Últimos lançamentos – Nicki e Ariana

Voltei da moita (quer dizer, da segunda metade do meu primeiro mês de trabalho) devendo duas resenhas importantes para vocês, que decidi postar juntas porque o contexto ajuda.

Nicki Minaj lançou o “Queen” em 10.08 com aquela campanha surreal de divulgação em que as fofocas e frases polêmicas se tornaram mais relevantes do que a música de fato. Justamente quando o novo álbum chega num novo espectro do rap, em que o objetivo aqui seria Nicki mostrar para as outras rappers iniciantes no jogo (tipo Cardi B) quem é a melhor da cena atual. Será que ela conseguiu mostrar esse poder no novo CD?

Ariana Grande e seu “Sweetener” (lançado em 17.08) veio com o objetivo de sedimentar uma das carreiras mais consistentes do pop atual, e distanciá-la das ex-acts, colocando-a como uma A-list. A campanha de divulgação parecia até ok até o momento em que o namoro altamente publicizado com o comediante Pete Davidson parecia tomar todas as atenções do material. A pergunta é: o material realmente a coloca em outro patamar?

Confira depois do pulo!

Minaj posing on a fallen tree trunk in front of a setting sun, wearing pasties and Egyptian head beads.Durante praticamente dez anos, Nicki Minaj foi a principal rapper feminina no jogo. Mesmo com o surgimento de “one album wonders” como Iggy Azalea ou artistas que ficaram mais conhecidas pelas polêmicas do que pela música (como Azealia Banks), o fato é que Nicki conseguiu se manter no auge, mesclando suas rimas rápidas, senso fashion e apelo pop.

No entanto, entre 2017 e 2018 o trap tomou tudo dentro da cena hip hop e outra rapper feminina apareceu com sucesso comercial e aclamação crítica (justamente o que Iggy não possuía): Cardi B; e evidentemente todos os holofotes foram diretamente para Nicki – com uma competidora formidável no jogo, o que ela entregaria como quarto álbum?

Pois é, Nicki lançou “Queen“, um corpo de 19 músicas na versão standard em que ela reclama seu lugar como a melhor rapper da atualidade (ou talvez a “rainha do rap”) enquanto despeja indiretas nas imitadoras como uma metralhadora, reforça seu poder e tenta se afastar das concessões pop que marcaram a dualidade de sua carreira na pop culture.

O resultado é um álbum que consegue ser muito bom quando é agressivo e criativo, como em “Ganja Burn”, “Barbie Dreams”, “Majesty”, “Hard White” e a sempre maravilhosa “Chun-Li”. Mesmo cansando às vezes com a temática “sou mais foda que vocês, losers”, Nicki sabe fazer essa variação com maestria, bravado e diversão, sem perder o comando em cada faixa. Os versos, o flow, a criatividade e a rapidez são as provas de que Nicki Minaj estava disposta a sedimentar seu espaço como a rapper foda que ela é. Ao mesmo tempo, quando ela recorre aos momentos mais soft, como na tenebrosa “Bed”, a sem graça “Thought I Knew You” e “Nip Tuck”, o CD cai de produção e ritmo, e você se perde muito na audição. Cara, quando a própria Nicki informa em “Chun Swae” que está no meio do CD eu comecei a rir… 19 músicas não é possível!

(das baladinhas, a que eu mais curti de longe foi “Come See About Me”, uma música que foge da narrativa poderosa do “Queen” e mostra uma Nicki madura e consciente dos caminhos da vida e dos relacionamentos que terminaram no passado. É sincera, agradável e de uma forma interessante, soa mais “régia”, “queen”, que várias músicas na tracklist que gritam “olha como sou foda”.)

Ao mesmo tempo em que Nicki mantém sua sonoridade rap fortalecida, ela ainda trabalha com algumas faixas trap-inspired, como “Miami” e “Sir”, com melhores resultados na primeira. O trabalho que ela exibiu aqui me deixou curiosa para um CD com mais material nessa linha; no entanto, manter a própria sonoridade e torná-la mais forte, agressiva, in-your-face, é um tributo à identidade musical da rapper, que mesmo cedido à necessidade de relevância entre a turma dos soundcloud rappers (por que “FEFE”, por quê?), não tornou todo o álbum uma tentativa de estar “in” com o som do momento. Se é para vencer, é para vencer com as armas que você conhece, e é melhor nelas.

