As narrativas do Grammy [3] Gravação do Ano

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No Big Four do Grammy Awards, as narrativas nunca estão sozinhas, elas dependem dos entrechos de outras categorias. Quem ganha em seus fields nas categorias de song/performance tem mais chances aqui; e discutindo os álbuns, quem leva o field tem meio caminho andado para o principal prêmio.

Falando em Gravação do Ano, que celebra as melhores produções do período de elegibilidade, trata-se de uma categoria onde os grandes sucessos se encontram. Mas também temos narrativas aqui, e 2015-16 foi um momento em que as bolhas social e musical se mesclaram de uma maneira surpreendente especialmente no big 4 – o  que pode criar algumas narrativas e divisões interessantes (ou surpresas imprevisíveis) no grande dia. Algumas dessas narrativas continuarão resistindo, outras não.

Hora de falar dos indicados, com análise após o pulo:

GRAVAÇÃO DO ANO:
“Formation” – Beyoncé
“Hello” – Adele
“7 Years” – Lukas Graham
“Work” – Rihanna Feat. Drake
“Stressed Out” – twenty one pilots

Beyoncé – “Formation”
Narrativa do enfrentamento

Com uma produção pouco usual dentro do mainstream, é um urban/hip hop/alternative que vai se desconstruindo e se crescendo e quebrando durante a música. A canção de estrutura mais arriscada entre os cinco indicados, é visível (ou audível) que não é uma música pra turma mais conservadora e acadêmica vibrar. No entanto, por ser um risco inteligente, se o Grammy premiasse de fato excelência musical, a vitória estaria aqui; mas estamos diante de um prêmio da indústria e fora da bolha musical, há questões sérias em jogo que podem afastar ou aproximar o Grammy da Beyoncé.

As questões sérias em jogo atendem pelo nome de “tensão social nos EUA”, especialmente em relação à vitória do Donald Trump e as decisões completamente assustadoras que ele anda tomando desde que virou presidente. “Formation” foi hino de protestos, de empoderamento feminino negro, foi alvo de críticas e praise na mesma medida, como não imaginar 2016 no mundo e não pensar em “okay ladies now let’s get in formation” como um chamado para a luta. Apesar de estarmos falando de produção e não letra, falamos da música que movimentou o ano e trouxe pro centro o que a gente brinca de “urban conceitual” – muito mais influenciado por batidas alternativas do que as faixas do selftitled, essa faixa mostra Beyoncé muito mais antenada com sonoridades longe do que vem tocando nas rádios populares e mesclando essa sonoridade mais “indie” com seu toque pessoal e flavor pop, nem que seja o mínimo. Se prestar bastante atenção, é a faixa mais comercial do “Lemonade”.

No entanto, o Grammy é conservador e medroso, e em tempos de medo, para os jurados é “melhor” evitar conflitos – ou pior, não ter mais vergonha de ser uma bancada preconceituosa. Só que se tal situação prosseguir pelo terceiro ano consecutivo, o backlash seria obsceno, por isso eu aposto numa situação salomônica: Record pra Bey, Song pra próxima concorrente.

Acha mesmo que a bancada conservadora vai dar Song pra uma letra absolutamente #blackpower?

Adele – “Hello”
Narrativa clássica

A já famosa “faixa acadêmica”, balada clássica e tradicional que a Academia adora, tem uma produção orquestrada e icônica, poderosa. Das cinco indicadas, é a música mais safe – artista premiada e amada por todos, música bem sucedida nos charts (hit monstruoso no final de 2015) e pode ser a saída pela tangente da Academia, confiando numa artista que não decepciona. Como não premiar o grande retorno de Adele, que conseguiu manter o alto nível e o estilo pelo qual foi consagrada, mais uma vez salvando as vendas da indústria no processo?

Como estamos falando de um prêmio da indústria, “Hello” é a faixa perfeita para ser premiada, especialmente porque, para evitar as tensões vindas por uma vitória da Beyoncé, por que não entregar o prêmio à Adele? Todo mundo gosta da Adele!, pensariam os jurados. Mas este ano não dá pra fugir do que acontece fora da bolha, e é hora de tomar decisões e finalmente assumir posturas. Premiar a famosa balada como produção do ano e deixar de fora a música que realmente moveu as pessoas e tem uma produção pouco ortodoxa? No dia seguinte ao Grammy vão lançar uma hashtag #GrammySoWhite merecidíssima, aliás.

Creio que o Grammy será salomônico e deixará “Hello” ser a vencedora de Song, apesar de não merecer tanto assim. Mas a gente tem que pensar no prêmio da indústria, e como ela joga, e como ela escolhe, e qual a imagem que deseja passar.

Lukas Graham – “7 Years”
Narrativa da música abraçada pelos jurados

Eu até falei bem da música no tópico de Performance Pop por Duo ou Grupo, que eu achava um pop direto, fresh e a letra bacaninha, mas sequer imaginava que chegaria ao big 4. A música foi abraçada pelos jurados na sua simplicidade e acredito eu, especialmente pela letra, bem trabalhada. Tanto que, para mim, “7 Years” faz mais sentido em Song do que em Record, porque a produção da música no geral é pouco vibrante ou com algum grande diferencial.

