Como chegamos aos indicados a [3] Gravação/Canção do Ano

Eu acompanho Grammy Awards desde 2007 (ano em que as Dixie Chicks fizeram aquele baita comeback com “Not Ready To Make Nice”), mas de uma forma mais consciente a partir de 2011. Nessa época, eu já curtia música observando os charts e resenhas; e por causa desse tempinho assistindo ao Grammy, talvez eu nunca tenha visto uma disputa tão imprevisível como este Big Four de 2018. Honestamente, não me lembro de categorias com tantas possibilidades (e pior, sem favoritos em categorias-chave como Canção do Ano) e com favoritos que são tão diferentes do que se premia usualmente. Não tem um pop puro (que seria cortesia de “Shape of You”, bem ou mal merecedor ao menos de ROTY) – o que mostra em que momento esteve a música pop entre 2016 e 2017; os indicados são de minorias (três negros, três latinos – um deles com ascendência asiática) e o único branco é canadense. As sonoridades – rap, R&B, soul e reggaeton – são fruto dessas minorias e absolutamente representativas do estado da música nesse período. É evidente que o Grammy não virou “woke” do nada (e suspeito que para 2019 voltaremos aos mesmos números de antes, exceto se tivermos um álbum absurdo da Cardi B, a Camila conseguir se manter no topo este ano e a Nicki arrombar a festa), e é importante chamarmos a atenção para as construções de narrativa que foram feitas pra chegar a esse diverso, criativo e muito talentoso grupo de indicados; mas mesmo que muitos reclamem de como chegamos a este corte final de Gravação e Canção do Ano, é inegável que é uma lista respeitável e um reflexo exato do que houve na indústria. A proximidade é real.

Apesar de considerar o lineup de Canção muito light, muito suave (tem música com “mensagem” mas a faixa melhor trabalhada é a do Jay-Z), o fato é que estamos falando mais uma vez de um grupo diverso etnicamente e por idades, sonoridades e influências, o que é um espelho também da sociedade americana e de certa forma, um espelho nosso, tão globalizados e ao mesmo tempo tentando nos identificar com algo, ou alguém. No fim das contas, quem “forçou” ser “too-american” não conseguiu seguir em frente (sim, Lady Gaga), e quem não tinha nenhuma identidade bateu na trave (você mesmo, Ed Sheeran), ficando aqui quem tem alguma conexão com o zeitgeist, seja musical ou cultural.

Neste post, dividido em dois, vou falar um pouco sobre o contexto das indicações a Gravação do Ano (em que a emergência de excelentes músicas e grandes hits amplia o desafio de uma bancada com seus vieses em premiar canções com sonoridades rejeitadas pelo júri conservador) e Canção do Ano (onde a falta de um favorito pode ser a dica para resolver as tensões em Álbum do Ano) e quem são os meus favoritos e dark horses da edição.

É só conferir após o pulo!

Gravação do Ano – o lineup mais “woke” dos últimos anos

“Redbone” – Childish Gambino
“Despacito (Remix)” – Luis Fonsi and Daddy Yankee featuring Justin Bieber
“The Story of O.J.” – Jay-Z
“Humble” – Kendrick Lamar
“24K Magic” – Bruno Mars

Quando falo “woke” não é no sentido pejorativo que a palavra ganhou em muitos espaços da internet nos últimos tempos. É o sentido real, em que o Grammy percebeu que não dava para ficar apartado do que era realmente o som do momento, criando uma narrativa aleatória que só existe na cabeça da Academia. Claro que o próprio zeitgeist musical de 2016-17 ajuda bastante (com a predominância do rap e urban sobre o pop, o crescimento do reggaeton), mas percebe-se uma preocupação em escolher para o corte final o que as pessoas realmente ouvem.

