As narrativas do Grammy [2] Melhor Performance Pop por um Duo ou Grupo

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A categoria de Performance Pop por Duo ou Grupo é sempre um espaço onde os grandes hits se encontram, já que a narrativa mais recente do pop acabou girando em torno das colaborações (e curiosamente, esse encontro entre as categorias antigas – Colaboração Pop com Vocais e Melhor Performance por um Duo ou Grupo com Vocal, junto com a categoria instrumental – é algo que fez mais sentido que juntar as categorias de gênero numa só), e como esses encontros fizeram sucesso e lançaram carreiras (a trajetória de um dos últimos vencedores nessa categoria se deu justamente por causa de um featuring). Por isso, é sempre interessante ver quais são os nomes que aparecem aqui no corte final do Grammy, especialmente porque durante as minhas previsões, essa categoria era algo tranquilo que virou uma grande confusão… E cujo candidato favorito da pessoa que vos escreve mal chegou na lista final.

Pois bem, diante de grandes hits que dominaram um ano curioso, em que lembramo-nos muito mais dos artistas como entidades únicas do que das colaborações entre eles (sorry, mal me recordo da dupla Closer), o hit com envolvidos mais poderosos da indústria pode ser o vencedor natural da categoria.

Por isso, a narrativa aqui é: quem tem chances de tirar o Gramofone das mãos de Rihanna e Drake?

Primeiro, os indicados:

Best Pop Duo/Group Performance
“Closer” – The Chainsmokers Featuring Halsey
“7 Years” – Lukas Graham
“Work” – Rihanna Featuring Drake
“Cheap Thrills” – Sia Featuring Sean Paul
“Stressed Out” – Twenty One Pilots

Agora, a análise!

“Closer” – The Chainsmokers Featuring Halsey
Chances: altas
Motivo: hit

Em primeiro lugar, eu odeio essa música com todas as minhas forças. O moço da dupla Closer deveria se restringir a ser DJ e não cantar, a voz dele é horrível. A Halsey tem um timbre interessante, o que salva a faixa – mas no geral, o único mérito de “Closer” é simplesmente pegar essa trend EDM menos eletrônica e lançar um pop-dance midtempo com produção mais orgânica, e mais fácil de ouvir na rádio.

Segundo, considerando que avaliamos a colaboração em todos os aspectos – performance dos envolvidos, qualidade da faixa, sucesso do single – chegamos à conclusão de que, apesar da música ser flagrantemente ruim, um dos moços da dupla Closer ser o típico cantor de karaokê e eu pedir o tempo todo pela versão solo da Halsey, a faixa fez um sucesso estrondoso no verão americano, inexplicavelmente, chegando à primeira posição na Billboard e ficando por lá durante 12 semanas consecutivas. É o famoso “efeito Uptown Funk” (ou “Somebody That I Used to Know”): o grande hit do ano que passou, que sustentou boa parte da indústria no período, deve ser recompensado.

A diferença entre a dupla Closer e um Mark Ronson (ou o Gotye) é que os rapazes do Chainsmokers não são exatamente critic darling nem oriundos do mundo alternativo que conseguiram um sucesso surpreendente e foram abraçados pelo grande público. DJs que já vinham beliscando top 10 aqui e ali, especialmente após o boom dos DJs deixando de ser o “cara que toca as músicas na pickup” e se tornando uma verdadeira brand. Por isso, na prova dos nove, o Grammy vai jogar no seguro e preferir premiar outro hit relevante (no caso, “Work”), vindo de artistas com serviços prestados na música e com a Academia.

“7 Years” – Lukas Graham
Chances: relativas, mas é azarão
Motivo: música “velha”, act pouco conhecido

“7 Years”, da banda dinamarquesa Lukas Graham, foi um hit massivo no primeiro semestre do ano passado, chegando à segunda posição no Billboard Hot 100. A música tocou até cansar até aqui no Brasil (foi tema de novela, lembra?), e foi aquela faixa que chegou de mansinho e ficou na cabeça de muita gente. E deve ter ficado nos ouvidos dos votantes do Grammy também, porque a música conseguiu três indicações este ano: Gravação/Canção do Ano, além de Performance Pop por Duo Ou Grupo.

Nada contra a faixa, acho bem resolvida e bem gostosinha, mas não sei se tem tantas chances assim aqui na categoria, especialmente porque é uma música meio “velha”, que ficou esquecida em meio de tantos hits que passaram por 2016 – e a música acabou datando miseravelmente. Além disso, a banda é desconhecida, e pro Grammy dar esse salto de fé, o act tem que ter tido um ano impecável e inesquecível, não uma música que estourou e pronto (por exemplo, voltando ao “efeito Somebody That I Used to Know”, o Gotye era conhecido só entre os indies, mas a música não foi só um sucesso – foi um hit com seis semanas em #1 na Billboard, é um dos singles mais vendidos de todos os tempos no digital e ainda pavimentou o espaço para outros acts indies chegarem com mais força ao top 10. A música foi um fenômeno, quem acompanhou o pop em 2012 sabe muito bem disso).

