Mais que um garoto normal de 23 anos – “Mind of Mine”, Zayn

Cover CD Zayn Mind of Mine Sair de um grupo vocal, seja boyband ou girlband, para começar uma carreira solo, é sempre um desafio. As pessoas te conhecem como parte de uma turma, seu estilo musical provavelmente é uma incógnita e as escolhas de singles atreladas a um carisma natural podem representar uma carreira bem sucedida (ver: Justin Timberlake) ou flop sem precedentes (ver: Nicole Scherzinger). Além disso, você deixa para trás uma base de fãs que ninguém sabe se podem consumir seu material solo ou te abandonar porque “abandonou” a banda.

Não deve ter sido fácil também para Zayn Malik. O membro mais calado da boyband sensação britânica One Direction deixou a banda citando a vontade de ser “um garoto normal de 22 anos” (agora 23), mas a questão que pegou mesmo foi a diferença de sonoridade em relação ao que o resto do grupo trabalhava. O rapaz tinha influências mais R&B no seu som, mas ficava encaixotado no pacote pop do One Direction. Após passar boa parte de 2015 discreto, com uma ou outra aparição com o cabelo numa cor nova, Zayn apareceu com o primeiro single do debut álbum “Mind of Mine”, a slowjam “PILLOWTALK”, começando 2016 em alto nível e grande estilo – completamente diferente do que fazia no One Direction.

Na verdade, nada nesse álbum se parece com o que ele fazia antes. Para ser honesta, “Mind of Mine” é um CD de quem tem lenha pra queimar. De quem sabe muito bem o que está fazendo e tem uma percepção muito clara de quem é musicalmente. Um álbum de quem sabe muito de música.

Aqui, Zayn (que co-escreve todas as faixas do álbum), se une a produtores fora do esquemão e que trabalham com R&B alternativo (como Malay, que apesar de ter trabalhado em dois álbuns do John Legend, ficou conhecido mesmo por produzir o “channel ORANGE” do Frank Ocean) para criar um álbum extremamente coeso, refinado, onde você não encontra singles óbvios nem músicas fáceis. A deluxe edition são 18 canções que você ouve numa sentada, com faixas seguindo quase sem parar uma após outra, criando um ambiente que mistura slowjams R&B, alt-R&B, midtempos R&B com pegada oitentista e até uma faixa em Urdu. Boa parte das letras não são um primor de composição (na verdade, acho que liricamente o álbum é até monotemático, girando muito nos conceitos “sou um bad boy, não presto, mas se estamos juntos essa relação é só tesão, mas se você me deixar eu ainda sou o melhor que você já teve”), mas conseguem falar tanto ao público que o acompanhava no One Direction, e que agora cresceu; quanto para aqueles que não o ouviam ou sequer o conheciam, e veem o Zayn como um artista completamente diferente.

Dentro da “nova ordem do R&B”, bem mais influenciado pela música alternativa e pelos trabalhos do The Weeknd, Zayn parece muito um The Weeknd teen, mas o rapaz tem personalidade o suficiente para fazer a sua voz raspy, levemente rouca e bem trabalhada, ser reconhecida por todo o álbum. Músicas como a própria “PILLOWTALK”, o sensacional segundo single “Like I Would” (um R&B mais dançante e com ecos oitentistas, perfeito para a primavera/verão americano), “It’s You”, a ótima “Rear View” (com ecos de pop/rock 80’s que cai muito bem aos ouvidos, e a letra bem trabalhada); “Wrong” com a cantora Kehlani (o segundo refrão mais catchy do álbum, que não é feito de refrões fáceis); são faixas que se destacam pela habilidade do Zayn de mostrar a própria voz e não ser engolido pela produção, ou ser um cantor de estúdio.

Batidas que convidam ao sexo, mesmo que as letras não o façam, a presença de guitarras ao fundo em diversas faixas, criando uma ambientação intimista que faz jus à viagem dos ouvintes pela mente de Zayn Malik. É um trabalho refinado e maduro para um cara de 23 anos, que alcançou o sucesso com músicas que possuem um equilíbrio curioso entre serem muito muito boas, ao mesmo tempo em que não parecem prontas e embaladas para o sucesso rápido.

Afinal de contas, como a controladora RCA deixou esse garoto fazer um álbum desses com uma estética mais alternativa embalada num produto mainstream, sendo que ele não tinha nenhum histórico de lançamentos desse tipo antes? Isso que é ter confiança no taco do contratado.

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