Como chegamos aos indicados a… [2] Performance Pop Duo/Grupo

É inegável que a categoria de Performance Pop Duo/Grupo, desde a junção dos fields em 2012, se tornou uma das mais disputadas e uma das mais propensas a vitórias dos grandes hits dentro do período de elegibilidade. Especialmente nesta década, em que parcerias se tornaram sucessos mais confiáveis que faixas solo (cantores com rappers, DJs com cantores), levar esse prêmio acabou se tornando a oportunidade de ouro para acts pouco amados pelo Grammy terem a chance de ter um gramofone pra chamar de seu – imagina só, Iggy Azealia, LMFAO e Jessie J já foram indicados por aqui.

Este ano, apesar dos grandes hits serem, além de faixas solo, contribuições de artistas de urban/hip hop, tivemos talvez o grande hit do ano e um acontecimento cultural que foi uma colaboração. Um remix cantado majoritariamente em espanhol, com trechos em inglês de um artista anglo-saxônico, que se tornou coqueluche mundial e nos EUA, igualou um recorde até então imbatível da Billboard de 16 semanas em #1 e talvez seja o símbolo desafiador de um ano em que os latinos sofreram com o preconceito e o desprezo de Trump, e o retorno veio em grande força no entretenimento – “Despacito” é mais que um hit monstruoso. Podemos chamar até de um ato político.

Uma vitória aqui é, talvez, meio caminho andado para voos muito maiores, mais precisamente em Gravação do Ano. No entanto, a dúvida que persiste é: os votantes do Grammy vão se restringir a lembrar “Despacito” como indicação ou premiar com um gramofone?

Antes de responder a essa e outras perguntas, seguem os indicados:

“Something Just Like This” – The Chainsmokers & Coldplay
“Despacito” – Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber
“Thunder” – Imagine Dragons
“Feel It Still” – Portugal. The Man
“Stay” – Zedd feat. Alessia Cara

A análise vai no pulo!

“Something Just Like This” – The Chainsmokers & Coldplay

Eu odeio dizer isso, mas confesso que acho essa música bem legal. Não me apedrejem, mas acho “Something Just Like This” uma sólida produção pop e consegue representar bem essa EDM-orgânica dos Fumacinhas de uma forma menos irritante que “Closer”. E é bem a cara desse período que passou. Talvez seja a melhor música dos Chainsmokers e a única coisa em que o Coldplay deveria ser indicado.

O negócio é que essas colaborações de DJs e artistas, especialmente com a sonoridade meio blended (não é farofão, mas não é aquele pop puro), são meio confusas por ficar sempre no meio termo entre pop e EDM, mas a indicação tá no lugar certo, e se pensarmos que esse som realmente foi muito característico e reproduzido entre 2016-17 (oi Gaga, tudo bem?), faz bastante sentido uma vitória dos Chainsmokers (que tem em casa Grammy, aliás) – e digo isso com muita dor no coração.

No entanto, tem uma “Despacito” no meio do caminho – uma verdadeira força cultural que fez mais sucesso que todos os indicados e ajudou em outro boom que vem crescendo gradativamente neste segundo semestre  (a terceira invasão latina), e sinceramente, uma música bem melhor.

 

 

“Despacito” – Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber

Senhores, nosso favorito! Como já explicado, “Despacito” é uma força musical e cultural poderosíssima, especialmente em tempos de Trump – uma música majoritariamente cantada em espanhol reinando no Hot 100 por 16 semanas, estabelecendo o reggaeton como o respiro criativo da música pop latina (e geral indo atrás), assim como ajudou a impulsionar o boom dos vídeos latinos no YouTube e estabelecendo o que podemos chamar de “terceira invasão latina” (a primeira com o Miami Sound Machine e a Gloria Estefan + Menudos; a segunda no final da década de 90 com Ricky Martin, J-Lo, Enrique Iglesias e meio mundo colocando violão latino nas músicas – tendo como auge os Grammys do Santana; e agora a terceira leva, impulsionada pelo reggaeton e a força da imigração latina nos EUA).

Para além de estar bem fincada no zeitgeist, a música em si é fresh e gostosíssima, e não enjoa, curiosamente. Justin Bieber, apesar de não saber uma palavra em espanhol, coube muito bem na faixa (mesmo que infelizmente fosse necessária a presença dele pra “Despacito” ter o boost final para o topo dos charts), e a divisão entre ele, Luis Fonsi e Daddy Yankee ficou impecável, sem um superar o outro dentro da faixa.

Em resumo: monster hit (eu já disse 16 semanas em #1?), musicalmente e culturalmente relevante e uma força musical bem produzida e dividida como colaboração pop, uma vitória seria a prova e o reforço de que a música latina é um caminho de sucesso dentro do mainstream anglo-saxônico.

