Música pop no Oscar – como chegamos até aqui? [1]

No auge do sucesso da música-tributo “See You Again”, parte da trilha sonora de “Velozes e Furiosos 7”, este humilde blog trouxe um post sobre a nova invasão das soundtracks nos charts e como isso poderia influenciar o retorno de músicas pop à grandes premiações como o Oscar e o Globo de Ouro.

Já que a faixa em questão – e a amiga “Love me Like You Do”, de “Cinquenta Tons de Cinza” – estão na lista de indicadas ao Globo de Ouro de Melhor Canção Original, e a música de Wiz Khalifa e Charlie Puth com boas chances de vitória, é hora de retomar a discussão sobre as músicas pop nas trilhas sonoras dos filmes; desta vez, falando sobre as canções indicadas e vencedoras do Oscar de Melhor Canção Original.

Eu selecionei como corte temporal o Oscar relativo ao ano de 1969, onde temos um vencedor até hoje marcante, uma faixa escrita por uma das duplas de compositores mais importantes da música – Burt Bacharach e Hal David.

Antes de começarmos a falar sobre a trajetória da música pop no Oscar, vamos contextualizar o que era mais indicado e premiado antes de 1969. Geralmente, as canções prestigiadas faziam parte dos grandes musicais, que eram uma força nos cinemas americanos desde o começo dos filmes falados até a primeira metade dos anos 60 – tendo como último suspiro “A Noviça Rebelde” (1965), antes da Guerra do Vietnã mudar tudo no inconsciente coletivo dos EUA. Além dos musicais, pop standards também eram premiados – pop no sentido de canções populares mas com influência jazzística, das big bands, com bastante orquestração, que geralmente tocavam durante o filme ou na abertura – ou eram performados pelos atores, mas o filme não era necessariamente um musical.

Muitas dessas canções são veneradas como clássicos da música, como “The Way You Look Tonight”, performada por Fred Astaire no filme “Ritmo Louco”, de 1936 (e vencedora do Oscar de Melhor Canção Original daquele ano); “Over the Rainbow”, eternizada por Judy Garland em “O Mágico de Oz”, de 1939 – também vencedora do Oscar; “Love is a Many Splendored Thing”, do filme “O Suplício de uma Saudade” (1955) e “Moon River”, cantada por Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo”(1961). Canções atemporais e que fazem parte da história musical, transcendendo a sala de cinema e fazendo parte da memória das pessoas no cotidiano.

No entanto, com as mudanças ocorridas na própria sétima arte com a decadência dos musicais e dos filmes “para toda a família”, a queda da força dos estúdios e uma juventude mais ativa e politicamente criativa no final dos anos 60, os filmes (e as canções) mudaram. Os pop standards que continuam sendo indicados acabam dividindo espaço com músicas de compositores pop, com faixas escritas e performadas por artistas sem ligação com o cinema, e as duas indústrias começam a se mesclar e se influenciar de uma forma crescente, que chega ao auge com os filmes high-concept da Paramount nos anos 80, a linguagem videoclíptica dos filmes – influenciada pelo advento da MTV – e as produções que mais parecem vídeos de uma hora e meia, com uma história no meio, coreografias estilizadas e trilha sonora com o que havia de mais bombado no top 40 das rádios.

butch_cassidy_and_the_sundance_kid_movie_posterPodemos dizer que isso começou em 1969, com “Raindrops Keep Fallin’ On My Head”. A música, composta pela dupla Burt Bacharach e Hal David (os dois caras por trás de grandes sucessos da Dionne Warwick nos anos 60), foi interpretada pelo cantor B.J. Thomas, que conseguiu um #1 na Billboard (o primeiro de 1970) e um grande sucesso na carreira. Bacharach era o responsável pela trilha do filme, estrelado por Paul Newman e Robert Redford, sobre as aventuras (baseadas em fatos reais) de uma dupla de bandidos do velho Oeste que decide refazer sua carreira de crimes na Bolívia. É um filme divertidíssimo, um Western-que-não-parece-western, e com um final bem interessante para a época.

