As narrativas do Grammy 2017 [1] Melhor Performance Pop Solo

 

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O Grammy, como qualquer outra premiação, é construído por narrativas, que vão se descortinando durante o ano (de elegibilidade) até chegar ao ponto de explosão – o momento das indicações, quando as histórias que acompanhamos (o grande comeback, o grande álbum, o coming-of-age, o azarão) se encontram numa categoria para definir qual é a história que a Academia decidiu comprar e adotar.

Dessa forma, as narrativas que se apresentam para a categoria de Melhor Performance Pop Solo, onde se encontram as duas grandes artistas femininas do ano – Adele e Beyoncé – estão entrelaçadas pelas histórias delas, de outros artistas em destaque e das tendências musicais de um período curioso para a música pop, onde vemos aspectos técnicos, artísticos e sociais se misturando dentro da cultura pop.

Primeiro vamos aos indicados!

Best Pop Solo Performance
“Hello” – Adele
“Hold Up” – Beyoncé
“Love Yourself” – Justin Bieber
“Piece By Piece (Idol Version)” – Kelly Clarkson
“Dangerous Woman” – Ariana Grande

Agora é a hora da análise!

“Hello” – Adele
A narrativa do comeback

Adele e baladas grandiosas são uma combinação que sempre dá certo, desde “Chasing Pavements”, do seu primeiro CD. E “Hello”, lead-single do “25”, maior hit da britânica e a faixa que marcou seu retorno às paradas depois de quatro anos, é a representação plena das baladas como elemento indelével da musicalidade da cantora-compositora: uma faixa grandiosa, orquestrada, com uma interpretação cristalina da Adele, evocando relações do passado e a necessidade de seguir em frente, numa performance madura e costurada para hitar entre o público adulto contemporâneo, mas com um grande refrão que conquistasse a galera mais pop, sedenta por novo material da diva. Ou seja, um retorno perfeito, sem alienar seu público

Das cinco músicas indicadas, “Hello” foi o maior hit, e isso é um elemento agregador às possibilidades da Adele nesta categoria. Além disso, dos cinco indicados, é a música com maior apelo “acadêmico” entre a bancada (=faixa que atende melhor aos gostos dos jurados) e vem de uma artista com grande respeito e veneração entre o Grammy. Talvez o “25” não tenha sido o segundo fenômeno que o “21”, mas “Hello” com certeza parou a internet e fez parte da cultura pop no final do ano retrasado, seja entre covers, memes, torcida generalizada pelo sucesso da Adele ou simplesmente o prazer de curtir uma boa música. Ou seja, favoritíssima.

“Hold Up” – Beyoncé
A narrativa do álbum do ano

O que dizer de Beyoncé em 2016? Dá pra dizer mais alguma coisa a não ser que “Lemonade” é o álbum do ano, seja pela sonoridade, temáticas, modelo de lançamento ou mesmo todas as discussões e provocações que trouxe para o mundo pop – e fora dele? Por isso, é óbvio que a Bey emplacaria indicações em todos os lugares, incluindo aqui em Pop Solo, por uma das faixas mais legais do Limonada, “Hold Up”, que usa da trend tropical com maestria inserindo essa pegada reggae, com direito a sotaquinho island e todo um flavor que deixa a música a cara da Beyoncé. Não é ela cantando mas você lembrando outra artista (o principal problema de um dos indicados aqui).

Apesar da música não ter sido um hit nos moldes de outros indicados aqui (o peak foi #13 na Billboard), o fato é que, como música e performance da Beyoncé, “Hold Up” é impecável; ela consegue navegar por um turbilhão de emoções no single enquanto canta, e ainda escolhendo interpretar a faixa com o sotaque island. No entanto, entre as grandes performances pop deste ano, a música não chega perto do momento que representou “Hello”, tanto como música quanto como aspecto que parou o mundo pop. Do “Lemonade”, quem cumpriu com maestria esse papel de “single que gerou buzz” foram “Formation” (por motivos óbvios) e “Sorry” (por causa da Becky). “Hold Up” é ótima, mas é uma opção ligeiramente mais arriscada do que premiar a balada clássica de outra diva (considerando ainda que o desempenho da Adele não será arrasador como em 2012).

 

“Love Yourself” – Justin Bieber
A narrativa do coming of age

Hoje em dia não é mais “vergonha” dizer que ouve Justin Bieber, que dança ao som de “Sorry” ou curte o “Purpose”. Apesar do público-alvo do canadense ainda ser as adolescentes, tem muito adulto por aí que já comenta ter “gostado” de alguma faixa do novo álbum dele. Ao contrário da narrativa de comeback da Adele, o retorno ao sucesso do Bieber traz aspectos de crescimento do jovem cantor, que ampliou ao menos sua base de ouvintes, e a possibilidade de escapar da irrelevância, que andava circulando por sua carreira na época do “Journals”.

“Love Yourself”, um dos destaques do último CD, é uma faixa pop acústica super gostosa de ouvir e num clima um tanto diferente do resto do CD, com um apelo que ultrapassa os fãs mais jovens. A performance quase descuidada do Justin, com um vocal mais adulto e maduro, é uma surpresa boa, mostrando talento para compreender o crescimento e as modulações de sua própria voz… Até você começar a perceber que o Bieber está cantando no mesmo molde do Ed Sheeran, um dos compositores da faixa (e que faz os backing vocals), e na verdade, cai no grande problema do “Purpose” quando você o ouve mais algumas vezes – eu particularmente gosto bastante do CD, mas ele tem um erro fatal: parece um álbum de produtores, onde a única coisa que o Bieber pôs foi a voz (mesmo ele tendo composto várias faixas do CD). E aqui em “Love Yourself” o problema é: onde termina o artista principal e começa a voz do cara que escreveu a música? A performance vocal está no limite entre maturidade e total falta de personalidade, o que mina as chances do moço de chegar ao Grammy… Só se os votantes gostarem muito do Ed Sheeran.

