Pós-festa: Grammy Awards 2018

Não queria ser a pessoa que diz “eu te disse”, mas… Eu te disse.

A vitória (que podemos chamar de shocking upset) de Bruno Mars na 60ª edição do Grammy Awards ocorrida ontem à noite (domingo, 28) foi uma surpresa pra muita gente – seis Grammys, uma verdadeira limpa, com três vitórias no Big Four – e colocou o havaiano na lista dos Grammy Darlings como Adele, além de 11 vitórias em casa e um dos artistas mais populares e celebrados da década. No seu field, ele era o favorito para levar, e nós já tínhamos ventilado que o rapaz tinha chance de levar em Song of The Year, além de ser o principal rival de Kendrick Lamar no prêmio de Álbum do Ano.

Tudo isso foi falado e discutido tanto no Drops quanto nos posts do blog. E não deveria ser uma surpresa. Quer dizer, na hora em que o nome “24k Magic” deu as caras em Record, eu comecei a ver a “solução Lionel Richie” se formando. Mesmo antes, quando saíram as premiações que seriam dadas no pre-telecast (a premiação que não é televisionada), deu pra ver o que ia acontecer. Você imagina, prevê, mas pensa que vai acontecer o oposto.

(na verdade, a derrota do Kendrick Lamar estava escrita na estrelas desde 28 de novembro, quando a Academia revelou os indicados finais e em AOTY tinham dois álbuns de rap)

Mas eu não pretendo falar mal dos indicados e sim tentar apontar o resultado dentro de um contexto.

 

Tensão x escapismo

O Grammy é um prêmio da indústria, e como tal, deve congratular quem vendeu e trouxe credibilidade a ela. Ao mesmo tempo, é uma premiação que ainda não consegue refletir o espírito do tempo (como surpreendentemente o Oscar consegue, mesmo com tantos problemas de representatividade). Ano após ano, álbuns academicamente perfeitos para os jurados vencem outros que são mais inventivos, ou mais de acordo com o inconsciente coletivo (seja musicalmente ou na tradução de inquietações sociais ou pessoais), e este ano, quatro desses indicados representaram isso bem – e a própria premiação tentou captar o “espírito do tempo” com apresentações carregadas de política e statements fortes em discursos.

Mas então, por que o grande vencedor era o álbum mais leve?

(e por que o vencedor no pop field foi justamente o cara que esnobou a premiação por birra? essa é uma pergunta que infelizmente não saberei a resposta)

Sobre a vitória do “24k Magic”, por mais que seja o álbum mais “fraco” entre os indicados, ainda é um dos mais populares, e com um apelo que atravessa gostos musicais pessoais, já que o Bruno é um artista que atinge todas as idades. Mas acima de tudo, é um álbum escapista, que usa de nostalgia dos anos 80 como memória afetiva, uma válvula de escape para uma época mais inocente e sem problemas (como boletos). É um álbum seguro das tensões e problemáticas de um “DAMN.”, “4:44”, “Awaken, My Love!” ou mesmo a inquietação sentimental do “Melodrama”. É um álbum divertido, fresh e agradável como uma brisa; é a hora de esquecer por um instante que o mundo tá a um passo de acabar e dançar, nem que seja só um pouco.

Só que era o ano para falar de tensionamentos. De tomar uma postura. De gritar contra o racismo, machismo, a xenofobia, e dar o prêmio a “Despacito” como A Gravação do Ano (e que visivelmente foi tratado como uma “modinha de verão” e não como single sólido e vibrante, fresh, vivo, moderno, current, que sempre foi). E premiar o “DAMN.” como Álbum do Ano porque Kendrick conseguiu fazer sucesso com um álbum comercial do jeito dele e falando de assuntos sérios como black excellence, black experience e política sem perder o flow.

(afinal de contas, o que mais é necessário para Kendrick ganhar esse treco?)

Em Song, eu não daria o prêmio para “Hotline Suicide”, honestamente. A música é importante, mas ruim, os versos são clichês e a escrita pedestre. Por incrível que pareça, o Grammy está em boas mãos – a estrutura de “That’s What I Like” e a forma como foi construída é brilhante.

***

Mas voltando ao assunto principal, enquanto o Grammy Awards tentou se conectar com o que acontecia numa premiação bem irregular aliás (foram inúmeras apresentações e quase nada de prêmios entregues), falhando miseravelmente em tomar uma postura mais forward-thinking em relação aos vencedores, qual é o problema, afinal de contas?

 

O problema não é individual. É estrutural.

Não é culpa do Bruno Mars (artista aliás que nutro uma profunda admiração e deve ser uma das pessoas mais talentosas a pisar naquele palco). Ou da Adele. Ou dos stans no twitter.