A música aparece num momento bem curioso do filme, que ganhou quatro Oscars – além de Canção Original, “Butch Cassidy” ganhou por Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Original e Melhor Trilha Sonora.


(atenção: Paul Newman interpreta Butch Cassidy. Katharine Ross, a moça da bicicleta, é Etta, namorada de Sundance Kid – o Robert Redford dorminhoco. Ou seja, essa cena da bicicleta é uma sequência super fofa entre dois personagens que não tem enlace romântico algum. Por isso eu sempre achei que os três eram polígamos)

Os outros indicados em Canção Original eram: “Come Saturday Morning” (do filme “Os Anos Verdes”, com Liza Minelli); “Jean” (do filme “A Primavera de uma Solteirona”, que deu a Maggie Smith o Oscar de Melhor Atriz), que ganhou o Globo de Ouro de Melhor Canção; “True Grit” (do filme “Bravura Indômita” – o de 1969, com John Wayne); e “What Are You Doing the Rest of Your Life?” (tema do filme “Tempo para Amar, Tempo para Esquecer”). Das cinco músicas, duas têm essa pegada mais tradicional (“Jean” e “What Are You Doing…”), “Come Saturday Morning” é um pop mais sessentista e “True Grit” tem um estilo mais country (lembrando que “Bravura Indômita” era outro western). De todas, a com o ar mais moderno e diferente é “Raindrops…”, mesmo a trilha do filme sendo acusada de “anacrônica”.

Nos anos posteriores, os indicados mais clássicos vão começando a dividir espaço com músicas mais ousadas – e a Poster ShaftAcademia permite alguns momentos históricos, como em 1971. O vitorioso na premiação daquele ano foi a música “Theme From Shaft”, do filme “Shaft”, com Richard Roundtree, um marco na blaxpoitation (produções estreladas por elenco negro, produzidos e dirigidos por realizadores negros para o público negro, com um estilo diferenciado – ora mais realista, hora mais hiperbólico, mas com uma forte identificação com a cultura negra) e por consequência na música pop – “Theme From Shaft”, um soul com forte pegada funk, é considerada uma das grandes influências para a disco.

O momento em que a música aparece no filme pode ser classificado como uma das melhores sequências da história do cinema. Aproveite e veja “Shaft” (não a versão com o Samuel L. Jackson, que é até boazinha, mas não tem o mesmo poder que o filme original):

(quero atravessar a rua igualzinho ao Richard Roundtree… Os carros que se desviem de mim, eu sou badass motherfucker!)

Isaac Hayes, compositor da faixa, foi o primeiro negro a levar um prêmio de Melhor Canção Original na história (além de ser o primeiro negro a levar um prêmio que não fosse de atuação – Sidney Poitier e Hattie Mc Daniel tinham ganhado como Ator e Atriz Coadjuvante). E ao verificar a lista de indicados, mesmo com um grupo interessante de compositores (um Marvin Hamlisch antes do estouro e o legendário Henry Mancini), as músicas concorrentes empalidecem em comparação à potência e à qualidade atemporal de “Theme From Shaft”.

“The Age of Not Believing”, do filme-família musical da Disney “Se Minha Cama Voasse”, é uma faixa típica desse tipo de produção; “Bless The Beast and The Children” é uma faixa pop típica dos Carpenters, elegante e agradável – só que baunilha demais (o filme de onde vem a trilha,”Abençoai as Feras e as Crianças” é um coming-of-age setentista sobre um grupo de meninos que decide proteger búfalos de serem caçados); já “Life Is What You Make It” é muito, mas muito boa (Johnny Mercer e Hamlisch, né?), de um filme com uma premissa interessante (“Ainda Há Fogo Sobre as Cinzas” – meu Deus, esses títulos nacionais são muito cafonas – conta a história de um idoso vivido por Walter Mathau que decide fugir do asilo em busca de pessoas para conviver e faz amizade com uma adolescente grávida)  e seria uma alternativa safe e classuda à ousadia da faixa de Hayes. E “All His Children”, trilha do filme “Uma Lição para não Esquecer”, é uma faixa country com a assinatura de Henry Mancini, Alan e Marilyn Bergman, que poderia ser a outra alternativa safe da Academia. Mas as indicadas continuam sendo óbvias e pouco marcantes, em retrospectiva, diante de um trabalho que rompeu barreiras para além do cinema, como ajudou a pavimentar um dos grandes movimentos musicais do século XX.

