O Grammy 2017 vem aí parte 3 – A era pop

Tensões sociais e culturais sempre são refletidas na música e nas premiações, como uma forma de avalizar mudanças ou participar das modas, mesmo que com atraso. O Grammy não foge à regra, especialmente após a premiação passar a ser televisionada ao vivo, o que colocou na tela os artistas mais bem sucedidos de seu tempo, alçados ao patamar de lendas. No entanto, o surgimento da MTV em 1981 sacode o mundo da música com a possibilidade firme de aliar imagem e som de uma forma indelével e não apenas como um acompanhamento para a canção, mas também para oferecer visões de mundo, divulgar ideias, produtos, “educar” um novo público.

Essa geração MTV logo tomará o Grammy de assalto, a tal ponto que muitos, compreendendo o quanto a imagem era forte nos anos 80, decidiram focar apenas no visual e esquecer a música – e esse encontro primeiramente feliz entre arte e comércio tornou-se um problema que a Academia resolveu da pior forma possível.

Mas pra que spoilers, né dona Marina? Em primeiro lugar, acompanhe a curta e excitante “era pop” do Grammy!

1982-1990 – A “era pop”

Nos Grammys de 1982 e 1983, quando você observa os vencedores, não vê nada de diferente entre eles, em relação ao material que foi apresentado nos anos anteriores. “Double Fantasy”, o último álbum lançado por John Lennon em vida, foi recebido com diversas críticas; mas três meses depois, com o assassinato do eterno Beatle, as críticas negativas viraram positivas, o CD foi um sucesso e o material ficou com o Álbum do Ano.

No ano seguinte, o vencedor de Álbum do Ano foi “Toto IV”, da banda de soft-rock Toto, um álbum extremamente bem sucedido e que foi o auge da carreira do grupo. Mais ou menos a situação do Fleetwood Mac com o “Rumours” em 1978.

No entanto, podemos observar algumas mudanças interessantes entre os indicados a categorias de singles, pavimentando o que encontraríamos no resto da década: o encontro entre arte e mercado, graças à geração MTV e um elemento muito específico: música pop invadindo as trilhas de cinema nos anos 80.

Gravação do Ano, 1982
Vencedor: Kim Carnes, “Bette Davis Eyes” (o maior hit do ano de ’81)
Indicados:
Arthur’s Theme (Best That You Can Do)“, Christopher Cross (vencedora do Oscar de Canção Original de ’81 e último #1 do Cross)
(Just Like) Starting Over“, John Lennon (maior hit do Lennon nos EUA, chegou ao #1 após a morte dele)
“Endless Love”, Diana Ross and Lionel Richie (segundo maior hit de 1981 e indicado ao Oscar)
Just the Two of Us”, Grover Washington, Jr. e Bill Withers (smooth af, ficou em primeiro lugar na Billboard por três semanas, e ganhou o Grammy de Melhor Canção de R&B)

Gravação do Ano, 1983
Vencedor: Toto, “Rosanna” (ficou em segundo lugar na Billboard por semanas)
Indicados:
Steppin’ Out“, Joe Jackson (synth-pop nervoso com piano orgânico que chegou à sexta posição no Hot 100 na época)
“Ebony and Ivory”, Paul McCartney e Stevie Wonder (sete semanas em #1 no Hot 100, maior hit do Macca pós-Beatles, maior hit do Stevie; quarto maior hit de ’82 e que clipe pavoroso)
“Always on My Mind”, Willie Nelson (enésima versão, e uma das mais bem sucedidas, com direito a peak de #5 no Hot 100, maior hit Country de ’82 e três prêmios naquela edição)
Chariots of Fire“, Vangelis (aquela música de esporte famosíssima que conseguiu chegar à primeira posição na Billboard. Isso mesmo)

Apenas observando os indicados nessa categoria, você pode perceber um padrão que hoje é plenamente justificado nas nossas previsões do Grammy – indicados a Gravação do Ano são os grandes sucessos do momento. E muitas dessas faixas já tem clipes que os acompanham, pensando logo na visibilidade desses singles para o público que os acompanharia na MTV, por exemplo, mesmo que esses artistas em sua maioria não fossem “filhos da MTV” e o apelo com o público adolescente fosse até questionável.

*tanto que foi em 1982 que surgiu a categoria de Melhor Vídeo no Grammy. Nada é por acaso.

(em Canção do Ano, o padrão é perigosamente familiar, a propósito)

A sonoridade vai se modificando aos poucos – o que é indicado é muito mais algo straight pop, com visível influência de synthpop e new wave, o que logo vai convergindo no pop que é a mola mestra do que se faz atualmente. Afinal de contas, se 1982 e 1983 foram as sementes, 1984 foi onde tudo mudou.

