Indicados ao Grammy 2016 [4] Canção do Ano

Banner Canção do Ano 2016

A categoria de Canção do Ano premia os compositores das músicas – o que geralmente coloca diante dos holofotes quem está nos bastidores da construção da faixa. Por exemplo, em “What’s Love Got To Do with It”, o grande single comeback da Tina Turner, na verdade, foi composto pela dupla Graham Lyle e Terry Britten, que subiram ao palco em 1985 para pegar seus gramofones. Outro caso de compositor que não era o cantor foi em 1992, quando Alan Menken e Tim Rice levaram o Grammy de Canção do Ano por “A Whole New World”, tema principal do filme “Aladdin”, cantado na versão pop por Peabo Bryson e Regina Belle (escrevo isso ouvindo a música em minha mente, saudades infância).

Mas, quando o compositor da faixa também é o cantor, o ganho simbólico em respeitabilidade com o Grammy de Canção do Ano é alto. O que dizer de Billy Joel e a eterna “Just The Way You Are”, que levou o Grammy em 1979? A música foi composta pelo próprio artista e catapultou a fama dele para outros níveis, não apenas como um grande músico ou compositor, e sim como uma estrela A-List. Ou, em premiações mais recentes, Lorde – uma menina de 17 anos na época, subiu ao palco do Grammy para levar o seu prêmio, junto com o parceiro compositor Joel Little, por “Royals” em 2014? Logo a moça conseguiu a chance de curar a trilha sonora de um dos filmes da saga Jogos Vorazes e ganhar respeitabilidade.

Este ano, a lista de indicados é bem diversa e curiosamente, os favoritos não são tão favoritos. Músicas de sonoridades e temáticas variadas, que atendem a diversos públicos e tiveram impacto dentro e fora da indústria. Essa é uma categoria que além de ser especial (por ser do Big Four), teve uma lista de indicados final que de alguma forma, espelhou bem o período de elegibilidade, entre 2014 e 2015. No entanto, essa disputa pode ser decidida facilmente com o efeito Paul Walker. (especialmente após a esnobada da música nas últimas premiações de cinema)

Antes de explicar bem o que é isso, vamos primeiro aos indicados:

Kendrick Lamar, “Alright”
Taylor Swift, “Blank Space”
Little Big Town, “Girl Crush”
Wiz Khalifa feat. Charlie Puth, “See You Again”
Ed Sheeran, “Thinking Out Loud”

Agora é hora das análises!

Kendrick Lamar, “Alright” (compositores: Kendrick Duckworth, Mark Spears e Pharrell Williams)

“Alright” não é apenas uma música. É um manifesto. É um grito contra a violência, a opressão e o preconceito. Trilha sonora de protestos dos negros americanos contra a violência policial, a frase “we gon’ be alright” se tornou um grito de comando. Mas é uma canção de esperança, de saber que mesmo nos piores momentos, mesmo quando todo mundo quer acabar com você, não se preocupe, nós vamos ficar bem.

Composta pelo próprio Kendrick, além de Mark Spears e Pharrell (que canta o refrão, divide a produção da faixa com Sounwave e não parece nem um pouco repetitivo aqui, o que é ótimo), a música mistura hip hop com algo mais jazzy, como boa parte do “To Pimp a Butterfly”, e tem uma letra até simples em relação ao conteúdo complexo do resto do álbum, mas há uma força nessa simplicidade, uma necessidade do Kendrick dizer que ele também esteve numa situação difícil, mas ele superou. Quando ele diz “nós”, é pra você que ouve a música. Você não está sozinho, mesmo que esteja sentimentalmente ferido, mesmo que a violência externa te afete, mesmo que o mundo pareça te oprimir. É como todos se unissem para que “nós” (a mola mestra dessa música) sigamos em frente.

