O Grammy 2017 vem aí parte 2 – o período clássico

A décima-terceira edição do Grammy foi realizada em 16 de Março de 1971, premiando os destaques da música do ano de 1970. A diferença da premiação naquele ano foi o fato de que, pela primeira vez, as cerimônias passaram a ser televisionadas ao vivo pela ABC (atualmente, o canal que transmite o Grammy é a CBS, e essa saída de cena da ABC levou à criação do American Music Awards em 1973, criado para rivalizar com a outra premiação BARRACOS EM NY). A primeira edição exibida ao vivo do Grammy veio num período de grande diversidade de estilos e quando grandes artistas conviviam juntos nas rádios, oferecendo uma variedade única de canções e álbuns que definiram gerações. Ver esses astros sendo indicados e premiados na televisão, ao vivo e a cores, deixou uma marca que pavimentou o caminho para compreendermos algumas das motivações do prêmio hoje  – mais performances que premiações, a tentativa da Academia em atender a anseios do mercado colocando artistas mais populares no centro para chamar audiência etc. O jogo começa a virar, mas neste momento, vira para os grandes nomes que se tornam lendas.

É a era de Paul Simon, Stevie Wonder, Aretha Franklin, dos Carpenters. É o período clássico do Grammy.

1971-1982 – Período clássico

Em 1971, Simon & Garfunkel continuaram o período de vitórias iniciado com “Mrs. Robinson”, em 1969, com a limpa dois anos depois. “Bridge Over Troubled Water” (a música) levou Canção e Gravação do Ano, além de Melhor Música Contemporânea (que era Melhor Música de Rock and Roll alguns anos antes hahaha); e o CD de mesmo nome ficou com o gramofone de Álbum do Ano. Foi basicamente o canto do cisne para os dois, já que a dupla folk-pop se separou logo depois da vitória. Nada melhor do que se separar no auge, né? (depois de uma ou duas discussões)

A música (belíssima, aliás) teve covers e versões de vários artistas, incluindo Elvis Presley e Aretha Franklin.

Outro destaque aquele ano foram os Carpenters, vencedores do Grammy de Artista Revelação. A dupla pop até hoje é aclamada por muitos pela sonoridade straight pop, os arranjos elegantes e a voz doce de Karen Carpenter, falecida muito jovem em 1983 (apenas pergunte aos seus pais sobre The Carpenters). Eles levaram ainda por “Melhor Performance Contemporânea por um Duo, Grupo ou Coral”, por “Close to You”. Foi apenas o começo de uma carreira bem sucedida e premiada.

E para não perder a conta…

Prosseguindo com a trend dos singers-songwriters bem sucedidos no Grammy, em 1972 a grande vitoriosa foi Carole King e o “Tapestry”. A americana lançou o álbum-base para todas as mulheres cantoras e compositoras que vieram depois – “Tapestry” ganhou Álbum do Ano, o hit “It’s Too Late” ficou com Gravação do Ano e “You’ve Got a Friend”, música conhecida na voz de James Taylor, deu a Carole o award de Canção do Ano.

No R&B field, o vencedor de Melhor Canção de Rhythm & Blues foi Bill Withers, com “Ain’t No Sunshine“, um dos clássicos da soul music de todos os tempos; enquanto Tina Turner finalmente tem a chance de levar o seu gramofone (só que junto com seu marido monstro Ike), quando ela era parte do Ike & Tina Turner, por “Proud Mary“, na categoria de Melhor Performance Vocal de R&B por um Grupo – a única vitória do duo.

E…

(sim, isso mesmo, a Aretha ganhou o Grammy com o cover da música que tinha ganho o prêmio um ano antes hahahaahh)

Em 1973, o Grammy sai da ABC em direção à CBS, onde permanece até hoje sendo transmitido. Neste ano, uma das coisas mais legais – e pioneiras – foi a vitória de Charley Pride, cantor country negro, até hoje um dos tabus da indústria musical americana (sim, artistas negros cantando country, ritmo criado pelos negros americanos; é só contar quantos você conhece); um feito repetido pelas Pointer Sisters no ano seguinte (as Pointer Sisters, aliás, que não eram um grupo country, e sim de R&B). Os Temptations levam mais uma no R&B field, com “Papa Was A Rollin’ Stone“, na era Norman Whitfield, e já num período de decadência do psychedelic soul, tanto que pouco tempo depois os Tempts deixam a trend e lançam produções mais straight R&B/soul da época.

(aliás, a versão original dessa música tem 11 minutos. Se eu tô sem paciência pra ouvir um cd de 18 músicas, imagina uma música só de 11…)

agora que eu vi… eles são praticamente iguais

Já o artista revelação naquele ano foi o grupo de rock America, que depois de ganhar o prêmio, até teve uma série de hits nos anos 70, mas no final da década já tinha caído na obscuridade. Podemos dizer que a “maldição do Grammy” pegou com atraso nos moços, mas deixaram no imaginário a música “A Horse With No Name”.

