Rádio FM à meia-noite – “24k Magic”, Bruno Mars

essa capa tá doendo os meus olhos
essa capa sempre vai doer os meus olhos

Quando eu tinha uns 12 anos, antes de dormir eu sempre ligava o meu walkman (em 2002 ainda tinham essas coisas). Era um Aiwa, que me acompanhou desde os sete anos, e estava sempre ao lado da cama, sintonizado nas rádios FM aqui de casa, naqueles programas de fim de noite, tipo “Love Story”, “Momentos de Amor” e similares. Não que eu fosse uma menina romântica (na verdade, nunca fui – minha Lua em Aquário e minha Vênus em Gêmeos sempre me impediram), mas eu adorava aquelas músicas antigas que tocavam. Marvin Gaye, Lionel Richie, Brian McKnight. Seal, Boyz II Men, Bobby Brown, Rick James, Smokey Robinson, Jermaine Jackson, Rick Astley, Gregory Abbott, e a lista segue. Os clássicos dos anos 80 e 90 se misturavam na minha memória antes de dormir e acabaram me educando musicalmente, o que ajudou alguns anos depois quando decidi ter um blog sobre música. E especialmente quando não é só você que aparentemente tem essa relação próxima com esse R&B gostosinho daquela época.

As influências do Bruno Mars vão além do doo-wop, reggae, The Police e o Michael Jackson. O havaiano tem uma relação muito profunda com o R&B que era feito nos anos 90 – ele já declarou amor pela sonoridade da época algumas vezes, e a ideia de “24k Magic”, o terceiro álbum na curta discografia do moço, é homenagear essa época, cantores e grupos como Jodeci, Boyz II Man, Jagged Edge e todos os nomes do R&B que faziam babymaking songs; mas é claro, com o flavor atual que só o Bruno sabe fazer. Por cortar a “linha de influência” para um período muito específico – o final dos anos 80 até os anos 90 – o CD não é exatamente instantâneo como as outras incursões dele (se você perceber, é como se ele estivesse fazendo um estudo musical do pop com a própria discografia: o pop inocente com ecos de doo-wop e rock dos anos 50/60 com o retropop do “Doo-Wops & Hooligans”; e a vibração dos anos 70 e começo dos 80, com pop, reggae, rock, disco e uma slowjam de respeito como “Gorilla” no “Unorthodox Jukebox”), por ser bem mais R&B que todos os álbuns anteriores – e mesmo alguns acusando o lead single de ser parecido com singles do passado, o CD numa linha geral não se parece com nada dos anteriores – e nem com nada que tá tocando nas rádios.

Não é instantâneo. Mas é uma viagem daquelas (que dura pouco mais de MEIA HORA e tem NOVE FAIXAS. Tenha dó, Bruno!). Confira o track-by-track após o pulo:

“24k Magic” (já resenhada) – “an invitation to the party”, curiosamente é a pior faixa do CD, depois que você ouve o resto. Ainda bem, mesmo eu gostando da música, como um elemento isolado. O clima mid-80 fica por aqui e em “Chunky”, faixa seguinte, porque o resto do CD é essencialmente uma ode ao R&B anos 90. Engraçado que essa música é a cara de fim de ano e réveillon – pode se preparar pra ouvir muito nos bailes de fim de ano!

“Chunky” – como já disse, outra faixa mais mid 80’s (me lembra vagamente “Baby Be Mine” do MJ, que é do começo daquela década), e um tiro! Crossover até dizer chega, tem um refrão fácil, é dançante, divertida, forte e ainda tem essa surpresa gostosa das backing vocals femininas (às vezes acho as músicas do Bruno festa do bolinha demais). Grita single por todos os poros, #1 e dancinhas virais no clipe. É uma daquelas músicas que você gosta nem sabendo quem é o cantor – ouvi no carro e meu pai estava tamborilando os dedos no volante ao som da faixa. Pergunta a ele quem é Bruno Mars. A letra não é um primor (o problema de “24k Magic”, o álbum, são as letras, que oscilam entre o puro cheesy e o “é sério mesmo que ele tá falando isso?”, mas quando o homem quer te pegar de jeito no CD, ele faz e faz muito bem), mas a produção é A+.

“Perm” – não sei se vocês sabem, mas uma das outras múltiplas influências do Bruno é o James Brown. Mas se você ouvir “Perm”, terá certeza disso. O rapaz emula seu melhor Godfather of Soul na faixa que é bem ame-a ou deixe-a (no meu caso, eu amei): mais falada do que cantada, tem uma divisão meio quebrada e a letra é essencialmente uma preliminar para o sexo. Eu juro que fiquei vermelha lendo.

“That’s What I Like” – deve ser a música mais “moderna” do CD, emulando graciosamente aqueles R&B do final dos anos 90 até os anos 2000. Com estalos deliciosos (que vão circular por todo o álbum, tem uma letra de bragging que é menos estranho que em “24k”, e o refrão chiclete é o que um Usher da vida está precisando pra hitar de novo. Pop/R&B de responsa ideal como single pra fechar divulgação de CD, com um clipe beeem nonsense.