Mesmo assim, ainda há chance por algo que falei lá em cima: as indicações. Lukas Graham tem ao todo, três indicações no Grammy, duas no big 4 – ou seja, o Grammy gostou e muito da faixa a tal ponto que colocou no General Field. E como a faixa é um pop bem direto ao ponto, fresh mas adulto, pode atender melhor às sensibilidades da Academia que faixas mais dançantes. Tem pinta de azarão.

“Cheap Thrills” – Sia Featuring Sean Paul
Chances: relativas
Motivo: Sia é querida, e a música fez sucesso

“Cheap Thrills” é um caso clássico e meio estranho de uma ótima faixa solo que ganha um featuring que nada acrescenta à música. Foi até interessante trazer um dos pilares dessa trend tropical, Sean Paul (rei do dancehall), para o single, mas no fim das contas, sempre foi uma festa solo da Sia, né? Pode ter alcançado a primeira posição, mas a oportunidade de trazer o Sean Paul poderia ser em outro material mais inspirado, né.

Quando eu estava fazendo as previsões do Grammy, tinha ficado com essa dúvida – se a gravadora submeteria a versão solo ou o featuring para o Grammy. Como a faixa que chegou ao #1 foi a parceria, nada mais óbvio do que escolher essa. A faixa é deliciosamente catchy e uma das highlights daquele cd irregular af que é o “This is Acting”. A música, bebendo da trend tropical mas mantendo uma certa distância dos hits mais representativos do tropical house este ano, tem mais uma performance inspirada e envolvente da Sia; mas a participação do Sean Paul, para além do flavor caribenho, não traz mais nada de relevante à canção.

No entanto, a faixa tem chances interessantes aqui, apenas por uma razão. Sia é querida pela bancada – desde o estouro da australiana no mainstream, são oito indicações dela, desde 2013. Ou seja, mais cedo ou mais tarde ela será laureada com um gramofone. Não ficaria chocada se fosse agora, especialmente que a faixa foi #1 na Billboard e a Sia conseguiu um recorde: ela foi a primeira mulher acima de 40 anos a alcançar o topo desde Madonna em 2000 com “Music”. E olha, o Grammy adora esse tipo de coisa.

“Stressed Out” – Twenty One Pilots
Chances: médias
Motivo: hype, música boa

A banda mais hypada do rock em 2016 foi o twenty one pilots. Os caras conseguiram um top 10 merecido com “Stressed Out” e ainda emplacaram outras faixas do CD, além da excelente música da trilha sonora de “Esquadrão Suicida”, “Heathens”. Como dos singles bem sucedidos da banda, “Stressed Out” é a música mais pop, nada mais justo que indicá-la.

Além de ter sido um sleeper hit (demorou pra estourar, mas quando isso aconteceu, só ficou atrás do Justin Bieber com “Love Yourself”, em segundo lugar na Billboard), a faixa ajudou o público geral a conhecer e abraçar o trabalho do duo, que emplacou outro top-5 com “Ride”, e evidentemente, “Heathens”. Como música, “Stressed Out” é outra performance cativante – menos “acadêmica” para os propósitos da Academia do que “7 Years”, por exemplo, um straight-pop com um flavor mais soul que esse rock/pop/hip-hop do twenty one pilots, um híbrido que está aqui especialmente porque consegue funcionar de forma consistente e bem convincente (tanto que a faixa tá indicada a Gravação do Ano também). Das cinco músicas indicadas, é uma das minhas preferidas.

No entanto, o hype do grupo não me parece forte o suficiente para sustentar uma vitória aqui. Além da música não ter tanto os “gostos” da Academia, outras faixas foram hits mais marcantes, envolvendo nomes mais queridos da indústria, que na balança, acabam pesando contra up-and-coming acts, porque no fim das contas, o Grammy quer premiar as estrelas – elas movimentam a indústria e dão audiência.

 

“Work” – Rihanna Featuring Drake
Chances: é o favorito
Motivo: hit, hype, A-list acts, trend

O favorito desta categoria e o nome a ser batido é “Work”. É a colaboração perfeita – dois astros A-list que já tem uma química nas músicas que vem de tempos; um hit massivo com uma sonoridade de acordo com a moda do momento, mas sem parecer tanto forçação de barra porque a Rihanna já fazia algo assim no primeiro álbum. Não é a minha música favorita do ano, mas é inegável o quanto “Work” foi huge e mobilizou o grande público.

