Começando a lapidar o diamante – Shawn Mendes, “Illuminate”

shawn-mendes-illuminate-cover-cdEu me lembro vagamente da primeira vez que ouvi falar em Shawn Mendes. Tinha sido num desses tópicos de iTunes da vida, em que todo mundo falava sobre um “menino que tinha conta no Vine” e conseguiu chegar em #1 porque, evidentemente, tinha uma porrada de fãs fiéis que o seguiam para onde fosse (foi mais ou menos assim que fui introduzida a Ariana Grande, com a diferença de que ela era uma estrela de uma série da Nickelodeon que nunca vi na vida). A música em questão, “Life of The Party”, conseguiu chegar à #24 colocação na Billboard, fazendo do menino a pessoa mais nova a estrear no top 25 com o debut single (exatamente 15 anos, 11 meses e 4 dias. Eu com essa idade estava fazendo vários nadas no Orkut).

Para quem imaginava que era mais um adolescente pimpado pelos fãs que lança uma música e some do espectro, o jovem canadense mostrou um talento a ser lapidado com o debut album “Handwritten”, que contou com o primeiro hit de fato do Shawn, “Stitches”, que chegou à quarta posição na Billboard Hot 100. Diferentemente de outros teen male acts, como o conterrâneo Bieber e o que mal chegou a acontecer, Austin Mahone, que sempre tiveram uma pegada pop com influência urban (mesmo que o Justin atualmente tenha lançado mais faixas puxadas pro eletro e o tropical house), Mendes segue uma outra vibe – a do singer/songwriter com guitarra na mão, um John Mayer teen, mas que como posicionamento de mercado, é uma jogada de mestre – enquanto um Bieber só agora vem descolando sua imagem de artista adolescente (com certa dificuldade pela própria personalidade spoiled brat do moço), a sonoridade do Shawn Mendes tem muito mais apelo para um público além dos adolescentes que o conheciam desde os tempos do Vine. Pessoas adultas, quem está fora do público-alvo, podem consumir o material dele sem se sentir “envergonhados” em ouvir músicas de um moleque de 18 anos.

Que lançou um novo álbum nesta sexta-feira, “Illuminate“, já em todos os serviços de streaming perto de você, e infinitamente melhor que o primeiro CD. Faixas acústicas, um pop orgânico agradável de se ouvir e outras influências meio bluesy que ajudam a compor um álbum fascinante, ainda que simples em suas letras, de um menino que ainda tem muita lenha pra queimar.

Saiba mais no track-by-track da versão standard:

“Ruin” – essa tracklist tem uma sequência que só são tiros, começando por essa baladinha simples e eficiente, “Ruin”. Aquela clássica letra do cara perguntando como você tá depois do término, porque ele tá mal, mas ela aparentemente superou e nem se lembra mais que você existe. Letra simples, refrão direto ao ponto, mas o arranjo é muito bom.

“Mercy” – o segundo single do CD é um tiro de bazuca, graças a esse comecinho no piano e o acompanhamento na guitarra, além das baterias marcadas, como se fosse uma marcha – algo que você pode perceber em outras faixas do CD. Aqui, Mendes está apaixonado por uma garota, mas ela parece só estar interessada em brincar com os sentimentos dele. Pobre rapaz.

“Treat You Better” – o lead single do álbum é OUTRO tiro de bazuca, mais upbeat que a faixa anterior, e curiosamente com uma letra mais trabalhada que a primeira música. As baterias marcadas e a guitarrinha gostosa continuam aqui, e agora o moço explica que ele será um melhor namorado pra garota que ele ama do que o atual dela. E se vocês ainda não viram o clipe, aparentemente o rapaz lá não é exatamente um gentleman.

“Three Empty Words” – as coisas se acalmam bem mais nessa faixa acústica gracinha que lembra vagamente alguma coisa que o Ed Sheeran poderia fazer. Aqui, ele chega à conclusão de que é hora de acabar o relacionamento, porque já não faz mais sentido dizer aquelas “três palavrinhas vazias”. Mó cara de single.

“Don’t Be A Fool” – outra faixa deliciosa com cara de single é essa, super soulful e novamente, as letras vão ficando mais bem trabalhadas durante o CD (a diferença desta pra “Ruin” é visível). Tem algo de doo-wop aqui, mas sem gritar RETRÔ na produção, e é uma das minhas favoritas do CD.

“Like This” – a primeira faixa com jeitinho de filler do CD, depois de uma sequência muito boa lá atrás, não é que seja uma música ruim; mas a produção e a letra não chegam ao nível do resto do material.  É a clássica faixa que você pula pra ouvir o resto.