A 26ª edição do Grammy, em 1984, premiou os nomes mais importantes do ano anterior. E quem era o principal grammy-1984nome de ’83 foi ele mesmo – o moço chateado em 1980 por ter sido ignorado pela Academia: Michael Jackson e seu “Thriller”, que rompeu barreiras musicais, raciais e culturais nas rádios e na televisão (perguntem à MTV) e conseguiu numa só noite oito prêmios Grammy. O fenômeno foi tão forte que a transmissão desse award teve uma audiência recorde de mais de 43 milhões de pessoas, recorde não batido até hoje.

(lendas são assim mesmo)

Esse período de 1983-84 foi extremamente prolífico para a música, com indicados e vencedores de altíssimo nível, num momento em que aparentemente todos os pop stars estavam lançando materiais brilhantes ao mesmo tempo – e os indicados e vencedores do Big Four pareciam um Greatest Hits do melhor que os anos 80 poderiam oferecer.

Gravação do Ano 
Vencedor: Michael Jackson, “Beat It”
Indicados:
“Flashdance… What a Feeling” Irene Cara
Every Breath You Take” by The Police
“All Night Long (All Night)” by Lionel Richie
Maniac” by Michael Sembello


(sério eu adoro esse clipe e o fato de que a gangue briga com dancinhas)

Canção do Ano
Vencedor: “Every Breath You Take (Sting), The Police
Indicados:
Lionel Richie por “All Night Long (All Night)”, interpretado por Lionel Richie
Michael Jackson por “Beat It”, interpretado por Michael Jackson
Michael Jackson por “Billie Jean”, interpretado por Michael Jackson
Michael Sembello e Dennis Matkosky por “Maniac“, interpretado por Michael Sembello


(isso não é música pra casamento hein gente)

Álbum do Ano 
Vencedor: Michael Jackson, “Thriller”
Indicados:
“Let’s Dance”, David Bowie
“An Innocent Man”, Billy Joel
“Synchronicity”, The Police
“Flashdance Soundtrack”, Various Artists

Observando os indicados e vencedores, é tudo bem cronometrado: “Thriller” é o grande álbum daquele ano, com recorde de vendas e impacto na crítica e na cultura; a soundrack de “Flashdance” é cheia de tiros de bazuca, de um dos filmes mais bem sucedidos da época (e um dos primeiros a introduzir o conceito de “high-concept” movies da Paramount – fiapo de história, muita música e identidade videoclíptica); “Let’s Dance” é o álbum mais bem sucedido comercialmente do Bowie, com três dos singles de maior retorno nos charts de sua carreira – Bowie que nunca foi um queridinho da Academia; “Synchronicity” é o material com maior sucesso do The Police, no auge da carreira naquela época, e uma das bandas mais bem sucedidas da indústria; e o “An Innocent Man” do Billy Joel, uma homenagem aos anos 60, teve uma série de hits, um feito notável para um veterano na época, e que não era exatamente um artista visual.

Já Lionel Richie, que entrou de gaiato aí com “All Night Long”, teria a melhor noite de sua carreira um ano depois, quando o clássico “Can’t Slow Down” levou o prêmio principal da noite. No mesmo ano, Tina Turner teria seu grande comeback com o “Private Dancer”, levando prêmios no Pop e no Rock field, além dos prestigiados Gravação e Canção do Ano (este último foi para os compositores da faixa).

Os indicados e vencedores são TIROS’: “What’s Love Got To Do With It” (venceu Canção e Gravação), “Girls Just Wanna Have Fun”, “Time After Time” (Cyndi Lauper vencedora do prêmio de Artista Revelação, ainda emplacou a primeira em Gravação e a segunda como Canção do Ano; além do álbum indicado a Álbum do Ano), “Against All Odds” (clássico do Phil Collins indicado ao Grammy e ao Oscar, levou Melhor Performance Pop Masculina); “Hello” (is it me you’re looking for?). “Dancing in the Dark”  (Bruce Springsteen vivendo um ano iluminado com o “Born in the U.S.A”) e “I Just Called to Say I Love You” (clássico cheesy do Stevie Wonder que levou o Oscar de Melhor Canção Original). Que ano, meus senhores!

Já em 1986, foi Phil Collins quem saiu com as mãos cheias, já que o “No Jacket Required” levou o prêmio de Álbum do Ano, e o homem ainda levou Melhor Performance Pop Masculina e Produtor do Ano, junto com Hugh Padgham. Entre as moças, a novata Whitney Houston já começa a mostrar serviço, levando Performance Pop Feminina por “Saving All My Love For You“. E o grande evento daquele ano, “We Are The World”, foi lembrado pela Academia com a prestigiada Canção do Ano, uma vitória pessoal para Michael Jackson e Lionel Richie.

