O Grammy 2017 vem aí parte 1

No dia 6 de dezembro, serão revelados os nomes dos artistas e bandas que vão concorrer ao chamado “Oscar da música”, o nosso querido e famigerado Grammy Awards. Nessa época, eu sempre faço um esquenta antes da divulgação dos indicados, comentando sobre o processo de votação ou algumas curiosidades históricas de premiações passadas (é só buscar os meus posts de 2014 e 2015); mas neste ano, eu estava sem muitas ideias interessantes pra trabalhar até que me deu um insight – que tal fazer uma viagem no tempo, cobrindo acontecimentos importantes dos Grammys em décadas anteriores?

(como eu amo posts históricos, essa opção me pareceu mais confortável e divertida)

Por isso, que tal viajar nessa história que começa lá atrás, em 1959, e chega ainda com muita força, buscando relevância e adequação aos tempos modernos, quase 60 anos depois? É só dar o pulo!

A premiação do Grammy  surgiu em 1959, quando executivos da área musical perceberam que os melhores dessa indústria não eram laureados com uma homenagem na Calçada da Fama e pensaram em criar uma premiação nos moldes do Oscar e do Emmy, com a indústria premiando seus pares (é por isso que eu não me canso de dizer que no fim das contas, o Grammy é um prêmio da indústria, sempre avaliando aspectos de mercado ao mesmo tempo que se debruça na qualidade artística). Apesar da televisão começar a se tornar relevante no final dos anos 50, as premiações do Grammy não eram televisionadas ao vivo – apenas passavam como um “compilado” na TV. Só em 1971 houve a primeira exibição ao vivo do Grammy, o que evidentemente ajudou a moldar a premiação como a conhecemos hoje.

Mas e antes? Quando os vencedores eram sabidos de uma forma “old-school”, com jornal e exibição das apresentações por VT? São os primeiros passos do Grammy que vamos cobrir no primeiro post do nosso esquenta:

1959-71 – A “pré-história”

O primeiro ano do Grammy foi em 1959, mas neste ano foram duas premiações – uma ocorrida em maio, premiando os vencedores do ano anterior (no padrão realizado hoje em dia); e a outra em novembro, prestigiando os destaques de 1959. O primeiro ano foi basicamente um jantar entre amigos num belo salão em Hollywood. Claro, se seus amigos forem o Frank Sinatra e o Sammy Davis Jr.

Naquela época, esqueça as 140 categorias, quinze mil indicados e sei lá quantas vitórias de gente que você nunca ouviu falar. O primeiro ano contou com 22 categorias e vencedores que variavam entre o próprio Sinatra (vencedor de melhor cover de álbum por “Frank Sinatra Sings for Only the Lonely”) e Ella Fitzgerald (que levou dois Grammy em Jazz e Pop).

Já os vencedores no big 4, que na época era big 3 (Artista Revelação apareceu no segundo Grammy, alguns meses depois), foram:

Gravação e Canção do Ano – Domenico Modugno por “Nel Blu Dipinto di Blu (Volare)” (faixa que aliás, duvido que você não conheça)

Álbum do Ano – Henry Mancini por “The Music from Peter Gunn”

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Bobby Darin, primeiro ganhador de Artista Revelação do Grammy. Esse, aparentemente, não sofreu com a “maldição do award”

Já na segunda edição, também em 1959, finalmente Frank Sinatra ganhava Grammy por algo que ele estava cantando (duas vitórias, incluindo Álbum do Ano por “Come Dance With Me”), e o primeiro vencedor de Artista Revelação apareceu: Bobby Darin, cantor pop de sucesso nos anos 50 e 60 que também teve uma interessante carreira de ator.

Após um ano sem premiação, o Grammy volta à toda em 1961, com mais categorias (o field de música clássica era imenso naquela época, refletindo os costumes daquela geração), enquanto o pop field era bem diferente do que vemos hoje – entre os vencedores estão Ella Fitzgerald (sempre ela!) e Ray Charles, além de um award chamado “Best Performance By a Band for Dancing”. E isso é sério.

Aos poucos, os anos 60 vão se adequando ao momento histórico e podemos perceber como a música se movia naquela época. Curiosamente, o Grammy surgiu já no crepúsculo da explosão rock, classificada como “música da juventude”, e o Grammy não era exatamente um award para a “juventude”. As músicas vencedoras eram o pop mais tradicional, ainda egresso das big bands, ou músicas de trilha sonora de filmes (Henry Mancini deve ser o nome mais visto destes primeiros anos), igualmente com sensibilidades mais clássicas do que moderninhas. Artistas “transgressores” como Ray Charles, com mais apelo mainstream, ora eram inclusos no pop field (porque a música indicada tinha uma sonoridade próxima ao pop tradicional) ou no R&B, que já existia naquela época (porque ainda não tinha a categoria “Melhor Álbum de Urban Contemporâneo”, um troço inexplicável pra nichar artistas nem tão R&B assim como a Rihanna pra não colocar a mulher no pop field). E a primeira vez que o termo “rock and roll” apareceu foi em 1962, com a vitória de Chubby Checker com “Let’s Twist Again” em Melhor Performance de Rock and Roll (que na verdade era um nome que eles arranjavam para premiar músicas “modernas” que talvez não se encaixassem em outras categorias do pop field – sim, essa encarnação do rock ficava no pop field).