No meio dessa busca pelo equilíbrio, tem erros – “Shape of You”, #1 no YEC e um dos grandes hits do ano, ficou de fora de Gravação, categoria dos hits; enquanto “The Story of O.J” entrou – e ninguém nem pensava que poderia chegar até aqui, porque quem realmente ouviu esse CD do Jay-Z exceto pela família e funcionários do TIDAL (e eu, pra gravar o último vídeo do Drops)? De resto, os indicados aqui representam com louvor o que foi a música pop (de popular e não em relação ao gênero) no período de elegibilidade, e apesar de ser uma lineup all-male (também representando a dominância masculina no ano), é um grupo incrivelmente diverso.

Dentre todos os indicados, duas faixas se destacam entre as favoritas; no entanto, elas são de gêneros raramente celebrados pela Academia; enquanto não há um safe place definido para os jurados se apoiarem este ano.

Hora de conferir cada um deles.

“Redbone”, Childish Gambino (produzido por Childish Gambino e Ludwig Göransson)

A faixa mais fora da caixinha entre os indicados, parece estranhamente futurista usando instrumentos orgânicos e com uma ambientação anos 70. Uma música do caralho do rapper-cantor-ator-blerd favorito do pessoal, chegou a #12 na Billboard, mostrando que mesmo uma faixa que não é for everyone’s tastes (de verdade, não “pra chocar”) tem espaço nos ouvidos do grande público.

A produção é um achado, extremamente bem feita e bem construída. A estrutura da faixa, apesar de tradicional, é moderna, como eu disse, praticamente futurista mesmo retrô. Longe das aspirações pop dos outros indicados, “Redbone” é pura produção sofisticada e realmente atemporal. O problema aqui é que, por ser muito “fora da caixinha” e não ter sido o maior sucesso de todos os tempos (e o Donald Glover não ser um nome sedimentado musicalmente falando), a música fique apenas com uma indicação.

Uma excelente faixa que pelo menos conseguiu uma indicação válida.

 

“Despacito” [Remix] Luis Fonsi & Daddy Yankee feat. Justin Bieber (produzido por Andrés Torres, Mauricio Rengifo e Josh Gudwin)

A música mais “pop” entre os indicados (por incrível que pareça) é um achado de produção. É simples, efetiva, consegue destacar o reggaeton e ser crossover ao mesmo tempo, e torna a faixa ainda mais grudenta. É assustador o quanto a divisão é equilibrada no remix, e como a inserção do Bieber não parece forçada num quadro geral.

Responsável pela terceira invasão latina, não apenas é um triunfo como hit (16 semanas em #1, terminou o ano em #2 no YEC), mas culturamente falando, uniu gregos e troianos numa música cantada majoritariamente em espanhol, que parece universal ao mesmo tempo em que tem a cara da música latina. O remix não tira em nada a identidade da música. E imagina só, num EUA cada vez mais dividido, uma vitória de dois PORTORRIQUENHOS (e um canadense) nessa categoria seria um negócio surreal e histórico.

“Despacito” é um dos favoritos a este prêmio e a única coisa que o separa do Gramofone se chama “academia conservadora”. Não apenas pelos poucos precedentes de música cantada em outra língua que não seja inglês levando (o único é Domenico Modugno com “Nel Blu Dipinto Di Blu (Volare)” em 1958, porque nem GAROTA DE IPANEMA foi em português) , mas é uma música em espanhol, de artistas portorriquenhos, de um som que não foi criado e desenvolvido por americanos. É muita coisa pra essa galera lidar.

 

“The Story of O.J.”, Jay-Z (produzido por No I.D. e Jay-Z)

(olha, alguém colocou o vídeo no YouTube!)

Surpresa! Hov deu um jeito de chegar até aqui com uma das músicas mais legais do “4:44”, “The Story of O.J.”, e que deve ter entrado no lugar de “Shape of You”, suspeito. Porque dentro da lógica de indicarem hits nesta categoria, faria muito mais sentido colocar no lineup o maior hit do ano, segundo a Billboard, do que uma faixa que sequer é single do CD.

