Video Music Awards 2018 [2] Melhor Vídeo Latino, Hip Hop e Com uma Mensagem

O segundo post com os indicados do Video Music Awards 2018 vai tratar das análises de três categorias ligadas a sonoridades e mensagens em ascendente ou consolidação dentro da popsfera: a música latina, o hip hop e os vídeos com mensagem (seja de autoajuda ou de conotação política).

A tendência das rádios e streams americanos a aderir à sonoridade rap já vinha se desenhando desde 2016, especialmente com a ascensão do trap e do rap de Atlanta. Os virais que chegavam ao top 10 da Billboard, os rappers vindos do soundcloud, a consolidação de Drake como o maior nome pop da década (ele é o pop/rapper soft, crossover, considerado mais “seguro” para as soccers moms e adolescentes brancos do que um Migos, por exemplo), assim como as playlists do Spotify recheadas de rap, mostraram que o gênero dominante nos charts e na cultura popular atualmente é o hip hop. E isso se reflete no visual, onde os acts vão dos vídeos mais “padrão” ostentação e carros até verdadeiras obras de arte como os vídeos do Kendrick Lamar.

Enquanto Spotify e Apple Music são a casa do rap, o YouTube é dominado pela música latina, que já vinha se mostrando como uma das forças musicais mais relevantes do momento – o novo sendo sedimentado não pela visão WASP ou americanizada de música; mas sim pelos latinos, pelos falantes de língua espanhola e pelo som dançante do reggaeton, que poderia ter sido reverenciado com um Grammy para “Despacito”; mas que agora encontra em sonoridades crossover e músicas totalmente em espanhol mais um espaço para informar às rádios e awards que o pop latino tem voz, vez e personalidade. Tudo isso capitaneado por artistas com fome e fogo vindos da Colômbia e de Porto Rico.

Já os Vídeos com Mensagem tem uma história recente no VMA, e surgiram num período em que bombavam nos charts as músicas de “autoajuda” – faixas sobre autoestima, se aceitar como você é, você é bonito do seu jeito: músicas que chegaram até à primeira posição entre 2010-2012. No entanto, com a decadência desse tipo de canção com o passar dos anos, o produto ganhou um novo apelo e se reinventou a partir do momento em que questões políticas ligadas à violência, racismo, desigualdade, se tornaram mais fortes dentro e fora das redes sociais. Não que ninguém discutisse antes; mas os questionamentos atualmente se tornaram mais contundentes, e o outro lado se vê obrigado a ouvir. Por isso, a categoria Melhor Vídeo com uma Mensagem se revela uma das mais importantes nos tempos que correm.

Sem mais, vamos falar das indicações em Melhor Vídeo Latino, Hip Hop e Com uma Mensagem no VMA 2018.

INDICADOS

Daddy Yankee – “Dura”
J Balvin, Willy William – “Mi Gente”
Jennifer Lopez ft. DJ Khaled & Cardi B – “Dinero”
Luis Fonsi, Demi Lovato – “Échame La Culpa”
Maluma – “Felices los 4”
Shakira ft. Maluma – “Chantaje”

Primeiro, vamos desconsiderar essas indicações mais antigas que o mundo que são “Felices Los 4” e “Chantaje” e nos concentrar em quem realmente tem alguma chance por aqui (sempre lembrando que a MTV pode dar aquela boninhada preguiçosa e dar o prêmio pra Shakira, mas acho que eles não teriam a CORAGEM porque os quatro clipes que podem levar são bem bacanas). Entre os outros vídeos que restaram, vamos tratar de elementos importantes a respeito deles: qualidade e popularidade.

Apesar de visualmente ter cara de vídeo caro, “Dinero” tem uma estética too American entre os indicados. Tá na cara que é um vídeo de uma artista americana, feito nos EUA, só que com uma música bilíngue. Além disso, “Dinero” tem cerca de 54 milhões de views, enquanto a música “menos” vista depois dela entre os indicados é “Dura”, com mais de 972 MILHÕES de visualizações. Quase UM BILHÃO. Uma vitória desse clipe da JLo só seria possível se a MTV de novo, quisesse dar aquela boninhada preguiçosa.

No entanto, essa categoria vai focar muito mais na popularidade dos vídeos e da abrangência das músicas, especialmente com a força dos mesmos no YouTube e o sucesso das faixas. Excetuando os números bilionários de FL4 e “Chantaje” (de novo, clipe antigo não conta na análise), minha aposta aqui é em “Mi Gente”. Pode não ser o vídeo mais bonito (“Échame La Culpa” pra mim é visualmente mais interessante), mas é uma produção colorida, universal, gostosa de assistir, tem seus um bilhão e 900 milhões de views e é popular também por conta do remix com Beyoncé. Ou seja, é crossover e a natural favorita. Apesar de “Dura” também ser esteticamente aprazível – colorida, vibrante, bem anos 90, não é tão abrangente quanto a faixa do J Balvin/Willy William, então talvez fique de fora.

Outra possibilidade é “Échame La Culpa” ficar com o Moonperson, já que os quase um bilhão e 500 milhões de visualizações são números respeitáveis, a faixa é bilíngue e tem certo apelo crossover, apesar do peak não ter sido o mesmo de “Mi Gente”; mas acho que algo pode colocar a música um pouco mais à frente nessa disputa: diante dos últimos acontecimentos referentes à saúde da Demi Lovato (a overdose e todas as discussões sobre a saúde dela e a notícia de que ela estaria voltando à rehab), acho que os fãs compreensivelmente podem fazer um mutirão de votos e tentar essa vitória como uma homenagem, um presente à ela. Sabe, uma mensagem positiva de que existe muita gente por aqui que quer vê-la bem, com saúde, limpa e sendo feliz. Que deseja o melhor pra ela. Não ficaria surpresa se algo assim ocorresse.


