Esquenta para o Grammy [2]

Hora de prosseguir com o esquenta do Grammy 2018, já que enquanto não sabemos quem fez o corte final, vale a pena celebrar vencedores de anos anteriores e entender um pouco sobre o contexto dessas vitórias (que de fato, é o segredo pra entender por que a Academia toma ou não determinadas decisões).

Desta vez, os insights se concentram na categoria de Gravação do Ano, uma das mais prestigiadas do Grammy, fazendo parte do General Field (além de Canção do Ano, Artista Revelação e Álbum do Ano). O award que premia hits e grandes momentos da música um histórico bem interessante de clássicos, polêmicas, escolhas seguras ou consagradas, a depender da época ou da visão de quem analisava o Grammy naquela época.

Como sempre, a viagem no tempo começa em 1980 e segue até 2017, fazendo deste post uma leitura de fôlego. Respire fundo e acompanhe depois do pulo!

*lembrando sempre: este prêmio é dado ao artista, produtor, o rapaz da masterização engenheiro de som e mixador. Antigamente, o gramofone só ficava na mão do produtor e do artista.

Década de 80 – As instalações do Mainstream

(quando os clássicos formativos do pop atual foram celebrados com uma vitória no general field)

Resultado de imagem para the doobie brothers

1980

The Doobie Brothers “What a Fool Believes” – vencedora (produzida por Ted Templeman)
“After the Love Has Gone” – Earth, Wind & Fire
“I Will Survive” – Gloria Gaynor
“The Gambler” – Kenny Rogers
“You Don’t Bring Me Flowers” – Barbra Streisand & Neil Diamond

Essa eu garanto que o teu pai conhece, e bombava na Antena 1 ou qualquer rádio adulta por aí: os Doobie Brothers, cujo lead no período do auge era o Michael McDonald, eram uma banda de rock que fez bastante barulho nos anos 70 e tiveram um grande momento com esse clássico do soft rock, “What A Fool Believes”, que foi #1 na Billboard em 1979 e merecidamente conseguiu emplacar indicações a gravação e canção do ano (ganhando as duas) no Grammy de 1980. Uma vitória em Gravação irrepreensível e bem de acordo com os desejos da Academia – WAFB foi uma das poucas canções que não eram disco a chegarem ao topo das paradas americanas, era um som de fácil digestão e no final dos anos 70/início dos 80, o tipo exato de som que os Doobie Brothers (e outro carinha que será citado daqui a pouco) faziam era bem sucedido (o chamado yacht rock, que era esse soft rock melódico e pouco agressivo, quase middle-of-the road music, que não se faz hoje em dia). Ou seja, Grammy na mão.

Recomendações: em 1980 a disco não era mais a mesma coisa e já vivia a suprema decadência, mas ainda deu tempo para Gloria Gaynor emplacar “I Will Survive” entre os indicados a Gravação do Ano.  A faixa ainda levou o prêmio de Melhor Gravação Disco (o único dado, já que no ano seguinte a categoria foi extinta), mas caso a disco ainda estivesse bombando, seria uma natural vencedora por aqui. Outro #1 na Billboard, é uma música que se tornou hino e não pereceu com o tempo.

1981

Christopher Cross “Sailing” – vencedora (produzida por Michael Omartian) 
“The Rose” – Bette Midler
“Lady” – Kenny Rogers
“Theme from New York, New York” – Frank Sinatra
“Woman in Love” – Barbra Streisand

Quem acompanha o blog desde bastante tempo deve saber sobre Christopher Cross (eu falei sobre a limpa que ele fez no Grammy de ’81 há alguns esquentas atrás), mas essencialmente, o rapaz levou pra casa o Big Four e mais um à sua escolha no ano do debut. Adele e Sam Smith bateram solenemente na trave.

“Sailing” é um clássico do rapaz que levou os prêmios de Gravação e Canção do Ano (sim, é comum a mesma música levar os dois prêmios, mas não é padrão); uma faixa de soft rock que representou muito bem o yacht rock e é considerado parte de um dos álbuns mais importantes do soft rock de todos os tempos (recomendo o self-titled, é bem gostosinho de ouvir). Podemos considerar que a vitória dessa faixa, que chegou ao primeiro lugar nos charts americanos, é a continuidade do reconhecimento de um estilo aparentemente querido pela Academia; além de ser a valorização de um cantor e compositor profundamente ligado ao material – algo que os jurados sempre apreciam.

Recomendações: eu estava pronta pra falar mais uma vez sobre a Bette Midler quando pesquisei com calma wtf o Sinatra tá fazendo nessa categoria com uma música “antiga” quando na verdade o clássico “Theme From New York, New York” era trilha sonora do filme de mesmo nome e foi cantado primeiro pela Liza Minelli em 1977!! Então pouco tempo depois o Sinatra regravou a faixa e a tornou dele, conseguindo um #32 no Hot 100, o último top 40 da lenda. Estou chocada em como a música é mais nova do que eu pensava haha

Resultado de imagem para kim carnes 19821982

Kim Carnes “Bette Davis Eyes” – vencedora (produzido por Val Garay)
“Arthur’s Theme (Best That You Can Do)” – Christopher Cross
“(Just Like) Starting Over” – John Lennon
“Endless Love” – Diana Ross and Lionel Richie
“Just the Two of Us” – Grover Washington, Jr. with Bill Withers

O maior hit de 1981 dá as caras aqui na categoria de Gravação do Ano (sim, é padrão os vencedores serem grandes hits no período de elegibilidade). Com nove semanas em #1 na Billboard, “Bette Davis Eyes” da Kim Carnes já começa a formar as bases do som mais sintético que passaria a dominar as rádios na década, com sintetizadores e uma vibe new wave e rock ‘n roll potencializada pela voz rouca da Kim Carnes. A música ainda levou o prêmio de Canção do Ano e é, sem dúvida nenhuma, um dos clássicos dos anos 80.

Recomendações: enquanto Christopher Cross says hello com sua faixa oscarizada, gostaria de deixar registrado que essa lineup é absolutamente espetacular – uma das melhores da década (apesar da faixa do Lennon ser a mais esquisita do grupo) mas uma das menos celebradas (a de 84, por exemplo, é meu sonho de princesa, e reverenciadíssima). Por isso, vale a pena mencionar essa pérola do R&B, “Just The Two of Us“, por Grover Washington Jr. e Bill Withers. Washington era um saxofonista que nos anos 70 trouxe uma série de álbuns aclamados dentro do jazz, soul e R&B, com uma pegada easy listening. Elementos que em “Just The Two Of Us”, mesclados com a voz profunda de Bill Withers só tornaram a música um clássico. Uma delícia de ouvir.

 

Resultado de imagem para toto 19821983

Toto “Rosanna” – vencedora (produzida por Toto)
“Steppin’ Out” by Joe Jackson
“Ebony and Ivory” by Paul McCartney andStevie Wonder
“Always on My Mind” by Willie Nelson
“Chariots of Fire” by Vangelis

Hora de mais uma limpa no Grammy, e mantendo a linha soft rock dos vencedores anteriores: desta vez é a banda Toto, que levou o prêmio de Gravação do Ano por “Rosanna”, que chegou à segunda posição na Billboard Hot 100 por cinco semanas consecutivas (“Thinking Out Loud” e “Exhale”, vocês não estão sozinhos!). Mesmo tendo uma faixa instrumental entre as indicadas, é a faixa com um nível de sofisticação e viradas dentro da faixa que sem uma produção forte por trás (da própria banda) viraria uma confusão. O resultado? A banda levou esse prêmio e mais cinco Grammys para casa, incluindo o de Produtor do Ano.

Curiosidade: ao invés do Toto sair direto em turnê pra aproveitar o sucesso do CD, “Toto IV”, eles deram uma atrasada na tour pra colaborar no álbum do Chicago e ajudar na produção de um cdzinho chamado “Thriller”. Velho, eu amo os anos 80.

Recomendações: quando eu disse que havia uma faixa instrumental no álbum, não estava mentindo -trata-se de “Chariots of Fire“, trilha sonora do filme de mesmo nome que foi indicado a vários Oscars em 1982. A música, que é super conhecida como trilha sonora de momentos marcantes no esporte, chegou ao primeiro lugar nas paradas naquele ano, o que é a prova de que realmente os anos 80 eram um caso a se pensar. Aliás, o filme (em português “Carruagens de Fogo”) ganhou quatro Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora para o Vangelis.

