Video Music Awards [3] Melhor Fotografia, Edição e Efeitos Visuais

Hora de iniciar uma parte das análises que nunca fiz aqui no blog. mas achei que valia a pena começar: as categorias técnicas do Video Music Awards 2018, iniciando os trabalhos com Melhor Fotografia, Edição e Efeitos Visuais.

A ideia aqui é avaliar não apenas se o clipe é esteticamente bonito (já que beleza é relativa ao gosto do freguês) e sim destacar o que pode ser considerado adequado à ideia de uma boa fotografia (ou seja, como é a qualidade da imagem do vídeo, se a luz está interessante, se o objetivo é um visual com alto contraste ou sépia; enfim), edição (o que é essencial para manter um bom timing e ritmo a um videoclipe) e bons efeitos visuais, que não soem amadores e que não pareçam eu mexendo no flash.

Então, as respostas podem parecer óbvias ou vocês podem gritar ARTISTA X MERECE TUDO, mas nem sempre é assim que a banda toca e vamos ver através das análises dos indicados a Melhor Fotografia, Edição e Efeitos Visuais.

INDICADOS

Alessia Cara – “Growing Pains” –  Def Jam Recordings – Cinematography by Pau Castejón
Ariana Grande – “No Tears Left to Cry” –  Republic Records – Cinematography by Scott Cunningham
The Carters – “APES**T” –  Roc Nation/Parkwood Entertainment – Cinematography by Benoit Debie
Childish Gambino – “This Is America” –  mcDJ / RCA Records – Cinematography by Larkin Seiple
Eminem ft. Ed Sheeran – “River” – Shady/Aftermath/Interscope Records – Cinematography by Frank Mobilio & Patrick Meller
Shawn Mendes – “In My Blood” – Island Records – Cinematography by Jonathan Sela

 

O que deu pra perceber em relação aos indicados foi que a maioria deles usou a ideia de jogo de luz e sombra, esconder e mostrar, reforço de determinadas tonalidades para contar uma história ou destacar um ponto no clipe; incluindo em vídeos que praticamente parecem de mesmo “tom”, como “No Tears Left To Cry”, que sofre de certa forma por ser um clipe em que a maioria dos acontecimentos se dá num cenário computadorizado – mas está ali o jogo de luz pra indicar amanhecer, a indicação da noite. No entanto, o trabalho do diretor de fotografia no ano anterior, em que Scott Cunningham venceu por “HUMBLE.”, é bem mais interessante.

O meu favorito entre os indicados é justamente o que não usou essa estratégia para contar sua história – pelo contrário, a fotografia mais chapada, limpa, de “This is America”, cumpre de forma inteligente e efetiva seu objetivo: fazer você prestar atenção ao vídeo do Childish Gambino, todos os detalhes, e tentar observar o que está acontecendo. Elementos de figurino e cenário (como o carro vermelho na parte final) e os efeitos sonoros ajudam a destacar elementos desejados ou potencializar a catarse. Evidentemente, em alguns momentos há destaque para o fogo ao fundo e o final, com a corrida na escuridão do rapper, mas a compreensão geral do vídeo está na maior parte dos minutos em que Gambino dançava num cenário cinza azulado.

(aliás, o diretor de fotografia Larkin Seiple também é vencedor nesta categoria, em 2015, por “Never Catch Me“)

Caso o Moonperson não vá para “This Is America”, ficaria muito bem nas mãos de “APES**T”, onde a luz serve ao propósito de expor o que está escondido, deliberadamente ou não. Sejam as obras de arte, as pessoas que não aparecem nas obras de arte; ou mesmo os Carters, que em vários momentos do clipe – especialmente no frame de Beyoncé e Jay-Z sentados com um corredor ao fundo- parecem expostos como elementos de um quadro. Sendo bem específica sobre o frame supracitado, você percebe que o corredor atrás tem uma luz, e um feixe ao lado bate no rosto dos dois, que estão sentados numa pose meio negligente, meio altiva, enquanto o fundo funciona como um contraste entre o tom azulado do background e os tons dourados e vivos do casal. E se não fosse o feixe de luz ali, acho que eles teriam sumido na imagem – novamente, a ideia de expor o que está escondido.

