Como chegamos aos indicados a [4] Melhor Álbum Pop

Essa é uma pergunta que mesmo às portas do Grammy, eu não sei bem como responder – especialmente dadas as esnobadas aqui e ali, e a construção do Big Four. Mas de maneira geral, os indicados nesta categoria são os indicados de um período em que o pop prosseguiu sendo uma nota de rodapé no zeitgeist musical, enquanto o rap e o urban dominavam (e ainda dominam) a cena.

Exceto por Ed Sheeran, evidentemente o último pop star que restou (o resto ou flopou ou underperformed ou está no R&B), os outros grandes nomes trouxeram trabalhos cujos resultados não causaram grande impressão. Katy Perry, o pior caso, até trouxe um CD interessante (eu já disse que gosto do “Witness”, só acho a playlist bagunçada e o CD longo, com fillers desnecessários), mas nada rendeu – exceto pelo lead single, “Chained to The Rhythm”. Miley Cyrus flopou forte, mas foi tão anticlimático que nem foi punchline na pop culture. Selena não lançou CD (e quem sabe quando lançará), Demi fez sucesso com “Sorry Not Sorry”, mas isso não se traduziu em indicação…

Lady Gaga na verdade ressuscitou para o grande público com o Superbowl (o que eu acho que será o caso do Timberlake); enquanto Kesha trouxe um dos grandes álbuns do ano que deveria ser mais ouvido – mas a RCA tem uma inabilidade ridícula com divulgação.

No entanto, a questão não é só os materiais dos artistas atuais não serem interessantes de fato em relação à variedade e inquietação do rap/urban atual. O próprio pop parece em meio a uma fase down, pra baixo, com refrões focados mais no grave que no agudo, e pouca diversão. A música pop, mesmo quando é “politizada”, é escapista, divertida e quer te fazer dançar – e nada em 2017 no pop me fez querer dançar (e o sucesso dos ritmos latinos e latino-oriented como “Havana” mostra que as pessoas desejam escapismo de tempos controversos). Tanto que enquanto o rap conseguiu divertir e ser conceitual ao mesmo tempo (onde Kendrick e Migos conviveram em harmonia), o pop quis ser “conceito” – até mesmo com acts que nunca venderam conceito – e agora precisam recorrer ao urban para reencontrar a notoriedade perdida.

Enquanto 2019 não chega com o retorno do pop a momentos mais felizes (o que venho duvidando bastante com o tipo de material que os a-lists vem lançando), hora de conferir o que restou ao Grammy para lidar com o momento no tempo.

Em primeiro lugar, os indicados ao prêmio de Melhor Álbum Pop:

Coldplay – Kaleidoscope EP
Lana Del Rey – Lust for Life
Imagine Dragons – Evolve
Kesha – Rainbow
Lady Gaga – Joanne
Ed Sheeran – ÷

A análise de cada álbum segue com o pulo:

Kaleidoscope (EP).jpgColdplay – Kaleidoscope EP

Em primeiro lugar, o Grammy tá de brincation with me com a inclusão desse EP oportunista e cretininho que tem como uma das faixas “Something Just Like This” ao vivo! SÉRIO???? A Lorde ficou de fora pra entrar ISSO??

Nem pretendo me alongar a discutir os méritos (ou não) de um EP que fez tanto barulho quanto a carreira musical da Natalie La Rose pós “Somebody”, mas basicamente, se a Grã-Bretanha disser que não tem bombas nucleares, é mentira – existe o “Kaleidoscope EP”.

Apesar de pelo menos uma faixa minimamente interessante – “A L I E N S”, uma metáfora conhecida mas bem trabalhada sobre refugiados e imigrantes – o resto do álbum não anima, não cria interesse, não engaja. Um som curioso e que prometia ser bacana com o Big Sean, “Miracles (Someone Special)”, soa cafona e datado – e o rap do Sean tá super deslocado do arranjo.

Isso aqui nem tem chance em relação aos outros indicados – e na verdade, nem deveria estar aqui.

Lana del Rey – Lust for Life

File:Lana Del Rey - Lust for Life.png

Mais uma vez, amores problemáticos, obsessões pessoais, Old Hollywood – todos os elementos que fazem da música de Lana del Rey super cinemática estão em “Lust For Life”. Não é my cup of tea, mas em qualquer award, a Lana sempre terá um dos álbuns mais sólidos da categoria. A artista já havia sido indicada anteriormente por Melhor Álbum Pop em 2014 com o “Paradise EP” – o que curiosamente guarda algumas semelhanças com esse novo lançamento.

Você não terá músicas catchy (acho que só “Lust for Life” consegue se aproximar desse refrão que “pega”), refrões grudentos, mas o corpo geral (que mistura em true Lana fashion baroque pop, pop anos 60, hip hop aqui e ali, o ar onírico de sua voz e composições) é super coeso e interessante de ouvir. Não é o álbum mais forte entre os indicados, mas é o CD de uma artista que tem plena consciência do som que faz e é fiel às próprias referências. E o melhor – sabe vender conceito (que é o grande problema dos pop acts atualmente). Muito legal a Academia ter se lembrado da Lana,  com quem tem uma estranha relação.