“Versace on the Floor” – num CD curtíssimo desses, essa highlight está no lugar certo do CD – pra dar uma quebrada no clima “party all night” do CD e levar você pra slowjam mais gostosa dos últimos anos. Super early-90’s, lembra muito aquelas músicas fim de noite na rádio FM, depois da cartinha de amor do ouvinte sobre o fim de relacionamento. Aqui a nostalgia foi forte: os meus 12 anos ouvindo “Momentos de Amor” no Walkman às 23h voltaram com força. Arranco aquele boné e todos os colares de ouro do Bruno à força se ele não lançar como single. A letra é uma das mais bem trabalhadas do CD; eu AMO o instrumental antes da bridge e o trabalho vocal do Bruno aqui é flawless. Primeira candidata provável a Record ou Song of the Year para 2018.

“Straight Up and Down” – pronta para ser a música para gerar bebês nos próximos anos, é uma faixa digna de todos esses R&B crooners tipo Joe e Ginuwine dos anos 90. O negócio aqui não é amorzinho, Versace no chão; é sexo diretofirme e “vamos transar gostosinho”, com direito aos indefectíveis estalos. Até na fuck music esse CD é coeso e fechado. Mas NOVE FAIXAS?

“Calling all My Lovelies” – highlight da minha vida, O QUE É ESSA MÚSICA? Cheesy af, essa letra não existe gente! Basicamente é o Bruno dizendo que, já que a garota que ele gosta não quer nada com ele, ele vai atrás das outras garotas que gostam dele (outras, no plural). Parece uma das brincadeiras dele com o Phil Lawrence (amigo e um dos compositores do The Smeezingtons, trio de produtores do qual o Bruno faz parte) que entrou pro CD. O que é essa produção super retrô, parece radio rip? O que é o Phil respondendo no refrão como se fosse o baixo de um grupo vocal de R&B das antigas? O que é a bridge? (Tá, e como ele conseguiu a Halle Berry pra fazer esse cameo na música??) Ouça pra crer!

“Finesse” – Late-80’s e early-90’s sem New Jack Swing não fazem sentido; e por isso, é hora de emular esse estilo dançante numa das melhores faixas do CD (eu já devo ter dito isso com outras palavras). Sensacional na produção; e com uma letra mais “normal”, sem braggadocio nem blushing, tem cara de preferida dos fãs. Infelizmente acho que a sonoridade é muito específica pra hitar – e o refrão, curiosamente, ao invés de explodir, vai num tom mais baixo e parece quase um sussurro pedindo pra um pouco mais; o que não sei se funcionaria bem na rádio. Mas de uma coisa é certa: o trabalho vocal do Bruno aqui tá tinindo.

“Too Good to Say Goodbye” – é a famosa faixa com o Babyface (afinal de contas, como cantar o R&B noventista sem trazer o REI pra sua lista de compositores?), e por que não deixar o melhor pro final né gente? Afinal de contas, se estava sentindo falta da boa e velha balada mela cueca, dor de corno e as imagens de dor e sofrimento que são uma das marcas registradas do Bruno, aqui está a balada sofrência do CD! Brilhante, sofrida, com uma letra simples e direta como só ele sabe fazer, um refrão pra fazer seu coração doer mesmo nunca tendo se apaixonado na vida cantado a plenos pulmões, pra desafiar calouros nos próximos reality shows EUA afora. Pode apostar.

“Baby, ain’t nobody gonna love me like the way you do
And you ain’t never gonna find a love like mine
Tell me what can I do to make it up to you?
‘Cause what we got’s too good to say goodbye, goodbye”

Melhor trabalho vocal do CD inteiro, sofrido, chorado, infeliz, agudos nos momentos certos, a maturidade como intérprete do Bruno em 4:41 minutos de faixa. Provável candidata a Song of the Year, Record of the Year, e Pop Solo Performance. Porque só louco pra deixar essa música só como mais uma faixa do CD.


Quando a volta ao passado é em direção a um momento bonito e simples das nossas vidas, vale a pena fazer esse revival. A Marina de 12 anos está muito contente em ouvir este CD (assim como a Marina de 26, evidentemente) – para além de mais um álbum com admirável coesão (bem mais do que os dois outros álbuns), “24k Magic” consegue te manter ligado o tempo todo, fazendo com que você viaje junto com Bruno por pouco mais de meia hora (e nove faixas) sem sentir que acabou do nada, ou que precisava de mais músicas. Isso é ter fé no próprio taco e na qualidade das músicas que está apresentando.

Dizer que o álbum é bem produzido é chover no molhado. A discografia do Bruno é sempre impecável no quesito produção (faixas polidas, bem trabalhadas e sem overproducing), mas aqui você tem uma estilização (é como se as faixas tivessem um pouco mais de produção, mas sem parecer uma loucura para os ouvidos) que é bem vinda especialmente quando você tem as letras mais “fun” e “cheesy” de toda a discografia. E esse caráter mais divertido do “24k Magic” pode afastar os ouvintes, especialmente porque o álbum tem uma audição mais lenta e demora pra pegar. Mas quando pega, você fica mesmerizado pelas canções.

Não tem singles instantâneos, mas tem faixas com cheiro de hit, como “Versace on the Floor”, “Chunky”, “That’s What I Like”, “Too Good to Say Goodbye” e até mesmo “Calling all my Lovelies” (com cameo da Halle Berry e um clipe bem brega e divertido pra acompanhar a divulgação. Como um todo, o CD é impecavelmente bem construído e redondo, e tem prováveis candidatos a Record, Song of the Tear e Pop Solo Performance – além, claro, de Pop Vocal Album.

(mas ainda não aceito NOVE FAIXAS? A pessoa demora quatro anos para lançar um CD e me faz nove faixas?)

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2 comentários sobre “Rádio FM à meia-noite – “24k Magic”, Bruno Mars

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