INDICADOS

Cardi B ft. 21 Savage – “Bartier Cardi”
The Carters – “APES**T”
Drake – “God’s Plan”
J. Cole – “ATM”
Migos ft. Drake – “Walk It Talk It”
Nicki Minaj – “Chun-Li”

O interessante entre os indicados a Melhor Clipe de Hip Hop é que todos os vídeos, em maior ou menor grau, são muito bons, e apresentam estéticas distintas. Tem a vibe tumblrzinha de “Bartier Cardi”, a inspiração artística de “APES**T”, o humor satírico de “ATM”, a vibe high fashon de “Chun-Li”, a pegada retrô de “Walk It Talk It” e o estilo documental de “God’s Plan”. Tudo isso a serviço de canções que, na sua maioria, não são exatamente essa Brastemp toda; por isso, nesta categoria, a entrega do Moonperson pode ser definida tanto pela popularidade da música/vídeo quanto do artista/vídeo.

Neste caso, acredito que “APES**T” e “God’s Plan” ficam na frente, com “Bartier Cardi” um pouco atrás. O trabalho de Beyoncé e Jay-Z foi reverenciadíssimo pelas referências artísticas, a ressignificação do papel do negro na arte; e o clipe é visualmente magnífico, com figurinos vistosos e o Louvre como cenário. Ainda bem que ninguém avalia música, porque um vídeo tão belo pra uma sobra do Migos é difícil… Já “God’s Plan” é o vídeo de uma música que ficou onze semanas em #1 na Billboard Hot 100, do artista mais popular do ano – o que é suficiente para uma vitória e consagração de Drake. Particularmente eu não gosto do vídeo (e tampouco da música), acho cínico filmar em HD você sendo caridoso enquanto os streams de seu novo single explodem, mas essa é a indústria em que vivemos.

“Bartier Cardi” tem como ponto positivo o próprio vídeo, cuja estética tumblr-retrô e produção esmerada, surpreendente para uma faixa tão “crua” quanto BC, traz um choque visualmente interessante; assim como a popularidade da sua intérprete, que mesmo de resguardo por conta do nascimento da bebê Kulture, ainda é uma das figuras mais comentadas do mundo pop atualmente. No entanto, o vídeo não veio no momento certo para ser mais um estouro na carreira da Cardi B – demorou tanto pra ser lançado que a música, com potencial de #1, ficou apenas na 14ª posição no Hot 100.

Mas não podemos deixar de fora “Chun-Li”. Os Barbz são uma fã-base fiel e focada, e nesta era Queen, em que a imagem de Nicki Minaj está diariamente sob o olhar intenso da mídia e de outras fã-bases, eles podem fazer um mutirão para dar a vitória à rapper. O vídeo é muito bem produzido, com uma estética “ensaio de moda” que tem tudo a ver com Nicki, apesar de eu achar que a intro falada promete muita coisa, enquanto o vídeo cumpre bem pouco.


INDICADOS

Childish Gambino – “This Is America”
Dej Loaf and Leon Bridges – “Liberated”
Drake – ‘God’s Plan”
Janelle Monáe – “PYNK”
Jessie Reyez – “Gatekeeper”
Logic ft. Alessia Cara & Khalid – “1-800-273-8255”

Relações raciais nos EUA, empoderamento do corpo negro feminino e celebração do amor homossexual, discussão sobre assédio sexual em era #MeToo, elevação da autoestima, jogar luz sobre o tabu dos suicídios e ajuda àqueles que mais precisam. Os temas que estão inseridos nos clipes indicados a Melhor Vídeo com uma Mensagem no VMA 2018 são variados e importantes para os tempos que correm. Daqui a 20 anos, quando fizermos uma retrospectiva dessa categoria em especial, veremos quais eram os tensionamentos que a música refletia no período entre 2017 e 2018.

Dentre os cinco indicados, o natural favorito e que está com uma das mãos no Moonperson é evidentemente “This is America”. O vídeo do Childish Gambino literalmente catapultou a música ao topo dos charts, e gerou discussões, thinkpieces, vídeos e mais vídeos informando sobre as referências usadas na produção. Entre elas o uso do estereótipo da era Jim Crow como crítica, a violência contra a população negra nas mãos da polícia, a espetacularização das mortes por meio das filmagens em celular (mas que também podem servir como formas de denúncia dessas mesmas mortes), o uso de danças tradicionais de países africanos na composição da coreografia… É um clipe que deve ter sido visto inúmeras vezes apenas para captar todas as referências, e mesmo assim ainda é necessário ver algumas vezes. Além de seus triunfos técnicos, “This is America” é um vídeo necessário.

A outra mão só não está segurando o troféu porque, como é um prêmio de votação, tudo pode acontecer. Apesar de eu já ter comentado o quanto realmente detesto o clipe de “God’s Plan” e sua caridade em frente às câmeras em High Definition, é inegável que se trata de um clipe bem feito para uma música que ficou onze semanas em #1 na Billboard Hot 100. Ou também pode ir para um clipe mais antigo, o azarão “1-800-273-8255”, uma das músicas mais comentadas do ano passado por conta da discussão sobre suicídio, trazida por artistas novos, em ascensão e  contato próximo com o público jovem. Além disso, o vídeo, com astros de Hollywood, traz uma história sensível e relatável de um adolescente descobrindo a própria sexualidade e sofrendo as consequências de um entorno cheio de preconceitos, flertando com o suicídio. É um vídeo poderoso e bem feito.


O próximo post do Video Music Awards falará das primeiras três categorias técnicas: Melhor Fotografia, Edição e Efeitos Visuais, a primeira vez que vou tratar desses prêmios aqui no blog. Não percam!

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