 

 

E não percam as contas:

Podemos observar claramente que a trend do songwriting, e dos grandes singers-songwriters-producers continua. A década de 70 não vê apenas as lendas se fortalecendo, mas tratam-se de lendas que produzem todo o material, material esse em acordo com os tempos que correm. A Guerra do Vietnã está nos últimos suspiros, o governo não é de confiança e a luta pelos direitos prossegue. As dúvidas das mulheres nas composições, as vozes soul tentando romper barreiras raciais, a visão do homem negro sobre o mundo; é uma música pop adulta, madura e em consonância com o tipo de juventude que tomou o centro na década de 70, antes da molecada oitentista dominar a cultura pop em maior ou menor grau até hoje.

Apenas observe os vencedores naquela época: em 1974, “Killing me Softly With His Song” no pop field (veja como o pop field é melancólico nos anos 70); Stevie Wonder pouco crédulo em “Superstition” no R&B; ao mesmo tempo que é um romântico em “You Are the Sunshine of my Life“, mas um romântico maduro, consciente, não um romântico juvenil e high school.

Por falar neles, confira os vencedores naquele ano do big four:

Gravação do Ano – Joel Dorn (producer) & Roberta Flack, “Killing Me Softly With His Song”

Canção do Ano – Charles Fox & Norman Gimbel (compositores), “Killing Me Softly With His Song”, interpretada por Roberta Flack

Álbum do ano – Stevie Wonder, Innervisions (e no ano seguinte o bonito levaria DE NOVO com o “Fulfillingness’ First Finale”; sem contar em 1977, com o “Songs in the Key of Life”. Eu disse LENDA?)

Artista Revelação – Bette Midler (sim, ela estourou primeiro como cantora, antes do boom como atriz)

E jamais esqueceremos…

Continuando a tratar da melancolia e maturidade pop, em 1975 você tem uma Olivia Newton John estourada cantando “I Honestly Love You”, enquanto Stevie Wonder fala do homem negro durante a era dos Direitos Civis em “Living For the City” e rola um papo de pegação em “Boogie On Reggae Woman” – mas tudo muito discreto e elegante. Neste ano, o compositor Marvin Hamlisch ganha o prêmio de Artista Revelação no Grammy (algo que expliquei ano passado), e uma de suas músicas “pop para adultos”, “The Way We Were”, cantada por Barbra Streisend, leva nesse ano o prêmio de Canção do Ano.

E seguimos contando:

Em 1976, apesar da vitória do pop bobinho de Capitain & Tenille com “Love Will Keep Us Together“, o “pop adulto” continua galopando, comandado por singers-songwriters como Paul Simon, vencedor do Grammy de Álbum do Ano com o álbum solo “Still Crazy After All These Years”; ou a faixa vencedora do Grammy de Melhor Performance Pop Feminina, “At Seventeen”, da cantora e compositora (aha) Janis Ian, que apesar da letra e da temática sobre a inadequação na época da escola, tem um arranjo, letra e interpretação que tem uma pegada mais nostálgica do que uma vivência daquele momento.

Nessa época, o Grammy também já começava a ampliar seu espectro de categorias, premiando produtores (começou em 1975) e nomes da música latina (a partir de 1976), mas ainda distante da quantidade imensa de fields que vemos hoje. Basicamente os fields naquela época eram: pop, R&B, jazz, clássico, country, latino, folk, gospel, infantil, comédia, musical, arranjo e composição (onde entravam as trilhas sonoras), arte do álbum (sim, até hoje a arte dos álbuns é premiada) e discos falados. O rap ainda não existia (nem vou falar de dance music) e o rock não era um field. Na verdade, o rock clássico nunca foi respeitado pelo Grammy, e caso um Led Zeppelin ou The Who da vida fosse indicado, fatalmente entraria no pop field.

E a nossa amiga Aretha continua o seu Grammy coun…OPS ACHO QUE NÃO porque em 1976, quem levou o prêmio de Melhor Performance Feminina de R&B foi Natalie Cole (filha de Nat King Cole), com a música “This Will Be”, que todos diziam ser da Aretha Franklin. As duas eram meio rivais na época e duvido de que Aretha tenha curtido essa vitória da moça (aliás, contei um pouco sobre ela ano passado). Ao todo, foram OITO VITÓRIAS da Aretha nesta categoria. OITO. Se bobear já tinha um Grammy prontinho pra ela antes mesmo de lançar CD.

O jogo começa a ficar menos óbvio para a singer-songwriter trend dos anos 70 com o final da década chegando e a disco craze tomando conta dos EUA. Como o Grammy demora um pouco pra pegar no tranco, os indicados nessa área ficam relegados ao R&B field quando é visível que a sonoridade não é R&B há séculos.

(sério gente, isso aqui é R&B aonde? Só na cabeça dos jurados do Grammy)

Enquanto isso, finalmente um álbum fora da caixinha ganha o Grammy de Álbum do Ano (ou seja, alguém que não é o Stevie Wonder, nem sei lá, o Paul Simon) – “Rumours”, do Fleetwood Mac. Um sucesso absurdo e estrondoso na época, marcou o auge da banda (profissional e artístico, é um CD maravilhoso, ouçam!) e no crescimento de uma outra sonoridade do período, que hoje muitos torcem o nariz, mas é uma delícia – o soft rock, atualmente associado a rádio easy listening e fim de noite. Não sei se inconsciente ou não, o soft rock era até um contraponto à disco, muito mais sintetizada, urgente e com um colorido que se opõe ao som meio vanilla do soft rock. Essa vitória vai descambar em outra vitória, mais à frente, a última do “período clássico” do Grammy, antes da cultura televisiva, a molecada oitentista e a MTV tomarem tudo de assalto.