É uma música menos óbvia, menos pop, menos comercial; é brilhante, contundente e coloca o rap em outro nível, não apenas em relação aos peers, mas também com os outros gêneros musicais. Para além da indústria, “Alright” consegue dar a Kendrick o espaço não apenas como o melhor rapper de sua geração como uma espécie de trovador, de poeta do seu povo, de alguém cuja letra representa os anseios, medos e sonhos de uma comunidade que continua lutando contra as adversidades da vida e da sociedade. Mas será que a bancada consegue aceitar uma música que mesmo em sua simplicidade, carrega uma mensagem que não é safe? Que traduz anseios de um povo (o povo negro) além de ter excelência musical?

Infelizmente, a julgar pela esnobada do próprio Kendrick no ano de “good Kid, m.A.A.d City”, acho que o Grammy ainda não está pronto para se redimir dos próprios erros e mostrar que está conectado com o que há no mundo, para além da própria indústria musical. (espero eu estar errada)

 

Taylor Swift, “Blank Space” (compositores: Max Martin, Shellback e Taylor Swift)

A gema pop que é “Blank Space” é fruto de um trabalho inteligente e muito atento da compositora astuta que é a própria Taylor Swift, com o apoio de hitmakers como Shellback e Max Martin, o midas do pop – os três conseguiram elaborar um synthpop que consegue lembrar algo vintage mas o suficiente para soar “inspiração”, só que na verdade a faixa é muito moderna, muito moderna e muito³³ catchy. Você não consegue escapar das batidinhas secas da bateria, do “oh” no refrão e dos versos gazeteiros e bem humorados.

A inspiração da música foram as sucessivas histórias de namoros curtos e relacionamentos seguidos da Taylor. Aí, a moça teve uma ideia: por que não escrever alguma coisa brincando com a fama que ela tinha de “namoradeira”, “devoradora de homens”? Daí surgiu uma faixa divertida, inspirada, em que Taylor Swift consegue brincar com a própria persona com versos como “I’m a nightmare dressed in a daydream” ou “Ain’t it funny? Rumors fly / And I know you heard about me”, mantendo a interpretação que oscila entre a surtada quando descobre não ter controle do boy, e aquele arzinho piadista do refrão.

Além da letra em si, há alguns detalhes na canção que tornam a faixa uma pérola cheia de surpresas: seja a bateria seca, ou os “ohs” no refrão, ou o violão que aparece bastante no refrão, dando um ar mais “orgânico” uma faixa bem sintética. “Blank Space” consegue unir música e letra com bastante astúcia, e o sucesso não foi por acaso – a música é muito boa, a produção é extremamente equilibrada e comercial o suficiente para o refrão grudento ficar na boca do povo. E como Taylor movimentou a indústria com sua disputa de royalties com o Spotify, além da defesa dos streamings pagos, a música foi uma das molas mestras (junto com “Shake It Off”) das vendas astronômicas do “1989” (antes da Adele Event, claro), e a bancada do Grammy não pode negar o poder de Taylor, tanto musicalmente como um player dentro das mudanças drásticas pelas quais a indústria musical vem passando. Com sua defesa ardente dos álbuns e das vendas do todo, ela se qualifica como uma das esperanças de reaquecimento dentro do mercado fonográfico.

Uma boa música, vendas astronômicas e imagem em consonância com os jurados? Seria um vencedor óbvio, não? O problema da Taylor e de “Blank Space” é que a categoria é forte, e tem músicas com outras boas histórias pra contar – sem contar com a necessidade da Academia de “fazer justiça” em mancadas anteriores, a moça pode ser o novo cordeiro de sacrifício.

 

Little Big Town, “Girl Crush” (compositores: Hillary Lindsey, Lori McKenna e Liz Rose)

O que você faria se a pessoa que você ama, e que agora é sua ex, estivesse com outra mulher, mas você ainda ama e sente saudades dessa pessoa? E pior, fica se perguntando o porquê de ter te deixado? “Será que ela, a outra, é tão boa assim? Será que ela é tão maravilhosa que seria impossível não deixá-la passar? E se eu pudesse entrar em contato com as mesmas coisas que ela, sentir o que ela sente, o cheiro dela, o gosto, dela, será que assim a pessoa que eu amo volta para mim? Ou sei lá, aí eu vou entender o que ela tem que eu não tenho?”. É nessa perspectiva curiosa – e que deu muito pano pra manga, que é feita a música “Girl Crush”, a orgulhosa representante do country aqui em Canção do Ano.

