É ótimo, mas podia ser menor – “Starboy” (álbum), The Weeknd

the-weeknd-starboyO sucesso inebria, nos coloca no topo, e oferece um mundo novo e excitante de conquistas e sensações. A percepção de “consegui” que deve ter sentido Abel Tesfaye aka The Weeknd após finalmente estourar para o mainstream com o “Beauty Behind the Madness”, com aclamação de crítica e público, além de Grammys, deve ter sido absurda. O canadense, com uma fã-base mais alternativa, viu-se como um act A-list no jogo pop, com a mistura de R&B, alt-R&B e influências pop que, mesmo com alguns missteps aqui e ali, manteve a sua identidade diante de antigos e novos fãs.

Com o álbum subsequente, “Starboy”, Abel coloca sua musicalidade em outro nível – com uma coesão mais acertada e fechada que no BBTM (que tinha um meio de campo problemático), podemos chamar esse novo álbum de um trabalho conceitual, em que as letras e as produções de pesos pesados da música como Daft Punk, Max Martin e Diplo, e participações especiais de Kendrick Lamar, Future e Lana del Rey, oferecem uma história em que “Starboy” (The Weeknd) alcança a fama e com a fama, abre-se um mundo de luxo, dissipação, tentações, drogas e amores conquistados e perdidos por meio das letras e da ambientação misteriosa, sensual e melancólica. Um trabalho intrigante, que peca por um erro fatal – a duração do álbum.

Hora do track-by-track!

Starboy – primeiro single, já resenhado, é a mistura de pop R&B e eletrônico com o toque do Daft Punk e toda a constatação do poder do Abel. Ótima intro pro CD e um dos grandes singles do ano.

Party Monster – o segundo tiro do álbum, ainda no clima do Abel aproveitando a fama, o sucesso e as mulheres numa orgia sensorial que não tem hora pra acabar. Mantém o álbum lá em cima.

False Alarm – talvez a faixa mais eletrônica e experimental do álbum, com ecos fortes de synth pop oitentista, é bem divisiva. Eu sou apaixonada por essa música e pela narrativa – The Weeknd conta a história de uma mulher materialista, viciada e magnética que cruza o caminho do Starboy, e se você entrar na dança da letra, talvez seja a mesma mulher de “Party Monster”.

Reminder – coladinha com FA, é uma faixa mais tradicional, retomando os temas mais R&B/urban do catálogo do canadense. Mais um tiro de bazuca no CD, especialmente pelas indiretas de que ele talvez tivesse perdido o foco após o sucesso do “Beauty Behind the Madness”. Rolam até referências ao fato de que ele ganhou um Teen Choice Awards por “Can’t Feel My Face”, uma música sobre cocaína (que belo exemplo pra juventude).

Rockin’ – ao entrar no território do Max Martin, as coisas começam a ficar irregulares. As produções do midas sueco aqui são bem menos inspiradas que os instant classics do BBTM. De todas as faixas produzidas por ele, “Rockin'” é a melhor – dançante, agradável e pronta para as pistas,  clássica faixa pra ser lançada como single.

Secrets – emendada com Rockin’, lembro que na primeira vez que ouvi, achei que estava ouvindo a versão estendida da faixa anterior. Não tem dedo do Max Martin, surpreendentemente, mas a impressão que dá é de que a produção é dele também. Pra não dizer que não gostei de nada na música, eu acho a ambientação do refrão, com a vibe oitentista, fascinante.

True Colors – engraçado como em parte do CD, o Abel lida com relacionamentos como se fossem relações curtas e até mesmo fúteis, enquanto nesta faixa existe a necessidade dele pedir à mulher com quem ele está envolvido que ela mostre que ela está envolvida também, intimamente e profundamente. É como se agora que ele está comprometido, a outra parte não parece mais tão interessada. Nesta excelente faixa, uma das minhas favoritas do CD, a sonoridade volta ao R&B, com um arranjo ótimo para fuck music. Já pode usar nas preliminares, hein? 😉

Stargirl interlude – Lana del Rey talvez seja a melhor parceira musical do The Weeknd. Os dois fazem uma combinação tão misteriosa quanto sensual, nessa interlude que é uma das melhores coisas do CD. Dá vontade de ouvir mais dela no álbum, mais dos dois. É o par perfeito para um “Starboy” tão atormentado.

Sidewalks (Feat Kendrick Lamar) – o nível sobe de vez numa das highlights do CD. Mais urban/hip hop, a faixa é sensacional, com um featuring digno do Kendrick depois de duas bombas (The Greatest e Don’t Wanna Know). Letra forte, mostrando a trajetória de vida dos dois artistas, é uma faixa envolvente e maravilhosa, que merece ser aquele último single pra encerrar os trabalhos. Já dá até pra arriscar indicações ao Grammy em 2018, hein

Six Feet Under (feat. Future) – é a partir daqui que começa o meu problema com o álbum, porque eu começo a confundir todas as músicas entre si; e pior, passo a cansar do CD. Um álbum com 18 músicas precisa te deixar atraído até o final para que você o ouça sem querer pular a próxima canção, e apesar de gostar da temática de “Six Feet Under” em específico (a mulher independente que faz tudo o que deseja para conseguir o que quer – e que pode ser parecida com a mulher materialista que o Abel encontra no percurso de Starboy), a faixa passou batido pra mim.