A faixa tem determinadas gemas interessantes – como o sotaque que a Rihanna usa para cantar a música (tipicamente caribenho, Jamaican Patois), um featuring que faz algum sentido – porque completa a canção e não está ali só pelo shock value – o que torna a performance uma colaboração convincente – além da sonoridade puxada pro dancehall que já faz parte das influências da RiRi. No entanto, aqui, a união da escolha de interpretação da barbadiana com a sonoridade da música fazem com que a solução não seja apenas um hit, como um dos singles dessa trend tropical mais bem acabados de 2015-16, mesmo que eu não seja uma das maiores fãs da música. (mas a gente tem que dar a mão à palmatória)

A única possibilidade de Rihanna, com ou sem o Drake, não buscar esse gramofone no palco do Grammy, é se a bancada achar a música muito “arriscada” e no limite entre ser um pop e um urban/R&B e preferir jogar no seguro premiando uma música pop com estrutura mais óbvia. Eu não duvido nada. O Grammy geralmente tenta seguir um equilíbrio entre dois extremos, e quando você tem um grande sucesso, hypado, de dois super artistas, mas que tem um componente que foge um pouco do padrão já premiado pelo Grammy, pode ser que os jurados sigam pelo caminho mais seguro. Mesmo assim, seria esquisito pensar nisso quando a faixa recebeu indicação a Gravação do Ano. Eles gostaram realmente da música.

Antes de encerrar esse post, vocês devem estar curiosos sobre a minha música favorita entre as colaborações que foi esnobada no corte final. É um hit, um featuring que faz sentido (e muito duplo sentido) em relação ao resto da faixa, a sonoridade é a trend do momento, mas sem ser repetitiva; e é divertidíssima. Seria um bom candidato – fresh, uptempo grudenta, e muito boa pra dançar. É esta aqui

Encerrando, qual dessas músicas pode levar o prêmio? Acha que a minha favorita esnobada merecia entrar no corte final? Ou “Work” realmente foi a performance do ano nesta categoria?

Vou dar uma corridinha nesses posts pra apresentar a premiação de Gravação do Ano, onde os hits se encontram e teremos uma batalha de divas. Quem ganha essa?

 

 

 

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4 comentários sobre “As narrativas do Grammy [2] Melhor Performance Pop por um Duo ou Grupo

  1. Desculpa a ousadia, mas está faltando um “não” depois do “Drake,” nesse trecho >> A única possibilidade de Rihanna, com ou sem o Drake, buscar esse gramofone no palco do Grammy, é se a bancada achar a música muito “arriscada” .

    Quando saíram os indicados dessa categoria criei uma playlist com os indicados e os correntes de Work são todos; como posso dizer, parecidos entre aspas, são de uma mesma cultura musical.
    Já o Work da Rihanna é um corpo estranho no meio deles, uma estranheza que é o maior Hit do ano, que tornou-se a música mais executada nas primeiras 24 horas de lançamento das rádios dos EUA, desbancado um dos Hits do Justin (não lembro qual) que havia desbancado a Hello de Adele.

    Um trunfo para Rihanna nessa categoria também é que esse ano o Grammy vai ter que lidar com os Galardões (Adele, Rihanna, Beyonce, Drake, Kanye, Justin) que estão indicados, afinal de contas se é um prêmio da indústria musical os grandes nomes precisam ser gabaritados … A academia não vai perder a chance de gabaritar 2 em cajadada só. E que se divida bem os gramofones e não errem na conta.

  2. Ótimo post Mari! Bom, acho que side to side merecia uma indicação por ser uma parceria forte, grudenta e nada repetitiva.
    Acho que aqui fica entre Rihanna, Sia e Chainsmokers!
    Vc irá fazer um post sobre a categoria Pop Vocal álbum? Esperando ansiosamente sua opinião!

  3. Mari como sempre ótimo post.
    Eu tinha duvida entre Side to Side da Ariana e Starboy do Abel, sobre quem você acha que deveria ter sido indicado, e na minha opinião, Ariana e Abel deveriam ter sido indicados e o premio deveria ser de um dos dois ou ate mesmo do Twenty One Pilots. Work deve ganhar o que pra mim é uma decepção, não gosto da faixa, nem da sonoridade, nem mesmo a letra me agrada. Então entre os indicados eu ficaria com a Sia ou Twenty One Pilots.
    Mas… se igualando a Best pop álbum onde eu daria para Ariana mas sei que vai dar Adele. Aqui vai dar RIRI

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