Vencedores e perdedores de 2018 [primeiro semestre]

O ano de 2018 chegou à metade e sempre é bom ver, em retrospecto, as coisas que deram certo ou não dentro do pop. Quer dizer, as raridades que deram certo na terra arrasada do pop né; porque com as plataformas de stream dominando a forma de consumo dos americanos, o pop simplesmente não tem vez dentro do zeitgeist musical ocidental, pensando em EUA (porque na Europa a coisa é diferente, sem falar dos movimentos musicais em outros continentes que vamos comentando aos poucos). Quem realmente bomba no Spotify/Apple Music são os rappers (especialmente a turma trap-inspired e o rap de Atlanta), com ênfase em “os” – o grande destaque feminino continua sendo a rapper do momento Cardi B, enquanto Nicki Minaj busca se fortalecer numa nova estrutura de cultura pop/rap.

Enquanto isso, os acts pop mais novos parecem ter esquecido a importância do YouTube e de bons vídeos para manter o interesse geral, já que não rola aderência no Spotify, as vendas digitais estão na UTI e as rádios pop estão imersas em “quem paga mais” (apenas a gravadora da Camila Cabello entendeu bem isso); os mais experientes lançaram materiais ou muito ruins ou muito bons mas sem apoio; e parece que as coisas mais inventivas do pop não vem exatamente dos EUA. Movimentos fora do esquemão americano WASP ganham espaço.

Pensando nestes encontros e desencontros é que eu trago uma lista de vencedores e perdedores no pop de 2018, cobrindo o primeiro semestre. Lá no final do ano, eu retomo essa mesma lista com os destaques do ano em geral, e perspectivas para 2018. Por isso, coloque os headphones, aperte play na “Today’s Top Hits” do Spotify e continue lendo!

Drake (mesmo com a diss)

Quem tá fora do mundinho pop pode até ter criado ranço do Drake por ter fugido do feud com o Pusha T e não respondido à diss LENDÁRIA “The Story of Adidion”, onde Pusha traz versos cheios de veneno sobre questões de identidade do Drake, problemas familiares, um filho secreto e não perdoa nem o produtor do moço! Mas nada disso está impedindo o canadense de ter um outro ano repleto de dominância nos charts. “God’s Plan” (quarto #1 do Drake, debutou em primeiro e ficou no topo por 11 semanas) e “Nice for What” (seis semanas não consecutivas em #1, quinta música dele a chegar ao topo e a primeira vez em que um artista substitui a si mesmo no topo com uma música que debutou em #1) são as provas de que Drake pode ser considerado o artista da década e que ajudou a tornar o rap um gênero mais acessível para o mainstream. Não que essas músicas novas sejam INCRÍVEIS (achei esse material novo tão chato e tô há uns bons anos com preguiça de tudo que ele lança), mas o retorno que ele tem é inegável.

Kendrick Lamar (mesmo com a derrota no Grammy)

Quem quer Grammy gasto com um Pulitzer novinho né gente? Pois é, K-Dot pode até não ter levado os gramofones – acho que terceira derrota já pede música no Fantástico – mas o rapper não tem motivos pra chorar: “DAMN.” levou um Pulitzer na categoria de música de forma inédita – é o primeiro material não-clássico nem de jazz a levar o prêmio – a prova de que o rap é compreendido como um gênero relevante e representativo das ansiedades e experiências da sociedade. Além disso, Kendrick ainda curou um dos álbuns do ano: a incrível trilha sonora de “Pantera Negra”, que acompanha e é inspirada por um dos filmes mais fodas de 2018 até o momento. E não se surpreendam se ele chegar com “All The Stars” até níveis mais altos que uma mera indicação ao Grammy – o Oscar está batendo na porta. Lady Gaga e Celine Dion, temos concorrentes. (aliás, a trilha do filme merece uma indicação ao Grammy de AOTY também, e já que é pra academia compensar os erros…)

Bruno Mars

Podemos criticar a decisão do Grammy em entregar seis prêmios pro havaiano, mas a “limpa” só fez confirmar o que público, crítica e elogios de peers da indústria já mostravam: Bruno Mars é um dos artistas mais consistentes da década. Fazendo um som absolutamente perceptível e com uma identidade bem definida (não é fácil ser old-school sem cair no datado), ele continuou a sequência de sucessos no começo do ano com a colaboração que ninguém esperava, mas deu certo pra caralho: o remix de “Finesse” com Cardi B foi outro hit pro bolso do rapaz, ajudou ainda mais nas vendas do “24k Magic”, sedimentou o fenômeno Cardi especialmente pra um público mais crossover, roubou as atenções do comeback alheio, e entregou um dos vídeos mais bacanas do ano até agora. Ainda nem falei da turnê que só tem recordes. E quando a reputação do Bruno entrou em sério risco, com as acusações de apropriação cultural por conta da pegada R&B do terceiro álbum, jornalistas musicais, Black Twitter e vários artistas da cena entraram numa discussão bem interessante sobre a diferença entre apropriação e respeito às sonoridades alheias e dar créditos aos pioneiros.