A faixa, composta por Hillary Lindsey, Lori McKenna e Liz Rose (as três compositoras com serviços prestados no country field), é uma balada pungente e com alma, cantada por Karen Fairchild, membro do Little Big Town, com a dor e a necessidade da ex-amante, acompanhada por uma guitarra suave, que consegue transitar entre o country e uma espécie de soul meio vintage, que traz uma atemporalidade bem vinda à música. A letra tem um duplo sentido na interpretação que pode ser “o que ela tem que eu não tenho?” como também “eu queria estar no lugar dela pra ter você ao meu lado” – como dá pra inferir nos versos  “I wanna taste her lips ‘cause they taste like you / I wanna drown myself in a bottle of her perfume”. É uma mescla de desespero e negação que muitas pessoas já devem ter passado por amor, mas nunca nesse nível.

O problema foi que deu MUITO pano pra manga essa música – justamente porque algumas rádios country receberam reclamações de ouvintes achando que a música estava falando de um relacionamento amoroso entre duas mulheres. Ou seja, um bando de pessoas com a cabeça fechada não queriam ouvir uma música lindíssima porque estava falando de um amor homossexual. A graça de uma canção é justamente a interpretação que as pessoas dão a ela, de uma forma que as torne próximas e identificáveis à história de cada um. “Girl Crush” enriquece seu significado à cada ouvida, dando mais camadas a uma história de amor fracassada que pode ter ocorrido com qualquer pessoa e tornando esse apelo universal.

Num mundo sem a existência da brilhante “Alright”, meu Grammy seria dessa música. Mas o problema é que vitórias country em Canção do Ano são raras, e os precedentes são poucos – a última a conseguir levar nessa categoria foi “Need You Now”, do Lady Antebellum, no já distante 2011. E a música teria que ser um sucesso sem precedentes (chegou a #18 na Billboard). Ou seja, nem pra ser um azarão simpático a faixa serve, infelizmente.

 

Wiz Khalifa feat. Charlie Puth, “See You Again” (compositores: Andrew Cedar, DJ Frank E, Charlie Puth e Wiz Khalifa)

É aqui onde chegamos ao “efeito Paul Walker”. “See You Again” foi esnobadíssima (injustamente) no corte final dos indicados ao Oscar de Melhor Canção Original (“Writing’s on the Wall”, really Academia??), além de ter perdido na mesma categoria referente ao Globo de Ouro. O que poderia ser um ganho para a música acabou se tornando um problema. Se o Oscar e os jornalistas estrangeiros que votam no Globo de Ouro não curtiram o tributo a Paul Walker, será que o Grammy dará uma forcinha?

O fato é que a faixa, composta por Andrew Cedar, DJ Frank, Charlie Puth (que canta do refrão e da bridge) e Wiz Khalifa, é uma homenagem simples e poderosa a um amigo que se vai, a alguém que é parte da sua família, com quem você compartilha histórias, emoções, vivências, e tenta pensar que um dia, todos vão se encontrar e dividir as experiências deixadas para trás. Isso não é apenas roteiro de filme, é vida real. Um amigo que morre de forma inesperada; um parente amado, um cônjuge, um filho. Músicas dedicadas a quem se vai calam fundo nos corações das pessoas, especialmente uma com um apelo tão pop e viral como “See You Again”. Amparada por um dos momentos mais emocionantes e sinceros de uma das franquias cinematográficas mais implausíveis de todos os tempos, a música consegue te confortar e ao mesmo tempo te fazer recordar dos momentos felizes do passado, seja com “Paul Walker” na tela do cinema, seja com um ente querido.

Os versos “It’s been a long day without you my friend / and I’ll tell you all about it when I see you again” devem ser alguns dos mais verdadeiros dentro da música pop em 2015, e alguns dos mais simples. Pop não precisa ser muito complexo às vezes, com estrutura, sofisticação e 15 mil referências. Basta algumas palavras bem colocadas e boom, você tem uma frase que vai martelar pela sua cabeça pelos próximos meses. Sem contar com “How can we not talk about family when family is all that we got?”, que funciona no contexto do filme mas funciona também na vida real. Ser relatável, ser identificável, é poderoso. E essa música tem poder dentro da simplicidade.