Já quem pode surpreender é o candidato menos improvável – “In My Blood”. Novamente tendo que lidar com um vídeo cujo cenário é modificado por efeitos visuais, o uso das luzes em vários tons e dos feixes que simulam raios é uma solução agradável que reforça o simbolismo sentimental do vídeo. O diretor de fotografia do clipe, Jonathan Sela, é um antigo vencedor nesta categoria – ele levou em 2009 por “21 Guns“, e sabe bem como lidar com soluções bacanas para contar histórias – ou mudar a narrativa.


INDICADOS

Bruno Mars ft. Cardi B – “Finesse (Remix)” –  Atlantic Records – Editing by Jacquelyn London
The Carters – “APES**T” –  Roc Nation/Parkwood Entertainment – Taylor Ward and Sam Ostrove
Childish Gambino – “This Is America” –  mcDJ / RCA Records – Editing by Ernie Gilbert
Janelle Monáe – “Make Me Feel” – Bad Boy Records/Atlantic Records – Editing by Deji Laray
N.E.R.D & Rihanna – “Lemon” –  i am OTHER/Columbia Records – Editing by Taylor Ward
Taylor Swift – “Look What You Made Me Do” –  Big Machine Records – Editing by Chancler Haynes for Cosmo

Os editores indicados nunca levaram um Moonperson; então, é interessante ver qual o trabalho que vai se sobrepor e se destacar o suficiente pra ganhar o prêmio. Particularmente, dos seis indicados, apenas dois possuem um tipo de montagem mais puxado pro que você conhece como uma linguagem de videoclipe mais tradicional – “Make me Feel” e “Look What You Made Me Do”, este último buscando inserir num clipe de pouco mais de quatro minutos todas as informações possíveis, seja com soluções criativas (as montagens da Taylor deitada em locais distintos, as portas se abrindo para lugares diferentes) ou picotando tudo de vez (o frame do avião que a gente só descobre o que é lá no final do vídeo). Como o clipe da Janelle tem um destaque mais evidente na sua direção de arte, tiremos estes dois produtos da nossa discussão.

Sobram quatro vídeos que tem, coincidentemente, narrativas construídas através da edição com uma menor quantidade de cortes e mais fluidez no material, com direito a takes mais longos ou plano sequência. Dos quatro, o que eu menos gosto de fato é em “Lemon”, onde Taylor Ward (que é um dos editores de “APES**T”) trabalha no grosso do vídeo com vários planos sequência com a dançarina, até o momento em que a dança se concentra num ponto só enquanto passam montagens da coreografia em outros ângulos e com outros tipos de câmera, que me distraiu terrivelmente e me fez lembrar o quanto a música não é boa.

Aqui, novamente sinto a disputa se concentrar entre “This is America” e “APES**T”, com minhas apostas chegando mais perto do primeiro. Eu contei em TiA cinco cortes óbvios, cinco viradas para momentos distintos do vídeo, mas que se assemelham mais a um “fast forward”, refletindo uma sensação de plano sequência que permeia o vídeo todo, e ajuda a gente a manter os olhos no clipe pra captar tudo que acontece. Isso é a montagem a serviço da compreensão do vídeo e da manutenção do ritmo do mesmo. Já em “APES**T”, a edição não é um espelho do vídeo – ela complementa o produto: poucos cortes picotados que priorizam os longos takes, nos cortes a inserção de elementos isolados que reforçam as referências do vídeo, e pouca vontade de refletir a sonoridade da música. É quase uma edição contemplativa; um trabalho conceitual que, se os jurados não se sentirem convencidos com a ideia de “This is America”, podem muito bem entregar o prêmio para “APES**T”.