Considero a faixa comum em sua produção, com pouca coisa que brilhe em relação aos seus concorrentes. Não consigo ver muito futuro aqui, especialmente porque é um pop que não acrescenta muito ao que ocorreu no ano. Acredito ter chegado a este ponto não apenas por ter sido um hit, como também ganhou amor dos jurados por ser uma faixa pop com flavor mais adulto contemporâneo, que o Grammy adora lembrar (para dar verniz de credibilidade às indicações)… Ou porque acordou num dia diferente e quis surpreender todo mundo.

No geral, não consigo ver muito futuro de “7 Years” com os pesos-pesados do pop concorrendo. Bem difícil.

Rihanna feat. Drake – “Work”
Narrativa do sucesso

Seguindo a trend do tropical house mas com muita personalidade, adicionando pitadas de reggae e muito balanço, foi um dos maiores sucessos do ano passado e mostrou que a Rihanna ainda conhece o caminho do hit, além da química musical com o Drake permanecer fortíssima.

Por ter sido um hit massivo dentro da tendência do ano, mas sem se entregar tanto à moda, “Work” consegue ascender em relação a outros materiais parecidos, além do material evidentemente ser bem trabalhado e ser único dentro da trend. Em meio a tantas batidas e produções similares, a faixa se destaca e estar aqui, em Produção do Ano, é a prova da credibilidade que a faixa teve por parte da bancada – sem nos esquecer, evidentemente, de que a música tem dois dos principais nomes da música atual, que carrega um grande peso na seleção dos indicados.

Quando você observa sucesso + relevância + nomes envolvidos e faz a conta mental, entende que isso significa prêmio. E que, se não fosse a disputa quase que ideológica entre Bey e Adele lá em cima, seria provável que “Work” levasse o Grammy, especialmente porque a faixa parece bem querida pela bancada, a julgar pelas indicações do single. Mas, considerando que a luta entre as favoritas se dividir demais, e nenhuma decisão for tomada (nem sequer salomônica), entregar o gramofone pra Rihanna não seria uma decisão estranha. E nem uma decepção, sinceramente.

Eis aqui o nosso azarão.

twenty one pilots – “Stressed Out”
Narrativa da composição do field

Geralmente, quando pensamos nos indicados ao General Field, pensamos que os indicados, geralmente, foram os destaques de seus específicos fields e chegaram a esta posição como principais representantes do que de melhor foi produzido nos principais gêneros que compõem o Grammy. Como recentemente, há uma óbvia dominância de determinados gêneros (entre 2009-2012 o eletropop, atualmente há um ressurgimento do urban), é perceptível que os indicados em ROTY (e SOTY, por extensão) são influenciados pelos ritmos mais presentes na indústria.

Apesar de indicado em pop, “Stressed Out” vem do act rock de destaque do Grammy 2017, o duo twenty one pilots, que chega com uma produção menos óbvia, inspiração hip hop e um material intrigante dentro da própria categoria – já que consegue ser mais fresh que os prováveis representantes do pop field aqui (vamos ser sinceros, eu adoro “Hello”, mas não é exatamente a invenção da roda; tampouco “7 Years”, que consegue ser um sopro de ar fresco no field, mas com os A-lists do pop em Record é tão bland). O que é bizarro, aliás, porque coube a um rock act produzir uma das faixas pop mais interessantes do ano. Mas 2016 foi um ano de surpresas e até é compreensível a indicação aqui.

Eu gosto muito da música, é forte, interessante, não segue a trend do ano, tem personalidade e a indicação a ROTY foi merecidíssima. Pena que não combou em Song, porque de letra, merecia mais que “7 Years” – estabeleço essa comparação porque há uma temática lírica similar nas duas faixas.

CONCLUSÃO:

Quem vai ganhar? Meu Deus. Boa pergunta. Não sei hahaha Se a Academia for medrosa, vai de “Hello”. Se ela for salomônica, vai de “Formation”.
Quem deveria ganhar? “Formation” é a produção do ano, arriscada, fresh, inteligente, difícil e faz parte da cultura popular.
Cuidado com: “Work”. Nunca subestime o poder de RihDrake e um grande hit.

 

A próxima categoria é a de Canção do Ano, com surpresas entre os indicados e novamente com soluções salomônicas no ar

Até loguinho, prometo!

 

 

 

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2 comentários sobre “As narrativas do Grammy [3] Gravação do Ano

  1. Provavelmente por ser conservadora do jeito que é, a bancada irá entregar o gramafone para a Adele, mas quem deveria vencer de fato era a Beyoncé, “Formation” é ousada e merece muito. Infelizmente esse ano será chato e previsível, Adele levando todos os prêmios, coisa que eu acho injusto. Espero que esse seu até loguinho não demore muito haha, ansioso para ver suas apostas em bpva e aoty!

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