 

Resultado de imagem para michael jackson 19841984

Michael Jackson “Beat It” – vencedora (produzida por Michael Jackson & Quincy Jones)
“Flashdance… What a Feeling” – Irene Cara
“Every Breath You Take” – The Police
“All Night Long (All Night)” – Lionel Richie
“Maniac” – Michael Sembello

O Grammy de 1984 (relativo ao período de elegibilidade entre Outubro de ’82 e Setembro de ’83) contemplou um dos períodos musicais mais frutíferos da história, com grandes álbuns e artistas lançando trabalhos espetaculares. Nessa lineup que é um sonho de princesa para muitos acts atuais (quem não queria ter um clássico desses na sua discografia?), “Beat It” é um verdadeiro estrondo. É Michael Jackson fazendo rock ‘n roll sem ser middle-of-the-road, e sim algo agressivo in your face, com direito a solo de guitarra de Eddie Van Halen, e um encontro entre o pop e o rock que daria espaço para outros crossovers em gêneros que nem se aproximavam na época.

Um clássico instantâneo, foi #1 nos charts americanos e ainda levou o prêmio de Melhor Performance Masculina de Rock no mesmo Grammy. E o Michael nem tinha interesse em fazer rock, imagina se curtisse…

Recomendações: imagina ter que selecionar uma música desse grupo histórico de indicados? Só tem músicas sólidas e atemporais, como o clássico stalker do The Police; as dance cuts memoráveis “What a Feeling” e “Maniac” e o pop despretensioso de Lionel Richie.  Uma lineup que é quase uma miniaula de música ❤

 

1985

Tina Turner “What’s Love Got to Do with It” – vencedora (produzida por Terry Britten) 
“Hard Habit to Break” by Chicago
“Girls Just Want to Have Fun” by Cyndi Lauper
“The Heart of Rock & Roll” by Huey Lewis and the News
“Dancing in the Dark” by Bruce Springsteen

Tina Turner fez A LIMPA com o “Private Dancer”, e como já falamos no post anterior do esquenta, ela ganhou por “What’s Love Got to Do With It” em Performance Pop Feminina, mas a música, como sabemos, foi um dos grandes momentos daquele ano: um pop com apelo crossover, não apenas dedicado aos fãs da rainha desde os tempos do Ike & Tina, e a letra que tinha tudo a ver com ela, mas sem ter sido escrita pela Tina. O resultado foi o prêmio de Gravação do Ano – e Canção, combando o duo perfeito de uma das grandes canções da década.

Recomendações: outra lineup bem forte, mostrando o porquê dos anos 80 até hoje serem reverenciados, vale ressaltar a presença de “Girls Just Wanna Have Fun” da Cyndi Lauper, quando a Cyndi era uma artista com apelo de público jovem (e considerando que música jovem era rejeitadíssima pela Academia na época).

Resultado de imagem para we are the world 19851986

USA for Africa “We Are the World” – vencedora (produzida por Quincy Jones)
“Money for Nothing” –  Dire Straits
“The Boys of Summer” – Don Henley
“The Power of Love” – Huey Lewis and the News
“Born in the U.S.A.” – Bruce Springsteen

Canta comigo: “we are the world, we are the children…” – talvez uma das músicas mais famosas de todos os tempos, “We Are the World” ainda é o símbolo de música com objetivo de ajudar para a caridade que realmente recebeu apoio do público e foi massivo. Composta por Michael Jackson e Lionel Richie e produzida por Quincy Jones (vocês já devem saber que esse homem é uma lenda viva), a música tinha como objetivo ser um chamariz para o dinheiro das vendas ser destinado a ajudar na diminuição da fome na África, especificamente na Etiópia. Para isso, um supergrupo de astros da época foi chamado para a iniciativa, até hoje não superado – MJ, Lionel, Stevie Wonder, Ray Charles, Bob Dylan, Cyndi Lauper, Dionne Warwick, Paul Simon, Kenny Rodgers, Willie Nelson, Huey Lewis, Daryl Hall, Tina Turner, Bruce Springsteen (e eu nem citei todos)…

Superpopular entre ouvintes mais novos e mais velhos – e rejeitadíssima pelo público roqueiro por motivos diversos (uns plausíveis e outros bem bobos) – “We Are The World” cumpriu a missão de caridade, conseguiu um #1 na Billboard Hot 100, uma vitória acachapante no Grammy (foi literalmente a música do ano) e ainda ajudou a arrecadar milhões de dólares para a causa (ao todo, o projeto USA For Africa arrecadou 10 milhões e 800 mil dólares; a maioria desse valor vindo das vendas da música).

Recomendações: curiosamente, dois dos indicados a Gravação do Ano foram solistas em “We Are the World” – Bruce Springsteen e Huey Lewis (do Huey Lewis and the News). Este último entrou com uma das músicas mais famosas do ano, “The Power of Love“, trilha sonora do primeiro filme da franquia “De Volta Para o Futuro”, indicada ao Oscar de Melhor Canção Original e um clássico inesquecível do cinema.

1987

Steve Winwood “Higher Love” – vencedora (produced by Russ Titelman & Steve Winwood) Resultado de imagem para Steve Winwood 1987
“Sledgehammer” – Peter Gabriel
“Greatest Love of All” – Whitney Houston
“Addicted to Love” – Robert Palmer
“That’s What Friends Are For” – Dionne Warwick & Friends

Depois de canções decididamente grandiloquentes e até hiperbólicas vencendo em Gravação do Ano, parece que a Academia optou por uma linha mais discreta, mas não menos incrível, com a vitória de Steve Winwood com “Higher Love”. Mantendo a tradição dos hits levando ROTY, a faixa tem uma vibe R&B super gostosinha, com linha de baixo groovadinha e as bem-vindas adições da guitarra de Nile Rodgers e os vocais femininos de Chaka Khan.

De certa forma, até fez sentido esse retorno à forma “pop adulta” e menos crossover/grandiosa do Grammy, considerando os indicados em outras categorias serem artistas mais experientes e consagrados como Paul Simon, Barbra Streisend e Dionne Warwick. E Winwood, um artista com longa carreira solo após participação em várias bandas na Inglaterra, terra natal, é um vencedor bem interessante aqui – e faz bastante sentido.

Recomendações: dentre essa lineup diversa, um vencedor alternativo poderia ser “Sledgehammer“, do Peter Gabriel. Numa vibe mais soul music e funkeada que o R&B do Winwood, é uma produção super elétrica, vibrante e dançante, que consegue ser mais timeless que “Higher Love” (HL fica até datada quando você ouve as duas juntas). Mas ele não deve ter ficado triste, já que levou nove VMAs em 1987 pelo vídeo da música, até hoje considerado um dos melhores já produzidos de todos os tempos.

Resultado de imagem para paul simon 19881988

Paul Simon “Graceland” (produzido por Paul Simon)
“La Bamba” – Los Lobos
“I Still Haven’t Found What I’m Looking For” – U2
“Luka” – Suzanne Vega
“Back in the High Life Again” – Steve Winwood

Essa vitória a gente coloca na conta das exceções porque o álbum do Paul Simon de mesmo nome, vencedor do prêmio de Álbum do Ano, foi considerado o comeback do artista após uma década de flops na carreira e o fim do casamento com a Carrie Fisher (RIP). É tão exceção que a música, “Graceland”, foi até 2009 a faixa de pior desempenho nos charts a vencer Gravação do Ano (o peak foi #81), reforçando o padrão de vitórias na categoria intrinsecamente associado a hits.

O mais bizarro nestas vitórias do Paul Simon é que o álbum venceu álbum do ano na premiação anterior; e uma faixa do CD levou em ROTY no ano seguinte.

Recomendações: na iminência do Paul Simon não ter feito seu comeback, a vitória em Gravação do Ano ficaria nas lógicas mãos do U2, que foram os donos do Álbum do Ano em 1988 com o “The Joshua Tree”, CD que catapultou a banda irlandesa para a categoria de herois do rock. “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” foi aclamada pelos críticos e ficou em primeiro lugar na Billboard. Simples assim.

1989

Bobby McFerrin “Don’t Worry, Be Happy” – vencedora (produzida por Linda Goldstein)Imagem relacionada
“Giving You the Best That I Got” – Anita Baker
“Fast Car” – Tracy Chapman
“Man in the Mirror” – Michael Jackson
“Roll With It” – Steve Winwood

Logo logo vocês perceberão um padrão aqui nos vitoriosos de Gravação do Ano, que reproduzem de certa forma o que acontece no mundo musical. Os nomes dominantes do começo da década e suas músicas grandiloquentes não dão as caras no final da década (apesar da presença solitária do MJ aqui), seja por terem flopado, ou por não terem trazido um material interessante. Ao mesmo tempo, a gente sabe que a Academia tem um sério problema de falta de contato com o mundo real, preferindo versões “safe” do que toca nas rádios (e se pensarmos que o rap e o metal eram fenômenos nesse período, dá o que pensar), ou seja, será que realmente todo o landscape musical da época foi coberto pelos jurados?