Pensa no seguinte: a situação já estava formada quando definiram os finalistas e haviam dois álbuns de rap pra dividir votos. Dentro dos jurados já existia um viés, e os jurados (que são produtores, executivos, músicos, artistas) representam o microcosmo de toda a indústria musical. Como essa indústria, que a cada dia que passa é SURRADA pelo streaming, ainda está tão fora de contato com a realidade? O rap é o gênero mais ouvido pelos americanos, os artistas que mais bombam no Spotify são rappers; as músicas mais vistas no YouTube são latinas! Por que cargas d’água o Grammy não reflete isso em suas vitórias?

Por mais que o “24k Magic” seja um CD de R&B extremamente consistente, e eu nem me lembro mais da última vez em que um álbum de R&B levou o prêmio, sabemos que muita da exposição do R&B neste ano com o Bruno se dá pelo fato de que, apesar dele não ser branco, ele não é negro (Bruno tem pai portorriquenho e mãe filipina), mas há uma ambiguidade suficiente para que o público geral o leia como negro. Ou seja, a indústria continua dando apoio o R&B se não é feito por negro. As gravadoras ainda tem resistência absurda para cantoras negras de R&B; o R&B sem influência urban ou rap (há muitos puristas que detestam o R&B feito por SZA e Khalid) inexiste de forma crossover se você não se chama Bruno Mars (e tem gente fazendo esse som por aí mas nem as rádios do field dão apoio). E aí? Como dizer que determinados gêneros são rejeitados no Grammy se a própria indústria nega esse apoio?

A própria indústria cria feuds desnecessários entre rappers femininas.

A própria indústria alimenta que só tenham duas cantoras negras na cena.

A própria indústria trata acts latinos como “modinhas” e a música latina como “a outra”. (e quando você descobre que o Bruno Mars teve problemas antes da fama porque queriam colocar ele como artista latino por causa de um sobrneome e ele queria cantar pop, você entende que a indústria ainda pensa como se vivêssemos nos anos 70)

A própria indústria – e seus apoiadores, como veículos de mídia – alimenta feuds femininos no pop, questiona créditos femininos, coloca as artistas em caixinhas, explora seus trabalhos para depois arrotar hipocrisia no twitter (sim, Sony Music!)…

O problema é mais do que um indivíduo, é da indústria musical como um todo, e que ano após ano alimenta falsas esperanças de que finalmente veremos um Grammy com reflexo do que as pessoas realmente curtem, do que está lá fora, e opta pela válvula confiável de escape (tanto na sonoridade quanto na temática ou na imagem), pra dizer “we are soo woke y’all!”.

 

Qual a solução?

É necessário o Kendrick Lamar lançar um CD de rap que não pareça rap pra levar o prêmio (a la OutKast?) Precisam os grandes nomes boicotarem a premiação para alguém fazer alguma coisa? Eu particularmente não tenho respostas manifestas aqui, só estou tentando pensar (e nem li outras thinkpieces nem olhei o twitter que deve estar uma loucura até agora),  e nem acho que o boicote seja a solução – a ausência de acts mais inventivos no Grammy o tornaria mais fora da realidade do que ele é.

Entretanto, espero sinceramente que, qualquer que seja o retorno do público, de articulistas e de outros membros da indústria sobre o prêmio de domingo, os membros do Grammy tenham a decência de ouvir, absorver e tomar decisões não apenas olhando para si, para suas convicções; e sim para o que há lá fora. O Grammy sempre foi o prêmio da indústria para refletir os artistas mais bem sucedidos em diversas esferas, e não o prêmio para a indústria fazer o discurso diante do próprio espelho.

 

Agora é com vocês! Acompanharam a premiação ontem? O que acharam dos vencedores? Fiquem à vontade para comentar!

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Um comentário sobre “Pós-festa: Grammy Awards 2018

  1. Ainda sobre o Grammy…
    No fim você estava certa…
    Creio que esse foi o Grammy que de uma vez por todas desmascara toda a fraqueza, preconceito e conservadorismo existente por trás da indústria. De maneira alguma o maior prêmio da área musical foi coerente se tratando principalmente do big four. Qual a razão de acompanhar e concorrer se já se sabe o seu conservador resultado?
    O Bruno é um ótimo artista, adoro ele, só que na real ele não merecia ter levado nenhum dos 3 principais prêmios, os seus concorrentes eram muito mais merecedores. Esse não é o melhor álbum dele e nem a Era 24K Magic chega aos pés das anteriores. Deixar de premiar artistas como a Lorde e o Kendrick não tem explicação! É, tem sim: indústria…. Se bem que AOTY nos últimos anos trás fortes injustiças, Bey e o próprio Kendrick que o digam.
    Espero que daqui a anos esse seja lembrado como uns dos Grammys mais fraco e incoerente da história…

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