Em 1972, o vencedor do prêmio de Melhor Canção Original foi “The Morning After”, cantada por Maureen McGovern, do filme-catástrofe “O Destino de Poseidon” (não confunda com o remake da década passada). Uma balada cantada por uma personagem do filme durante a exibição, mas que alcançou sucesso na voz da cantora – chegando ao primeiro lugar na Billboard em 1973.

(Curiosamente, os compositores dessa música, Al Kasha e Joel Hirschhorn, levaram outro Oscar dois anos depois, por “We May Never Love Like This Again”, também interpretado por McGovern em outro filme catástrofe, “Inferno na Torre”. Essa galera gosta de uma tragédia.)

Mas o destaque aqui entre os indicados é uma baladinha pop/R&B sobre o amor por um ratinho assassino chamado Ben.

Isso mesmo. Um rato assassino.


(eu vejo esse trailer e fico na dúvida se vejo o filme porque deve ser tão-ruim-que-é-bom ou não vejo pra não gastar meu tempo livre. Tem no Netflix?)

Poster BenEntre a série de indicados, no limite entre o pop inofensivo e o já tradicional country e a balada setentista (que viria a ser a tendência de vencedores dos anos 70) – além da curiosíssima “Strange are the Ways of Love” (do filme “The Stepmother”), uma baladinha açucarada interpretada pela voz adolescente do Michael Jackson, na época parte dos Jackson 5, acabou se tornando mais conhecida do que o próprio filme, também chamado “Ben” – a história de um garotinho que faz amizade com o rato líder de uma horda assassina de ratos.

(vale ressaltar que “Ben” é a continuação de “Willard”, a história de um homem que cria uma horda de ratos assassinos. Enfim, são os anos 70)

Mas o que interessa aqui é que “Ben”, a música, chegou a levar o Globo de Ouro de Canção Original, mas não conseguiu gabaritar o Oscar – mas é um exemplo de uma canção comissionada para o filme, que foi escrita para a voz de outro cantor adolescente-sensação da época, Donny Osmond, parou nas mãos do jovem Michael e se tornou uma das várias canções-assinatura do Rei do Pop, suplantando o filme em que foi inserido (ainda por cima, a faixa chegou ao topo das paradas nos EUA, sendo o primeiro #1 solo do rapaz). Uma situação que se tornou bem comum na década seguinte.

Michael ainda performou a música em 1973, na cerimônia do Oscar relativa aos filmes do ano anterior. Com apenas 13 anos, o rapaz já tinha alcançado possibilidades que muitos dos nossos faves sonham em ver se ficam na plateia. Com certeza era uma lenda em construção.

Se você prestar bem atenção, as mudanças relacionadas ao tipo de música que ganha prêmios no Oscar nesta década já vão sendo sentidas desde a vitória de “O Destino de Poseidon”. A balada pop por excelência, orquestrada e com flavor adulto contemporâneo, faz parte da maior quantidade de vencedores nesta categoria nos anos 70. Um dos exemplos é “The Way We Were”, do filme “Nosso Amor de Ontem”, estrelado por Barbra Streisand e Robert Redford. Cantado pela própria Barbra, tem letra de Alan e Marilyn Bergman e música de Marvin Hamlisch, e foi um sucesso estrondoso em 1973. A música chegou à primeira posição na Billboard Hot 100 naquele ano – e o filme foi outro hit nas bilheterias.