Mas não é o caso de “Don’t Worry, Be Happy”, o maior sucesso de um cantor de jazz e maestro chamado Bobby McFerrin (talvez o único sucesso, mas ele não tem uma carreira típica de pop acts pra gente chamar de “one hit wonder”), que chegou ao primeiro lugar na Billboard e ficou duas semanas por lá. A primeira música à capela a chegar ao topo – sim, os instrumentos que você ouve na verdade são sons feitos pelo próprio McFerrin AAAAAAA EU TÔ PASSADA – também levou Canção do Ano (né), mas o que é interessante é que aqui, a genialidade da produção é fazer com que soe real que esses sons todos que você ouve são instrumentos, então kudos à Linda Goldstein por essa proeza.

(uma das vitórias mais merecidas que eu já vi na vida)

Recomendações: a linda da Anita Baker, com os vocais mais elegantes do R&B/soul que você terá a chance de ouvir, tornando toda e qualquer canção um desafio para os coitados que ousarem fazer cover. “Giving You the Best That I Got” é um tiro.

Década de 90 – Recuo estratégico

(a fraude do Milli Vanilli no Grammy de 1990 fez com que a Academia recuasse ainda mais para soluções conservadoras e safe para se manter relevante – mas o pop toma tudo de assalto outra vez)

Imagem relacionada1990

Bette Midler “Wind Beneath My Wings” – vencedora (produzida por Arif Mardin)
“The End of the Innocence” – Don Henley
“She Drives Me Crazy” – Fine Young Cannibals
“We Didn’t Start the Fire” – Billy Joel
“The Living Years” – Mike + The Mechanics

Outro comeback, desta vez da Bette Midler, com uma balada daquelas bem sofridas – “Wind Beneath My Wings” – que chegou ao #1 na Billboard e conseguiu os prêmios de Gravação e Canção do Ano. A música foi trilha sonora de um filme estrelado pela própria Bette, “Amigas para Sempre”, que foi um sucesso absurdo nos cinemas – fechando um retorno bem sucedido da diva aos charts e mais um momento de auge na carreira de atriz. No entanto, diferentemente do comeback do Paul Simon, aqui a música foi um hit e a sonoridade, mesmo sendo uma balada sofrida, ainda tinha a ver com o retorno à forma do Grammy, com acts de pop adulto e artistas com longo tempo de carreira.

Recomendações: “She Drives Me Crazy” é uma música pop com vários elementos dance do grupo britânico Fine Young Cannibals, que também chegou ao #1 na Billboard; mas ao contrário da concorrência, a vibe da música é mais uptempo, vibrante e de acordo com a sonoridade do momento (mesmo que hoje soe datadíssima). Entre os indicados, é a faixa com mais cara de current, e eu garanto que você vai reconhecer a música na hora quando ouvir a intro 😉

1991

Phil Collins “Another Day in Paradise” – vencedora (produzida por Hugh Padgham & Phil Collins)Resultado de imagem para phil collins 1991
“Vision of Love” – Mariah Carey
“U Can’t Touch This” – MC Hammer
“From a Distance” – Bette Midler
“Nothing Compares 2 U” – Sinéad O’Connor

Como vocês devem ter lido no começo desse intertítulo, no Grammy de 1990 o duo Milli Vanilli foi escolhido como Artista Revelação; mas teve de entregar o gramofone porque SURPRESA eles não cantavam em nenhuma das faixas do debut. Por conta da trucagem, o Grammy se retraiu em acts mais modernos e current e decidiu focar em premiar acts famosos e confiáveis da cena ou novos acts que atingissem o nível de “relevância” que a Academia ansiava.

Se pelo menos a safe choice for um hit monstruoso de um act consagrado como Phil Collins, ótimo. “Another Day in Paradise” foi o último hit do britânico a chegar a #1 no Billboard Hot 100, o último #1 dos anos 80 e como ficou no topo por quatro semanas, é considerada também um hit dos anos 90 (a prova indelével de que eu também tô ficando velha). Mas num ano tão diverso musicalmente quanto 1990, é bem “safe choice” mesmo pra Academia.

Recomendações: se fôssemos pensar em hit + aclamação crítica, o natural vencedor seria “Nothing Compares 2 U” da Sinéad O’Connor. Mas eu não tô aqui pra ser fria, e sim pra destacar minha favorita pessoal que foi mais hit que todas essas músicas juntas e só chegou à #8 no Hot 100 – “U Can’t Touch This” AMÉM MC HAMMER SIM Porque essa foi a primeira música de rap a ser indicada ao Grammy de Produção do Ano – o que é um absurdo porque desde meados dos anos 80 o hip hop já vinha mostrando força com o N.W.A, LL Cool J., Ice-T, A Tribe Called Quest; mas o x da questão é que MC Hammer foi um dos caras que colocou o som no mainstream. E se ele não tivesse perdido todo o dinheiro que ganhou com “U Can’t Touch This”, podia ter aproveitado para o resto da vida os residuais da canção; afinal de contas, a música levou os prêmios de Melhor Canção de R&B e Melhor Performance Solo de Rap. Você quer, Drake?

Resultado de imagem para natalie cole 19921992

Natalie Cole com Nat King Cole “Unforgettable” – vencedora (produzida por David Foster)
“(Everything I Do) I Do It for You” – Bryan Adams
“Baby Baby” – Amy Grant
“Something to Talk About” – Bonnie Raitt
“Losing My Religion” – R.E.M.

Um dos momentos de ouro do foco no “old but gold” pra manter a relevância foi a vitória de “Unforgettable” em Gravação do Ano. Além de ter levado Canção do Ano e Melhor Performance Pop Tradicional (e o álbum onde a faixa está contida ficou com Álbum do Ano), a faixa – um dueto post mortem entre Nat King Cole e sua filha Natalie Cole serviu também como um comeback de respeito para Natalie, após um começo de carreira promissor em que foi comparada a ninguém menos que Aretha Franklin e depois, por conta das drogas, passou quase uma década sumida dos charts. A faixa, que peakou em #14 no chart americano, é uma vitória compreensível pelo peso dos envolvidos (e a brand de produção do David Foster), mas zero inspiração.

Recomendações: a prova de que “Unforgettable” foi zero inspiração é que entre as concorrentes, teve o pior desempenho nos charts (e não é tão ubíqua quanto, por exemplo, “(Everything I Do) I Do It for You” que foi hit mundial, concorreu a tudo que você imagina e ficou sete semanas em #1 na Billboard). De todas as indicadas, eu amo a música da Bonnie Raitt, mas é sempre curioso ver uma banda como o R.E.M ser lembrada pelo Grammy quando os jurados viviam uma fase tão pouco criativa. E “Losing My Religion” merecia sorte melhor.

1993

Eric Clapton “Tears in Heaven” – vencedora (produzida por Russ Titelman) Resultado de imagem para eric clapton 1993
“Achy Breaky Heart” – Billy Ray Cyrus
“Beauty and the Beast” – Celine Dion &Peabo Bryson
“Constant Craving” – k.d. lang
“Save the Best for Last” – Vanessa Williams

Mantendo a trend de premiar acts consagrados (e começar a premiar Acústicos da MTV), o diferencial da vitória do Eric Clapton aqui é apenas que, se eu ouvir “Tears in Heaven” neste momento, não vou sentir cheiro de naftalina. E a música realmente é boa pra caralho. Não dá pra ficar imune à experiência de ouvir um cara cantando em homenagem ao filho de quatro anos que morreu após cair do 53º andar de um apartamento em Nova York. “Tears in Heaven” é um dos troços mais melancólicos que eu já ouvi na vida (e por isso mereceu muito a vitória em Canção do Ano). Apesar da música ter chegado apenas à #2 na Billboard, a vitória aqui não é apenas por causa de comeback ou uma produção restrita, discreta, íntima e extremamente pessoal, mas porque é o poder da música de atingir os corações mais frios como o meu, os corações de quem já perdeu alguém que amava, as dores que as pessoas tentam curar mas só o tempo consegue cuidar.

(detalhe: essa faixa era trilha de um filme chamado “Rush”)

Recomendações: acho que aqui deve ser uma das lineups mais certinhas em questão de field desde que comecei a pesquisa a partir de 1980 – o representante pop com Celine e Peabo; o alternative pop/rock com k.d. Lang; o pop/R&B de Vanessa Williams; além do country do pai da Miley Cyrus – isso mesmo: Billy Ray Cyrus foi um Grammy Nominee com “Achy Breaky Heart“, um hit crossover country que ainda lançou moda e foi regravado por Chitãozinho e Xororó ainda nos anos 90. Eu ainda me lembro da letra: “jeito de cowboy num corpo de mulher, do tipo que não olha pra ninguém…”

Resultado de imagem para whitney houston 19941994

Whitney Houston “I Will Always Love You” – vencedora (produzida por David Foster)
“A Whole New World” – Peabo Bryson &Regina Belle
“The River of Dreams” – Billy Joel
“If I Ever Lose My Faith – You” by Sting
“Harvest Moon” – Neil Young

Acho que todos os indicados aqui entraram sabendo que iam perder, né? “I Will Always Love You” é um dos maiores clássicos da música e não tinha como evitar a vitória da Whitney. Além disso, um dos elementos mais fortes da música é exatamente a produção, que transformou a faixa country da Dolly Parton numa balada tour-de-force com a virada para o último refrão mais épica dos anos 90.