Correndo por fora tem “Finesse [Remix]”, que apesar de parecer mais “tradicional” em cara – especialmente porque aqui a edição está em consonância com as viradas da própria música, é uma reprodução moderna de um produto anterior (a abertura da série de comédia americana “In Living Color”), mas com uma necessidade de priorizar takes longos e uma montagem que respeitasse a coreografia. Não há coreografia picotada, foco em pontos que não interessam. O clipe quer que você veja tudo que está acontecendo, e lembra muito os vídeos antigos em que a coreografia era o ponto focal, em que você tinha vontade de ver de novo pra copiar os passos. Retrô no seu momento máximo.


melhor vídeo pop (8)

INDICADOS

Ariana Grande – “No Tears Left to Cry” –  Republic Records – Visual Effects by Vidal and Loris Paillier for Buf
Avicii ft. Rita Ora – “Lonely Together” –  Geffen Records – Visual Effects by KPP
Eminem ft. Beyoncé – “Walk On Water” –  Shady/Aftermath/Interscope Records – Visual Effects Supervisor Rich Lee for Drive Studios
Kendrick Lamar & SZA – “All The Stars” –  TDE/Aftermath/Interscope Records – Visual Effects by Loris Paillier for BUF Paris
Maroon 5 – “Wait” –  222/Interscope Records – Visual Effects by TIMBER
Taylor Swift – “Look What You Made Me Do” – Big Machine Records – Visual Effects by Ingenuity Studios

Os indicados a Efeitos Visuais aqui são vídeos que usam o apoio tecnológico de maneiras distintas, seja pra construir um cenário, compor a ideia do vídeo ou enriquecer uma narrativa visualmente bela. Por isso, eu penso em favoritismos de acordo com a execução positiva ou não dessa ideia; assim como a “limpeza” dos efeitos – ou seja, se dá pra ver que aquele movimento é computação gráfica.

(é evidente que sabemos ser efeito visual, mas o objetivo é enganar a nossa vista já treinada pelos blockbusters do cinema).

Pensando nisso, eu retiro da lista “Walk on Water” com seus efeitos visuais que parecem vindos de um clipe do começo dos anos 2010; e apesar dos pontuais momentos de beleza e abstração de “All The Stars”, a força do clipe é em sua cenografia e direção de arte (curioso que o vídeo, que merecia sorte melhor, nem está na lista final de indicados a Vídeo do Ano). Apesar de ser um clipe bem feito e limpo, com efeitos especiais que não parecem amadores, “Lonely Together” não é exatamente groundbreaking nem encheu os meus olhos. Assim, sobram “Wait”, “No Tears Left to Cry” e “Look What You Made Me Do”.

Os três vídeos são incrivelmente bem trabalhados se utilizando dos efeitos visuais com objetivos distintos. No clipe de Ariana Grande, o CGI e os efeitos dos diversos rostos ajudam a construir um cenário épico e até onírico para o vídeo (aliás, a equipe responsável pelos efeitos é a mesma de “All the Stars”), e particularmente acho bem acabado o material final. Já “Wait” é o vídeo mais curioso pra mim, já que além de ajudar na construção da narrativa da separação do casal por meio de distorções, dissoluções e explosões, os efeitos também são catárticos (o rosto da mulher se desfazendo em tinta é um frame bem interessante de ver); no entanto, as cenas de Adam Levine na água não foram nada “limpas” – ficou bem registrado que nada naquela cena ali era verdade, nem ele na água tampouco as sereias.

Já “Look” é bem impressionante, porque os efeitos, que servem como um reforço na narrativa bem construída de opulência de Taylor Swift, são bem trabalhados e limpos – das cobras que servem o chá, o cemitério torto, e o meu favorito – as Old Taylors tentando alcançar a New Taylor na bridge. Sabemos que Taylor Swift (e várias dublês de corpo) estão ali, e elas serão inseridas digitalmente, assim como na edição, mas é tudo extremamente verossímil – e você se vê desconfiada de que ela fez clones de si mesma. Essa impressão se repete na parte final, nas conversas com as Taylors.

Isso posto, apesar do meu uso de efeitos visuais favorito ser o do clipe de “Look What You Made Me do”, acredito que o Moonperson está mais próximo de “No Tears Left To Cry” pela construção de cenário que ajuda na narrativa do vídeo e possibilita um tom para o clipe que será, no fim, o tom visual da era da Ariana.  Mas não tirem Taylor nem o Maroon 5 (e essa música pavorosa) da corrida.

 

 


O próximo post relacionado ao Video Music Awards 2018 terá as análises das categorias Melhor Colaboração, Artista Revelação e Push MTV (e vamos entender o que cargas d’água significa essa categoria). Até lá!

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