Neste ano, os indicados foram “Nice To Be Around”, do filme “Licença para Amar até Meia-Noite” (curiosidade: a trilha sonora do filme é do mestre John Williams, aquele mesmo de Superman, Star Wars, Indiana Jones e Parque dos Dinossauros) – uma balada pop delicada e tocante; “Love”, trilha do desenho “Robin Hood”, da Disney (que seria um player mais vencedor duas décadas depois); “All That Love We Went To Waste”, do filme “Um Toque de Classe” – aliás, uma escolha que eu faria como Melhor Canção Original, como uma alternativa dentro da lógica de baladas pop adultas que o Oscar andava premiando na época – acho uma faixa bem mais acabada e bonita, enquanto “The Way We Were” parece um samba de uma nota só.

Já a minha favorita pessoal entre as indicadas começa uma tradição informal dentro da categoria: o começo das indicações aos filmes pertencentes à franquia do James Bond.

(pessoas nuas sem necessidade? referências sexuais óbvias? sombras, fumaça e espelhamento? abertura típica de um filme do Bond)

Descontando a indicação de “The Look Of Love” pelo filme não-canônico “Cassino Royale” (não confunda com o Live-And-Let-Die-Poster-02filme de 2005), “Live and Let Die” é o primeiro dos temas do Bond que é indicado ao prêmio da Academia. A música, comissionada para o primeiro filme da franquia com Roger Moore tomando os martínis, é de uma linha bem diferente do pop standard dos temas – é rock, é moderninho, tem orquestra, tem balanço e ainda é acompanhado pela abertura super estilosa e em consonância com os ups and downs da música, composta por Paul e Linda McCartney e cantada pelo Paul, na época com o Wings.

O filme “007 – Viva e Deixe Morrer”, na época, atualizou o James Bond para uma persona mais em contato com os anos 70, um Bond bem-humorado e mais leve que o charme cínico de Sean Connery, e ainda com inspiração na blaxpoitation nos enquadramentos e na ambientação mais crua. Sem um vilão maléfico e surtado a la Blofeld – com direito a um ator negro em ascensão na época fazendo o papel de nêmesis do Bond – Yaphet Kotto – e pela primeira vez, há uma Bondgirl negra que se relaciona com James (muito, mas muito antes de Halle Berry), é um filme com abordagem mais “realista” (e se não fosse por um certo “Foguete da Morte”, Moore, mesmo com seu ar família e gente-boa, poderia ser o ator de transição para acostumar o público do Bond a narrativas menos glamurosas e mentirosas dos filmes da franquia). Com a mudança na produção cinematográfica, a música também atualizou a forma como víamos as trilhas do Bond – saem as músicas de tiozão (sorry Tom Jones), entra o irmão mais velho cool Paul McCartney. Tanto que, na época, “Live and Let Die” foi o tema de Bond mais bem sucedido, chegando à segunda posição nos charts americanos.

Nos anos 70, há outra música do 007 indicada, um pouco mais “clássica”, mas deixaremos ela para depois – já que a ideia é discutirmos ainda as baladas pop adultas como as principais vencedoras do Oscar nos anos 70.

Afinal de contas, tem uma indicada extremamente adequada nessa característica, mas que perde para o retorno ao country dentro da categoria. “I’m Easy”, do filme “Nashville”, clássico de Robert Altman, gabaritou o Globo de Ouro de Melhor Canção Original e o Oscar de Canção Original em 1975. Composta e performada pelo ator Keith Carradine (o irmão do David, o Kill Bill; você deve se lembrar do Keith por causa disso aqui), é cantada pelo próprio durante uma cena do filme, aclamado criticamente e de grande sucesso comercial – mesmo que na época, Altman fosse mais queridinho da crítica que do público – e que continuou como um dos cineastas mais inventivos da sétima arte nos EUA.

(que cara gato, Deus)

Uma boa escolha da Academia, que poderia ter optado por algo mais dentro do que vinha premiando durante o percurso da década, com uma faixa mais bem sucedida (e de certa forma, marcante) que “I’m Easy”. “Theme from Mahogany (Do You Know Where You’re Going to?)” é a elegante e belíssima balada pop cantada por Diana Ross, que alcançou a primeira posição na Billboard Hot 100 e foi o elemento mais conhecido e celebrado do filme “Mahogany”, estrelado pela diva e dirigido pelo maridão Berry Gordy (chefão da Motown), após o diretor Tony Richardson ser afastado da produção.