Recomendações: se vocês perceberam, além de músicas trilha de filmes que fizeram muito sucesso (uma trend anos 80 que ainda prosseguiu na década seguinte), as faixas vindas das animações da Disney faziam muito sucesso e sempre emplacavam indicação (tanto no Grammy quanto no Oscar). Por isso, hora de aproveitar e trazer um clássico da infância dos old millennials: “A Whole New World“, música-tema de Aladdin ❤

1995

Sheryl Crow “All I Wanna Do” – vencedora (produzida por Bill Bottrell)Resultado de imagem para sheryl crow 1995
“I’ll Make Love to You” – Boyz II Men
“He Thinks He’ll Keep Her” – Mary Chapin Carpenter
“Love Sneakin’ Up On You” – Bonnie Raitt
“Streets of Philadelphia” – Bruce Springsteen

Eu já disse no esquenta anterior que eu não gosto muito dessa música, mas a vitória é compreensível não apenas pelo combo (vitória no field + aclamação crítica + hit) como também como um óbvio representante da sonoridade pop adulta que vinha dominando as preferências do Grammy nos anos 90 e o gosto do público. Na verdade, essa lineup é bem esquisitinha, porque o hit monstruoso desse grupo era a faixa do Boyz II Men, que mesmo altamente cafona, é parte de um landscape musical crescente nos anos 90, o R&B com o DNA da década, e passou 14 (QUATORZE) semanas em #1 na Billboard (você quer, @@@@@@) – ou seja, seria a natural e óbvia vencedora aqui (e pessoalmente falando, mais alinhada com meu gosto; mas meu gosto não define nada né²).

Recomendações: Outra vitoriosa merecida aqui é “Streets of Philadelphia“, da trilha sonora de “Filadélfia” (com Tom Hanks e Denzel Washington – elenco sonho de princesa), mais um sucesso aclamado do rei Bruce Springsteen – que apesar de ter chegado à nona posição, ganhou quatro prêmios Grammy (incluindo Canção do Ano), e ainda tem um Oscar de Melhor Canção Original bem lustradinho em casa.

Resultado de imagem para seal grammy1996

Seal “Kiss From a Rose” – vencedora (produzida por Trevor Horn)
“One Sweet Day” – Mariah Carey & Boyz II Men
“Gangsta’s Paradise” – Coolio
“One of Us” – Joan Osborne
“Waterfalls” – TLC

Esse é o famoso ano da polêmica, em que a Mariah Carey ficou na primeira fila do Grammy pra ver todo mundo levar o seu. Aqui em Gravação do Ano, o maior hit indiscutivelmente era o dela, “One Sweet Day” e suas dezesseis semanas em #1 (será que “Despacito” terá a mesma sorte?), mas quem levou os dois prêmios (Gravação e Canção) foi o smooth soul singer Seal e sua “Kiss from a Rose”, que sem nenhuma surpresa também foi trilha de filme (“Batman Eternamente”).

Apesar de originalmente não ter sido escrita para o filme, o Batman ajudou o Seal a colocar KFAR em primeiro lugar nos charts e tornar o britânico um nome super conhecido nos EUA. “Kiss From A Rose” ainda garantiu o Grammy de Melhor Performance Pop Masculina. Se vencer no field não ajuda a convencer você da vitória (especialmente se você que me ler for lamb), essa info pode te ajudar: apenas ele e “One of Us” foram indicadas no General Field E nos fields próprios. E como “One of Us” não foi composta pela Joan Osborne; e como o Grammy valoriza muito artistas que compõem (o Seal é o único compositor da faixa); e como o Grammy é um prêmio da indústria… Uma lógica impecavelmente perfeita. É como se ele fosse a Adele.

Recomendações: turma boa de indicados, hein? Como é difícil escolher, dessa galera, recomendo a espetacular “Waterfalls“. Muita gente não sabe, mas o TLC foi uma das grandes girlbands de R&B da década de 90. Eram cheias de atitude, divertidas, com um senso fashion mais street e com um apelo distinto de bandas com pegada mais crossover como as Destiny’s Child.

1997

Eric Clapton  “Change the World” – vencedora (produzida por Babyface)Resultado de imagem para eric clapton 1997
“Give Me One Reason” – Tracy Chapman
“Because You Loved Me” – Celine Dion
“Ironic” – Alanis Morissette
“1979” – The Smashing Pumpkins

Outro tiro de bazuca de Eric Clapton, curiosamente mais uma faixa oriunda de trilha sonora de um filme (eu disse), o drama sobrenatural “Fenômeno” (esse eu vi, era o filme em que o John Travolta tomava um raio na cabeça e virava o novo Einstein). A música já tinha sido gravada por outros artistas, mas alcançou maior sucesso com o guitarrista, chegando à quinta posição no Hot 100. Um hit mundial, mais um na conta do britânico, o diferencial de “Change the World” é o encontro surpreendente da sonoridade folk/acústica pop com um certo toque soul nos backing vocals, graças à produção mais sui generis da década – o deus do R&B Babyface. Cara, Babyface! É muita lenda junto trabalhando.

No fim das contas, sucesso + boa recepção da crítica + encontro de dois acts super relevantes na cena + uma faixa realmente boa geram um bom vencedor de Grammy (também mantendo a tendência do pop adulto vencendo por aqui).

Recomendações: a lineup de 1997 é bem gostosinha – não chega a ter níveis de iconicidade do grupo de indicados do ano anterior, mas é um resumo bacana da década – o pop/rock feminino, o rock alternativo e o pop das divas convivendo harmonicamente num período específico da música em que esses sons dominavam as rádios específicas e alguns hits crossover pulavam aqui e ali. Vale destacar entre o bom grupo a faixa da Alanis Morissette, “Ironic“, ainda colhendo os frutos do “Jagged Little Pill”.

 

Resultado de imagem para shawn colvin 19981998

Shawn Colvin “Sunny Came Home” – vencedora (produzida por John Leventhal)
“Where Have All the Cowboys Gone?” – Paula Cole
“Everyday Is a Winding Road” – Sheryl Crow
“MMMBop” – Hanson
“I Believe I Can Fly” – R. Kelly

Essa lineup com três acts ligadas ao pop/rock feminino dos anos 90 representa o auge dessa turma nos charts e indicações ao Grammy; especialmente com a vitória da Shawn Colvin e sua “Sunny Came Home”, que já tinha sido indicada a Performance Pop Feminina (era mais usual antigamente os indicados levarem no General Field). Curiosamente, a faixa que tinha mais possibilidades lógicas de levar não levou – a balada anos 90 do R. Kelly, “I Believe I Can Fly”, indicada para as duas categorias do Big Four e vencedora de Performance Masculina de R&B (além de ter tido um desempenho nos charts melhor que SCH).

Recomendações: para coroar a incomum line-up e sua incomum vitória, a cota hit adolescente com Hanson e “MMMBop“. Não será agora que teremos o shift para o pop de apelo jovem, mas é curioso ver a presença da música aqui.

1999

Celine Dion “My Heart Will Go On” – vencedora (mixagem/engenharia de som Resultado de imagem para celine dion 1999por David Gleeson, Humberto Gatica & Simon Franglen; produzido por James Horner, Simon Franglen & Walter Afanasieff)
“The Boy Is Mine” by Brandy” & Monica
“Iris” by Goo Goo Dolls
“Ray of Light” by Madonna
“You’re Still the One” by Shania Twain

A partir deste ano, você vai ter uma mudança interessante aqui nos vencedores – o prêmio de Álbum do Ano também ficará nas mãos de engenheiros de som e mixadores, por isso essa turma IMENSA premiada pelo clássico “My Heart Will Go On”. Novamente outra música que entrou aqui já sabendo que ia ganhar né.

Recomendações: outro exemplo de um lineup preocupado com fields. Aqui você vê o pop das divas da Celine, o R&B de Brandy e Monica, o rock do Goo Goo Dolls e o country da Shania. Mas o destaque aqui é a Madonna dando as caras com o seu trabalho mais respeitado até o momento “Ray of Light“.

