Janeiro mal começou e temos um candidato a pior álbum do ano

anti coverEu juro que tentei. Juro que fui de peito aberto, esperando que, mesmo com os adiamentos e a mudança no primeiro single, a Rihanna lançasse um ANTI que sobrevivesse à promessa de um grande álbum, de um diferencial na carreira de uma das maiores hitmakers do século XXI. Uma cantora que, após dez anos de uma carreira bem sucedida, decidiu sair da zona de conforto e experimentar, ousar mais em seu som.

Mas as previews tinham me desanimado completamente sobre o trabalho da Rihanna. Parecia tudo muito bagunçado e desinteressante, sem contar com a decepção proporcionada pela faixa lançada como verdadeiro primeiro single do “ANTI”, “Work”. E com o vazamento do CD nesta quarta-feira, a impressão de desinteresse aumentou e se ampliou para um total choque. Entenda o porquê neste track-by-track.

“Consideration” (feat. SZA) o álbum até começa prometendo algo, já que essa música será uma das parcas highlights do CD. A música é boa, tem uma pegada meio R&B/urban/alt-R&B, e gosto de como a SZA se mescla com a Rihanna na canção. No entanto, a música tem um tempo só, e o refrão tá meio perdido no meio da faixa. Aliás, falta de refrões, refrões fracos ou diluídos no meio das músicas são uma tônica desse álbum (e não estou falando isso de uma forma positiva). Aqui, essa diluição funciona, mas em outras faixas…

“James Joint” essa música já tinha vazado ano passado. era uma interlude do álbum, só achei deslocada justamente na posição que ocupa na tracklist. Poderia ficar mais puxada no meio do CD, especialmente porque o meio é um lixo tóxico sem precedentes. Tem uma coisa meio 80’s/90’s, alt-R&B, downtempo R&B que é gostosinha, mas só.

“Kiss it Better” a primeira faixa boa de fato, com refrão e ideia, boa produção, conceito, potencial, e que tem a cara da Rihanna, não parece leftover de ninguém ou faixa com péssima execução. A única do álbum inteiro que tem potencial pra ser single nesse álbum. A guitarra é maravilhosa, o refrão com efeitinhos é super 80’s, é meio rockinho e alt-R&B (já disse isso? Vou repetir porque faz parte do que acho que a Rihanna quis tentar com o ANTI). Aí quando você vê os nomes envolvidos na construção da faixa, vê FUCKING JEFF BHASKER envolvido na produção. E não vê mais em ponto algum do CD. Como assim, minha senhora, você tem um dos produtores e compositores mais fodas do mercado e não faz um álbum com mais músicas ao lado dele?

“Work” (feat. Drake)- já resenhei né, boa, decente, mas chata e esquecível af. Além disso, não tem nada a ver com o humor do álbum inteiro.

“Desperado” uma coisa a gente precisa falar de forma positiva sobre esse álbum – eu gosto da interpretação da Rihanna nas músicas: ela varia desde a juventude de “Work”, a pegada bajan aqui em “Desperado” e um trabalho mais pop em KiB. Mas isso não ajuda no fato de que aqui tem outra música com um tempo só, aparentemente sem refrão, tentando ir atrás de uma sonoridade “alternativa” mas sem entender absolutamente nada do que isso signifique. Extremamente sem graça, sem apelo nenhum. Filler é pra ter um só num álbum, e olhe lá.

(a essas horas, no “Unapologetic”, a gente estava em “Loveeeeeee Song”, após petardos como “Phresh Out the Runway”, “Diamonds”, “Numb” e “Pour it Up”. Em “Talk That Talk”, Rihanna já tinha apresentado “You da One”, “Where Have You Been”, “We Found Love”, “Talk That Talk” e estaríamos ouvindo “Cockiness”. Quer ir mais atrás? Melhor não)

“Woo” QUE PORRA É ESSA? Era uma tentativa de slowjam? Qual é o objetivo disso? The Weeknd tinha uma música ruim sobrando e passou pra Rihanna? (por que não tô chocada em ver o Abel nos créditos dessa música?). Que faixa histérica, gritada, cansativa, cheia de camadas, mas que parece uma grande bagunça.