(Quero todas as roupas que pertencem à Diana nesse filme. Tem como?)

O filme é um romance onde a Diana Ross, uma secretária com sonhos de ser estilista, se envolve com o Lando Calrissian enquanto recebe uma proposta do fotógrafo Norman Bates para se tornar modelo na Europa. Poderia ser um filme de ficção científica com um vilão psicopata (e que seria um trash bacana), mas é só mais um romance água-com-açúcar como uma janela para a estrela de Miss Ross brilhar – principalmente após o filme de estreia dela, a biografia de Billie Holliday “Lady Sings The Blues”, ter sido um sucesso absoluto nas bilheterias.

Poster mahoganyApesar de criticado negativamente, foi outro hit entre o grande público – sem contar a música, extremamente bem sucedida e de caráter popular. Atemporal, crossover e com um toque a mais que “pega” você, é da mesma turma de grandes músicas indicadas e vencedoras do Oscar que ultrapassaram suas épocas e se tornaram parte da memória do grande público. Os vários covers da música não deixam mentir.

Eu teria dado o Oscar para “Theme from Mahogany”. Apesar de “I’m Easy” ser bacana e ter o plus de um dos atores do filme ter composto e performado, a música da Diana tem aquele sabor pop que a distingue das demais. Aquilo que a torna clássica. E os indicados que concorriam eram muito estranhos, pra dizer o mínimo: tinha “Hoy Lucky Can You Get”, do musical “Funny Lady” (sério, gente, outro musical? Com essa pegada cafona?), continuação de “Funny Girl” (1968); “Richard’s Window”, do filme “Uma Janela para o Céu” (tipo um “A Culpa é das Estrelas” dos anos 70) – uma balada pop bem baunilha interpretada pela Olivia Newton-John pré-Grease; e “Now That We’re in Love” (do filme “Whiffs”, que conta a história de um soldado que participa de uma experiência científica do exército; e com novas habilidades, decide usá-las para roubar bancos – ISSO. É. SÉRIO), um pop mais clássico com ar datadíssimo. Deve ser uma das músicas mais bregas que eu já ouvi desde que comecei a escrever esse post.

Se “Theme from Mahogany” não conseguiu ganhar o Oscar, mesmo sendo a balada pop adulta que o Oscar adorava premiar nos anos 70, Barbra Streisand conseguiu outra vez, agora também como compositora, por “Evergreen (Love Theme from A Star Is Born)”, na premiação seguinte, relativa ao ano de 1976. A estrela se tornou a primeira mulher a levar o prêmio de Canção Original, pela faixa que deu o segundo #1 à Barbra no Hot 100. A música faz parte da trilha sonora de “Nasce uma Estrela” – a terceira refilmagem da produção, desta vez contando a história sob a perspectiva do romance entre uma jovem com sonho de ser uma grande cantora e um rock star famoso (vivido por Kris Kristofferson) em decadência.

(outro gato anos 70 gente como lidar)

O filme foi destruído pelas críticas, que viram na produção um exemplo da megalomania da diva Barbra Streisand e só valorizaram a performance de Kristofferson. Já a música se tornou um clássico do repertório da artista e ganhou tanto o Oscar quanto o Globo de Ouro de Canção Original e Melhor Performance Pop Feminina, além de Canção do Ano (empatado com “You Light Up My Life”, que terá um espacinho só pra ela neste post).