Década de 2000 – Conflito de gerações

(O pop com apelo jovem mostra sua cara, mesmo com resistência conservadora)

Resultado de imagem para carlos santana 20002000
Santana featuring Rob Thomas “Smooth” – vencedora (mixagem/engenharia de som por David Thoener; produzido por Matt Serletic)
“I Want It That Way” by Backstreet Boys
“Believe” by Cher
“Livin’ la Vida Loca” by Ricky Martin
“No Scrubs” by TLC

Eu já devo ter comentado a importância do shift geracional no Grammy de 2000 por causa da explosão do bubblegum pop (e de certa forma, o boom latino), mas a conversa aqui é o comeback histórico do Santana. “Smooth” foi mais que um hit, foi o “Uptown Funk” da época, o “Closer”, o “Despacito”, o viral quando o termo nem existia na época. Impossível sair da mão de um grupo que ficou 12 semanas consecutivas em primeiro no Hot 100 numa época em que as músicas variavam o tempo todo nas primeiras posições; também foi o último #1 do século 20 e a única música a aparecer em dois charts de fim de década da Billboard. É histórico, ainda mais se pensarmos que o Carlos Santana empatou com Michael Jackson em número de vitórias numa mesma noite (só não levou NOVE Grammys porque ele não escreveu “Smooth”) e o cara tem uma carreira de décadas na cena.

*sim, Santana é uma banda e não só o guitarrista

*ah, e o single posterior, “Maria Maria”, ficou DEZ semanas em #1. 

Recomendações: essa lineup é um belo quadro da época em que a música popular vivia, e cada indicado faz sentido aqui – o R&B/urban moderno das TLC, o pop latino no auge do Ricky Martin, o dance-pop (e baita comeback) da Cher e evidentemente, o teen pop dos Backstreet Boys. Mesmo com outra boyband sendo indicada no ano seguinte, o material dos rapazes fez muito mais que compor indicação – eles conseguiram romper barreiras impensáveis para uma boyband com  indicações em Gravação e Canção para “I Want It That Way” e Álbum do Ano para o “Millennium”. E finalmente conhecemos o poder de um produtor sueco chamado Max Martin.

2001

U2 “Beautiful Day” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Richard Rainey Resultado de imagem para u2 2000& Steve Lillywhite; produzido por Brian Eno & Daniel Lanois)
“Say My Name” by Destiny’s Child
“I Try” by Macy Gray
“Music” by Madonna
“Bye Bye Bye” by *NSYNC

Mais um sucesso de público e crítica do U2, é uma óbvia vitória, apesar do peak #21 na Billboard. Mas é o U2, e eles sempre foram um grupo bastante respeitado e venerado pela indústria. Considerando ainda o naipe dos indicados, a vitória é ainda mais evidente – acts jovens, uma boyband e a Madonna, que nunca foi uma Grammy Darling (apesar do reconhecimento com “Ray of Light”), entre a concorrência? Foi um passeio no parque para Bono e sua turma.

Recomendações: que lineup pop hein, parece muito os lineups de Gravação do Ano mais recentes. Não tem nem como definir um vencedor “alternativo” ou uma música “curiosa” como recomendação; mas é sempre bom lembrar que um dia, Beyoncé foi indicada como parte de um grupo – e que bom que foi por um clássico como “Say My Name“.

 

Resultado de imagem para u2 20022002

U2 “Walk On” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Richard Rainey & Steve Lillywhite; produzido por Brian Eno & Daniel Lanois)
“Video” by India.Arie
“Fallin'” by Alicia Keys
“Ms. Jackson” by OutKast
“Drops of Jupiter (Tell Me)” by Train

Essa vitória foi uma raridade – a primeira vez em que duas faixas de um mesmo álbum levam Gravação do Ano em anos seguidos. A música virou símbolo de superação após o 11 de Setembro,  o que é até compreensível a escolha da faixa, dado o momento patriótico do país. Só que a faixa não tem a mesma iconicidade de “Beautiful Day”, so… Enfim, achei a escolha too much, mas não sou jurada do Grammy.

Recomendações: ainda não entendi a decisão da Academia, mas uma indicada com todo o bojo de Record of the Year e de uma elegância sem igual é “Fallin‘”, da Alicia Keys. Se não dariam o prêmio para o rap do OutKast (vocês conhecem bem como os jurados conseguem ser out of touch), a Alicia com seu treinamento clássico, amor ao old school e apelo adulto seria uma detentora merecida do prêmio.

2003

Norah Jones “Don’t Know Why” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Jay Imagem relacionada Newland; produzido por Arif Mardin, Jay Newland & Norah Jones)
“A Thousand Miles” by Vanessa Carlton
“Without Me” by Eminem
“Dilemma” by Nelly & Kelly Rowland
“How You Remind Me” by Nickelback

Eu não sei se vocês perceberam, mas na década de 2000 o shift geracional já se faz presente – um act das antigas começa a aparecer menos por aqui (exceto por situações bem específicas como vocês verão logo), novos astros passam a ser observados pela Academia e aparentemente o landscape musical dos jurados se abre um pouco para estilos pouco celebrados como o rap. Ou seja, o que analisamos como sucesso passa a se ampliar porque inclui quem nem era ouvido – o que, no fim das contas, faz com que várias faixas que não chegaram ao top 10 tenham suficiente relevância pra serem considerados como candidatos a “Gravação do Ano”.

Mas a vitória da Norah, você já sabe o que é. No entanto, vocês sabem bem o que eu acho da Norah e dessas vitórias dela. O CD vendeu horrores nos EUA, foi considerada a “salvadora da indústria” na época, o som que fazia (jazz) já não era mainstream há muito… Era a indicada mais “classuda” e safe de todo mundo aqui.

Recomendações: atenção para o terceiro rap aparecendo em gravação (“Without Me”, do Eminem), e mais uma faixa urban/R&B dando as caras (“Dilemma”), já mostrando que sonoridades passariam a dominar o mid-2000 junto com a nova leva de female pop/rockers. Mas vale destacar aqui a cota pop (adolescente, já que o teen pop tinha sido enterrado lá em 2001) com Vanessa Carlton e “A Thousand Miles“, uma das músicas mais anos 2000 já feitas nos anos 2000. Parece que do nada apareceram calças cintura baixa, gloss e bonés Von Dutch, além de Nokia com o jogo da cobrinha. Quer dizer… Parece que tudo isso vai voltar né… SOCORRO

 

Resultado de imagem para coldplay 2004

2004 
Coldplay “Clocks” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Coldplay, Ken Nelson & Mark Phythian; produzido por Coldplay & Ken Nelson)
“Crazy in Love” by Beyoncé & Jay Z
“Where Is the Love?” by The Black Eyed Peas & Justin Timberlake
“Lose Yourself” by Eminem
“Hey Ya!” by OutKast

Um dia o Grammy aprende né… Os sons mais bombados e relevantes do landscape musical no mid 2000 e a Academia me escolhe como Gravação do Ano “Clocks” do Coldplay. Todas as músicas indicadas junto com “Clocks” foram igualmente celebradas, mas tiveram ainda mais sucesso e faziam bem mais sentido dentro do que fez realmente sucesso no período. Mas se pensarmos que o Coldplay tinha ficado popular na época (não ubíquo como a partir da fase “Viva La Vida”) e com o respeito da crítica… Foi mais “safe” entregar o gramofone aos britânicos, porque pelo menos era um som que fez sucesso e estava de acordo com os desejos da Academia.

Recomendações: a Academia tinha uma das produções mais envolventes e bem tramadas da década (aka “Hey Ya“) e me escolhe “Clocks”? Tenha a santa paciência, né? Pelo menos recompensaram o OutKast com o Álbum do Ano em 2004, o segundo álbum de rap até hoje a levar o prêmio (o que é insano se consideramos que atualmente o rap é o gênero que mais se metamorfoseia, é inventivo e consegue se vender como mainstream, alternativo, consciente, viral…)

2005

Ray Charles featuring Norah Jones “Here We Go Again” – vencedoraResultado de imagem para ray charles 2004 (mixagem/engenharia de som por Al Schmitt, Mark Fleming, & Terry Howard; produzido por John R. Burk)
“Let’s Get It Started” by The Black Eyed Peas
“American Idiot” by Green Day
“Heaven” by Los Lonely Boys
“Yeah” by Usher featuring Lil Jon &Ludacris

Vitória compreensível por ser póstuma (o álbum foi lançado depois da morte de Ray) e o artista estava na boca do povo na época especialmente por conta do filme. Então, nem tinha muito para onde a Academia ir neste ano. E ainda tinha o combo da Norah Jones, veterana da categoria, saiu a lógica perfeita. A gravação realmente é impecável, moderna mesmo sendo uma regravação de uma faixa dos anos 60, e fez justiça ao gênio que era Ray Charles. Impossível negar a influência da lenda.

Curiosamente, ao contrário de Graceland e outra vencedora que vamos citar aqui, a faixa sequer chegou no Hot 100 – apenas a segunda música a levar Gravação do Ano e ter esse desempenho (a primeira foi “Walk On” do U2).

Recomendações: na possibilidade do Ray Charles não levar ou hipoteticamente não ter sido indicado, um bold move da Academia seria “American Idiot” do Green Day. No auge da Guerra do Iraque e da falta de popularidade do Bush filho, talvez seja a canção mais importante entre os indicados (apesar de não ter sido um hit como geralmente são as músicas indicadas e/ou vencedoras por aqui).