E não sei vocês, mas Lana del Rey e The Weeknd são o melhor casal que nunca existiu, a química musical deles é absurda haha

ImagineDragonsEvolve.jpgImagine Dragons – Evolve

Ainda não entendi o motivo pelo qual este álbum está aqui – é um CD de rock gente, e tá no lugar errado! Apesar dos refrões grudentos e pegajosos (a sequência de 1 a 4 tem refrões mais chiclete que o “Joanne” e o “Divide” juntos haha), o lançamento que marcou o retorno do Imagine Dragons ao sucesso crossover tem a velha grandiosidade e grandiloquência dos álbuns do grupo, com uma ou outra inserção eletrônica. Não foi muito amado pela crítica em geral, mas eu curti muito e passei uma semana ouvindo na volta pra casa do trabalho haha

O “Evolve” é bem empolgante (a meiúca com “I’ll Make It Up To You” super anos 80 é o punch necessário pra continuar lutando) mas as letras são bem all over the place, com umas mensagens que até soam corny em retrospectiva; e “Thunder” curiosamente não faz sentido nenhum no ponto em que deixaram no CD.

No entanto, ao contrário dos outros dois indicados, tem pinta de azarão caso haja uma hecatombe e os votantes briguem no meio da decisão sobre a quem dar o prêmio de Melhor Álbum Pop. Mesmo assim, está deslocadíssimo como suposto “pop album”.

Kesha – Rainbow File:Kesha - Rainbow (Official Album Cover).png

De longe o meu favorito entre os seis indicados, tem exatamente os dois elementos que mais me pegaram quando ouvi: sinceridade e coerência. “Rainbow” é um álbum sincero, de quem tem muita coisa pra falar e escolhe as sonoridades que conhece pra fazer isso. Tem verdade nas inserções da Kesha no country pop (a mãe foi compositora country e uma das músicas dela, “Old Flames (Can’t Hold a Candle to You)”, um dueto com Dolly Parton, está na tracklist), no rock, e em todo o contexto pop que é consciente mas também sabe ser divertido e escapista.

A Kesha consegue ser num mesmo CD a party-girl louca e cheia de atitude do passado (como em “Woman” e “Hunt You Down”) quanto a reflexiva de “Praying” e “Learn to Let Go” sem perder as rédeas do álbum. Imagina o Dr. Lucifer não tivesse podado de forma venenosa e cruel esse talento, o que teríamos visto desde o começo da década?

Voz (E QUE VOZ), letras fodas, um álbum pop que faz o essencial – te diverte, te engaja, mas também te faz pensar. Poderia ser fácil a cota pop em AOTY porque faz sentido na narrativa (o bojo de “Rainbow” tem temáticas pessoais importantes e o som puxa pra uma nostalgia sonora), mas não sei até que ponto o primeiro round de votos para o Grammy ter sido tão curtinho (ainda captando as denúncias contra Harvey Weinstein e o começo da popularização do #MeToo) poderia ajudar a Kesha a chegar até o AOTY.

Lady Gaga – JoanneFile:Lady Gaga - Joanne (Official Album Cover).png

Então… Eu deveria estar em algum momento diferente quando ouvi o “Joanne” da primeira vez, porque eu realmente tive uma epifania ouvindo; e depois, para fazer essa resenha, minha reação foi bem distinta. Apesar de ter confiado que o CD tinha chance de ser perene, timeless, ele envelheceu mal pra mim. É um bom álbum pop, mas nada groundbreaking.

Tem umas boas músicas (“Diamond Heart”, “A-YO”, “John Wayne”) e é sempre bom ouvir a Gaga com uma voz forte e com muita coisa orgânica no meio, mas se você quer levar esse CD pra disputar com a turma do AOTY, fica pálido pálido em comparação. Até mesmo a nostalgia sonora parece pouco sincera em relação aos CDs indicados lá que trabalham com essa temática. Quase uma jogada de marketing para fazer rebranding, mas olhando quase um ano depois, quem salvou a era de ser apenas mais uma dentro do pop foi justamente “Million Reasons”, a highlight do CD – e me vi cantando no meio do trabalho, porque o refrão é espetacular (pena que o clipe é PAVOROSO sdds Gaga artista visual).

“Joanne” é um ótimo CD, e dentro das possibilidades desta categoria, é um dos favoritos. Gaga tem serviços prestados em Álbum Pop (com este álbum, são três indicações e uma vitória), é benquista pelos jurados e o álbum tem caráter orgânico e sons nostálgicos que fazem o gosto da Academia. Mas tá bem onde ficou.