Mas como você já deve ter percebido, “Evergreen” não é a minha música favorita dentre os indicados. Como a Academia foi jogando no seguro durante a década, e Barbra Streisand era uma estrela, o favoritismo dela era bem flagrante. Os indicados eram um grupo curioso de músicas, vindos de filmes ou fracassos que ninguém nunca viu/ouviu (“A World that Never Was”, do filme “Half a House” – uma coisa tão obscura que não consegui achar nem um vídeo completo para postar aqui); sequências famosas como “A Nova Transa da Pantera Cor de Rosa”, que emplacou a faixa “Come to Me” entre os indicados (balada pop cafoninha cantada por Tom Jones, que performou com essa roupa horrenda no Oscar); um canto gregoriano from hell (“Ave Satani”, música composta por Jerry Goldsmith, responsável pela trilha sonora de “A Profecia” – e talvez uma das músicas mais chocantes a serem indicadas a esse prêmio, o que me faz pensar em como a Academia às vezes toma umas decisões hiper ousadas um ano depois de uma lista de indicados infeliz como em 1975); e a minha favorita pessoal – uma música pop pouco óbvia, com muito instrumental e poucos versos, mas que é um soco delicioso dançante – e meio disco – que emoldura um dos momentos mais marcantes do cinema, sempre imitado, na busca por ser igualado.

(Um dos meus sonhos é subir as escadarias do Museu da Philadelphia e dar esses pulinhos e soquinhos que o Rocky faz. Sério. Sou muito fã desse filme)

“Rocky”, vencedor do Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor em 1976, foi literalmente o underdog que alcançou o Rocky-Postersucesso, assim como o seu protagonista (de um forma ou de outra). A história de um lutador de terceira linha que acaba lutando com o campeão mundial – e seu único objetivo é se manter em pé até o final dos 15 rounds – tornou Sylvester Stallone um astro, a trilha de Bill Conti épica e “Gonna Fly Now” o símbolo de metade das aberturas de jogos possíveis no mundo do esporte (a outra metade das aberturas é embalada por “Eye of The Tiger”, que dará as caras aqui dia desses).

A música é maravilhosa – o crescendo é on point, o uso dos instrumentos de sopro mesclado com os de corda bem orquestrado, a guitarra meio distorcidinha; sem contar a pegada disco na música que gerou até mesmo remixes para a época, e os poucos versos, em formato de coro (quase o coro gregoriano, só que agora from Heaven), tornaram a faixa uma vencedora – e chegou ao primeiro lugar na Billboard Hot 100 em 1977.

“Gonna Fly Now” entrou para a história, tanto como parte do inconsciente coletivo quanto para os anais da cultura pop (quantas paródias não existem por aí, em todas as mídias?); e por fim, da própria vivência do homem comum. Ou toda vez que você ouve os primeiros acordes não dá vontade de sair por aí socando um saco de pancadas ou correndo como se fosse o Usain Bolt? Isso é transcender o filme, e ao mesmo tempo manter a ligação com a fonte inicial da música. Mesmo que você nunca tenha assistido a “Rocky”, sabe que essa música foi trilha sonora de algum boxeador por aí, e as frases repetidas a exaustão serão o seu mantra pessoal pra quando precisar de um up pra superar as dificuldades da vida.

(Isso é música pop por excelência.)

A lógica da balada pop adulta easy listening continua em 1977, com a vitória de “You Light Up My Life”, trilha sonora do filme “Luz da Minha Vida”. A música também levou o Globo de Ouro de Melhor Canção Original e o Grammy de Canção do Ano, além da versão eternizada pela Debby Boone ter conseguido ficar dez semanas seguidas no topo da Billboard – o que na época era um feito histórico (pense num período sem downloads digitais, Spotify, Youtube e afins). Já a versão original, que é tocada no filme, chegou à posição #80 no Hot 100. Enquanto a música foi um sucesso estrondoso, o filme (que conta a história de uma jovem que sonha em ser cantora, mas o pai quer que ela seja uma comediante) foi massacrado pela crítica.

Em comparação com a maior parte dos indicados, “You Light Up My Life” se sobressai pelo caráter moderno para a época, a musicalidade simples, mas ao mesmo tempo épica, e a naturalidade da canção, que como toda vencedora do Oscar naquela década, segue num mesmo tempo durante toda a canção. As concorrentes já tinham cheiro de datadas e pouco marcantes, mesmo vindo de filmes melhores. É o caso de “Someone is Waiting for You”, da animação da Disney “Bernardo e Bianca” (um dos grandes clássicos do estúdio, considerado o maior sucesso da Disney após Mogli, nos anos 60, e o último antes de “A Pequena Sereia”, em 1989). Já a música “Candle on the Water”, do filme-familia da Disney “Meu Amigo Dragão”, é a típica faixa de musicais-para-toda-a-família que já estavam demodé nos anos 70. E “He Danced With Me/She Danced With Me”, do musical britânico “O Sapatinho e a Rosa: a história de Cinderela”, tem aquele ar datado de musical antigo e cafona. Nenhuma dessas canções alcança o mesmo apelo pop e crossover da vencedora.