(ah, então esse moço é culpado pelas dancinhas sessentistas nas festas de família)

Em 1965 esse clima de festa retrô acabou. Não que eles tivessem reparado, já que continuavam premiando o Henry Mancini, pop inofensivo ou as standards de Louis Armstrong e Barbra Streisend. Mas a questão foi a presença de uns quatro moleques de uma cidade chamada Liverpool, na Inglaterra, que tomaram o mundo de assalto um ano antes e ainda mantém o fascínio hoje: os Beatles, vencedores do Grammy de Artista Revelação e ainda levaram o prêmio já extinto de “Melhor Performance por um Grupo Vocal”, pelo álbum “A Hard Day’s Night” (antigamente você podia concorrer por performance com todo o álbum). Os caras ainda eram uma sensação naquela época, mas a força pop e de imagem do Fab Four foi (e ainda é) tão intensa que é inegável o acerto da Academia em premiar John, Paul, George e Ringo. Basicamente os Beatles ajudaram a moldar gerações.

Além dos britânicos, quem mais levou o gramofone vintage em 1965:

Gravação do Ano – Astrud Gilberto & Stan Getz, “The Girl from Ipanema” (ela mesma, só que em inglês)

Canção do Ano – Jerry Herman (compositor), “Hello Dolly!” (performada por Louis Armstrong)

Álbum do ano – João Gilberto e Stan Getz – “Getz /Gilberto” (AÊ BRASIL)

A prova de que “a festa acabou” foi na premiação de 1968, quando a música ganha mais balanço, groove, guitarras, tensionamentos e dissonâncias após o verão do amor de 1967. Sai o pop fofo, o field mais tradicional começa a entrar em conflito com o rock mais crescente e questionador; a música negra entra de vez para o mainstream e as discussões sobre direitos civis e críticas à Guerra do Vietnã também afetam a musicalidade dos artistas, que nessa época não são mais os velhos nomes. Agora a música é dos Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix; a Motown torna-se uma força a ser reconhecida com as Supremes, Marvin Gaye, Little Stevie Wonder e os Temptations. No entanto, demoraria um ano para finalmente uma música da gravadora levar um gramofone. Neste ano, os Beatles são laureados com o Álbum do Ano, com o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”; e neste ano, pela primeira vez ocorre a premiação de Melhor Performance Feminina de R&B, com a vitória de Aretha Franklin e um clássico, “Respect”.

(A partir daqui, começaremos o ARETHA’S GRAMMY COUNT – quantos prêmios nessa categoria a moça vai levar até a primeira derrota?)

Como eu disse, só um ano depois, a Motown leva um gramofone – e é com uma das gemas mais valiosas da gravadora do Berry Gordy – os Temptations, à época com nova formação (saiu David Ruffin, a voz inconfundível do grupo clássico; entra Dennis Edwards, o vocal poderoso da fase psychedelic soul) e com um tiro de bazuca em formato de canção – “Cloud Nine”, vencedor do prêmio de Melhor Performance R&B por um grupo, vocal ou instrumental. (e uma das minhas músicas favoritas.)

Se não conhecem “Cloud Nine”, essa é a chance.

(deus, as dancinhas) 

Outra estrela que começa a se destacar neste Grammy é Dionne Warwick, a cantora favorita dos clássicos de Bart Bacharach e Hal David. Ela venceu por Melhor Performance Pop Contemporânea Feminina (não sei o que isso significa), por “Do You Know the Way To San Jose”, uma faixa que parece um pouquinho com MPB e bossa nova.

Os vencedores do big 4 naquele ano cheio de grandes vencedores foram:

Gravação do Ano – Paul Simon & Roy Halee (producers) & Simon & Garfunkel for “Mrs. Robinson” (Trilha sonora de um clássico do cinema, “A Primeira Noite de um Homem”)
Album do Ano – Al De Lory (producer) & Glen Campbell for By the Time I Get to Phoenix
Canção do Ano – Bobby Russell (songwriter) for “Little Green Apples” performed by Roger Miller / O.C. Smith
Artista Revelação – José Feliciano (aquele da música que vai tocar eternamente no Natal, depois da música da Simone)

 

Hora do ARETHA GRAMMY COUNT

Em 1970, o último ano em que o Grammy não foi televisionado ao vivo, evidentemente, hora do ARETHA GRAMMY COUNT. Não perca as contas!

 

Como dito anteriormente, 1971, é o primeiro ano em que o Grammy é um live telecast, e o jogo começa a virar. Não apenas musicalmente – com as canções de protesto, os álbuns conceituais, a diversidade de estilos nas rádios que ia do rock ao soul; a televisão é poderosa e dá rosto a vozes que não conhecemos. Saber falar com a plateia e com o público que assiste em casa é uma arte que poucos conseguem dominar. E se o seu rosto não for “vendável” ou “bonito”, já pode colocar currículo na Catho. Essa preocupação com a imagem vai gerar problemas sérios no futuro, mas isso é pra outra história.

O Grammy de 1971 marca o começo de um novo período. Você passa a acompanhar lendas surgindo e o poder da TV passa a se fazer presente. Saímos do período “pré-histórico” (considerando o live telecast como a “escrita” da história do Grammy) e entramos para o que eu classifico como período clássico (1971-1982).

Quer saber o que aconteceu nessa época? Então fique de olho no blog!

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