2006 Resultado de imagem para green day 2006

Green Day “Boulevard of Broken Dreams” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Chris Lord-Alge & Doug McKean; produzido por Green Day & Rob Cavallo)
“We Belong Together” by Mariah Carey
“Feel Good Inc.” by Gorillaz
“Hollaback Girl” by Gwen Stefani
“Gold Digger” by Kanye West

E o Green Day conseguiu, num ano bem disputado e super representativo da década – e de certa forma, o rock conviveu bem com outras sonoridades no mid-2000 (que se analisarmos friamente, deve ter sido o último momento da música pop sem essa dominação quase sufocante de um estilo sobre todos os outros). “Boulevard of Broken Dreams” é um MUSICÃO melancólico, envolvente, ao mesmo tempo em que a produção consegue ter ao mesmo tempo uma solidez épica e o ar rústico, ainda rock ‘n roll, sem ser polida. Uma grande faixa que foi um hit massivo, bombando nas rádios, no nascente iTunes (que se fosse incluído antes nas contagens para o chart, teria ajudado bastante “American Idiot”) e peakou em #2 no Hot 100. Nada mal para uma banda de punk rock que não tinha sequer chegado ao Hot 100 antes desse álbum.

Recomendações: Interessante lineup. O curioso aqui é que a Academia priorizou não os fields ou músicas bem sucedidas no período de elegibilidade no geral, e sim músicas de acts que se destacaram no ano que passou, o que é uma escolha extremamente coerente. Uma dessas escolhas é “Gold Digger” do Kanye West, um trabalho sempre além das expectativas do rapper, que começou sua carreira como produtor. Nada mais justo que estar aqui em ROTY.
2007

Dixie Chicks “Not Ready To Make Nice” – vencedora (mixagem/engenharia de som Resultado de imagem para dixie chicks 2007por Chris Testa, Jim Scott & Richard Dodd; produzido por Rick Rubin)
“Be Without You” by Mary J. Blige
“You’re Beautiful” by James Blunt
“Crazy” by Gnarls Barkley
“Put Your Records On” by Corinne Bailey Rae

Num ano de comebacks, as Dixie Chicks levando tanto Gravação quanto Canção do Ano não são apenas um grande retorno, mas um posicionamento de liberdade de expressão dentro de um gênero super conservador como o country.

Explicação: num show em 2003 em Londres, uma das vocalistas da banda, Natalie Maines, declarou-se contra a Guerra do Iraque e que tinha vergonha do presidente dos EUA ser do Texas (o Bush filho), mesmo lugar de onde as artistas vieram. O resultado foi um huge backlash – as músicas das Dixie Chicks foram banidas das rádios country, elas foram rejeitadas poelos fãs e os álbuns até descartads em praça pública. Nenhuma delas voltou atrás em suas considerações, e o comeback foi altamente representativo disso – em “Not Ready to Make Nice”, elas não estão aqui para pedir desculpas, ou ser fofas – elas querem ter a liberdade de dizerem o que pensam sem serem ameaçadas por isso.

Apesar do peak de #23 na Billboard, é importante ressaltar que só chegou nesse ponto por causa dos downloads do iTunes, já que a faixa não era tocada nas rádios country. E muitos shows delas não tinham muitos ingressos vendidos. As vitórias das Dixie Chicks eram um sinal de que elas tinham direito (e muito) de defender suas opiniões e lutar por elas numa sociedade que queria que elas apenas cantassem.

Recomendações: a vitória das meninas coroou uma lineup diversa e muito boa. Não chega a ser o sonho de princesa da década (o ano seguinte é um tiro de bazuca dos indicados), mas todas as músicas mereciam a vitória. Seja o outro comeback, o da Mary J. Blige com a épica “Be Without You” tima e diversa lineup com grandes músicas (citar todas, todas mereciam); a inescapável “You’re Beautiful“; a soul/pop/alternative e completamente fora da caixa “Crazy“; e a sutil, elegante e singela “Put Your Records On“. Conclusão? 2006-07 foi um ótimo período para o pop.

 

Imagem relacionada2008

Amy Winehouse “Rehab” – vencedora (engenharia/mixagem de som por Tom Elmhirst, Vaughan Merrick, Dom Morley, Mark Ronson & Gabriel Roth; produzido por Mark Ronson)
“Irreplaceable” by Beyoncé
“The Pretender” by the Foo Fighters
“Umbrella” by Rihanna featuring Jay Z
“What Goes Around…/…Comes Around” by Justin Timberlake

Essa lineup deve ser o sonho de princesa da década: popular, icônica, com músicas que atravessaram o tempo e até hoje são lembradas – exatamente aquilo que o Grammy deve premiar, o que tem potencial para ser clássico. A vitória da Amy não é apenas o triunfo de uma artista única, que inspirou diversos outros nos anos seguintes e cuja sonoridade e estilo marcaram uma geração, assim como consolidou o retropop como um estilo que podia ser reproduzido e rentável, sem ter cheirinho de naftalina. A voz naturalmente retrô da Amy, combinada com a produção sempre cool e classuda do Mark Ronson tornam uma música com uma estética sixties facilmente audível em 2007, 2008 e em qualquer ano seguinte até o fim dos tempos. É timeless que chamam?

Curiosamente, neste período veremos se desenvolvendo uma tendência que permanece até hoje entre os indicados e vencedores do Grammy de Record of the Year: o foco do Grammy se concentra em hits de artistas que se destacaram no ano que passou, e não apenas os grandes sucessos do ano, num âmbito geral.

Recomendações: se não existisse Amy, o ROTY tinha endereço certo – e não era a Beyoncé com seu R&B/pop na levada do violão que meio mundo seguiu a vibe em 2007-08; essa categoria era a cara de “Umbrella“. Eu acompanhei os tensionamentos do Grammy nessa época e os fóruns já faziam a oposição entre a britânica talentosa x a barbadiana hitmaker sensação. Se houve uma outra gravação do ano que, além de ter sido hit, foi inescapável naquela época, com certeza foi o Guarda-Chuva da Rihanna.
2009

Alison Krauss e Robert Plant “Please Read the Letter” – vencedora Resultado de imagem para Alison Krauss e Robert Plant 2009(mixagem/engenharia de som por Mike Piersante; produzido por T-Bone Burnett)
“Chasing Pavements” by Adele
“Viva la Vida” by Coldplay
“Bleeding Love” by Leona Lewis
“Paper Planes” by M.I.A.

Lembram-se de que eu fiquei comentando durante todo o post sobre uma outra música que teve um péssimo desempenho nos charts e levou Gravação do Ano (uma categoria sempre repleta de hits)? Trata-se de “Please Read the Letter”, parceria de Alison Krauss e Robert Plant, que só chegou no Bubbling Under. Um corpo estranho dentro dos indicados, é uma escolha mais segura – mas não esquisita: o álbum de onde vem essa música, “Raising Sand”, foi aclamadíssimo pela crítica, e ainda ganhou Álbum do Ano no Grammy, e além dos envolvidos serem altamente respeitados (Alison Krauss nada mais é do que a pessoa viva que mais ganhou Grammys – 27, isso mesmo que você leu VINTE E SETE; e Robert Plant é apenas o vocalista do Led Zeppelin e um dos cantores mais influentes do rock), a produção da faixa está a cargo de um dos caras mais prestigiados da música, T-Bone Burnett (com dois prêmios de Produtor do Ano, dois prêmios de Álbum do Ano e uma porrada de outros Grammys). É quase um currículo de um CEO no LinkedIn.

Recomendações: entre o rock de arena do Coldplay, a renovação das divas com Leona Lewis e o pop confessional de uma iniciante Adele, é uma lineup até conservadora. Exceto pela música mais fora da caixa entre os indicados, “Paper Planes” da M.I.A, uma indicação absolutamente surpreendente por parte da Academia e que só credito ao fato do sucesso inescapável da música no período, porque nem tudo que é aclamado é lembrado por aí né. Só que, conhecendo o gênio dos votantes, duvido de que alguém tivesse pensado em dar o prêmio à M.I.A.

 

2010-17 – Consolidação pop

(o foco de Gravação do Ano se solidifica em indicar e premiar nomes representativos de gêneros e tendências do ano que passou)
Resultado de imagem para kings of leon 20102010

Kings of Leon “Use Somebody” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Jacquire King; produzido por Jacquire King & Angelo Petraglia)
“Halo” by Beyoncé
“I Gotta Feeling” by The Black Eyed Peas
“Poker Face” by Lady Gaga
“You Belong with Me” by Taylor Swift

Em primeiro lugar, alguém me explica o PORQUÊ da Beyoncé não ter submetido “Single Ladies” aqui ao invés de Halo? Queimou uma carta! (se bem que tem um Song of The Year em casa né…) Mas “Use Somebody” foi um dos grandes hits daquele ano (chegou a #4 na Billboard) e tocou em tudo quanto foi buraco (acho que foi até tema de novela). Além disso, a produção é tão envolvente e sabe segurar o crescendo da música de um jeito tão épico que mereceu demais. É um clássico stadium anthem.