“Needed Me” – QUE PORRA É ESSA² é uma faixa puxada pro Urban (e essa intro do DJ Mustard, que pelo menos entregou algo diferente de versões de “2 On”), mas aqui eu sou apresentada ao décimo refrão sem graça do CD. Pior que parece com outra música do CD (acho que “Consideration”); e o pior é que é mais uma música sem graça e sem o menor potencial de hitar dentro do CD. Porque pelo menos, se “Needed Me” fosse uma música boa em geral, mesmo pouco comercial, valeria a pena a audição.

“Yeah, I Said It” – eu entendi o objetivo, é como se fosse uma fuck music mais urban/R&B, beeeeem downtempo, aquela slowjam gostosa que era pra ser “Woo”, mas tá aqui. O problema? O refrão é fraquíssimo.

“Same Ol’ Mistakes” – a primeira música realmente interessante do álbum desde KiB tem mais de seis minutos (ao contrário do resto das faixas que por vezes, não chegam nem a três), é um momento verdadeiramente inspirado do ANTI, momento pra gente ouvir e pensar em como esse álbum poderia ter sido e falar muito bem de como a Rihanna consegue ser uma intérprete inteligente. A pegada etérea, a produção gostosa, com a voz da RiRi cheia de camadas, mas com bons resultados, a voz bem colocada, bem vintage 80’s, um pop gostosinho de ouvir… e é um COVER do Tame Impala. Parabéns a todos os envolvidos.

“Never Ending” – eu chamo essa música de “prima rica de ‘FourFive Seconds'” (aliás, onde estão os outros singles lançados ano passado mesmo?). Tem uma produção mais esmerada, pop-folk-country, tudo muito gostoso, discreto, gosto bastante desse coro, seria a trilha sonora de filme de western. O problema? A falta de refrões nesse álbum é terrível.

“Love on the Brain” – meio soul, meio blueseira, emotiva e com uma interpretação cheia de alma da Rihanna (digna das grandes divas do R&B, mas com uma pegada rock ‘n roll, com esses rasgos na voz), é um dos momentos mais inspirados do CD (e que não é um cover). Tanto o trabalho vocal quanto a produção menos over, seria bem tocada em rádios urban mais tradicional. Aqui, aquela ideia que eu estava discutindo sobre faixas pouco comerciais mas que fossem no mínimo boas, se reflete aqui. “Love On The Brain” é o exemplo de uma música que não é um hit pronto, mas é boa o suficiente para sobressair em relação a outras músicas (e num CD nada inspirado como esse, é um alento). Fui atrás dos créditos da faixa e a música tem como compositores, além da própria Rihanna, Fred Ball e Joseph Angel. Não conheço os rapazes, mas tanto Ball quanto Angel (ou J Angel) são artistas da Roc Nation e enquanto o primeiro trabalha com acts indies ou artistas de dance-pop, o outro trabalha com acts R&B/urban e hip hop. Olho nos moços.

“Higher” – uma continuação “afetiva” de “Love on the Brain”, também tem a mesma estética “soulful” da faixa anterior, mas com um toque especial: é Rihanna cantando num tom bem mais alto, e mais alto que o instrumental, parece live. Conclusão: que música boa, e boa de verdade! É disso que ela precisava, uma faixa com potencial timeless, que mesmo que não funcionasse como um monster hit, poderia ser a representação fiel do conceito que ela quis imprimir no álbum e… Termina a música em dois minutos. Wait, WHAT? Onde foi parar a música que eu estava ouvindo aqui?

“Close to You” – a típica baladinha fim-de-álbum, só que depois de uma “Stay” e “Unfaithful” no catálogo, você precisa elevar o nível. No entanto, é mais uma baladinha sem graça, com refrão fraco, e eu ainda me perguntando cadê o resto de “Higher”?

Vocês conseguiram chegar até o final? Eu cheguei ontem e fui ouvir de novo hoje, só pra upar algumas das ideias que tinha em relação ao CD. Nada mudou; pelo contrário, a impressão que ficou foi de que: a Rihanna tinha que ter lançado esse CD no ano passado, com a ideia original do ANTI, com os produtores originais, mesmo se fosse uma experimentação ousada demais, porque pelo menos seria fiel à ideia que aparentemente, ainda está aqui, contida no CD, mas diluidíssima em faixas sem inspiração, sem ideias e completamente desinteressantes para o catálogo da Rihanna e dentro do mundo pop atual.