Love to Lay – voltando às produções do Max Martin, que realmente não foram tão boas desta vez. O que eu gosto aqui é na parte lírica: o jogo virou – ela é quem não gosta de romance, só de pegação e ele aprendeu da pior forma possível. No entanto, a faixa tem a maior cara de filler.

A Lonely Night – mais uma contribuição dance-pop/R&B do Max Martin, o vocal do Abel aqui tá lembrando algo do MJ – e quando a performance do Abel lembra o Michael, é que o homem está inspirado e veio pra destruir. É uma boa faixa entrincheirada numa parte nada inspirada do CD.

Attention – voltamos a uma faixa meio R&B com ecos alternativos, em que ele, finalmente envolvido num relacionamento sério após a fama, está incomodado com a namorada pedindo “atenção”, enquanto ele está dividido entre ela e a fama. Nesse ponto do CD, se você fizer a conexão com as letras, o “Starboy” está confortável com o sucesso, mas ele começa a perceber que vai perder a pessoa que mais ama nesse processo. Nesse momento, eu teria sugerido um corte sério para 12 músicas no álbum.

Ordinary Life – voltamos às contribuições do Max Martin, em que ele expressa arrependimento pela vida de excessos pós-fama. Eu até gosto das metáforas religiosas dessa faixa, mas novamente eu comecei a observar quantas músicas faltavam para terminar o CD.

Nothing Without You – com produção do Diplo, é uma faixa que mantém a lógica de arrependimentos do Abel após “Attention”. Aqui, ele percebe que a garota da sua vida é justamente a sua namorada do momento, mas ela está aparentemente indo embora e deixando o “Starboy”. E aí, eu já estava confundindo todas as faixas.

All I Know – com o decurso do CD, a sonoridade vai se aproximando levemente do Abel que conhecemos. O problema é que eu ouvi tantas faixas similares no CD que parece que uma sensação de dejà vú.

Die for You – levantei as mãos pro céu porque finalmente tive um respiro BOM no CD! Lembro que fiquei vidrada nessa faixa na primeira vez que ouvi, e depois que vi a letra e por que ela está aqui, nesse ponto do álbum, achei ideal. Aparentemente, a música é sobre a ex, Bella Hadid, e ficou pronta uma semana antes do lançamento do CD. Como visivelmente Abel tem problemas sérios em dizer que ama (algo com o qual me identifico muitíssimo), a música tem uma urgência e um sofrimento que colocam acima das outras faixas nesse terço final do álbum.

I Feel it Coming – e o homem encerra com essa música sensacional, uma das highlights do CD, só pra me presentear depois dessa jornada. Mas logo a última faixa, Abel? A segunda colaboração dele com o Daft Punk é a mais legal, e tem mais influências do duo eletrônico, com uma pegada pop/R&B/dance oitentista maravilhosa, uma espécie de libertação de todo o clima tenso que permeia o CD. É uma declaração de amor “fofa” (nos limites do que podemos considerar “fofo” no material do Abel), e ainda com o The Weeknd emulando seu melhor MJ. E quando ele decide se inspirar no Michael… Aliás, esse refrão com a guitarrinha é a vida!


A ambição entontece quando você sabe que pode fazer algo muito maior do que preparou anteriormente. E se existe alguém consciente do próprio talento e da capacidade de produzir clássicos instantâneos, esse alguém é The Weeknd, que com o “Starboy” coloca seu nome num nível mais alto, tanto no R&B contemporâneo quanto entre os peers pop. Misturando eletrônico, dance-pop, R&B e alt-R&B, Abel consegue realizar um material que transita entre o seu material mais indie e as incursões no mainstream com mais equilíbrio, inteligência e coesão que em seu álbum anterior, desenvolvendo um conceito forte e que, principalmente, não foge do que já conhecemos das letras e da ambientação do Abel.

No entanto, a grandiosidade de “Starboy” se perde em sua duração. Dezoito músicas em uma hora e oito minutos de execução precisam ser muito bem trabalhados e conduzidos com força, porque corre-se o risco de perder o prumo – e  você se perder em músicas muito parecidas umas com as outras. Esse é o problema principal do álbum: a partir da segunda metade (mais ou menos em “Love to Lay”),  o álbum parece soar o mesmo melodicamente, entrando na mesma pegada R&B com toques alternativos, criando a sensação de que são a mesma canção numa versão estendida – especialmente porque “Starboy” me parece um álbum concebido para ouvir de forma completa, a perceber como algumas faixas estão conectadas umas com as outras. Exceto por “A Lonely Night” e “Die For You” (desconsiderando “I Feel it Coming” pela sonoridade ser bem diferente das faixas anteriores), esse terço do CD é uma tremenda snoozefest.

Sério, eu consegui fechar o Starboy com 11 músicas e ficou redondo e fluido pra ouvir. Acho até que vou inventar uma tracklist no Spotify como “Starboy Recut” e deixar público.

(ops, inventei)

(aliás, por que eu tô reclamando da duração? Esse álbum é o provável vencedor do Grammy de Álbum de Urban Contemporâneo em 2018 e tem chances fortes de entrar no Big 4. hahahaha)

 

 

 

 

Anúncios

Um comentário sobre “É ótimo, mas podia ser menor – “Starboy” (álbum), The Weeknd

  1. EU TE AMO MAIS AINDA DEPOIS DESSE RECUT ❤
    também amei o álbum, mas ele sofre desse probleminha que é a longa duração, principalmente na segunda metade citada. entretanto, temos grandiosos hinos e estou ansioso para ver os próximos passos da divulgação do material. que venha o grammy 2018.

Comente aqui!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s