Recomendações: lembra que eu falei ainda na discussão sobre a década de 2000 que por lá ainda haviam canções de gêneros diferentes indicadas, mesmo com estilos mais dominantes no geral? O mid-2000 foi o último momento em que os estilos conviviam juntos sem se sufocarem; mas aqui em 2009-10 a coisa muda de figura. O estouro do eletropop/dance-pop meio que “obrigou” todo mundo a “farofar”, destruindo carreiras no processo e gerando one hit wonders no meio do caminho. Duas dessas músicas estão aqui merecidamente indicadas, e olhando em retrospectiva, poderiam ganhar justamente porque sedimentaram essa dominação para o mainstream: são o hino da minha geração “I Gotta A Feeling” e o clássico da Gaga “Poker Face“.
Resultado de imagem para lady antebellum 20112011

Lady Antebellum “Need You Now” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Clarke Schleicher; produzido por Lady Antebellum & Paul Worley)
“Nothin’ on You” by B.o.B featuring Bruno Mars
“Love The Way You Lie” by Eminem featuring Rihanna
“Fuck You” by Cee Lo Green
“Empire State of Mind” by Jay Z featuring Alicia Keys

Eu vi esse Grammy na TV e nunca entendi essa vitória. Foi uma decisão super middle of the road, bem safe e “eu não quero fazer besteira” porque entre os indicados tinham três canções de rap/pop e um pop/soul, todas bem mais interessantes, bem mais current que um country pop básico. Tudo bem que “Need You Now” foi um grande hit e também tocou em tudo quanto foi buraco, mas a gente tem uma “Love the Way You Lie” com sete semanas em #1 que gerou a tendência de canções de rap/pop melódicas produzidas pelo Alex DaKid. A música mais básica de todos os indicados (em produção, composição, tudo) levou. Parabéns aos envolvidos.

Recomendações: uma vitória merecida seria a parceria do Eminem com a RiRi, mas a música mais fora da caixa (e a minha favorita pessoal por ser fora da caixa) era “Fuck You” (ou como diziam na premiação, “the song otherwise known as Forget You” HAHAH) porque a produção era muito divertida e uptempo e super pra cima – prosseguindo a ideia de que dava pra fazer soul/pop retrô sem parecer datado e sim possível de ouvir eternamente (e particularmente seria bem curioso ver o Bruno Mars levando ROTY beeem antes de UF – para quem não sabe, o grupo de produtores o qual ele faz parte produziu “Fuck You” e “Nothin’ on You”)
Resultado de imagem para adele 20122012

Adele “Rolling in the Deep” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Tom Elmhirst & Mark Rankin; produzido por Paul Epworth)
“Holocene” by Bon Iver
“Grenade” by Bruno Mars
“The Cave” by Mumford & Sons
“Firework” by Katy Perry

Mais uma premiação em que todo mundo sabe que entrou pra perder né? Adele foi o evento, o momento, tudo que as pessoas queriam ver e ouvir em 2011-12, e “Rolling in the Deep”, a trilha sonora da raiva em relação ao fim de um relacionamento, foi A música durante muito tempo. #1 na Billboard, aclamado por crítica e público, produção econômica misturando country, pop e soul, e deixando a voz da Adele brilhar e ser o principal elemento da canção… Curiosamente, a canção mais celebrada num período em que os hits eram justamente eletropop.

(A propósito, Adele igualou o recorde de Beyoncé aqui, com seis vitórias numa única edição do Grammy, as duas únicas mulheres a fazerem isso. E vocês fazendo stanwar)

Recomendações: de todos os indicados aqui, o único que faz sentido dentro da sonoridade que bombava na época era o material da Katy Perry. Apesar de não entender por que cargas d’água “Teenage Dream”, a canção pop perfeita, não foi submetida aqui, “Firework” é uma escolha bem compreensível – apesar de, ao contrário de TD, não ter envelhecido bem.

 

Resultado de imagem para gotye 20132013

Gotye featuring Kimbra “Somebody that I Used to Know” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Wally De Backer, François Tétaz & William Bowden; masterização por William Bowden; produzido por Wally De Backer)
“Lonely Boy” by The Black Keys
“Stronger (What Doesn’t Kill You)” by Kelly Clarkson
“We Are Young” by fun. featuring Janelle Monáe
“Thinkin Bout You” by Frank Ocean
“We Are Never Ever Getting Back Together” by Taylor Swift

2012 foi um ano em que as coisas foram mudando para o eletropop. Como se as pessoas estivessem saturando daquela sonoridade, acts alternativos e indies passaram a fazer sucesso e dar as caras nos charts, ao mesmo tempo em que o verão tinha como representante do pop despretensioso “Call me Maybe” da Carly Rae Jepsen. Mesmo assim, o landscape musical era o indie virando pop, e por que não premiar quem representou esse período com uma música que, além de ter sido um hit inescapável com oito semanas em #1 (e ainda foi cantada no Glee, o que era sinônimo de sucesso na época), ainda representou uma forma completamente distinta de ouvir música naquela época? “Somebody that I Used to Know” era uma dinamite pequena com uma grande explosão. Necessitava de um certo espaço, tempo, ouvido, precisava aumentar o volume pra se entender a música, obrigou a gente a prestar atenção na faixa. Um grande momento musical que sem querer, influenciou toda a década restante. Sem Gotye e Kimbra, não teríamos espaço para receber uma Lorde, Lana, aceitar a Sia no mainstream, nem outros indies que estouraram depois.

Recomendações: num ano em que o indie virou pop, um outro candidato à Gravação do Ano que teria sua vitória merecida com certeza era “We Are Young” do fun. Outra faixa que ajudou a catapultar a sonoridade indiepop para o mainstream, também foi ubíqua e era uma produção pop muito respeitável. Não chega a ser tão fechada em si para que precisássemos de tempo para entendê-la, mas foi pensada como um hino, uma celebração, e é bem compreendida assim (aliás, AMÉM JEFF BHASKER)

2014

Daft Punk featuring Pharrell Williams & Nile Rodgers “Get Lucky” – vencedora Resultado de imagem para daft punk 2014(mixagem/engenharia de som por Peter Franco, Mick Guzauski, Florian Lagatta & Daniel Lerner; masterização por Antoine “Chab” Chabert & Bob Ludwig; produzido por Thomas Bangalter & Guy-Manuel de Homem-Christo)
“Radioactive” by Imagine Dragons
“Royals” by Lorde
“Locked Out of Heaven” by Bruno Mars
“Blurred Lines” by Robin Thicke featuringT.I. & Pharrell Williams

Enquanto 2012 foi o ano do indie, 2013 foi o ano em que meio mundo descobriu que dava pra fazer sucesso com disco funk throwback, com múscas que poderiam muito bem tocar no Studio 54 ou na sua festinha de aniversário. Vários artistas lançaram singles inspirados nesse som (ou depois seguiram o fluxo), e entre eles, o trabalho mais aclamado foi justamente o do Daft Punk, com “Get Lucky”. Com a brand do Pharrell e do deus Nile Rodgers, o lead single do premiado “Random Access Memories” (uma homenagem à disco dos anos 70) chegou ao segundo lugar no Billboard Hot 100 (atrás apenas de “Blurred Lines” e além da aclamação crítica, tornou-se uma das músicas mais comentadas e ouvidas naquele ano. Uma vitória incontestável de uma música que ao contrário de uma certa concorrência, pelo menos não tinha acusação no conteúdo lírico ou no plágio (Né Robin Thicke?).

Recomendações: caso o Daft Punk não existisse, a vitória mais óbvia (justificável mesmo que questionável pelo conteúdo lírico) é “Blurred Lines” (porque também representou o auge do throwback disco da época). Ficou em #1, foi um daqueles hits que surgiram assim do nada (literalmente TODO MUNDO começou a falar de BL nas redes sociais, nos fóruns, era ouvido na rádio), e colocou finalmente o nome do Robin no mainstream, já que ele era conhecido apenas como um cantor de R&B de nicho, um dos poucos caras brancos respeitados dentro da cena, e ótimo compositor para R&B acts. Mas “Blurred Lines” foi uma bênção e uma maldição – a carreira do Thicke literalmente acabou, já que o cara é piada até no field onde era respeitado.
Resultado de imagem para sam smith 20142015

Sam Smith “Stay With Me” (Darkchild version) – vencedora (mixagem/engenharia de som por Steve Fitzmaurice, Jimmy Napes & Steve Price; masterização por Tom Coyne; produzido por Steve Fitzmaurice, Rodney Jerkins & Jimmy Napes)
“Fancy” by Iggy Azalea featuring Charli XCX
“Chandelier” by Sia
“Shake It Off” by Taylor Swift
“All About That Bass” by Meghan Trainor

Mas gente, que lineup feia da zorra, deve ser a mais fraca da década – o Grammy optou por colocar vários hits e adições de última hora por motivos inimagináveis e o resultado foi esse grupo de indicados nada criativo. Nada mais justa que a vitória do Sam Smith, vendido na época como “Adele de calças” e que era recebido com reverência em todos os lugares graças ao “In the Lonely Hour” e “Stay With Me”, talvez uma das melhores músicas dos últimos anos sobre pegação de uma noite só.