Pois bem, mas como a Academia escolheu, prossigamos. A faixa é incrível, de fato – enriquecida pelo impecável sample de Nina Simone, a música flui elegante, jazzística, clássica, trazendo profundidade e peso à temática já complexa apresentada pelo Jay-Z na faixa. É incrível como depois de tantos anos, o rapper ainda continua com “sangue nos olhos” apresentando um material tão convincente e atualizado, sem parecer rap datado e sem graça. A produção é timeless e ajuda a enriquecer ainda mais os versos de “The Story of O.J.”, que tratam de como o negro é visto nos EUA, seus estereótipos e lutas para se empoderar.

Ao contrário de “Humble.”, que é mais moderninho, tem trap, é instantâneo e pop, a faixa do Jay-Z tem um contexto de hip hop tradicional, o que torna a presença dele bem interessante aqui, ao lado de um cara que é um dos mais inventivos no jogo. No entanto, o problema com “O.J.” é que, apesar de ser uma boa música, ela não atende a nenhm requisito para a categoria de Gravação do Ano. Não foi hit – sequer foi single, o que aqui é praticamente um NO para vitória – e entre os indicados, tem gente bem mais interessante que merece a vitória. Fica pra próxima (e quando você lançar o álbum em outras plataformas de stream, Jay-Z).

 

“Humble.”, Kendrick Lamar (produzido por Mike Will Made It e Pluss)

O outro favorito ao prêmio deste ano, é a prova de que o trap está vivo e bem, obrigada. Graças à força da produção do Mike Will Made It e o trabalho intenso do Kendrick, “Humble” não foi apenas um hit e viralizou, gerando a boa e velha conversa cultural que sempre cerca um lançamento do rapper, como foi a prova de que ele sabe fazer música boa e com apelo comercial.

Ao contrário das outras músicas do “DAMN.” e mesmo do “To Pimp a Butterfly”, aqui a produção não é tão cuidadosa (no sentido de sofisticada), mas na eficiência do material surge um apelo pop irresistível que representa tudo aquilo que o Grammy deseja – e de certa forma, é Kendrick fazendo o mais perto possível de música pop nos próprios termos (e não as atrocidades com Maroon 5 e Taylor Swift).

(ouvindo em retrospectiva, “Bad Blood” é horrendo)

É um favorito com cara de winner, mas padece do mesmo problema de “Despacito” – “academia conservadora”. Não há precedente de rap levando em ROTY e o gênero sempre foi tratado com desdém pelo júri. No entanto, entre dois gêneros pouco amados pela Academia, Kendrick pode ter prioridade aqui por muito tentar.

 

“24k Magic”, Bruno Mars (produzido por Shampoo Press & Curl e The Stereotypes )

A cota R&B dos indicados, é um grower, definitivamente. Estranha à primeira ouvida, mas inescapável depois, já virou uma das canções-assinatura do havaiano, graças não apenas à letra quotável (que não é objeto de análise aqui), mas também pela produção repleta de camadas e referências, uma verdadeira viagem ao tempo em direção ao começo dos anos 80, mais precisamente no lado B do R&B.

Um dos tributos à atenção obsessiva aos detalhes de seu criador, é tão calcado em referências, destaque a elementos eletrônicos, talkbox e groove que parece ter vindo diretamente de 1982 e mesmo assim parece atual e fresh. Ao contrário de “Redbone”, que aparentemente usa o passado para ir à frente, “24k Magic” usa o passado como homenagem para eternizar por alguns minutos a possibilidade de se sentir feliz. Uma produção monstruosa que perde força na corrida pro Grammy por duas razões: 1. tem hits maiores; 2. para muitos, parece com “Uptown Funk”, vitória recente do Bruno. Ou seja, figurinha supostamente repetida não completa álbum.

Mas é uma indicação que valoriza e muito a brand do moço como produtor.

 

CONCLUSÕES

Quem vai ganhar: vigi, que dúvida cruel! Acho que o Grammy vai pelo maior hit e dar o prêmio pra “Despacito”.

Quem eu acho que deveria ganhar: vigi, que dúvida cruel!² Todo mundo aqui seria um vencedor digno, mas eu fico na dúvida entre “Despacito” e “Humble”. Trocando em miúdos, foram grandes hits do ano e chegaram em #1.