Talvez seja uma tremenda coincidência mesmo, mas em 1979, esse tensionamento do singer-songwriter (que também fazia soft rock) com a disco chega a esse ponto de divisão com os vencedores do Big Four: em Canção e Gravação do Ano, Billy Joel por “Just The Way You Are” (uma balada pop de um cantor e compositor intimamente ligado com esse rock menos inofensivo; e sim, Barry White regravou essa música); enquanto a vitória em Artista Revelação foi do A Taste of Honey, grupo que fazia música disco, e o Álbum do Ano foi para a trilha sonora de “Saturday Night Fever”, um marco no cinema e na música da sedimentação da cultura disco nos EUA.

No entanto, quando o Grammy bate à porta dos anos oitenta, a Disco praticamente estava extinta (justamente quando os bonitos decidem criar a categoria de “Best Disco Recording” – o que eu comentei aqui), enquanto o soft rock ganhava cada vez mais corpo. O próprio Billy Joel levou Álbum do Ano com o “52nd Street” e os Doobie Brothers ganham Gravação e Canção do Ano com “What a Fool Believes” (um clássico do período). O Earth Wind & Fire, que lançou várias músicas dançantes neste período, levou o Grammy no field R&B pela balada “After the Love is Gone” (enquanto “Boogie Wonderland”, concorrente em Disco Recording, teve o instrumental vencedor no field R&B. Que loucura). Nesta mesma época, o jovem Michael Jackson levava o prêmio de Melhor Performance Masculina de R&B por “Don’t Stop ‘Till Get Enough” (suuuper R&B), um único prêmio que levaria o moço a tomar uma importante decisão, movido pela decepção com a bancada não ter recebido seu material solo da forma como gostaria.

E finalmente o Grammy prestigiaria a categoria rock, lançando em 1980 o rock field, introduzindo um período de inúmeras missteps, merdas, decisões inteligentes e outras polêmicas. Mas no ano inaugural, eles foram coerentes com a lista que eles tinham:

Melhor Performance de Rock Feminina – “Hot Stuff” – Donna Summer

Melhor Performance de Rock Masculina – “Gotta Serve Somebody” -Bob Dylan

Melhor Performance de Rock por um Duo ou Grupo – “Heartache Tonight” – The Eagles

Melhor Performance de Rock Instrumental – “Rockestra Theme” – Paul McCartney & Wings

Mas o momento em que eu classifico como o “canto do cisne do soft rock” foi no Grammy de 1981, quando o cantor e compositor Christopher Cross leva cinco Grammys para casa, na época um recorde (hoje já superado por Beyoncé e Adele). No entanto, o recorde que nenhuma delas pode alcançar é o de ter levado todos do Big Four em uma só noite (a britânica levou em anos diferentes), um bingo histórico que foi ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição para Cross, que logo depois do sucesso estrondoso do debut selftitled  e um Oscar em casa (por “Arthur’s Theme”, um ano depois), ficou para trás no bonde da história por inúmeras razões, especialmente porque os anos 80 não seriam tão bondosos com artistas como ele. Eu contei com mais detalhes a história dele por aqui, mas o importante é ressaltar que, apesar de outro álbum de soft-rock ter ganho após o “período clássico”, o “Christopher Cross” foi o álbum-símbolo desse estilo, com músicas que marcaram gerações, como “Sailing” e seu arranjo lindo de violinos e “Ride Like the Wind”, hino das viagens na virada da década.

Como deu para perceber, os tensionamentos sociais e musicais sempre encontraram na premiação do Grammy um espelho, mesmo que com atraso (como no caso da Disco). Os cantores/compositores produzindo pop maduro, um gênio da soul music americana, intérpretes marcantes e duas trends que se chocaram de forma inconsciente no final da década refletiam uma cultura em que cada vez mais o visual se unia ao musical, mesmo que nos anos 70 os artistas no geral não fossem tão dependentes do visual para sobreviver porque muitos deles não nasceram dele. Mas a próxima década não – a chegada da MTV mudaria tudo para os grandes nomes dos anos 70, e a molecada criança nessa década e que chegava à adolescência nos anos 80 era um grupo com identidade e vontades próprias – e a música passou gradativamente a agradar um público mais jovem… E foi necessário o Grammy pensar nisso também.

Demorou, como sempre, mas as sementes já estavam lá. Era um moço chateado pelos poucos Grammys ganhos; o líder de uma banda de R&B/soul que começa carreira solo; a prima de uma diva da música que se torna cantora e faz sucesso do seu jeito. O próximo post vai se debruçar na “era pop” do Grammy, que vai de 1982 a 1990.

 

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2 comentários sobre “O Grammy 2017 vem aí parte 2 – o período clássico

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