Eu gostava mais da Old Taylor

… porque pelo menos a velha Taylor escrevia músicas melhores.

Um dos grandes trunfos da carreira da Taylor Swift sempre foi sua habilidade como compositora, de escrever exatamente o que uma jovem sentia ou passava, mesmo que você não fosse uma cantora de country-pop de 17/18 anos. E mesmo em suas incursões mais pop (a exemplo de algumas faixas no “Red” e no primeiro trabalho todo pop da moça, “1989”), você sabia que encontraria ótimas músicas com letras relatáveis, joviais, com aquele senso de humor meio awkward e especialmente no último álbum, uma despretensão da artista que sabia bem quem era e sabia brincar com a maneira como os outros a viam. O maior exemplo disso é “Blank Space”, uma maneira divertida, irônica e genial de reverter a reputação que a Taylor tinha de “man-eater” a favor dela, com uma visão bem curiosa de si mesma.

Mas 2016 chegou e passou como se fosse um furacão tirando tudo aquilo que a tornava imune e criadora da própria narrativa – através de situações como o namoro altamente publicizado com Tom Hiddleston, a treta com Calvin Harris, o interminável beef com Kanye West. E Taylor sumiu. Até mesmo o atual relacionamento é low-profile, com o desconhecido ator britânico Joe Alwyn.

Black-and-white image of Taylor Swift with the album's name written across itPara aparecer rebranded como alguém mais esperto, mais irônico, assumindo a própria má-reputação e tentando retomar o controle da narrativa que os outros tinham dela. A estratégia para esse renascimento da Taylor, em que ela desejava retomar a narrativa em suas mãos, foi evitar divulgação tradicional, conversas com a mídia – e até mesmo a forma de lançamento do CD, que manteve a característica da velha Taylor, avessa às modernidades do stream, fazia mais sentido ainda dentro do rebranding da Taylor.

Só que isso teria de se refletir no produto principal… o CD. E é aí que “reputation”, o álbum em que Taylor Swift teria de assumir sua nova persona badass, “sou a vilã da história e gosto disso”, parece um trabalho incompleto. E pior: trend chaser, quando a Taylor fez um pop puro e sem influências no “1989”.

Todo o álbum, que conta com a produção dos suspeitos de sempre (Max Martin, Shellback, Jack Antonoff), tem uma produção com pegada eletro pesada e um certo flavor urban que nos leva à conclusão de que a Taylor já vinha testando essa sonoridade pra ver se “acreditavam” nela seguindo a vibe lá atrás, em “I Don’t Wanna Live Forever”, mas é tudo pouco confortável ou gostoso de ouvir. As produções são pesadas, não servem para dançar na balada nem pra dançar agarradinho nem servem como fuck music (não, “Dress” não serve pra isso, é mais broxante que qualquer outra coisa), ou como música ambiente, ou como diversão pra ouvir na ida ou volta ao trabalho no buzú. É tudo muito anticlimático.

As letras, que são sempre o trunfo da Taylor, estão em momentos bem irregulares. Tem as deep cuts com produção mais elegante, discreta e esmerada – a exemplo de “Delicate” (mesmo que lembre vagamente a onipresente “Sorry” de todas as músicas possíveis, e tropical house Taylor? você está uns dois anos atrasada!), “Getaway Car”, que deve ser a melhor música do CD – uma gracinha, e não é uma produção tão irritantemente pesada (a metáfora de fim de romance através de uma relação sem futuro entre um casal é bem trabalhada e bem escrita e amarrada; enfim, essa é a Taylor que a gente gosta); além de “New Year’s Day”, a última faixa do CD, com uma vibe acústica e narrativa mais reflexiva sobre crescimento, maturidade, após a agonia e êxtase da juventude.

De resto, tem muita coisa ruim e forçando todo o conceito da era, o de assumir a reputação que outros imprimiram à Taylor, e apenas se revelar quem é às pessoas que realmente gostam e se importam com ela. Nesse meio do caminho, tem coisas pavorosas como “I Did Something Bad”, “Don’t Blame Me”, e a diss pro Kanye “This Is Why We Can’t Have Nice Things” que eu não entendo como não poderia ser mais divertida e despretensiosa. E eu nem falei das tentativas falhas da Taylor investindo no rap (em “…Ready For It” e “End Game”, uma colaboração errônea entre ela, Future e Ed Sheeran que não faz nenhuma das partes brilharem); as produções do Antonoff que deixam a Taylor parecendo uma sub-Lorde; além das faixas mais românticas, dedicadas ao atual namorado, fillers em comparação ao que ela escreveu pro Harry Styles no “1989”, por exemplo.

Mas talvez a minha crítica em relação ao “reputation” se dá porque eu tive uma impressão errada do álbum quando ouvi o primeiro single (que realmente não aprecio, mas se torna uma highlight do álbum, graças à irregularidade do material completo) e toda a organização da era. Pensei que o CD teria poucas faixas românticas (e não 90% do álbum) e sim uma obra mais reflexiva sobre o preço da fama e da exposição, o posicionamento dela como cantora e compositora numa indústria machista que se importa mais com seus relacionamentos do que com sua musicalidade, um upgrade na percepção pública sobre a Taylor (como ela tinha feito em “Blank Space”, só que de forma mais madura) e faixas super fun e despretensiosas sobre os beefs. No entanto, toda a parte do “assumir o lado malvado” fica em versos e referências em músicas esparsas, apenas para reforçar o tom do CD, mas nada que me faça querer dar play ou analisar quando o álbum chegar ao Spotify.

Que pena. Eu esperava mais da nova Taylor.

 

P.S.: Max Martin precisa urgentemente de um ano sabático. E Jack Antonoff não é nem metade do que ele pensa que é.

 

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