 

“Piece By Piece (Idol Version)” – Kelly Clarkson
A narrativa da querida pela academia

Eu já disse a vocês uma boa centena de vezes sobre o quanto a Kelly Clarkson é querida pela Academia – a tal ponto dela ser indicada por aquela bomba que foi o “Piece by Piece”. A moça tem serviços prestados e o material consegue ser crossover, com um público bastante amplo e performances que conseguem ser ao mesmo tempo clássicas e dentro do gosto do grande público, o que com o vocal versátil da Kelly, sempre facilita as coisas. É só perceber como ela conseguiu transitar de um pop manufaturado em seu primeiro CD para o pop/rock e retornar a um pop “com guitarras”, e algumas influências country aqui e ali, sem ser chamada de “vendida” ou “sem personalidade”. Tudo nela soa orgânico porque sua voz permite isso.

Em “Piece By Piece”, versão do American Idol que emocionou a TV americana, uma faixa com boa letra mas execução insípida torna-se uma balada ao piano com força e respeito ao conteúdo lírico, deixando que a Kelly seja a condutora da música, fazendo com que você se emocione com a história que ela conta aqui. Quem teve a experiência de ter um parente que tenha te recusado e agora, adulto e com uma família feliz, vê nos erros dos pais o que não fazer para ser um bom pai/mãe para os seus filhos, sabe o que essa canção representa. Grandes vocalistas fazem isso, e a mudança no arranjo da canção, com direito à uma nova execução pelos vocais da Kelly, prova que a força de uma boa música consegue mover montanhas – e como ela é querida e valorizada pelo Grammy. Não subestimem essa mulher: ela é mais forte quando ninguém a coloca na bolsa de apostas.

 

“Dangerous Woman” – Ariana Grande
A narrativa da consolidação

Enquanto muitas artistas jovens conseguiram um tiro em suas indicações (ou nem isso), Ariana Grande vem se consolidando como uma das mais consistentes cantoras pop de sua geração, e você nem consegue imaginar o próximo CD como algo “incerto” – você sabe que ela vai trazer o melhor. Desde o primeiro CD a moça vem fazendo isso, e se “Yours Truly” tivesse sido trabalhado com um pouco mais de força, talvez poderíamos ter uma indicação (merecida) naquela época (porque o CD é sensacional). Ariana não erra (tirando as escolhas de alguns clipes, mas fazer o quê) e conseguiu se cercar dos melhores, trabalhando e bem com hitmakers como Max Martin e Ilya.

“Dangerous Woman” é o momento de maturação da diva, em que finalmente a Ariana sabe exatamente o que quer como artista – a faixa, sensual e elegante, com direito a um solo de guitarra em meio a faixa com influência R&B, mostra a jovem acertando todas as notas e compreendendo exatamente do que se trata a canção, como uma boa intérprete. Ela não some na produção e não quer cantar mais do que a canção mostra; por saber de suas habilidades como cantora, Ariana sabe onde a sua voz precisa ser suave, firme ou sedutora. No entanto, apesar da faixa ter chegado ao top 10, eu ainda não entendi por que “Into You” (uma música melhor) foi ignorada aqui (quer dizer, a resposta eu dei agora né…), e apesar de DW ser um excelente momento da Ariana num excelente CD, diante dos pesos pesados que a acompanham nesta categoria, vai ser bem difícil uma vitória aqui.

CONCLUSÃO:

Quem vai ganhar? “Hello”. Foi o grande momento do final de 2015 e o maior hit entre os indicados, além de uma balada clássica ao gosto da Academia.
Quem deveria ganhar? “Hello”. Foi o grande momento do final de 2015 e o maior hit entre os indicados, além de uma balada clássica ao gosto da Academia. [2]
Cuidado com: Kelly Clarkson. Quando você pensa que ela está aí só por estar, lá vai a moça subindo alegremente pra receber seu Grammy.

 

A próxima categoria é a de Melhor Performance Pop por Duo ou Grupo, a famosa categoria dos hits… Será que Rihanna e Drake vão receber o Grammy juntos?

Até logo!

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4 comentários sobre “As narrativas do Grammy 2017 [1] Melhor Performance Pop Solo

  1. Esperei muito por esse post Marina, enfim consegui me cadastrar pra comentar aqui! Bom, de fato a Adele irá ganhar, mas queria e acho que A Kelly ou a Ariana mereciam, Acho que infelizmente a Ariana não leva nenhum por está concorrendo contra a Adele =/, mas torço bastante por ela, já serão 4 Grammys perdidos, não quero que ela se torne uma Katt Perry 2.0, enfim, esperando sua opinião sobre quem irá levar best duo!

  2. Lá vou eu dar minha opinião kk. Concordo bastante com vc Mari mas… vc acha mesmo que a Kelly tem chances ?
    eu tenho certeza que a ganhadora será Adele mas se algo acontecesse e outra pessoa ganhasse acho que o JB merecia ou até mesmo a Ariana. você não acha que esses dois teens não tem alguma chance esse ano ?

    • Rapaz, não vejo a Kelly com chances CHANCES, mas ela é sempre uma concorrente a ser temida. Entre os teens, vejo o Justin com mais chances que a Ariana, especialmente porque a música chegou ao #1 e tem um apelo bem mais crossover que DW (e a semelhança com a voz do Sheeran ajuda também haha)

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