 

“Thunder” – Imagine Dragons

Imagine Dragons does pop – ao menos aqui, afinal de contas, “Thunder” é de fato a música mais pop do “Evolve” (que não é pop nem aqui nem na China, e só as deidades em que você acredita podem explicar o motivo por trás deles terem submetido o álbum no pop field), e faz sentido na categoria. É grudenta, moderna, com toques eletrônicos e vibrante.

Outro sucesso pra conta da banda, é a prova do retorno à forma do ID, após serem quase um “one album wonder”. Apesar das críticas negativas ao CD, eles conseguiram trazer de volta aquele ar épico do primeiro CD, mas com menos “percussão” e mais sintetizadores e instrumentos eletrônicos – e mesmo sendo a faixa menos “épica” do CD, “Thunder” tem o espírito icônico do resto do álbum.

Com um peak de #4 na Billboard, o Imagine Dragons já tem Grammy em casa (por Performance Rock) e quatro indicações. Serviços prestados que podem indicar azarão, caso ocorra uma hecatombe e Fonsi/Yankee/Bieber não levem.

 

“Feel It Still” – Portugal. The Man

Não importa o ano – sempre tem que ter a banda indie que surge do nada e emplaca uma música que chega ao top 10 garantindo uma ou duas indicações ao Grammy. A Academia curte, muita gente finalmente presta atenção ao grupo, e os charts dão aquela oxigenada. A bola da vez é a banda americana de rock Portugal. The Man e sua “Feel it Still”, que deve ter como maior charme  a interpolação com “Please Mr. Postman” das Marvelettes.

A música tem uma vibe bem anos 60, retrô, meio trilha sonora de filme do Tarantino, e é de longe um corpo estranho aqui entre os indicados, já que não é parte de nenhuma tendência, não é um pop acessível nem uma faixa viral. “Feel It Still” é uma música super bacana, com excelente produção (e que merecia sorte melhor até mesmo lá no General Field) e um clima decididamente atemporal – podia hitar em 2017, 2018 ou 2011.

No entanto, de todos os indicados, é o menos propenso a levar por por 1. não ser uma música que realmente foi ubíqua em relação à concorrência (é só ver o quanto um indicado a Pop Performance por Duo/Grupo precisa ser aquela música que no mínimo esteve na boca do povo, fizeram parte da conversa cultural, ou foram de algum grupo/dupla que teve alta exposição no ano – ver “Stressed Out”, “Get Lucky”, “Uptown Funk”, “Somebody that I Used to Know”); 2. a banda ser altamente desconhecida do grande público (se fosse um monster hit, teria mais chances; ou se a música tivesse associação com um act famoso – ver “Say Something”); 3. os outros indicados são mais fortes e tem serviço prestado. Mas é uma nomination bem-vinda.

 

“Stay” – Zedd feat. Alessia Cara

Outra música na linha “DJ x artista solo fazendo contribuição mais pop que EDM” (que curiosamente foi uma das trends mais bombadas do ano passado, dando exposição ao DJ e à cantora – na maioria das vezes era uma mulher – e ganhando uma porrada de streams no processo), é menos “pop” que “Something Just Like This”; mas ao mesmo tempo, essa colaboração do Zedd com a Alessia Cara também não é tãão EDM – a gente pode chamar de eletropop (mesmo não sendo aquela encarnação de 2010-12) que não soa esquisito.

Oras, “Stay” tem break, efeitinhos de voz, mas não é uma faixa com a batida marcada – e ainda tem uma vibe tropical house (um pouco too late to the party, mas ok) no pré-refrão e no refrão. Uma faixa cativante que se garante com a interpretação sincera da Alessia – e esse clima jovial altamente millennial que é a cara de 2017; mas sinceramente, não entendi bem a indicação tendo na lista de músicas submetidas uma “I Feel it Coming” com a brand do Daft Punk.

Pode ser que tenha a ver com a própria indicação da Alessia lá em BNA e em Song of the Year, além dos próprios “serviços prestados” do Zedd no Grammy (ele tem vitória em Dance Recording). Mas a justificativa ainda me parece meio fraca. Mesmo assim, é uma indicação interessante, mas considerando a envergadura dos outros candidatos, não vai seguir muito em frente.

 

CONCLUSÕES: 

Quem vai ganhar? Acho que esse pode ser o primeiro (e não apenas único) Grammy de “Despacito”.

Quem deveria ganhar? O maior sucesso e a música mais forte, tanto como música em si quanto como elemento dominante da conversa cultural.

Dark horse: Não duvido nada de que o Imagine Dragons possa ser uma surpresa. São benquistos pela Academia e têm indicação em outra categoria do pop field.

A próxima análise de indicados será em dose dupla – vamos falar de Gravação e Canção do Ano, com todas as problemáticas e desafios em um, e a total falta de favoritos no outro. Até lá!

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