Dark horse: boa pergunta… temos que trabalhar pela lógica; então o indicado que estaria em terceiro na corrida, mesmo “parecido” com um vencedor recente, é “24k Magic”.


 

Canção do Ano – numa lineup sem favoritos, uma dica para AOTY

“Despacito” – Luis Fonsi & Daddy Yankee ft. Justin Bieber
“4:44” – Jay-Z
“Issues” – Julia Michaels
“1-800-273-8255” – Logic ft. Alessia Cara & Khalid
“That’s What I Like” – Bruno Mars

Indicados e vencedores de Canção do Ano geralmente são músicas que possuem uma certa mensagem ou algo diferencial – seja temática, ou na estrutura da canção (é geralmente um tributo ao compositor, então o foco é em grandes canções com lindos versos). Evidentemente, sempre rolam os indicados e vencedores que são os hits do ano, mas mesmo assim, você sempre vê as lindas baladas (“Killing Me Softly With His Song”, “You’ve Got a Friend”, “A Whole New World”, “My Heart Will Go On”, “Hello”), enquanto recentemente alguns vencedores são faixas que variam em estilo e gênero, mas como estrutura e letra, são impecáveis entre os indicados (apenas “Single Ladies” é a escolha mais bizarra ever de SOTY, mas ok).

Este ano, a lineup é muito light, muito suave (sem baladas, apenas com uma música com alguma temática de “mensagem”); no entanto, apesar de não ter o peso de outros anos, o curioso aqui – e ao mesmo tempo imprevisível – é que estamos diante de uma categoria sem favoritos. O que torna o resultado final uma surpresa, ou um caminho mais curto para descobrir quem leva o prêmio de Álbum do Ano.

Explico melhor a seguir.

“Despacito” – Luis Fonsi & Daddy Yankee ft. Justin Bieber
(compositores: Ramón Ayala Rodríguez, Justin Bieber, Jason Boyd, Erika Ender, Luis Fonsi & Marty James Garton Jr)

Quiero ver bailar tu pelo, quiero ser tu ritmo 
Que le enseñes a mi boca 
Tus lugares favoritos (favorito, favorito, baby)
Déjame sobrepasar tus zonas de peligro 
Hasta provocar tus gritos 
Y que olvides tu apellido

O remix de “Despacito”, com a inclusão dos versos do Bieber em inglês, mantém a mesma sensualidade latina e romance gostosinho da versão original – para reforçar o assustador equilíbrio dessa versão. A letra, que mostra uma relação amorosa com boas doses de sexiness, tem um jeito caliente, mas com uma sutileza e simplicidade que tornam a música extremamente eficiente. E o “des-pa-ci-to” no começo do refrão é o segredo pra esse troço ser catchy as hell.

Apesar do forte da música estar especialmente na produção, é uma letra absurdamente eficiente e bem trabalhada no que se propõe, mas que perde um pouco por se repetir demais dentro da música, e não é nada OOOOH how groundbreaking – especialmente na hora da tradução. Acredito que as dificuldades para uma possível vitória de “Despacito” se concentram em 1. é uma música majoritariamente em espanhol (e o único precedente de vitória é de novo, “Volare”, que ganhou há tanto tempo que meu pai não era nascido); 2. como eu disse, a letra é boa, mas não é exepcional pra levar um prêmio de prestígio como SOTY.

 

“4:44” – Jay-Z (compositores: Shawn Carter & Dion Wilson)

I apologize, our love was one for the ages and I contained us
And all this ratchet shit and we more expansive
Not meant to cry and die alone in these mansions
Or sleep with our back turned
We supposed to vacay ‘til our backs burn
We’re supposed to laugh ‘til our heart stops
And then meet in a space where the dark stop
And let love light the way

A música com menos compositores do lineup, é a famosa faixa em que o Jay-Z pede perdão por ter traído a Beyoncé e quase destruído o casamento dos dois. Excelente estrutura, um rap com forte pegada soul e letra extremamente confessional, continua a linha classuda das faixas do “4:44”, e mostra um Jay-Z extremamente pessoal, confessional, e com uma sinceridade cortante, como poucos na cena.