Cardi B

E por falar em Cardi B, quem imaginava que a rapper do Bronx que estourou com “Bodak Yellow” se tornaria não apenas a rapper-dos-feats como também a artista com um dos álbuns mais aclamados do ano? Cardi quebrou recorde atrás de recorde – incluindo 13 músicas ao mesmo tempo no Hot 100 em uma semana, batendo Beyoncé; e três músicas ao mesmo tempo no top 10 (feito para poucos, incluindo Beatles, Bee Gees, Lil Wayne, Ashanti e Adele), e mais alguns feitos que se perderam no Google – e o debut “Invasion of Privacy” ainda estreou em #1 no Billboard 200 com vendas respeitáveis para uma artista novata. Tudo isso mantendo a atitude no-fucks-to-give, muito carisma e performances cada vez mais empolgantes no palco. Além disso, a gravidez, revelada com buzz numa apresentação bem recebida no SNL, deu a Cardi uma nova leva de admiradores, já que mesmo com a barriga grande, ela não perdeu o fôlego em sua aclamada apresentação no Coachella (ou “Boachella”, como ela mesma disse). Após o nascimento do bebê (uma menina), a mulher ainda vai abrir a turnê do amigo Bruno Mars no final do ano, ampliando ainda mais a base de fãs – de adolescentes a soccer moms. Ah, e não se surpreendam se Cardi conseguir outro primeiro com o smash latino in making “I Like It” (e em Novembro/Dezembro a moça aparecer com muitas indicações ao Grammy)

Camila Cabello

Após um começo bem ruinzinho com “Cheap Thrills parte III” (aka “Crying in the Club”), Camila se encontrou na sonoridade e entregou o álbum pop feminino até agora mais interessante do ano. Pop com faixas que fazem menção à origem latina da ex-Fifth Harmony (o que ajuda a ganhar uma aderência com a trend latina), o “Camila” é muito bom e é o material perfeito pra apresentar a jovem artista ao mundo pop. Além do bom desempenho de “Never Be The Same”, as performances da Camila são sempre deliciosas de assistir – ela entrega algo que a gente sente falta nas acts pop mais novas: fogo no olhar, vontade de apresentar algo interessante no palco, drama e presença. Num pop em que os artistas se comportam de maneira blasé, sem demonstrar interesse no que estão produzindo, Camila Cabello tem percepção exata do que um fã de pop quer. E logo a jovem vai criando uma base de fãs interessante para além da turma que já a seguia desde os tempos de X-Factor: abrindo tour dos A-Lists do pop como Taylor Swift, podemos esperar coisas incríveis dela no futuro.

A música latina (aka reggaeton)

É só olhar no YouTube – a plataforma é dominada pela música latina, com artistas como Bad Bunny, Ozuna, Maluma, e J Balvin tendo milhões de visualizações diárias. Reflexo de um crescimento cada vez maior da música latina mais popular do momento, reggaeton, que já vem aparecendo nos charts americanos – e podemos creditar esse crescimento também ao aumento da população latina nos EUA, que deseja ouvir e ser ouvida nas plataformas musicais. Dessa forma, artistas americanos de origem latina, que já lançaram faixas em espanhol, continuam trabalhando com faixas em spanglish (como Jennifer Lopez) e novatos explodem na cena. E a aclamação do novo álbum de J Balvin é uma mostra de que o pop americano vai abraçar cada vez mais a música latina pra manter a relevância.

Rap

Mais um ano, mais sucesso do rap nos charts, graças ao apelo absurdo das plataformas de stream como Spotify e Apple Music. E parece que isso não vai mudar tão cedo, já que a cada semana mais um protegido do Drake lança um viral, um rapper bombado do Soundcloud chega ao top 10 ou o Migos lança um hit novo. O curioso é que mesmo com tanto sucesso real, já que está refletido no top 10 da Billboard, os singles rap não fazem a transição para as rádios pop – exceto se você for Drake e fizer algo super diluído; ou se você for branco, tipo o Post Malone, que tá vendendo horrores e teve um #1 de longa duração com “Rockstar” ano passado (e até o momento da publicação deste texto, tá perto de conseguir outro #1 com “Psycho”). Sério, vá nas atualizações diárias das rádios pop pra ver quem tá em #1. Ou seja, apesar de ser o gênero que atualmente busca mais inspirações, variedade de sons e artistas e músicas para todos os gostos, quem chega ao ouvinte comum é Post Malone. E um indivíduo desses tem chance de chegar ao Grammy. Miseriqueima.