Agora veja uma coisa curiosa – depois de nove anos ganhando Grammys adoidado nos anos 70, Stevie Wonder leva o primeiro Grammy nos anos 80 com o álbum “In Square Circle”, no R&B field. O CD, no entanto, não faz o corte final de Álbum do Ano, o que mostra que os grandes nomes dos anos 70 na música passaram por maus bocados na década seguinte. Mesmo com Paul Simon vencendo em 1987 por “Graceland”, Dionne Warwick retornando com “That’s What Friends Are For” e a Barbra ganhando neste ano em Performance Pop Feminina, o fato é que os nomes principais da década de 80 eram outros, em sua maioria associados à cultura do videoclipe – Michael, Whitney, Cyndi; logo depois os irlandeses do U2, e o Peter Gabriel(ex-Genesis, igual ao Phil Collins), queridinho do VMA nos anos 80 com seus vídeos, estoura no mainstream pop; enquanto os velhos nomes do passado optaram por ficar relegados aos nichos originais (como R&B ou rock), onde a concorrência com artistas mais novos era menor. O Grammy ficava cada vez mais jovem, porque a indústria ficava mais jovem – e a indústria, com pontuais exceções, é preconceituosa com os mais velhos.

Dessa forma, entre hits marcados nas rádios e na televisão e retornos pontuais de estrelas das antigas, chegamos ao contexto do Grammy de 1990, onde imagem, arte e comércio colidem de uma forma que mudaria a premiação pelos próximos anos.

De um lado, uma clássica narrativa de comeback que a Academia ama – Bonnie Raitt, cantora de blues, leva o prêmio de Álbum do Ano com “Nick of Time”, após anos de carreira com aclamação da crítica, mas pouco conhecida pelo público, além de problemas com drogas e álcool. Além dela, Bette Midler reencontra o sucesso com “Wind Beneath My Wings”, do filme “Beaches”, e leva Gravação e Canção do Ano. Entre os artistas jovens, uma nova geração de estrelas surge, como Gloria Estefan (“Don’t Wanna Lose You”) e Paula Abdul (“Straight Up”), indicadas a Melhor Perfomance Pop Feminina; a sensação R&B Bobby Brown, Anita Baker mantendo a constância e ao invés de Michael, Janet é a Jackson mais estourada na década que acaba de começar.

Do outro lado, o duo alemão Milli Vanilli, cujo debut “Girl You Know It’s True” alcançou um sucesso absurdo, catapultado pelas músicas dance-pop que eram moda na época e os looks dos dois cantores, Rob Pilatus e Fab Morvan, que tinham sido modelos e eram dançarinos. Calhou que eles foram indicados a Artista Revelação naquele ano, e até chegaram a se apresentar no Grammy de 1990

(e depois vocês dizem que a Academia nunca admitiu playback)

milli-vanilliSabe o que aconteceu? O Milli Vanilli levou o prêmio de Artista Revelação naquele ano! Um feito evidentemente comemorado por todos os envolvidos, até o momento em que um jornalista revela a verdade por trás da dupla bem-sucedida: Morvan e Pilatus não cantavam nada, nem um vocal, nem uma letra, nas músicas de seu primeiro álbum. Eles apenas dublavam as canções. O mais bizarro foi que o produtor deles, Frank Farian, já tinha se aproveitado de um estratagema parecido anos antes, com uma banda disco chamada Boney M (mais detalhes aqui), em que boa parte dos cantores não cantava nada. No entanto, a armação fora longe demais, porque ao contrário da Boney M., o Milli Vanilli chegou ao Grammy – e, vamos dar a César o que é de César, ninguém desconfiou de que havia algo errado? Eles já eram conhecidos pelos playbacks falhos, o Frank Farian não era um completo unknown na indústria, se alguém da bancada desse uma pesquisada, dava para descobrir a história e a banda sequer entraria no corte final dos indicados.

O Grammy caiu numa cilada – já que o Milli Vanilli era extremamente popular, seus clipes eram bem visualizados, os caras eram bonitos, o som era da moda… Mas eles não cantavam nada. Na busca do equilíbrio entre qualidade artística e anseios do mercado, o mercado ganhou a batalha – mas perdeu feio a guerra, porque o Milli Vanilli teve de devolver o gramofone para a bancada e o espaço para “Artista Revelação” em 1990 ficou vazio. Ninguém ganhou “no lugar” de Morvan e Pilatus.

Para recuperar a credibilidade (afinal de contas, quantos indicados e até vencedores poderiam ter se valido dessa estratégia e enganado anteriormente o Grammy?), a Academia tomou importantes decisões a partir de 1991: jogar no seguro. Confiar nas velhas estrelas. Dar poucas chances a novatos. Se reorganizar. Válido, mas problemático.

É a fase de “rearranjo” do Grammy, que vai gerar tensionamentos, gaps geracionais e ouso dizer rematadas injustiças – de 1991 até 2008. Pelo ano, você já imagina qual seja.

 

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