O lirismo é tão forte que às vezes parece que você está vendo um filme, e é reflexo dos versos incríveis e do arranjo da música, que tem uma vibe retrô anos 70 graças ao sample.  Apesar de no meio do caminho a gente cansar de tanta lavação de roupa suja, é um negócio muito bem feito, bem trabalhado e bem escrito (e ainda por cima, sofrimento e dor de corno em Paris e Roma. Eu fico chorando os boletos não pagos num busão lotado em Salvador).

Apesar de liricamente ser a melhor música da lista (cara, de longe é a melhor música aqui do corte final), o problema com “4:44″(a faixa-título) é que, mais uma vez, é uma música do Jay-Z que não teve apelo algum nos charts (apesar de ter sido lançada como single), enquanto todos os indicados aqui tiveram algum retorno positivo nas paradas. Os vencedores mais recentes foram hits, vencedores dos anos 80 foram hits; então é bem complicado o Hov conseguir algo por aqui.

 

“Issues” – Julia Michaels (compositores: Benny Blanco, Mikkel Storleer Eriksen, Tor Erik Hermansen, Julia Michaels e Justin Drew Tranter)

I’m jealous, I’m overzealous
When I’m down I get real down
When I’m high I don’t come down
But I get angry, baby, believe me
I could love you just like that
And I can leave you just as fast

A típica indicação de compositor – indústria se autocongratulando – de certa forma é um tributo ao estilo de canções que a Julia Michaels e o Justin Tranter lançaram desde 2016: um pop minimalista, cuidadoso, confessional, e bem grudento (e que teve como Selena Gomez um de seus principais vetores). “Issues” é esse minimalismo com perfeição: a batida tem algo up, mas a vibe é “down”, a letra – sobre um relacionamento cheio de tretas porque os dois lados têm problemas (e sabem disso), consegue ser universal e particular. Aliado ao arranjo minimalista, torna-se uma música bem intrigante.

No entanto, o grande problema de “Issues” está nesse “universal”, que ao mesmo tempo que consegue atingir a todos, liricamente se torna genérico. “Issues” acaba se tornando uma pequena grande música com uma ideia que não se aprofunda durante a execução. Que problemas são esses que ambos tem? Não tô querendo que a Julia escreva exatamente qual é o problema, mas todo o objeto da música (os dois lados terem problemas internos que afetam o relacionamento de ambos) incentiva você a imaginar que esses problemas são algo mais perigoso, obscuro, ou mesmo juicy, e não “‘Cause I got issues, but you got ‘em too / So give ‘em all to me and I’ll give mine to you”…

 

“1-800-273-8255” – Logic ft. Alessia Cara & Khalid (compositores: Alessia Caracciolo, Sir Robert Bryson Hall II, Arjun Ivatury, Khalid Robinson e Andrew Taggart)

It’s the very first breath
When your head’s been drowning underwater
And it’s the lightness in the air
When you’re there
Chest to chest with a lover
It’s holding on, though the road’s long
And seeing light in the darkest things
And when you stare at your reflection
Finally knowing who it is
I know that you’ll thank God you did

Antes de mais nada, eu apoio muito que a música pode levar uma mensagem para as pessoas. Através da música, você pode oferecer conforto, carinho, sonhos, uma palavra de afeto, representação; e no caso de “1-800-273-8255”, uma palavra contra pensamentos suicidas. Acho super válido… mas quando é bem feito – o que não é o caso aqui.

Creio que o sucesso da música se deve bastante à mensagem e ao apelo da faixa (além de contar com jovens artistas ascendentes da cena), mas no fim das contas, a música em si (o todo, nem é a letra só) é pavorosa. Eu só tinha ouvido no VMA e fiquei impressionada com a mensagem passada pela performance; mas só agora parei de fato pra prestar atenção na música e… GENTE… que coisa ruim, cafona, genérica (o que são os versos do Logic, ele é o que, o ghost writer de 13 anos da Taylor Swift?), o “Who can relate? Woo!” era pra ser o quê? Tá tudo errado, se o Grammy queria ser “antenado” e atualizado com certeza não era com essa música.