Apenas uma canção se destaca nesse aspecto.


(quero viver numa abertura de um filme do 007)

the spy who loved me poster“Nobody Does It Better”, música-tema do filme “007 – O Espião que me Amava”, é a típica balada pop adulta que o Oscar adora premiar. Com letra de Carole Bayer Sager (que viria a ganhar um Oscar anos depois) e música dele mesmo, Marvin Hamlisch (que ficou a cargo da trilha sonora do filme), é uma faixa elegante, com uma letra simples e de sensualidade sutil, um piano acompanhando a música e com instrumentos de cordas – uma característica típica das trilhas de filmes do Bond – mas com um sabor mais atualizado (para a época).

A diferença entre essa música e “You Light Up My Life”? É que “Nobody Does It Better”, ao meu ver, é bem melhor. Enquanto a vencedora do Oscar mantém o mesmo tempo durante toda a faixa, como se fosse uma música sem clímax,  as viradinhas na bateria da faixa cantada pela Carly Simon sempre empolgam você para algo diferente. Pode ter uma pegada 70’s, pode até parecer datada, mas envelheceu bem melhor que “You Light Up…”, e mesmo sendo associada fortemente ao filme onde está inserida, ainda consegue transcender a produção e fazer parte da sua memória afetiva – mesmo que o verso “the spy who loved me” apareça de uma forma aleatoriamente cômica no meio da música.

(aliás, recomendo “O Espião que me Amava”. É um filme elegante, bem filmado, com uma história bem sólida, e um Bond menos viajado e mais focado no plot do que nas gadgets – que existem, evidentemente. Eu chamo de “Bond da détente”, já que aqui, o MI6 e a KGB trabalham juntos contra um inimigo em comum, e a forma como a rotina na KGB é mostrada sem estereótipos ou maniqueísmo – dentro do possível num filme do 007 com Roger Moore; assim como o desenvolvimento da relação entre James e Anna Amasova – a agente russa – ocorre com muita fluidez e naturalidade, sem forçação de barra.)

As dez semanas de “You Light Up My Life” podem ter influenciado na decisão da Academia em dar o prêmio para a música? Não sei. Talvez o sucesso estrondoso da faixa, misturado com o fato da música ser um pouco mais “tradicional” que a sua concorrente – e até mais parecida em tempo com vencedoras anteriores – pode ter sido importante para a escolha da Melhor Canção Original de 1977.

O que não tenho dúvidas é sobre a vitória de “Last Dance” na premiação relativa ao ano de 1978. A música, TGIF postercomposta por Paul Jabara para o filme “Até que Enfim É Sexta-Feira” (onde ele também era ator), foi cantada pela rainha da Disco Donna Summer, que viva uma aspirante a cantora no filme. O interessante é ver em como essa faixa e sua vitória fazem parte do auge artístico da Disco como gênero musical e movimento cultural, após indicações ou vitórias de músicas que basearam a Disco (“Theme From Shaft”, 1971) ou flertaram com ela (“Gonna Fly Now”, 1976). Mas, para chegar à vitória de uma faixa do gênero no Oscar, foi necessário que o cinema abraçasse a Disco, e a Academia também abrisse os olhos.

Isso ocorreu em 1977, com “Os Embalos de Sábado À Noite” e a indicação de John Travolta ao prêmio de Melhor Ator. O sucesso e credibilidade no cinema e na música (a trilha capitaneada pelos Bee Gees foi um sucesso estrondoso e histórico) deu a Hollywood a chance de também entrar na onda da Disco para ganhar dinheiro com os milhões de fãs e frequentadores das discotecas. “Até que Enfim É Sexta-Feira” é um desses filmes que entraram na onda.