Acho que o fator “Paul Walker” aqui pode servir como um prêmio de consolação diante dos revezes no mundo do cinema. Seria um vencedor merecidíssimo – a música é bonita, foi um sucesso estrondoso (um hit monstruoso nos charts) e tem uma letra extremamente eficiente. No entanto, pode ser que os poderes de Paul Walker tenham sido diluídos lá na Awards Season e, talvez, o negócio não seja tão furioso assim.

 

Ed Sheeran, “Thinking Out Loud” (compositores: Ed Sheeran & Amy Wadge)

O “hino dos casamentos” é outra letra bem forte da categoria – e que se encaixa na categoria de “fofa”. Imagine só pensar no futuro, lá quando você e seu amor estiverem bem velhinhos, e imaginar que o amor e o companheirismo ainda estejam bem fortes, assim como no primeiro dia. É disso que se trata “Thinking out Loud”, uma declaração de amor em que mesmo que a memória esteja acabando ou os cabelos estejam brancos, o eu-lírico sabe que o amor continua ali, entre eles, com a mesma força.

A faixa é uma parceria entre o próprio Ed Sheeran e a compositora Amy Wadge, durante um dia de bate-papo e jam session só por diversão; e logo esse “só por diversão” se tornou a última faixa a entrar no álbum “x”, além do maior sucesso do CD, a “Eterna Segunda”, já que estourou justamente no auge da “Uptown Funk season”. Midtempo puxada pra baladinha com riffs de guitarra bem soul, além de uma levada acústica e easy-listening, tem na sua letra um de seus pontos mais fortes – os versos são simples, quase uma conversa, mas com uma força e habilidade de serem relatáveis e associáveis a qualquer momento da vida. Eu adoro “Darling I will be loving you ‘till we’re seventy / Baby my heart could still fall as hard at twenty-three” e “People fall in love in misterious ways” e acho que a forma como os compositores vão trabalhando tanto o crescendo da música quanto a letra tem uma simplicidade que é difícil de chegar – que leva a uma sofisticação na música que consegue levar uma faixa com tanto tempo de lançada até esse ponto da corrida para o Grammy.

O problema do Grammy é que, apesar de ter sobrevivido até aqui, e “Thinking Out Loud” ser uma excelente canção, entre os indicados ela parece o “convidado que não está a fim de ir embora”. Além disso, entre as outras indicadas, existem razões para além da qualidade musical que levam a um maior favoritismo – seja o contexto social (“Alright”), a consagração de um nome forte da indústria (“Blank Space”), a consagração de um hit massivo emocional (“See You Again”) ou mesmo o aplauso a uma canção que ousou mais dentro do seu field, uma escolha até safe e elegante da bancada (“Girl Crush”) pra se dizer “madura”. A música do Ed Sheeran fica sobrando até mesmo pelas razões “além” da própria canção; infelizmente porque hoje em dia, não basta a música ser uma boa composição, ela precisa influenciar de alguma forma.

(mas não poderia bastar que fosse uma grande canção?)

 

CONCLUSÕES

Quem ganha: Essa categoria é MUITO difícil, e eu sinceramente não faço ideia de como a academia deve agir. Mas se formos pensar em opções “seguras” para a bancada, eu acho que “Blank Space” está na frente por uma cabeça.

Quem deveria ganhar: “Alright” é a música que consegue unir melhor qualidade de composição e influência externa à música. Olha o #OscarsSoWhite que não me deixa mentir.

Quem será o “dark horse” da categoria: “Girl Crush”. Seria uma escolha surpresa do Grammy – já que não tem costume de dar o prêmio a músicas country, e uma surpresa bem vinda. Nunca subestime o poder feminino 😉

 

Depois dessa categoria que parece uma briga de foice, vamos à categoria de Melhor Álbum Pop, onde uma série de surpresas pode ou não estar no caminho de Taylor Swift. Até lá!

 

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