“No Promises” – o menino agora é de maior, nessa faixa com palminhas a la “Stitches”, mas com um outro balanço e um violãozinho que carrega a música pra você mexer os ombrinhos sem reparar. A letra, muito discretamente e sutilmente, explica que eles vão fazer muita ousadia sem pensar em comprometimento. O CD volta a crescer depois do filler anterior. A única coisa que eu não gosto desta música é a falta de criatividade em rimar “promises” com “promises” no refrão. Eu contava tanto com você, meu filho!

“Lights On” – se o Shawn é de maior em “No Promises”, ele deixa registrado que sabe cantar sobre sacanagens em “Lights On”, mas com muita sutileza e fofura – afinal de contas, ele é um “gentleman” e vai fazer amor com a moça com as luzes acesas. Deve ser a letra mais awn, que fofo, do CD, e esse arranjo tá prontinho para as rádios AC. Quer dizer, esse CD tá prontinho pras rádios AC.

“Honest” – eu gosto muito de como essa música é construída, como se ele tivesse encontrado a namorada num lugar e eles sentassem pra conversar – no caso o Shawn decide terminar o relacionamento, e em alguns momentos (como em “Hey, can you listen? /I swear to God to you, there’s nobody else”) parece que a moça respondeu, mas a gente não sabe o que – só imagina a reação. Outra ótima faixa que mostra a habilidade do rapaz em saber contar a mesma situação de várias maneiras (relacionamentos e breakups são uma constante no “Illuminate”, dá pra ver né?).

“Patience” – meu negócio com essa faixa nem é a letra (veja que tô focando muito nisso né), mas a construção da música. O refrão parece música de boy band, consigo até ver cinco caras num vídeo fazendo uma coreografia discreta (mesmo que a música não seja pra coreografias, mas se acelerar o tempo, dá pra imaginar). Nada contra, mas em comparação com o resto do álbum, é um verdadeiro corpo estranho no tom do CD, que parece mais reflexivo e em-fase-de-amadurecimento. Eu não teria incluído nem na versão deluxe.

“Bad Reputation” – eu te disse que menino Shawn é um gentleman? Pois é, aqui ele está apaixonado por uma moça que todo mundo rejeita porque aparentemente tem “má reputação” – mas ele não se importa muito com isso porque sabe que ela é mais do que falam as más línguas. Negócio é que a moça da música tem muitos traumas e não se deixa abrir. Eu lembro que a primeira vez que ouvi a música, ontem, eu fiquei bem surpresa em como, mesmo a letra não sendo na mesma linha temática do resto do álbum, ele consegue fazer um trabalho muito coerente e bacana, contando uma história através da música, mesmo com a letra simples. Como eu disse, Shawn ainda tem lenha pra queimar, mas pode escrever que esse menino tá no caminho certo pra ser um compositor daqueles.

“Understand” – fechando a versão standard do álbum em grande estilo, e provando a teoria de que o clima do álbum é em-fase-de-amadurecimento, essa música mostra menino Shawn percebendo que está crescendo e preocupado em não se desviar de quem é, não se perder no meio do caminho. Com direito a um break falado e um piano conduzindo as viradas da música, a faixa encerra muito bem o CD, mantendo a coerência das produções e a simplicidade das letras (mesmo assim, o que é “Cause I’ve been on this train too long”? Querido, você tem 18 anos! Adolescentes, sempre dramáticos)


 

Eu me peguei ouvindo esse álbum e pensando “imagina quando esse moleque tiver 25 anos?”. Porque o CD é super coerente, tanto em ritmo quanto nas letras, sem contar com os arranjos e a produção esmerada, quase acústica, em que você ouve todos os instrumentos. Um álbum essencialmente pop, com inspiração leve bluesy e soul, o que torna a audição uma experiência não apenas para os fãs adolescentes do jovem artista, como também ouvintes curiosos adultos; e mesmo com os temas do CD convergindo para relacionamentos, você percebe em algumas faixas uma preocupação em contar a história de diversas maneiras, mesmo com as letras simples.

Se no arranjo e na produção, “Illuminate” é um passo bem à frente para a carreira do Shawn, um aspecto que ele pode melhorar ainda (e já melhorou muito em relação ao primeiro CD) são nas letras. É visível que a pegada é mais simples, com letras diretas e as mensagens definidas. No entanto, algumas faixas ainda precisavam daquele polimento (“Ruin”, que eu adoro; “Like This” e “Patience”) pra ficarem ainda melhores; mas nesse aspecto, o tempo é o melhor professor. Com o estofo de carreira que ele for ganhando, as letras vão ficando ainda mais bacanas.

Valeu a pena tirar um dia pra descobrir sobre aquele “menino que tinha uma conta no Vine”.

E você, o que achou do álbum?

 

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