Ed Sheeran – ÷File:Divide cover.png

Sabe quando você volta a ouvir um CD e tem mais ou menos a mesma impressão de ruindade da primeira vez? Sou eu com o “Divide” do Ed Sheeran. O álbum, que por alguma razão que jamais entenderei vendeu milhões desde o lançamento, podia ter seguido numa vibe memorialista nostálgica de “Castle on the Hill”, ou a simplicidade de “How Would You Feel”, ou mesmo a ingenuidade de “What Do I Know”, que envelheceu muito mal em 2017-18; mas deve ser um dos CDs mais irregulares do ano a ter chances fortes de ganhar Álbum Pop.

Fillers desnecessários, baladinhas intercambiáveis, uma música em que o Ed Sheeran diz que vai fazer sexo e não soa nada convincente nisso… O “Divide” parece um campo minado: do nada explode uma bomba. Apesar de “Perfect” ter melhorado bastante com o tempo, o resto do CD continua bem ruim. Na verdade, trata-se de um álbum bastante irregular, que basicamente está aqui em Melhor Álbum Pop porque fez sucesso massivo, e não por conta de suas qualidades.

E mesmo que tivesse fôlego pra chegar a AOTY, o CD, all over the place, não se enquadra na narrativa apresentada pelos cinco indicados, que tem alguma conversa ou oposição: seja nos temas pessoais – “Melodrama” e “4:44”; nos temas maiores – “4:44”, “DAMN.”, “Awaken My Love”; ou na própria nostalgia sonora – “Awaken My Love” e “24k”; ou mesmo como o outro “escapista” em oposição aos tensionamentos internos ou externos – “24k” versus o resto, existe algo que une esses cinco indicados. O “Divide” não tem. Agora, se o álbum tivesse um espírito memorialista, nostálgico…

CONCLUSÕES

Quem vai ganhar: neste momento, acho que a vitória vai para o Ed. Vendeu mais, tem o maior hit, mas não é de longe o melhor CD.

Quem eu acho que deveria ganhar: o meu álbum favorito nesta categoria é o da Kesha – é o pop consciente que meio mundo tá tentando fazer e não consegue; mas sem perder o fator diversão. E seria um dos melhores comebacks dos últimos anos.

Dark horse: a própria Kesha é um dark horse né… Mas tem uma pulguinha me dizendo que, se a Academia colocou o Imagine Dragons aqui, é que havia alguma chance deles levarem.

Próxima parada: Grammy Awards! O Oscar da Música que acontece amanhã, e eu estarei acompanhando tudo pelo twitter @DuasTintas, desde a hora do pre-telecast. Vejo vocês por lá!

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2 comentários sobre “Como chegamos aos indicados a [4] Melhor Álbum Pop

  1. Acho ÷ e Joanne muito ruins, poucas faixas se salvam. Se o Ed ganhar vou entender que foi pelo sucesso, acharei injusto, mas já me acostumei com essas escolhas duvidosas. Se Joanne ganhar, vou achar uma vergonha, o álbum é muito wannabe, não passa autenticidade nenhuma.
    Torço pela Lana, mas sei que não tem chance, então que seja a Kesha. Acho que o Ed ganha e não vai ser surpresa. Os outros dois não escutei, mas não acho que tenham chance também.

  2. para mim como para a consciência geral este grammy esta entre
    Lady Gaga: querendo ou não ela foi a primeira a trazer o violão de volta ao pop e fez vender, as 2 milhões de copias do Joanne e as 3 milhões de copias de Million Reasons são a prova disso e sabemos que a academia gosta de dar o grammy para quem se torna a referencia da nova “onda” do pop e este álbum é o Joanne. Ao contrario de você o Joanne envelheceu muito bem para mim e a cada ouvida ele fica melhor (não gostei nem um pouco dele no inicio). no geral acho o Joanne uma escolha segura para o grammy nâo vendeu horrores como o Ed mas tem bons números se o resto do pop for levado em conta, foi o álbum que deu inicio a leve da álbuns country

    Kesha: bom este álbum não vendeu muita mas tem uma qualidade que porra!!! MD, confesso que não gosto da parte mais country-rock do álbum mas as músicas mais pop como a faixa titulo e Praying eu sou um grade fã, voltando aos números o Rainbow não vendeu muito mais de 500.000 e não tem nem uma música no top 10 da hot 100 o que diminuem as chances de vitoria de um álbum muito bom sim, mas a nossa ama kesha não tem vitorias passadas e nem msm indicações o que dificulta, fora que ele deve dividir votos com o Joanne

    Ed: bom as 10 milhões de copias falam por si só, que também são o único motivo dele estar aqui, eu gosto de algumas músicas como Perfect, Castle on the Hill e Dive, mas no geral não acho que é um álbum que mereça um grammy e depois do descaso do Ed com a premiação eu não acho que ele vá ganhar (fora que a academia não gosta dele se não ele estaria no big4)

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