” chegarem ao topo da Billboard. Sério, essa música do Travis Scott é estranha, mas de um jeito bom! Parece de verdade uma colagem foda de algo vindo de um surto de inspiração – a música começa com Drake, entra com outro arranjo, depois vira pra outra música e tem samples e interpolações que constroem uma faixa que, se não bomba nas rádios tradicionais, é a cara do Streaming. Tanto que lidera o chart específico e não é por nada.

Por isso que o rap é o gênero que está pensando para a frente e tentando sair da casinha musicalmente, desde coisas mais standard até trabalhos que constroem ambientes, como este aqui.

#5 “High Hopes” – de todas as bandas da onda pop rock/emo/gótica/punk rock/similares que bombaram nos anos 2000, Panic! At The Disco seria a última que eu imaginaria se manter 13 anos após o estouro. Sério. Aos 15/16 anos, eu achava sinceramente que seria one-hit wonder pra gente se lembrar nas listas do futuro.

No entanto, Brandon Urie e suas mudanças constantes de lineup se mantiveram até hoje vivos, com um som que parece algo menos pretensioso de quando eles estouraram, no entanto com a cara da banda: meio teatral, histriônico, mas com bom ouvido pop. Pelo menos o rock tá vivo em algum canto, e tentando se mexer em estilo. Porque se não se mexer, morre de vez.

Brendon Urie GIF by Panic! At The Disco

#6 “Happier” – uma das poucas coisas que se manteve constante desde a decadência do pop e sua restrição ao nicho é o fato de que o EDM mais orgânico manteria muitas carreiras vivas por aí, daria oportunidades a artistas mais teen ou de nicho para estourar crossover e esse crossover seria o mais próximo de pop “puro” que os amantes do gênero poderiam ter. No entanto, até essa trend parece igual. Essa faixa parece com outra faixa do mesmo Marshmello que parece com alguma faixa dos Fumacinhas. Que tédio.

#7 “Girls Like You” – Sem comentários, eu odeio essa música.

#8 “Drip Too Hard” – eu entendo que hoje Atlanta é a capital do rap nos EUA, mas isso não significa que tudo que venha de lá seja excepcional. Que música ruim!

#9 “ZEZE” – Surreal como Kodak Black nunca é a melhor pessoa da faixa em que ele está. E aqui em “ZEZE” a situação só piora porque ele é o lead. Imagina ter que lidar com o flow de mosquito o álbum INTEIRO? Não gente, e nessa faixa, Offset (que não é a estrela do Migos, mas não chega a ser um Takeoff que ninguém se lembra direito) parece mais o artista principal que Kodak.

#10 “Better Now” – eu já comentei num dos vídeos sobre o Grammy a respeito de “Better Now”. Eu jurava que era pior do que é, de verdade.


Esses foram as minhas considerações sobre o top 10 da Billboard que saiu esta semana. Como eu disse, é uma análise sincera e sem muito filtro sobre os singles, e como eu os vejo com meu olhar de old millennial. Se vocês forem millennials também, e se sentem deslocados nessa “nova ordem”, fiquem à vontade para comentar. A turma Gen-Z pode falar também sobre suas músicas preferidas e dar sua opinião. Estou esperando os comentários de todos!

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Um comentário sobre “Design de um top 10 [40] e o atual estado da música

  1. Primeiramente, fiquei muito feliz de ver duas mulheres no topo novamente, a Ariana por tanto tempo e agora a Halsey, há algum tempo não víamos isso.

    E tenho que dizer que essa musica da Halsey me surpreendeu, de verdade, é muito boa. Eu tenho uma relação meio de amor e ódio com suas musicas, mas essa eu gostei. O que me chocou é que ela está indo pro terceiro album, hitando cada vez mais. Ela já tinha bons hits nos outros albums, mas acho que todos concordam que esse é o auge solo dela, e ela basicamente já fez muito mais que a maioria das cantoras dessa geração, literalmente sem prometer e comendo pelas beiradas.

    Eu não acho que esse sucesso todo do rap seja ruim, mas essas musicas que estão no topo 10 errr bem sofríveis né? no entanto o Post Malone não é tão ruim assim, mas ele nem é tão levado a sério como rapper, Better Now mesmo é muito pop.

    Girls Like You já deveria ter saído daí, eu sinceramente não sei de onde vem os números que fazem eles manterem essa posição por tanto tempo.

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