A produção soulpop com direito ao coral gospel de fundo é um achado, e talvez seja o elemento principal da sonoridade do Sam – e o que torna a música tão universal. Em meio a tantas canções menores, entregar o Grammy para o britânico foi um alívio.

Recomendações: nessa época eu já tinha o blog, e minha favorita pessoal era “Chandelier” – produção forte, épica, clássica e ao mesmo tempo current, a cara do Grammy.

 

Resultado de imagem para mark ronson 20162016

Mark Ronson featuring Bruno Mars “Uptown Funk” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Josh Blair, Riccardo Damian, Serban Ghenea, Wayne Gordon, John Hanes, Inaam Haq, Boo Mitchell, Charles Moniz & Mark Ronson; masterização por Tom Coyne; produção por Jeff Bhasker, Bruno Mars & Mark Ronson)
“Really Love” by D’Angelo & The Vanguard
“Thinking Out Loud” by Ed Sheeran
“Blank Space” by Taylor Swift
“Can’t Feel My Face” by The Weeknd

Outro ano em que todo mundo só veio pra perder, né? Tinha uma certa sensação de “pode ser que a Taylor Swift leve”, mas o maior hit daquele ano, e o único que poderia chegar perto de “One Sweet Day” (até “Despacito”) era impossível de ser negado. “Uptown Funk” foi viral, foi ubíquo, inescapável; a atualização de um som que ninguém andava mais fazendo e com influências do Minneapolis Sound e o funk do finalzinho dos anos 70/início dos anos 80 que combinou perfeitamente com as sensibilidades retrô do Mark Ronson e do Bruno Mars. Ainda hoje essa música levanta as pessoas  e daqui a alguns anos continuaremos berrando “Uptown funk you up!” nas festinhas da vida.

(além disso, todos os envolvidos na produção dessa música tem serviços prestados com a Academia, seja em indicações ou vitórias. Até temos a brand Max Martin aqui, mas o trio de produtores tem um currículo que parece coisa de especialista no LinkedIn)

Recomendações: a minha outra favorita pessoal nesta categoria era “Can’t Feel My Face” (dark, misteriosa, sexy e retrô), mas se “Uptown Funk” não existisse, a vitória seria da Taylor Swift com sua canção assinatura “Blank Space“. Era o auge da carreira da loira, a música tem um synth 80’s discretinho sem parecer muito throwback e ela conseguiu fazer música pop de qualidade sem se entregar às trends da época (que já navegavam em torno do tropical house e próximas ao urban).

2017

Adele “Hello” – vencedora (mixagem/engenharia de som por Julian Burg, Tom Resultado de imagem para adele 2017Elmhirst, Emile Haynie, Greg Kurstin, Liam Nolan, Alex Pasco & Joe Visciano; masterização por Tom Coyne & Randy Merrill; produzida por Greg Kurstin)
“Formation” by Beyoncé
“7 Years” by Lukas Graham
“Work” by Rihanna featuring Drake
“Stressed Out” by Twenty One Pilots

Antes de mais nada, eu entendo a importância de “Formation” como música, como evento político e posicionamento da Beyoncé. Foi a melhor música lançada ano passado e merecia todos os prêmios, tanto pela produção intrincada e pela letra forte e inteligente. Mas quando analisamos todas as coisas que lemos e pesquisamos durante o tempo que “prevemos” as ações da Academia, a indicação de “Formation” se deu essencialmente porque era Beyoncé. A produção era a mais fora da caixa entre as indicadas, com estrutura mais difícil e pouco “safe” para os desejos safe dos votantes. Era uma vitória muito difícil, tanto para os tempos que corriam quanto dentro da lógica do que é escolhdio como vitorioso dentro o Grammy.

Nessa situação, “Hello” era a vitória mais segura, de uma artista amada pela indústria, que mais uma vez “salvou-a” das vendas ruins e do medo do stream (enquanto Beyoncé restringiu “Lemonade” ao flopado TIDAL). Uma balada clássica, acadêmica, adulta contemporânea, perfeita para as sensibilidades dos votantes. É a vitória que todo mundo queria? Talvez não. É a vitória que faz sentido para o Grammy? Com certeza.

Recomendações: num ano em que tivemos dois indicados com pegada urban (uma mais puxada pro alternative e outra mesclada com dancehall), uma das músicas com produção decidamente curiosa é “Stressed Out“, do twenty one pilots, a banda de rock sensação do período de elegibilidade cujo single que foi o grande estouro tinha justamente tintas… urban.


Chegamos ao fim do segundo post do nosso esquenta para o Grammy 2018. Dia 28 tem a revelação dos indicados para a premiação, que promete ser surpreendente – e histórica, com certeza!

Aproveitem e confiram essa playlist bacaninha com todos os vencedores do Grammy de Gravação do Ano desde 1980 🙂

Anúncios

10 comentários sobre “Esquenta para o Grammy [2]

  1. Essa vitória do Sam em 2015 eu não consigo superar, sinceramente acho Chandelier uma porrada em forma música ( olha a letra), além do que a Billboard e outros veículos citaram essa como canção do ano, posso exagerar, acho essa uma das melhores canções pop dos últimos anos.
    Acompanho o blog a algum tempo e dá pra perceber o trabalho que tens ao escrever os artigos, parabénsssss e pfvr continue escrevendo, o conteúdo publicado é super explicativo, interessante e relevante!!!

  2. Marina, que post maravilhoso.

    Acompanho o blog desde 2014, então pegue a fase de previsões para o grammy de 2015. Com tudo que aconteceu na musica de lá pra cá como seria seus indicado e ainda daria o premio para o Sam ?

    • Eu ainda mantenho minha resposta de 2014 – eu achava Chandelier um vencedor mais vistoso (tinha a cara do prêmio, era do jeitinho que a Academia costuma valorizar música e era de uma singer/songwriter com uma certa inspiração indie); mas Sam Smith era o novato com a voz soul, com letras pessoais e comparações a Adele. Era um combo muito irresistível para ignorar. Além disso, a lineup era MUITO fraca; juro que não sei o motivo dessa lineup tão ruim (a gente tinha a Ariana na época, dava pra inserir a menina na história; se não me engano ainda tinha Happy e Let it Go. Até HAPPY era menos tenso que a lineup de 2015.)

      (até hoje, eu ainda procuro esse tchan que as pessoas veem no Sam Smith, e olha que aprecio muito o debut; mas deve ser a voz que agrada a gregos e troianos.)

      E obrigada por continuar acompanhando o blog desde essa época; nem eu imaginava que duraria tanto haha

    • Eu gosto muito de “Firework”, mas acho que a música envelheceu tão mal… “Teenage Dream” ainda é a música mais representativa da Katy e tem uma produção mais atemporal (e que consegue ter mais “a cara” da época).

  3. Por favor….Faz um de canção do ano Tbm…amo ler o que vc escreve e ficaria muito contente se atendesse o meu pedido….vc está salvando a temporada esquenta para o grammy….pois nao encontro nada recente relacionado ao assunto e olha que estamos quase lá heim….Contudo, parabéns

  4. Adorei o post, mas tenho dois adendos a fazer: primeiro, que apesar de detestar essas escolhas safe e medrosas do Grammy, acho que “Clocks” é realmente muito melhor e mais atemporal que qualquer uma das outras indicadas. Se tem um ano que o conservadorismo do Grammy acabou sendo uma coisa positiva, foi esse(já que a música não era tão hit nos charts dos EUA para vencer pelo sucesso). Hey Ya e Crazy In Love podem ser excelentes hits, mas não chegam aos pés de Clocks em qualidade e ainda são levemente datadas. Ninguém lembra mais de Hey Ya e CIL é memorável, mas ganhar seria um exagero, principalmente por ser o single debut da artista.

    Por outro lado, a vitória do Sam Smith em 2015 é uma das que representa bem o conservadorismo do Grammy fazendo besteira. Ninguém lembra dessa música, e ela além de ser básica, não é nada representativa do momento musical da época. Claramente uma vitória cotada: com esses indicados muito pop e moderninhos, é óbvio que essa música levaria por ser a única com a cara da Academia. Dentre as indicadas, Chandelier deveria ter vencido sem dúvidas. As outras, prefiro nem comentar…

Comente aqui!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s