Contando a história de várias pessoas ligadas a uma discoteca badalada, o filme foi um grande sucesso de público – e a trilha sonora extremamente bem sucedida, com o melhor da Disco na época. Já os críticos massacraram a produção, a ponto de um deles dizer que “Até que Enfim É Sexta-Feira” é o pior filme a ter ganho algum tipo de Oscar. VISH

(esqueça as dancinhas toscas, a sincronização fail e a moda cafona e se concentra na voz de ouro da Donna)

Os indicados são um grupo bem curioso e diverso. Tem a tradicional balada pop adulta, cantada por um astro (Barry Manilow), mas com um flavor menos óbvio que vencedoras anteriores (a música “Ready To Take a Chance Again”do filme “Golpe Sujo”); a faixa-de-filme-musical-para-toda-a-família (as pessoas ainda insistem nisso?) “When You’re Loved”, de “A Magia de Lassie” (estrelado por James Stewart cantando; o filme foi um flop absurdo e malhado horrores, considerado demodé já que foi lançado na mesma época de outro filme direcionado aos mais jovens, um tal de “Star Wars”); a outra balada pop adulta, desta vez um pouco mais comum, menos grudenta e com cheiro fortíssimo de naftalina (“The Last Time I Felt Like This”, do filme “Tudo Bem no Ano que Vem”) e aquela que, acredito eu, era a rival de “Last Dance” naquele ano – “Hopelessly Devoted To You”, o solo de Olivia Newton-John no musical pop daquele ano (até que enfim alguém acertou) “Grease”. A faixa chegou à terceira posição na Billboard (mesma da música da Donna Summer), e apesar de estar contida num filme com trilha mais pop e rock do final dos anos 50, há algo de throwback na faixa (e um toque meio country) que consegue ser mais pop e diferenciada que as outras concorrentes.

Mas o sucesso de “Grease” não foi páreo para um movimento inteiro.


O post de hoje começou discutindo sobre como a música pop – aquela que a gente ouve nas rádios, catchy, comercial e variada – passou a ser indicada dentro da categoria de Melhor Canção Original do Oscar após a decadência dos chamados “musicais para toda a família” (e todo um studio system por tabela), as mudanças sociais e culturais dos consumidores de filmes e a própria urgência de novos players, cantores e compositores não-relacionados com o mundo do cinema, que compõem e são indicados por canções que acabam transcendendo o filme onde estão indicadas.

Após a indicação e vitória de “Raindrops Keep Fallin’ On My Head”, músicas com apelo mais popular que os velhos standards são indicadas, e durante os anos 70, um modelo específico de canção leva a estatueta dourada – a balada pop adulta, hit fácil nas rádios AC e easy listening. Quando outras canções levam o prêmio, músicas que não seguem esse roteiro, ou elas fazem parte de um movimento social e cultural para além da própria música-contida-num filme (como o caso de “Theme From Shaft” e “Last Dance”), ou estão relacionados ao significado do filme – no caso de “I’m Easy”, de “Nashville”, uma faixa country num filme temático (e mesmo uma “Evergreen” ou “You Light Up My Life” sendo cantadas dentro do filme, fazendo parte da história, ainda assim elas seguem o modelo de balada pop vencedora que domina a década).

Ou são pioneiras e “anacrônicas” num filme de época, como é o caso de “Raindrops”, composta por uma dupla de escritores ligada à indústria musical.

O que interessa é que essa simbiose entre música pop comercial e cinema, especialmente quando começamos a falar dos blockbusters, chega ao seu estado de graça na década seguinte. Os filmes indicados (e os vencedores), em grande parte, são reflexo de uma era: influenciados pela linguagem dos videoclipes e por produtores cada vez mais ativos na estrutura dos filmes, os filmes se tornaram grandes clipes de uma hora e meia com história no meio. E os grandes hits foram lançados em produções muitas vezes esquecíveis, mas cujas músicas nunca saíram do inconsciente coletivo.

Não perca! Essa é uma longa, curiosa, e surpreendente jornada!

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