Tempo, encruzilhadas artísticas e a perenidade de “Joanne”, de Lady Gaga

cover-cd-lady-gaga-joanneTrês anos, na música pop, é uma eternidade. Se nesse tempo você, sendo um artista pop de grande exposição e que depende da imagem como mola mestra do seu trabalho, não fizer aparições esporádicas ou featurings pontuais para fazer com que o público se lembre de você, corre o risco de sumir.

Mas e quando sua imagem esteve tão saturada de conflitos e críticas que uma “sumida” é até uma coisa boa? Podemos dizer que o “sumiço pop” da Lady Gaga, com direito a um CD premiado de jazz com Tony Bennett e um papel na série de TV “American Horror Story”, ajudou a cantora a dar um respiro fundo na própria carreira – e nós aprendemos a sentir falta dela. Após a confusão total da era “ARTPOP”, logo depois de uma superexposição na era “Born This Way” e uma trajetória fenomenal e bem sucedida com o “The Fame”/”Fame Monster” (lembrou? A mulher não parou por uns bons cinco anos!), Lady Gaga se reinventou voltando às origens, com menos maquiagem e uma sonoridade mais orgânica, longe do dance-pop/eletropop pelo qual ficou consagrada e ajudou a massificar no final da década passada.

Uma jogada absolutamente inteligente, com um forte componente pessoal – o nome de seu novo CD, “Joanne“, é inspirado na sua tia Joanne, que nunca conheceu (por ter morrido muito jovem, antes de Gaga nascer), mas com quem divide não apenas o nome como também uma espécie de “conexão artística” – e com direito a uma sonoridade puxada para o que a Gaga sempre curtiu (um rock mais 70’s) com inspirações surpreendentes no country, dando ao álbum uma curiosa e bem vinda coesão; e mesmo uma sensação de perenidade que não havia no “ARTPOP”, um CD que já nascia datado; e mesmo no excepcional “Born This Way”, o álbum certo no ano errado (eu tenho uma teoria de que se BTW tivesse sido lançado em 2013, os singles seriam mais bem sucedidos do que foram em 2011). “Joanne” é um daqueles CDs que você consegue ouvir hoje e daqui a 10 anos, ouvir e fazer muito sentido.

Talvez porque Gaga tenha bebido de fontes que não perdem o viço – como country e rock, que juntos e bem trabalhados resultam em misturas deliciosas (como em “Sinner’s Prayer” e “Million Reasons”, uma balada soft-rock/country das boas da Gaga, daquelas que bombariam horrores na Antena 1 de madrugada); assim como as uptempos mais orgânicas (dona Gaga que não lance como single “A-YO”, e deixe só como promo que vou lá em NY arrancar esse chapéu rosa a unha!) e o soft rock suave e gostoso de ouvir, evocando Billy Joel e Elton John (como na sensacional “Hey Girl” com Florence Welch e “Come to Mama”); e até mesmo “Perfect Illusion” que mesmo parecendo estar num volume mais alto que as outras músicas faz algum sentido no encaminhamento do CD – é só ouvir a excelente “Diamond Heart” que abre os trabalhos pra entender que o lead-single de triste destino não está sozinho no álbum. Esse é o tipo de álbum pra se ouvir no carro, numa longa viagem, no meio da estrada, ao som de “Just Another Day” e contemplando o amanhecer melancólico ao som da faixa-título.

(sério, preciso viajar.)

Como letrista, Gaga melhorou muito, e isso se deve não apenas à experiência adquirida na indústria (e as próprias experiências pessoais), mas ajuda muito o fato dela ter se cercado de gente que conhece do negócio da composição e produção (Hillary Lindsey, Mark Ronson, Jeff Bhasker, Emilie Haynie) e não entregue o seu material aos mesmos de sempre (você mesmo RedOne) ou a DJs que ainda tinham muito o que provar (cadê Zedd e Madeon?). Tratava-se de um desperdício de talento em mãos não tão tarimbadas para o negócio. Dessa forma, as letras em “Joanne” são mais bem trabalhadas, nos temas dos relacionamentos complicados, as histórias que a Gaga vai contando e que você vai imaginando na cabeça o que são (bem na vibe da música country mesmo), e a parte engajada dela está mais lapidada e inteligente (“Angel Down” é a primeira coisa que vem à mente, uma das melhores músicas da carreira), o que faz com que o álbum não sirva apenas como uma observação pessoal de seus conflitos internos, com a sua própria fé e espiritualidade ou com um romance que tinha tudo pra dar certo mas era uma ilusão perfeita (trocadilho infame, eu sei); mas também como a Gaga vê o mundo lá fora, e até como ela vê a questão da sororidade (como “Hey Girl” é boa, eu ainda me choco como essa música é incrível e como as vozes dela e da Florence combinaram).