Eu entendo o apelo e a intenção, mas “1-800-273-8255” é clichê demais – parece que pegaram tudo que se fala na mídia sobre depressão e tendências suicidas e colocaram numa música só. Acho que a parte menos cringe é a da Alessia, e olhe lá.

 

“That’s What I Like” – Bruno Mars (compositores: Christopher Brody Brown, James Fauntleroy, Philip Lawrence, Bruno Mars, Ray Charles McCullough II, Jeremy Reeves, Ray Romulus e Jonathan Yip)

Jump in the Cadillac, girl, let’s put some miles on it
Anything you want, just to put a smile on it
You deserve it baby, you deserve it all
And I’m gonna give it to you

Okay, galera, eu ainda me choco que OITO pessoas se juntaram pra escrever essa música. Não tem sample, não tem interpolação; não é uma música imensa de longa e com 1000 viradas a la opera rock. É um R&B anos 90/2000 com pegada new jack swing e uma letra que não é um primor (ponto fraco do “24k Magic”). Só que o grande diferencial de “That’s What I Like” é a estrutura.

A construção dessa música mais uma vez é um tributo às obsessões nostálgicas de um de seus criadores – o ritmo, a letra, a virada do pré-refrão pro refrão, as repetições, como a melodia vai atrás das suas memórias musicais de 20 anos; enfim, como a faixa vai crescendo até o refrão para deixar em suspenso e depois cair bem suavemente na segunda parte do refrão, são os trunfos dessa música que não foi hit por acaso. É grudenta demais e sabe disso.

Apesar de ter OITO compositores (o que não é comum ou recorrente para indicados a Canção do Ano), o negócio de “That’s What I Like” não é só a estrutura cativante – é o peso dos nomes envolvidos e a possibilidade alta de levar o prêmio pela lógica de vitórias no Big Four. Pode ser que aqui esteja o segredo do AOTY (para além de que categoria de álbum de nicho será apresentada na parte televisionada do Grammy), já que segundo as contas, o único prêmio de Big Four que o Bruno Mars não tem (exceto Artista Revelação que não rolou por causa das regras) é o de SOTY (Record por UF, AOTY como produtor no “25”). Ou seja…

CONCLUSÕES

Quem vai ganhar: como eu disse, lógica – numa categoria sem favoritos, se eu tenho um indicado com mais peso aqui no Big Four, e cujo único prêmio que falta é SOTY… acho que “That’s What I Like” leva.

Quem eu acho que deveria ganhar: musicalmente falando e em estrutura de canção? “4:44”. Eu fiquei bem surpresa com o álbum no geral, mas essa música é absurda de foda.

Dark horse: não me surpreenderia se o Grammy decidisse meter o louco e dar o prêmio pra “Despacito”. É eficiente, catchy e uma ótima música.

 

O próximo post (e último entre os posts escritos) é o de Melhor Álbum Pop, em que veremos disputas interessantes para ganhar o que sobrou dentro da cota pop. Até lá!

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7 comentários sobre “Como chegamos aos indicados a [3] Gravação/Canção do Ano

  1. Esse introdução é perfeita, reflete exatamente o contexto que levou aos indicados desse Grammy.👏👏👏
    Me parece que você achou justo e coerente o corte final de ROTY. E quanto a canção? Achou justa a lista?
    Fiquei curioso pra saber a sua. Please Marina, quais seriam as suas músicas pra essas categorias?
    ( Me parece que falta algo em SOTY).

    • Já em SOTY… Eu acho que a Lorde podia entrar aqui. Ela tem uma vitória nessa categoria e foi ignorada??? Eu entendo o contexto das indicações mas achei o corte final fraco. A SZA podia entrar pra compor a cota R&B no lugar de TWIL, Lorde podia entrar no lugar de Issues; e Gaga no corte final tb. Hoje eu até entendo Despacito aí haha

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