K-pop (aka BTS)

Por um lado, a música latina com a terceira invasão após o estouro no final da década de 90. Por outro, o pop coreano sendo consumido por adolescentes de várias partes do mundo, entregando aquilo que o pop americano esqueceu: performance, entretenimento e clipes caros, com PRODUÇÃO, que dão gosto de ver. Não é por nada que o Kpop está ganhando cada vez mais fãs em várias partes do mundo (incluindo o Brasil) e muita gente quer entender por que os fandoms aumentam cada dia mais e vários grupos vão chegando na cena. Mas o destaque de 2018 na explosão do Kpop dentro do zeitgeist do pop americano é sem dúvida nenhuma o BTS. Os meninos se apresentaram no Billboard Music Awards para uma plateia que sabia a canção, “FAKE LOVE”, na ponta da língua; o álbum “Love Yourself: Tear” ficou em #1 no Billboard 200, o primeiro de kpop na história a alcançar esse feito, e o single ainda debutou na décima posição no Hot 100, outro feito pro grupo. Não dá pra dizer que estamos falando de uma onda – kpop é uma realidade, especialmente num mundo cada vez mais globalizado, com informação ao toque dos nossos smartphones. E se o pop americano continuar tão blasé, preguiçoso e pra baixo, pode esperar uma migração ainda mais intensa dos interesses dos mais jovens para os grupos de kpop.

Quem ficou na mesma em 2018

Taylor Swift

Eu sei que vocês vão questionar a inclusão dela aqui neste grupo, mas mesmo vendendo horrores com o “reputation” e com uma tour tá quebrando recordes, a impressão que deu foi a de uma Taylor pouco presente na popsfera. Em 2018, o grande momento de “MEU DEUS TAYLOR SWIFT FEZ ISSO ISSO E ISSO” foi o clipe de “Delicate”,mas pra uma artista que de respirar gerava manchetes na era “1989”… A Reputation era aconteceu tanto quanto eu me tornei freira. E nem sei o quanto esse anticlimax da era pode afetar em suas chances no Grammy 2019.

Nicki Minaj

Nicki Minaj lançou duas músicas fodas e incríveis, “Barbie Tingz” e “Chun-Li”, os singles do álbum “Queen”, e fez várias entrevistas e gerou o buzz que só ela sabe fazer. Só que, curiosamente, nem parecem que fizeram o barulho que deveriam fazer. A segunda até conseguiu um top 10, depois caiu de posição, depois subiu, e sempre achei que as músicas deveriam ter sido lançadas logo com os vídeos, pra garantir streams de todos os cantos – e não esperar tanto. O zeitgeist musical pós-2016 prima pela instantaneidade. Pelo menos garantiu o top 10, mas eu fico com a impressão de que a Nicki poderia ter chutado o pau da barraca e lançado o álbum todo, com vários clipes e divulgado até na barraca de pastel aqui da esquina. Estamos em 2018, não 2014.

Parcerias EDM com cantoras pelo segundo ano consecutivo

Pra que mexer em time que tá ganhando né gente? Já que não dá pra se inserir no top 10 fazendo pop (acho que Ariana Grande é uma das raríssimas exceções), bora se juntar com os DJs e lançar aquela farofa gostosa e às vezes requentadíssima. Vai que rende né? Demi Lovato já lançou a sua com o Clean Bandit, e “Solo” já tá fazendo barulho na Europa; o hit europeu massivo “One Kiss”, do Calvin Harris com Dua Lipa; e a incursão pop da estrela country Maren Morris no hit “The Middle”, do Zedd (pena que a coitada parece com umas 15 cantoras na faixa, menos ela), que peakou na quinta posição. Vamos ver se até o fim do ano Selena Gomez e Ariana Grande fazem featuring na nova faixa dos Chainsmokers.