 

Mas como “Joanne” se enquadra neste momento da carreira? Eu digo que “Joanne” é a encruzilhada da carreira da Gaga: é um reposicionamento de alguém que se enxerga como uma artista que não precisa mais fazer a música pop dançante e de fácil digestão que fazia até 2013. Talvez porque ela saiba que daqui a pouco as rádios vão virar as costas pra ela por causa da idade? Pode ser; mas ao mesmo tempo, Gaga não surgiu na mídia sendo outra coisa que não uma artista pop – suas entrevistas, aparições, impacto visual, vídeos, ela era uma artista pop que, por não se comportar como uma “típica artista pop” na época, redefiniu em muitos aspectos o que era ser uma popstar no final da década de 2000, e esse impacto visual nem CDs de Jazz ou de country-rock podem tirar.

E pra completar essa encruzilhada, a divulgação de lead-single e novo álbum foi, pra não dizer outra coisa, porca e ridícula. Com a desculpa de que estariam tratando “Joanne” como um “álbum indie” (????), Gaga realmente entrou em modo divulgação agora, esta semana – porque cantar em barzinho, pra uma estrela A-list da música pop prestes a lançar um esperadíssimo CD após três anos, não é divulgação pesada – completando com a participação no Saturday Night Live. Um CD desse naipe, com a qualidade musical, lírica, os nomes fortes envolvidos e o potencial de perenidade que tem não merecia uma divulgação ridícula dessas. Corre sério risco de músicas que poderiam ter vida longa nas rádios serem jogadas ao vento por causa dessa desculpa. E pior: se Gaga estivesse divulgando como se deve o single, cantando pelo menos num programa de impacto como o do Jimmy Fallon, Ellen DeGeneres ou num Today Show da vida, essa encruzilhada teria uma resposta mais clara em minha mente.

Porque você precisa vender um CD que não segue as tendências atuais. Você é um artista pop, precisa vender seu peixe; e se for um peixe que fuja do óbvio, aí é que tem de vender mais ainda; porque ganha novos fãs enquanto faz com que os antigos se lembrem de que você existe… E terá gente pra comprar o próximo CD.

Quando chegar no próximo… Qual será o caminho da encruzilhada pelo qual Lady Gaga vai passar?

Anúncios

3 comentários sobre “Tempo, encruzilhadas artísticas e a perenidade de “Joanne”, de Lady Gaga

  1. Eu na minha humilde opinião acho ela um gênio em marketing, principalmente depois do ARTPOP, mas ai você me pergunta pq ela não fez uma mega divulgação com o Joanne, bom primeiro pq ela não acha que precisa, e a prova disso são as 1.545.000 milhões de copias que o álbum vendeu, ela faz uma divulgação aqui e ali mantendo o álbum com 10 mil copias por semana, apesar dele ter potencial para muito mais, ela sabe que tem MUITOS fãs e que eles vão comprar tudo.
    Voltando a ela ser um gênio no marketing, quero analisar uma coisa, que talvez se realize e gostaria de dividir com você, bom vamos lá, depois de saturar sua imagem com mais de 40.000.000 milhões de álbuns vendidos (sim ela chegou nesta marca TF/TFM 21KK, BTW 10KK ARTPOP 4KK) e polemicas como judas na semana santa e o famigerado ARTPOP, Gaga fez um album de jazz conseguiu um publico novo limpou a imagem e eu considero o Joanne como a segunda parte disso, não adiantaria ela conseguir este publico novo e jogar ele fora com um álbum mega dance-pop/eletropop, o Joanne misturou os dois públicos mas com uma atenção ao publico mais novo na e eu acredito que a terceira parte para esta limpeza de imagem/fazer os novos fãns fincarem o pé no mundo gaga, vai ser o álbum de trilha (do filme ‘Nasce uma Estrela’) sonora que baseado no que foi dito por pessoas que já ouviram é um álbum pop-R&B maduro com baladas pop, (tipo: my heart will go on e principalmente I Will Always Love You, como foi dito por um dos fãs que ouviu as músicas) algo que eu acho que se encacha no gosto do novo publico e finalmente o LG6 que ela deve vir 100% pop, mas não algo como o que ela fazia antes um pop diferente maduro e coeso e é claro bastante comercial, isso baseado no “#2018RadioIsOurs” que um dos produtores usou algumas vezes quando falou das novas músicas da gaga, contudo quero saber o que vc acha sobre está minha teoria.

Comente aqui!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s