Novamente, eu não sei o que ela tinha pensado – ou ela e o Kanye, o Travis Scott, enfim – lá no começo da produção do álbum; mas se consideramos que James Joint, Higher e Kiss it Better chegaram até aqui (e elas estavam sendo ventiladas desde 2015 como faixas do #R8), sem contar com a “ambientação” mais “alternativa”, mais R&B do que um urban pesado, a conclusão que eu cheguei foi a de que a Rihanna estava tentando ir atrás de algo mais alt-R&B, nos moldes do que o The Weeknd vem fazendo (e conseguiu resolver com resultados mais convincentes no “Beauty Behind the Madness”, essa mistura entre uma pegada alternativa e um repertório mais pop, sem perder a fã-base e ampliando a quantidade de fãs) – e o fato do Abel estar envolvido em uma das faixas me ajuda a confirmar essa impressão. Além disso, sutilmente os álbuns da RiRi sempre apontam os rumos do que o pop vai oferecer nos próximos anos, e o sucesso do Abel permite a gente entender e inferir que a Rihanna queria se antecipar como uma “representante feminina” de uma tendência mais “dark” dentro do R&B, mas com um flavor pop (já que a Rihanna é uma artista pop que transita por vários gêneros).

No entanto, o resultado final passou longe de um “Beauty Behind the Madness” (e olha que aquele álbum tem lá suas irregularidades). A ideia era algo “alternativo”, mas com “apelo comercial”, mas não ficou nem uma coisa nem outra. Sobrou uma porção de músicas sem refrão, ou com refrão fraquíssimo, faixas que parecem descartes de outros álbuns ou produções não acabadas. Como uma amiga disse, parece que a Rihanna exigiu o pior de todo mundo na produção. Várias músicas cheias de camadas, que ao invés de criar uma estética diferenciada, transformaram as músicas em uma bagunça sonora sem sentido algum. Ser conceitual é muito mais que isso; e pior: saíram músicas que além de não terem apelo comercial, não são sequer boas para tornar o álbum um elemento coeso, com uma ou duas faixas se sobressaindo o suficiente para o lançamento como singles (e Rihanna já fizera isso com o “Rated R”: não era um álbum de grandes hits, mas era extremamente coeso, unido, com boas produções mesclando pop, R&B, hip hop e rock, mas com um humor, coerência lírica e melódica, e até as canções mais comerciais do CD – leia-se “Rude Boy” – não pareciam perdidas na tracklist).

Anti é literalmente um álbum filler. É o Lotus e o Goodbye Lullaby da Rihanna.

 

um ps: aparentemente, esse lançamento não é só – Rihanna começou outra série de enigmas para lançar mais materiais relacionados ao ANTI. Será a deluxe edition com as músicas que, aliás… Cadê “FourFive Seconds”, “Bitch Better Have my Money” e “American Oxygen”? 

Anúncios

7 comentários sobre “Janeiro mal começou e temos um candidato a pior álbum do ano

  1. Senti com o ANTI a mesma coisa que senti com “Nasty Freestyle” umas 11 vezes. Só que uma versão RUIM de NF. Muito ruim mesmo. É como se a Rihanna decidisse cantá-la e chamar a Nicki Minaj em ares de Iggy Azalea pra produzir e compôr, junto com um The Weeknd perdido na Era Trilogy.
    Minha preferida continua sendo “Higher”. É realmente maravilhosa, mas talvez a prévia de quase 1 ano atrás tenha me animado…

    Terminei de ouvir e admito que comecei a rir. Ri por ser um álbum tão ruim que chega a ser caricato.

  2. Concorda plenamente Marina! Só não concordei quando você falou do Goodyear Lula By (muita gente realmente acha filler, mas meu amor por midtempos me impede de odia-lo; e, no fim das contas, eu amo Not Enough).
    Enfim, mas acho que realmente Rihanna se equivocou dessa vez…

  3. “No entanto, o resultado final passou longe de um “Beauty Behind the Madness” (e olha que aquele álbum tem lá suas irregularidades). ” ficamos meio intrigados com este “irregularidades”, o que você queriam falar quando citaram o álbum? gostamos sempre de ouvir opiniões e criticas sobre o álbum e compartilhar com nossos seguidores. obrigado!
    cdc Arthur.

Comente aqui!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s