 

 

Pop feminino (pop no geral)

Apesar de alguns parcos exemplos como a Camila Cabello, o pop atual está em terra arrasada. Deu pra notar essa sensação de “nada acontece feijoada” em 2016, quando o grande momento pop daquele ano não foi pop – foi o R&B/urban de Beyoncé e o “Lemonade”. Em 2017, o rap já estava dominando tudo e do pop, apenas Ed Sheeran parecia o grande nome que trazia algum tipo de excitação para os charts e ouvintes – e mesmo assim, quando Ed Sheeran é a coisa mais empolgante do seu gênero, é que a coisa tá muito errada. O problema é que não há nada de interessante no ar – os artistas não souberam absorver o urban em suas incursões pop, pelo menos pra ter alguma aderência no Spotify/Apple Music; e o EDM tomou esse espaço, mas as músicas parecem tanto umas com as outras que nem dá pra dizer que é uma “novidade”. Quem abraçou esse barco cheio de furos foi Ariana Grande com “No Tears Left to Cry”, mas mesmo com um desempenho até bacana (peakou em #3, é uma das poucas músicas que foram bem recebidas em todas as plataformas, de alguma forma aconteceu), é surreal como a faixa é totalmente esquecível e não traz nada de novo ou groundbreaking pra incentivar outras acts pop a seguir esse mesmo rumo. Geralmente é neste momento que surgem os fenômenos, mas tá demorando um pouco de chegar…

Justin Timberlake

O que dizer né… Conceito pretensioso e bagunçado que não deu em nada, singles pavorosos (quero os minutos de volta após ouvir “Supplies”), o Halftime do SuperBowl recebido com frieza e críticas mistas; e mesmo com os singles ruins e com pouco apelo chegando ao top 10, não dá pra dizer que Justin Timberlake teve uma era incrível e com algum apelo né. A coisa foi tão feia que as previsões de venda na primeira semana de “Man of the Woods” (o título desse CD é pavoroso) ao invés de crescerem, caíram. A única coisa que realmente está bombando na era do Timberlake é a tour. que está vendendo bastante e lotando nos EUA, mas pra quem dominava as atenções com cada lançamento até algum tempo, a era chegou e passou sem ninguém perceber.

Christina Aguilera

Eu não queria falar isso, mas flopou. Após seis anos sem lançamento de CD e com esporádicas aparições em featurings, além de ficar girando a cadeira do The Voice nesse meio tempo, Xtina vem lançando faixas novas semanais, criando buzz para o novo álbum, “Liberation”, que parece ser o melhor trabalho da loira desde o “Back to Basics”. E ela fez tudo certo: acenou para o som do momento com “Accelerate”, fez featuring com uma artista da nova geração (“Fall in Line” com a Demi Lovato), deu entrevistas em vários lugares, tentou criar buzz nas mídias sociais… Mas o comeback, que poderia ser mais explosivo para quem ficou longe do bonde da história por tanto tempo se tornou bem anticlimático. A quem culpar: rádios preconceituosas com mulheres a partir dos 30 anos, RCA incompetente que não está investindo em um dos principais nomes do selo (se esse for o último álbum do contrato, SAI DESSA BOMBA E CORRE PRA REPUBLIC, ATLANTIC, INTERSCOPE, SEI LÁ) e um certo descompasso com as estratégias da indústria em 2018. Era pra Christina Aguilera lançar logo o álbum de vez, com vários clipes, tudo de uma vez e divulgar o material em todos os programas possíveis, especial na Netflix, show na TV aberta como o especial da Adele, comprar uma vaguinha pra divulgar a música no final de Grey’s Anatomy, sei lá. Estamos em 2018, não em 2012.

Meghan Trainor

A mesma Epic que pelo menos investiu naquele jabá gostoso pra divulgar a Camila (como qualquer gravadora deve fazer com seu artista; eu não sou do tipo de pessoa que faz a ofendida com payola, só não pode forçar o sucesso de uma música quando é vísivel que não emplacou, jabá tem que ser o boost inicial, depois é deixar rolar) esqueceu literalmente a Meghan Trainor no churrasco. As músicas são aquele pop gostoso e despretensioso que é a cara dela, com referências retrô bem sedimentadas, mas nada aconteceu – e não podemos culpá-la pela falta de empenho: “No Excuses” foi performada em vários programas. No entanto, os clipes baixo orçamento dos dois primeiros singles mostram um desinteresse absurdo da gravadora com uma das artistas que ainda sobraram no seu catálogo. Uma verdadeira “aula” de como detonar a carreira de uma artista talentosa, desde a era “Thank You”. Parabéns aos envolvidos.


E vocês, quem acham que foram os grandes vencedores e perdedores de 2018 até agora?

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