No geral, é um CD que não vai retirar Nicki Minaj do posto de maior rapper da atualidade ou dos últimos anos, ou reforçar seu status na cena. É um bom álbum, que cresce e brilha quando ela está realmente investida no rap, sem mais concessões, mas que vai se tornando irregular e com altos e baixos à medida em que faixas mais soft aparecem e músicas boas se misturam a faixas pouco necessárias. Sinceramente? O clássico dela foi “The Pinkprint”. Aquele era o álbum que merecia ser chamado de “Queen”. Ali era a Nicki madura, vulnerável, mas poderosa e vibrante ao mesmo tempo (mesmo com uma ou duas farofas pavorosas no meio do caminho).

 


Uma das coisas que nós sabemos bem que o pop tem de hábil é em oferecer sua própria visão a sonoridades e Sweetener album cover.pngtendências que não saem exatamente do pop. É a tradução radiofriendly do que vem de outros nichos, como R&B, dance ou rock. Quando uma Kelly Clarkson lança uma “Since U Been Gone”, é a tradução daquele punk rock anos 2000 para os ouvidos pop, influenciado evidentemente pelo que a própria Avril Lavigne fez com o “Let Go” em 2002. Quando Justin Bieber lança “Purpose”, repleto de tropical house, é o pop correndo atrás de uma sonoridade island com um pacote que atinja públicos que não ouviriam aquele som se fosse feito pelo artista original. E isso não é de hoje.

O problema é que desde a ascensão do rap e mais recentemente, do trap de Atlanta na cena mainstream, o pop não conseguiu correr atrás e tentar traduzir de uma forma “acessível” para as rádios top 40 esse som. Primeiro porque o público ouve tudo no Spotify; segundo, porque ninguém parece ter ao menos tentado.

Sem parecer uma trend chaser, mas colocando seu próprio toque em algumas das sonoridades do momento, além de criar um ambiente musical que reproduz perfeitamente 2018, Ariana Grande acertou mais uma vez, no que creio ser seu melhor álbum até hoje – “Sweetener“, o que é um tributo à evolução vocal e artística cada vez mais visível de uma jovem artista que tem todos os aspectos de sua musicalidade sob controle. Em “Sweetener”, mesmo o mais óbvio misstep (a pavorosa “the light is coming”) faz sentido dentro da tracklist e da produção de Pharrell Williams (se redimindo da MERDA que ajudou a construir em “Man of the Woods”); e em todas as produções do mago, há um clima, uma sonoridade “chill” e um ambiente que evoca cores, camadas, nuvens, sensações, que funcionam muito bem com a intérprete que Ariana Grande se tornou.

Mesmo que em várias das faixas do álbum seja visível o input de Pharrell (sabe quando você pensa que daria pra ele estar cantando em todas as músicas?), a doçura da voz da jovem, assim como a despretensão em sua voz, fazem com que ela domine as produções cheias de personalidade do álbum, como na sensacional “blazed”, a fofíssima “sweetener” (que traduz de forma perfeitamente pop a vibe trap recente das músicas que chegam ao top 10 da Billboard) ou a última música do CD, “get well soon”, um triunfo de produção, voz e letra, com uma pungente homenagem às vítimas do atentado em Manchester.

Aliás, todo o trauma sofrido por conta do atentado é um elemento que perpassa algumas das canções, direta ou indiretamente, dentro do CD, como a própria “get well soon” e “breathin”; e para uma artista que em seus álbuns, tinha músicas que rodeavam muito os mesmos temas de amor e relacionamentos, tem faixas com conteúdo mais maduro dentro do mesmo tema, como “better off” e “everytime”.

Curiosamente, as produções da turminha pop (Ilya, Max Martin) acabam funcionando como um respiro de todo o mood proporcionado por Pharrell no CD, e esse pessoal, que não entregou nada de lá muito interessante para outras artistas ano passado (especificamente sobre Max Martin, é com vocês mesmas, Katy e Taylor!) parece que conseguiu retornar ao bom momento com Ariana, que vem se tornando uma artista cada vez mais competente em extrair o melhor de seus colaboradores nos trabalhos. Já o terço final, comandado pelas produções de Tommy Brown (talvez o herói improvável aqui), são pop/R&B/urban de altíssimo nível (daqui vem “better off” e “goodnight n go”. Posso até deixar passar a música do noivo, que só Jesus…)

Envolvente e brilhante a cada ouvida, “Sweetener” é o ponto de evolução de Ariana que a coloca vários, mas vários passos à frente das suas peers que saíram de algum programa juvenil televisivo. Não dá mais pra considerá-la como parte desse grupo: Ariana é uma vocalista A-list com uma identidade musical e visual que já a tornam diferente do resto; e um álbum que consegue ao mesmo traduzir para a sua visão pop o que ocorre no zeitgeist, colocar sua identidade em faixas com produtores com uma mão firme, e sair dessa audição maior, e melhor, é uma missão para poucos na indústria.

(atenção: habemus um real candidato a Melhor Álbum Pop no Grammy 2019)

 

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