Pop baunilha – Ed Sheeran – ÷

Nas últimas semanas, vocês já devem ter tido acesso à célebre resenha do novo álbum do Ed Sheeran, “÷” (lê-se “divide“), feita pela conceituada Pitchfork (spoiler: a publicação deu 2.8 ao CD, menos que o pavoroso “Nine Track Mind”, do Charlie Puth). Mas será que o novo álbum do ruivo é tão ruim assim?

Antes da resenha, é importante dizer que durante a divulgação do álbum, Ed deu algumas declarações no mínimo estranhas para um pop act – como dizer que “abaixo de Adele, só ele vendeu discos” e que “agora tem vários cantores-compositores e que eu estou muito feliz por todo mundo, mesmo que eles copiem tudo que eu tenho feito” (foi mais ou menos isso que ele disse, como se Ed Sheeran fosse o rei da originalidade). Pois bem, pra quem se arvorou o criador do WGWG (Bob Dylan foi uma alucinação coletiva,  I guees), o material do moço é bem aquém. Especialmente o “÷“, que é até um improvement em relação ao snoozefest que era o Multiply (que dor ouvir aquele CD que foi indicado ao Grammy!!!!), mas não tem nada de diferente, curioso ou groundbreaking em relação a outros male acts e parece um pop baunilha, pronto pra consumo nas rádios, tocar na novela e ganhar “respeito” do Grammy que vai indicar esse CD a qualquer coisa porque é puro middle-of-the-road.

Pois bem, dá pra ver que eu não gostei do CD né. Bora pro track-by-track:

Hora de resenhar a versão standard:

Eraser” – quem colocou a boy band aqui? A primeira faixa do CD não é ruim, pelo menos é algo mais upbeat que todo o “X” e o “+” combinados – mas lembra música de boy band noventista com dancinhas e tudo (e olha que eu adoro boybands noventistas). A letra é interessante – agora que ele deixou de ser “aquele ruivo cantando pop com a guitarra na mão” ele ganhou confiança porque se tornou um superstar, e sabe que existem obstáculos nesse rumo. Engraçado que nas entrevistas, essa percepção realista deu lugar a uma egotrip bizarra, mas tudo bem.

Castle On The Hill” – o ótimo outro primeiro single do “Divide”, apesar de parecer uma música do Mumford and Sons, tem um jeitão de stadium anthem pra todo mundo cantar junto e pular na hora do refrão. Eu acho a letra sensacional – as memórias do Ed em relação à infância e adolescência, mesmo tendo a ver com a cidade, a comunidade dele, tem uma sensação de universalidade. Essa nostalgia do que passou é nossa, especialmente na idade adulta, quando o que a gente mais quer é voltar pra lá – quando tudo era mais fácil e fazia algum sentido.

Dive” – primeira baladinha do CD, com uma pegada meio bluesy, meio anos 50, é basicamente o Ed voltando aos temas de relacionamentos que já fazem parte do material dele; mas aqui, é como se ele estivesse em meio a uma relação em que ninguém sabe se realmente dá pra seguir em frente, porque há muitas dúvidas – mas aparentemente ele tá pronto. A intenção é boa, mas as duas primeiras faixas são fortes e intrigantes, enquanto aqui parece uma balada pop filler. E imagina só a próxima música, que na-da tem a ver com o resto do CD.

Shape Of You” – Sia foi creditada pelo sample de “Cheap Thrills”? Porque essa música é da mesma família e a cara nem arde dos americanos consumirem isso há oito semanas. Viciante, grudenta e o maior sucesso de 2017 até agora, evidentemente vai ser indicado para “Performance Pop Solo”, mas deve ser uma das faixas mais derivativas que eu já ouvi tem tempos. Pior que não tem nada a ver com a vibe do resto do álbum.

Perfect” – outra baladinha com pegada anos 50, bailinho de escola, é uma declaração de amor à atual namorada do Ed, mas daí a ele dizer que é melhor do que “Thinking Out Loud” é pedir demais (sim, o moço declarou numa entrevista). Essa música tem cara de filler e TOL deve ser a melhor coisa que o rapaz já escreveu.

Galway Girl” – meu Deus, o refrão dessa música é uma vergonha! Eu achei até cool a inclusão dos instrumentos de origem irlandesa, mas a serviço de versos como: “She played the fiddle in an Irish band/But she fell in love with an English man” dói demais. Pior que vão lançar como single e corre o risco de fazer sucesso.

Happier” – a faixa com a letra mais madura do CD, é uma twist bacana sobre o Ed avaliando o fim de um relacionamento em que ele ainda ama aquela garota, mas ele sabe que fez merda e deseja vê-la feliz, mesmo que longe dele e amando outro cara. Dá uma elevada no CD, que até o momento, parece muito irregular pra ruim mesmo.

New Man” – enfim né, era pra dar uma elevada, mas a dor de cotovelo bateu – Ed canta sobre uma ex que tá com um cara novo que aparentemente  é meio imbecil e ela tá mudada – e pior, não parece feliz e anda procurando amor em outros lugares, incluindo o próprio Ed. Não é um dos melhores momentos (eu sinceramente me incomodo com esse discurso de que “você mudou por causa de fulano” porque ninguém sabe se a pessoa mudou pra agradar ao outro ou se é a vontade dela, mas essa sou eu). A música é meio bland, e tem cara de filler.

Hearts Don’t Break Around Here” – meu Deus, que sono Ed Sheeran! Eu tô com a ligeira impressão de que eu ouvi essa música em algum ponto do CD com outro nome. Não importa se é uma balada de amor, mas baladas não deveriam ser tão chatas e frias.

What Do I Know?” – uma faixa acústica com uma ótima ideia: dá pra mudar o mundo com música, especialmente para um rapaz como ele, que se declara na própria música não ter uma graduação. Ele vai tentar lutar por paz usando o que ele conhece melhor: a sua habilidade como músico. A faixa é agradável, simples e gostosinha, e tem uma certa inocência. Se fosse esse Ed Sheeran simples e sem afetação, junto com a pegada nostálgica de “Castle on the Hill”, em todo o álbum, eu estaria mais animada com a resenha.

How Would You Feel (Paean)” – tipo, se o CD tivesse a alma DESSA música, eu garanto que estaria mais animada. É linda, é finalmente uma declaração de amor simples, direta, inocente, quase adolescente, de um cara que ama a namorada e é um amor sólido, de muito tempo. O solinho do John Mayer é uma graça, e a música é perfeita não apenas pra tocar na rádio naquele horário de noite, pra vc chorar pensando no crush, como tem cara de TEMA-DE-NOVELA. Glória Perez, aproveita! Já é uma das minhas preferidas do CD, que passa longe de ser um portento.

“Supermarket Flowers” – porra Ed, deixou o melhor pro final? A música é em homenagem à avó, que morreu no período em que ele estava gravando o CD. É uma faixa muito pungente e linda, escrita sob a perspectiva da mãe dela, com um refrão sincero, bonito de verdade. Cadê esse Ed no resto do CD? Ficou basic pra hitar?


Se os dois primeiros álbuns de estúdio do Ed Sheeran eram tensíssimos (sim, eu não gosto nem do “+” nem do “x”), pelo menos esse teve o mínimo de crescimento – você se importa com as faixas o mínimo pra dizer se são boas ou ruins. No entanto, essa melhora na produção, até na elaboração das letras, mais maduras, mais reflexivas em alguns poucos bons momentos (como em “Happier” e nas duas últimas faixas), não ajuda em nada o fato do álbum ser bem irregular. Pra gostar de faixas como “Castle on the Hill” e “Eraser”, tem que aturar a PAVOROSA “Galway Girl” ou as baladas basics intercambiáveis que ele jogou no CD. Eu juro que não sei diferenciar umas das outras.

Pior é que é tudo tão basic, safe, sem graça, baunilha, que eu me surpreendo com o sucesso. Na verdade, o Ed Sheeran trabalha num espectro em que ele tem que agradar todo mundo, e compositor habilidoso que é, encontrou um caminho em que ele consegue vender uma vibe “relatable”, simples, “minha vida lembra a sua” enquanto na verdade é só mais um WGWG que faz sucesso porque só Deus sabe o motivo.

E sabe o que é mais bizarro? Eu garanto que esse CD chega ao corte final de ÁLBUM DO ANO com chances de ganhar. Preparem seus forninhos.

 

 

 

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2 comentários sobre “Pop baunilha – Ed Sheeran – ÷

  1. Gostei da review! No X ele foi mais feliz com o 1st single… apesar dele ter voltado com o pharrell q já tava meio saturado na época, pelo menos Sing não era essa safadeza q é shape of you. SOY é uma kibada descarada e ainda é chata, não dá pra defender. Assim como SOY, Sing tb não lembrava as outras músicas do álbum.
    Gosto mais dois outros materiais do ed. Achei o divide cheio de fillers, fica cansativo ouvir o álbum todo. E essa atitude dele nas entrevistas dá preguiça (facepalm).
    (Galway girl é vergonha demais, mesmo)

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